EntreContos

Detox Literário.

Uma última batalha (Ediard)

Afastou a lona e entrou na enorme tenda onde os soldados em breve se preparariam para a batalha. A luz do sol se arrastou para dentro do recinto vazio e refletiu nas lâminas das armas, incomodando seus olhos. O meio-dia estava longe, mas ele gostava de começar os preparativos cedo.

Este é o maior problema desta geração, pensou, não dão a atenção e o valor devidos para uma batalha.

Andou pelos bancos de madeira dispostos em alinhamento tosco. Algumas armaduras estavam jogadas em um canto, outras esperavam em fila sobre caixotes; o couro novo, recém-trabalhado. Imaginou as intempéries dos soldados novos dentro de suas armaduras igualmente virgens. O couro era difícil de ajustar e machucava a pele mesmo sobre as proteções de tecido que usavam, criando feridas com o atrito. Se a batalha perdurasse por muito tempo as feridas seriam ainda piores. 

Mas estaria vivo, ele pensou novamente, e é esse tipo de dor que nos faz homens

Passou pelos machados pendurados em ganchos. Tocou as lâminas e sentiu os fios na ponta do dedo. Muniu-se do machado que considerou mais equilibrado. Era de bom feitio, firme no cabo e parecia já ter visto lutas o suficiente para inspirar alguma segurança. O fio fez um traço de sangue em seu dedo. Faria um bom serviço, apesar de já ter visto melhores. Havia perdido na peleja anterior uma arma que carregara consigo há anos – a velha amiga faria falta. Segurou o novo machado na mão esquerda, então na mão direita – sua mão inábil – girando-o para sentir o peso. O que sentiu, ao invés disso foi o peso da própria idade. O ombro deslocou e ele deixou a arma cair ao chão, cuspindo impropérios por detrás da barba branca e farta.

Apoiou o braço no banco mais próximo e, usando apenas o peso do corpo, pôs o ombro de volta ao seu lugar, engolindo o grito de dor. Pegou o machado no chão, mas desta vez o manteve na mão esquerda. 

Encontrou adiante sua velha armadura de couro com proteções de aço. A coisa estava tão usada que mais parecia uma coleção de cortes que se moldava exatamente na forma de seu corpo, mas ele não a trocaria por nada.  Ao seu lado estavam as botas, as proteções da cintura, das pernas e dos antebraços. Escolheu também um escudo – este poderia ser qualquer um que tivesse o peso ideal, já que provavelmente o quebraria. 

Então, iniciou a preparação.

As dores da preparação eram maiores do que as dores do combate. O corpo em movimento e cheio de adrenalina quase nunca acusava dor alguma – o coração em disparada queria apenas sobreviver. Ali, sob a sombra da tenda e com o coração tranquilo, o corpo fazia questão de lembrar-lhe que, segundo todos os cálculos, já deveria estar morto. Doíam-lhe os joelhos ao sentar-se e doíam-lhe as costas ao agachar para pôr as botas. Tudo era lento demais, a ponto de se irritar com a morosidade dos próprios movimentos. No fim, porém, estaria esperando a marcha e pronto para o combate antes de qualquer outro soldado.

Algum tempo depois – entre vestir a armadura e amarrar as botas – um soldado entrou na tenda. Era ao menos quarenta anos mais novo do que ele e se chamava Ediard. Lutara ao seu lado nas últimas três semanas daquela campanha sem fim e sabia se virar na medida do possível. Era um bom rapaz.

— Cão – Ediard falou.

O velho manteve o foco no que fazia, apertando fivelas e cadarços. Ediard se fez repetir.

— Cão?

O que há de errado com essa gente que não entende que não é necessário falar para ouvir?

— Não estou surdo ainda, garoto. Fale.

— O mensageiro chegou com notícias da batalha ao Leste.

O mensageiro estava dois dias atrasado. Àquela altura esperavam que não viesse, o que significava que estava morto e a batalha, perdida. O fato de ter chegado era uma surpresa – e na sua idade eram poucas as surpresas que ainda restavam.

— Estou ouvindo.

— A quinta unidade saiu vitoriosa, mas com muitas baixas. Don Herrard está morto.

O garoto sabia que o que falava tinha peso, então esperou que ele absorvesse a informação. O Cão não parou o que fazia: apertou cada fivela da armadura até a última, pensativo, lembrando-se de como ele e Herrard eram os últimos que restavam de sua época; lembrando-se das conversas que tinham e dos momentos que partilharam juntos. Quando terminou, apoiou os braços sobre os joelhos, sentado no banco, ignorando as dores nas juntas.

— Ele morreu em batalha?

— Foi o que o mensageiro falou. Depois da Última Corrida. Levou três com ele.

— Bom. Muito bom.

E o assunto estava encerrado. Ediard ainda esperou, mas logo se retirou ao notar que nada mais sairia de sua boca.

O Cão olhou para seu machado e escudo. Apesar de afiada a arma precisava de um pouco de cuidado e as fivelas do escudo estavam folgadas demais. Havia trabalho a ser feito. 

O Cão Velho da Primeira Unidade se preparava para sua última batalha novamente.

 

— — —

 

O Sol os iluminava de cima. O astro gostava de assistir as batalhas dali. Do outro lado do campo os bárbaros xingavam e bebiam hidromel, abaixavam as calças e mostravam os traseiros ou urinavam adiante como se o fizessem sobre seus inimigos, os dentes podres sempre sorrindo naquele frenesi que precedia a batalha. Mesmo após toda uma vida de combates, o Cão continuava achando tudo aquilo engraçado. Parecia que não sabiam que seriam eles mesmos a pisarem sobre as próprias urinas ao marchar, e que estavam sabotando a si mesmos ao beberem tanto antes de lutar.

Pudera, alguns precisam da ajuda extra, ele ponderou.

Então começaram os insultos. Os bárbaros xingavam as mães, irmãs e filhas de todos do outro lado. Apesar de ser raro o sorriso em seu rosto, o Cão sorria por dentro – uma alegria passageira que logo era tomada pelas lembranças. Não tinha mãe nem irmãs vivas para levarem os insultos, e até suas filhas e filhos haviam ido para a cova antes dele. Estava vivo há muito tempo – tempo demais.

O Comandante vociferava algumas palavras a fim de manter a ordem na Unidade. Era um homem de quarenta e tantos anos, a quem o Cão respeitava pela destreza em combate e pelo temor que inspirava em sua postura. Era um homem prático: gritava instruções ao invés de palavras nobres e de apoio; preferia garantir que o máximo de almas sobrevivesse ao invés de garantir um ego inflado.

— Por fim temos conosco nosso Cão – era a voz do comandante, que se aproximava dele – em mais uma Última Corrida.

Sentiu a manopla de aço do homem tocar-lhe o ombro e soube que era a hora de dar um passo à frente. Súbito, o silêncio. Respeito. O Cão gostava daquilo. Mesmo os bárbaros do outro lado pararam de gritar, pois o viram dando um passo adiante e entenderam que ele era o Cão daquela unidade – um soldado velho demais para lutar; um homem que apenas buscava morrer em combate, com a honra que todo guerreiro deveria ter.

— Nosso Cão tem… quantos anos mesmo? –  O Comandante envolvera o braço sobre os seus ombros e o levava um pouco mais para frente – Quantas guerras você já lutou por nós? Quantas vezes já fez a Última Corrida?

— Toda batalha é isso agora? – O Cão ladrou, livrando-se do braço do comandante com um sacolejar – vamos logo acabar com isso – e, como ponto final, cuspiu sobre a grama.

Os soldados riram, e o comandante também.

— Quando você quiser, Cão.

E o homem se afastou, deixando-o na linha de frente formada por apenas ele mesmo. Sentiu o coração bater mais rápido e o suor descer pelas têmporas. Os tambores adversários começaram a tocar, mas seu coração batia mais forte no peito do que os instrumentos de batalha. Atrás dele, setecentos homens esperavam o seu primeiro passo. Adiante, mil e quinhentos aguardavam sua investida. Já não sentia as dores nas juntas e a visão afunilou, focada em um só objetivo. 

Projetou o corpo para frente e começou a correr. A Última Corrida. A corrida de sua morte.

Momentos depois sentiu a terra trovejar com os passos dos outros soldados atrás de si. Apesar de velho as pernas obedeceram bem e ele manteve a liderança. A distância entre ele e os inimigos nunca era grande demais, mas o tempo para chegar era sempre longo o suficiente para que toda uma vida cruzasse seus olhos.

Lembrou-se de quando era criança e de como sonhava em ser um herói. Lembrou-se de seu pai e de como teve que aprender a ser responsável quando ele faleceu, trazendo o alimento para a mesa. Lembrou-se de sua primeira paixão, e da segunda, então lembrou-se de sua esposa que, apesar de jamais ter sido uma paixão, inspirava respeito. Lembrou-se de sua mãe com carinho, e dos filhos com saudades. Vieram à mente os amigos, as vitórias e as derrotas, os aprendizados, o alistamento no exército e de como sua vida mudou ao longo das décadas. Pensou em todas as vidas que viveu, e em como não era nem de longe o homem que fora há dez, ou vinte, ou trinta anos atrás. Chegou à mesma conclusão de todas as outra vezes: estava na hora de morrer e, quando a morte viesse, sorriria. Então jogou todas as lembranças fora e focou nos inimigos adiante.

Viu uma muralha de escudos.

Muralhas de escudos eram difíceis de lidar e, como estavam em desvantagem numérica, seria um desafio duplamente mais perigoso. Porém, aquele tipo de defesa exigia disciplina e todos aqueles bárbaros estavam bêbados demais para manterem o braço firme, e seus olhos carregavam décadas de experiência em batalha para identificar todas as brechas sem pensar duas vezes. 

Viu um braço arriado e foi ali que chutou. O chute desequilibrou o adversário, e seis ou sete braços segurando espadas e machados desceram na sua direção, mas ele levantou o escudo a tempo de deter todos. A madeira se partiu e ele sentiu o braço absorver o impacto e perder parte do movimento, novamente deslocado. Gritou – não de dor, mas por adrenalina. Investiu adiante com um salto, caindo no meio dos inimigos e quebrando a formação adversária naquele ponto.

Foi ali que o resto da unidade chegou. 

O encontro dos dois exércitos soou como o encontro de dois enormes touros em investida e fez tremer o chão. O Cão golpeou à esquerda e encontrou um crânio, à direta e encontrou uma costela, então sentiu a perna falhar e se ajoelhou. O maldito joelho teimava em desobedecê-lo. Sentiu uma lâmina morder-lhe o ombro do escudo e levantou o braço – mesmo deslocado – a ponto de segurar o segundo golpe com o que restava da madeira ali pendurada. Uma lâmina aliada atravessou a garganta do bárbaro que o atacava e ele teve tempo para respirar. Tentou se levantar, mas aquele tipo de movimento na sua idade era um trabalho hercúleo por si só. Cambaleou como pôde, sentindo novamente as costas e as juntas gritarem. Defletiu um golpe por puro instinto, então matou mais um inimigo. Avançou. Uma espada atravessou-lhe a coxa e ele gritou e se ajoelhou, mas novamente alguém matou seu atacante. Levantou-se. Mancou adiante. Atacou pelas costas um bárbaro e percebeu que com aquilo salvara a vida de um rapaz. Avançou.

Quando notou, estava do outro lado. Havia passado da linha inimiga e, ao olhar para trás, viu homens gritando, o sangue jorrando e a batalha sendo ganha pelos aliados. Ao seu lado estava Ediard e ele entendeu que este fora o garoto que salvara. Ele o encarava com olhos arregalados, sem saber se o agradecia ou se voltava a lutar.

— O que foi? – o Cão voltou a ladrar.

Sem pensar outra vez, o garoto voltou à peleja. O Cão também. Ainda não era sua hora de morrer.

E Então? O que achou?

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Informação

Publicado em 22 de março de 2020 por em Envelhecer, Envelhecer - Grupo 2.