I
Samuel escorria na direção do sono. O dia de trabalho na loja de antiguidades havia sido longo. A chuva se lançava fina contra a janela, ritmada como uma canção de ninar.
Quando molhava os pés no primeiro sonho da noite, algo o puxou de volta. Sua mãe separava panelas na cozinha. Logo, lançava legumes na frigideira. Súbito, Samuel abriu os olhos. O coração acelerou. Ouvia o cantarolar distraído da mãe, abafado pelas paredes da casa. Sua mãe, que estava morta há anos.
Levantou-se da cama devagar. Um trovão cruzou o céu e iluminou o quarto por um instante. A escuridão que seguiu pareceu ainda mais densa. Abriu a porta. O canto da mãe tornou-se mais nítido, acompanhado pelo som da faca que descia ritmada contra a tábua de corte.
Samuel ignorou o interruptor no corredor e seguiu andando na escuridão. Os pés descalços o levaram até a escada. Esforçou-se para manter o silêncio. Queria ser invisível. Sentia que aquele momento estava por um fio; um movimento em falso e ele a perderia mais uma vez.
Outro trovão retumbou, e o raio iluminou a sua loja de antiguidades no andar de baixo. As bonecas de porcelana nas prateleiras estavam viradas na direção da cozinha como se admirassem a melodia que vinha de lá.
Desceu o último degrau. Sua mãe agora parecia descascar cenouras. Era estranho que estivesse fazendo tudo aquilo no escuro. Espiou pela esquina com todo o cuidado. Ela não estava lá. Ao invés de legumes na frigideira, o som era o da chuva que o vento soprava para dentro através da janela aberta. O lugar estava vazio, tão solitário como ele nos últimos anos.
Andou até a janela para fechá-la. Surpreendeu-se com o envelope sobre a pia. Era branco, com detalhes finos pintados à mão, e selado à moda antiga, com cera vermelha.
Samuel nunca tinha visto nada parecido com aquilo.
II
A noite estava avançada, e na escuridão do escritório o único nicho de luz era o do monitor do computador que iluminava o rosto de Thomas. A música clássica vazava abafada do headset.
Thomas pesquisava informações sobre mais um caso de desaparecimento em Londres. Os fóruns públicos da internet estavam cheios de teorias conspiratórias sem sentido, e alguns Youtubers um pouco mais sérios só discutiam o óbvio. Ele, por outro lado, fazia parte de um grupo mais seleto, e trocava informações em um fórum privado. Sentia falta de Isaac Danpora. No pouco tempo que o amigo estivera ativo no fórum, sempre trazia excelentes pontos às investigações que faziam. O garoto parecia sempre ter alguma informação que ninguém mais tinha acesso. Porém, há meses ele não aparecia online.
Sentiu a movimentação no andar de baixo da casa sem ter que ouvi-la. Vivia lá há tantos anos que sabia quando havia algo de errado, a casa falava, e ele sabia escutá-la. Retirou o headset. A tempestade do outro lado da janela era tudo o que conseguia ouvir.
“Veronica?”
Nenhuma resposta. Mesmo que já estivesse aposentado, o instinto falou mais alto, incrustrado fundo em seu âmago, treinado por uma vida inteira de trabalho como investigador da Scotland Yard. Abriu a porta do escritório e espiou pelo parapeito da escada. Algo tinha caído no andar de baixo, e ainda fazia um som fugaz, como uma moeda que demora a assentar após cair ao chão. Abriu a porta do quarto devagar. Pela fresta, viu que a esposa dormia tranquila.
Tentou descer as escadas em silêncio, mas se os costumes de investigador ainda estavam vivos na sua memória, o corpo já não era o mesmo. Assim como ele, sua casa em Londres já mostrava os sinais da idade, e os degraus rangiam alto.
A luz da sala estava apagada, mas a luz da lua preenchia o ambiente com uma penumbra sinistra. Tudo era sombras e sugestões. A ventania drapejava as cortinas de uma janela aberta. Um dos descansos de copo que deveria estar sobre a mesa havia caído ao chão – ou teria sido derrubado?
Na penumbra, aquele envelope branco sobre o sofá era destaque, com os detalhes dourados pintados à mão, e o selo de cera vermelha.
Para Thomas, o caso era óbvio: estava diante de uma cena de invasão domiciliar. Restava saber o que havia dentro daquele estranho envelope.
III
Em seu sonho, Edward havia conseguido tirar a maldita foto. Estava há três semanas vigiando aquele idiota, sabia que ele traía a esposa, tinha todas as evidências, mas aquele papel fotográfico nas suas mãos era à prova conclusiva, a última peça do quebra-cabeça. A imagem ia ganhando cor aos poucos. Balançou a fotografia para acelerar a secagem. Edward sorria sem perceber. Finalmente deixaria de receber as ligações diárias da senhora Hammington exigindo urgência.
Quando a foto ganhou um pouco mais de nitidez, Edward notou que estava escura – mais escura do que deveria, mas decidiu esperar mais um pouco antes de se sentir um idiota por ter errado a exposição da lente. O que viu não foi o marido promíscuo da senhora Hammington, mas sim o seu próprio escritório, em uma foto tirada da sua própria mesa de trabalho. A luz vermelha do laboratório dificultava a visão. Na fotografia as luzes do seu escritório estavam apagadas, exceto a luz da luminária sobre a mesa. Havia algo na escuridão. Um vulto, muito parecido com os que tinha visto naquele dia fatídico, anos atrás. Os olhos brancos se abriram. No breu do escritório, na folha de papel fotográfico, o vulto olhava na sua direção.
Edward acordou com a cabeça latejando. Tinha caído no sono novamente sobre a mesa de trabalho. Ergueu o rosto e sentiu um filete de saliva acompanhar o movimento. Esperava que não tivesse estragado os relatórios que usou como travesseiro.
A única fonte de luz no escritório era a sua luminária acesa. O cenário era idêntico ao do sonho do qual acabava de acordar. Edward apertou os olhos e fixou-se na escuridão do cômodo. De fato, como no sonho, havia algo no escritório com ele. Estava bem ali no limiar da penumbra, onde a luz da luminária acabava e a escuridão começava. Uma sombra no escuro, perfeitamente imóvel, como uma fotografia mal revelada. Se forçasse a imaginação, podia determinar pequeninos braços e pernas, e dedos.
Coçou os olhos. O movimento lembrou-o da ressaca lancinante. Abriu uma gaveta na escrivaninha e encontrou o cantil de aço, sentindo o resto de whisky dançar no fundo. Então, sem pensar duas vezes, jogou a coisa na lixeira. Olhou adiante novamente. O vulto ainda estava ali, imóvel, pequeno, como uma criança surpreendida durante uma travessura. Não, ainda menor. Como um gnomo de jardim escondido bem no limiar de onde a vista alcançava.
A princípio descartou a coisa como um jogo de imagens criado pela pouca iluminação – com toques da ressaca como a cereja do bolo. Porém, quanto mais olhava para a coisa, mais achava que havia algo de errado. Estava fixado na imagem. Sem tirar os olhos dela, alcançou a fiel Canon AE-1 com uma das mãos. Era uma máquina antiga, mas tão costumeira que não precisava desviar o olhar para ajustá-la. Clicou. O obturador rangeu. A foto estava tirada.
Saltou até o interruptor e acendeu a luz. Apenas seu velho escritório, com o estalar constante das tubulações de aquecimento que remontavam à era vitoriana, os quadros baratos pendurados nas paredes, e o cabideiro ao lado da porta, sempre segurando ao menos um dos seus dois sobretudos.
Edward não sabia se estava aliviado ou frustrado. Há anos buscava por alguma experiência paranormal, mas nunca havia encontrado nada que o satisfizesse. Nada que respondesse suas perguntas. Tudo o que via eram sombras projetadas pelo whisky.
Voltou a se sentar, e dessa vez sentiu uma vontade imediata de terminar de beber o whisky no cantil. Olhou para a lixeira. Sentiu-se observado, com a certeza de que alguém seguia seus movimentos. Olhou para frente novamente. A única outra cadeira no lugar, reservada para os seus clientes, julgava-o, vazia.
“O que foi?”
A cadeira escolheu manter o silêncio debochado.
Foi só então que Edward notou o envelope no chão. Era branco, e estava selado com cera vermelha. Suas cores o destacavam das tábuas escuras, tanto que não entendeu como não o havia notado antes. Andou até ele. O chão rangeu com os seus passos – os sons de um escritório centenário. Pegou o envelope. Os detalhes dourados no papel pareciam feitos à mão. Seu nome estava escrito no verso.
“A Edward Basser,
um convite inoportuno”
Procurou nas gavetas um abridor de cartas – sabia que tinha uma tranqueira daquelas em algum lugar – mas não encontrou.
Decidiu abrir o envelope com as próprias mãos.
IV
Cory acelerou e ultrapassou o último sinal vermelho. A chuva lavava o sangue no seu corpo. A água escorria vermelha e encontrava o cano de escape da moto, quente como as chamas do inferno, então virava vapor e era levada pelo vento. Enquanto mantinha um punho girado no acelerador, Cory tentou ligar mais uma vez para Isaac Danpora. O telefone tocou e tocou e tocou, mas ninguém atendeu. Precisava de ajuda. Queria que aquele vento que batia em seu rosto levasse embora também a sua angústia. Mas não importava o quanto acelerasse, os pensamentos continuavam lá, misturados aos poucos fragmentos de memória que permaneciam, como se um demônio o atormentasse e o permitisse lembrar apenas o suficiente para que o terror tomasse conta da sua alma.
Skye, seu sorriso, o vestido branco dançando com o vento.
Todas aquelas pessoas mortas. As máscaras cobrindo os rostos defuntos.
A pele da gravidez de Skye no seu rosto, o bebê chutando o veludo.
O sangue que impregnava tudo. O chão, as paredes, suas mãos. Tudo.
A plateia morta gritando o seu nome. Cory, The beast. The beast.
The Beast.
Gritou, mas a ventania e a chuva engoliram a sua voz. Pouco tempo depois, chegou à garagem que chamava de lar.
Demorou para encontrar as chaves: as mãos tremiam. Abriu a porta de correr, empurrou a moto para dentro, e fechou o lugar com um estrondo metálico. Apertou o interruptor, mas a luz não respondeu. Lembrou-se que haviam cortado a energia por falta de pagamento. Arrastou o corpo encharcado até um canto onde a luz da lua se fazia notar desbotada. A anatomia musculosa e rígida não condizia com o caminhar zumbificado. Escorreu o corpo pela parede e sentou-se no chão. Pegou o celular, querendo encontrar o contato de Skye, mas a água havia danificado a tela touchscreen e agora os gestos não funcionavam.
Chorou. Os soluços o ninaram devagar, até cair em um sono profundo.
Acordou com o toque do telefone. No aparelho, Skye sorria para ele, exatamente como a eternizou naquela foto tirada há três anos. Atendeu.
“Por que você continua me ligando?”, falou a voz de Skye. Cory não soube responder. Estava feliz apenas de ouvi-la.
“Cory?”
“Eu…”
“Você não fez merda de novo, fez?”
“Não sei. Acho que não…”
Tudo estava acontecendo rápido demais. Skye havia desaparecido há meses. Ele foi o principal suspeito por muito tempo, a polícia havia cansado de interrogá-lo, e ele, cansado de estar preso no próprio corpo e na própria culpa. Procurou-a em cada canto de Londres, cada clube e hotel. Buscou seu corpo nos necrotérios. Nada. E agora ela sorria para ele na palma de sua mão, mas a voz era como uma faca a perfurá-lo.
“Cory, quer saber? Já chega. Eu vou aí agora buscar o Simon.”
“Simon?”
“Seu filho, Cory. Meu filho. Toma jeito, se recompõe. Toma um banho gelado. E arruma o Simon. Chego aí em dez minutos.”
“Meu… filho?”
Então os rumores eram verdade. Skye estava grávida antes de desaparecer. Mas por que ele não se lembrava de nada?
“Cory… o Simon está aí com você, não está? Cory?”
A voz de Skye tornou-se um eco distante. Ele ainda digeria a recém-descoberta paternidade. Nas janelas altas da garagem a noite persistia, mas a chuva havia cessado. Havia dormido poucas horas, ou muitos dias?
Notou o lodo no chão logo à frente. Apesar da pouca luz, a lua revelou que eram pegadas. Suas pegadas. Ele não lembrava delas. Não lembrava de muita coisa ultimamente.
“Cory? Onde está meu filho, Cory? Abre a boca, sua besta. Seu animal. Cadê meu filho?”
Ele deixou Skye no chão. Sua voz era agora como uma lembrança da qual não queria recordar. Levantou-se. O corpo todo doía, especialmente as pernas e o peito, que gritavam. Seguiu as pegadas. O rastro de lama o levou até a saída dos fundos da garagem, uma porta simples de metal que abria para o campo de futebol comunitário. Uma pá enlameada descansava na parede ao lado. Cory girou a maçaneta. A porta rangeu.
Poucos passos adiante, no gramado, viu um pequeno monte de terra, como se alguém houvesse enterrado ali um animal de estimação. Ou uma criança.
Jogou-se sobre o monte de terra, cavando com as mãos o solo molhado. Ainda conseguia ouvir a voz de Skye perguntando pelo filho, ecoando em sua mente naquele tom digital filtrado pelo alto-falante. Sentiu pedras e raízes machucarem as mãos, mas a dor apenas o fez cavar com mais afinco. Até que encontrou.
Um envelope imaculado pela terra, perfeitamente branco, com detalhes dourados, selado com cera vermelha. Dentro, um convite.
Meu querido amigo. Se você está lendo esta carta, eu não estou mais no reino dos vivos.
Meu enterro será em Bishopstone, Sussex, no dia 19 de Setembro, na Igreja de Santo André às 10:00.
É muito importante para mim que você compareça, para que possamos nos ver uma última vez.
Seu eterno amigo,
Isaac Danpora
O convite tremia em suas mãos. Sabia que as alucinações haviam ido longe demais daquela vez, e que tinha que fazer algo a respeito, mas seus dois únicos confidentes naquele mundo não estavam mais ali. Seu coração estava quebrado, partido em dois lutos.
Simon. O nome do seu filho veio como um soco através das memórias quebradiças. Para tentar encontrar um fio da realidade e entender onde estava, voltou para a garagem e achou o celular no chão. Seu histórico de ligações não acusava nenhum contato recente de Skye. A data na tela, porém, chamou a atenção: dezoito de setembro. A festa havia acontecido há seis dias. Não era a primeira vez que vivenciava perda de tempo, mas nunca havia perdido seis dias seguidos.
Como se a realização moldasse a realidade, sentiu fome, e a garganta queimou. Bebeu dois copos de água da torneira. Na geladeira, desligada pela falta de luz, a maior parte da comida havia estragado. Encontrou um pacote de salgados ainda fechado no armário e o devorou, empurrando tudo para baixo com mais água.
Seis dias. Certamente deveria estar morto agora. Não conseguia pensar em uma explicação, mas já há algum tempo não conseguia explicar muito do que acontecia em sua vida.
Cory vestiu a jaqueta e pegou o capacete. As feridas nos punhos já cicatrizavam. Olhou-se no espelho: hematomas e cortes, e uma expressão sombria. Montou na moto e buscou por Bishopstone no celular. Parecia a única coisa a ser feita agora, como se estivesse sentado na arquibancada e assistisse a sua vida ser ditada por um convite e um traço de esperança. Sentiu o peito apertar, mas as lágrimas não vieram.
Com um pisão a moto roncou, e ele acelerou.
V
Samuel não conseguiu voltar a dormir. Cada tentativa de fechar os olhos era frustrada por um som diferente. Algo na cozinha. Passos na loja no andar de baixo. Vozes que poderiam ser o vento, sombras projetadas na parede.
O sol mal nascia quando ele se levantou e encheu uma mochila com algumas mudas de roupa e outros itens essenciais. Desceu e, sem pensar muito no que fazia, foi direto para a estação de trem mais próxima. Não encontrou passagens para Bishopstone: o lugar não tinha estação ferroviária local. Ao invés disso, comprou uma passagem para Brighton, que era a cidade mais próxima. Foi até um Starbucks e comprou um café, e segurou o copo com as duas mãos para esquentar o corpo.
Na rua onde morava, a cidade ainda acordava. Uma placa rústica balançava contra o vento, as juntas de ferro rangendo sobre a porta da sua loja de antiguidades. Na madeira, o nome talhado balançava: Orbuculum. Enquanto esperava a condução chegar, Samuel lembrou-se do seu primeiro encontro com Isaac há dois anos, quando o jovem entrou na loja e fez soar o sino. O garoto imediatamente se enamorou da bola de cristal que descansava sobre uma almofada em um canto da loja há gerações. Era o item mais caro e mais chamativo do lugar, e ele a comprou no primeiro dia em que pôs os pés ali. Disse que sentia uma energia benigna que emanava da esfera. Seguiu-se uma longa conversa. Isaac Danpora sabia de tantas coisas sobre misticismo que até mesmo Samuel, considerando-se um especialista no ramo, ficou assombrado. A amizade entre os dois floresceu fácil. E agora, ele ia para o seu enterro. Sentiu o coração apertar. Bebeu um pouco mais de café.
Na vitrine da loja, longe dali, as bonecas de porcelana assistiam os transeuntes na rua. Na maçaneta da porta, uma placa: “fechado”.
VI
O relógio na parede da sala marcou a meia-noite e Thomas ainda estava sentado no sofá, com as luzes apagadas e o convite nas mãos. A iluminação pública invadia o ambiente apenas o suficiente para que ele pudesse ler e reler o texto no papel.
Por instinto, não havia fechado a janela, como se ela agora fizesse parte de uma cena criminosa. Minutos atrás ele havia recuperado a filmagem da câmera externa da sua casa, e o vídeo só o deixou mais confuso. Fosse quem fosse a pessoa que realizou aquela pegadinha, sabia o que estava fazendo. Havia um espaço em branco na filmagem; o equipamento parou de funcionar justamente quando o arrombamento aconteceu. Em um momento a câmera capturava o exterior da sua casa, a noite chuvosa e monótona típica de Londres. Então, estática. Quando o aparelho voltou a funcionar a janela da sala já estava aberta e o ato consumado.
O que o intrigou não foi a falha no aparelho – era de se esperar que um criminoso experiente soubesse neutralizar uma câmera simples. O que realmente o deixava com a pulga atrás da orelha era que, pouco antes da falha, a câmera havia capturado alguma coisa. Um vulto; uma sombra de algo se aproximando, mas a aproximação vinha de cima, do telhado, e ele não conseguia imaginar alguém rápido o suficiente para descer daquela altura, abrir a janela trancada, deixar o bilhete sobre o sofá e sair em tão poucos segundos. A não ser que tivessem agido em grupo. Mas, se fosse o caso, para que tanto esforço apenas para entregar o convite para um funeral?
O caso era estranho demais para não ser dividido com Edward, seu amigo do fórum online de atividades paranormais. De qualquer forma, Edward era tão amigo de Isaac quanto ele, e se o convite fosse verdade, ele merecia saber da notícia. Como a noite já estava avançada demais, decidiu enviar apenas uma mensagem de texto. Quando pegou o telefone, porém, notou uma chamada não atendida do próprio Edward. Thomas estivera mergulhado demais nas próprias reflexões para ter notado as vibrações do celular.
Em seu escritório, o mundo de Edward foi pintado de vermelho por alguns minutos. A cena e o processo eram lugar-comum para ele. Revelar fotos era um misto de terapia e hobby. A luz vermelha mal iluminava, como a noite banhada por uma lua de sangue.
Sequer havia tentado dormir naquela noite. Sabia que não conseguiria, não após ter lido o convite. Como Thomas não havia atendido a sua ligação – provavelmente porque já estaria dormindo – dedicou-se a revelar a foto que havia tirado antes.
O telefone tocou no escritório. No papel fotográfico, a imagem ainda ganhava nitidez. Deixou o processo seguir naturalmente e foi atender a ligação. Era Thomas, retornando à sua chamada de quase uma hora atrás. Em poucos minutos os amigos atualizaram um ao outro sobre os acontecimentos daquela noite. A dupla de investigadores digeriu os fatos em silêncio. Pela janela do escritório, Edward observava o gotejar constante da água da chuva que já não caía mais, escorrendo pelo topo das coisas.
“Acha que essa carta é verdade?”
“Eu não entendo por que todo esse esforço para entregar um convite de funeral.”
“Uma brincadeira dele, então? Isaac nunca foi de pregar peças assim. Ele some por seis meses e volta com uma pegadinha?”
“Não sei. Pode ser uma armadilha, também. Alguma espécie de esquema elaborado para nos levar para algum lugar isolado. O modus operandi é comum: a carta é urgente, faz que tomemos decisões precipitadas.”
“Armadilha? Acha que estão tentando nos sequestrar?”
“Não sei. Pelo que conversamos no fórum, já passei um tempo suspeitando que tentariam alguma coisa contra nós. Mas hoje em dia não temos investigado nada do tipo. Tudo está muito estranho.”
Thomas afundou no sofá da sala. Sentia o corpo tão pesado quanto a mente. No andar de cima, Veronica abriu a porta do quarto e desceu as escadas. A esposa olhou-o com a expressão confusa de quem ainda tenta absorver o mundo ao acordar.
“Thomas? Está tudo bem?”
Ele colocou a ligação no “mudo”.
“Está sim, amor. Estou no telefone com o Ed.”
“Aconteceu alguma coisa?”
“Não, não. Está tudo bem”
Veronica foi até a cozinha beber um pouco de água, então retornou ao quarto. Thomas retomou a conversa.
“Mas e se for verdade?”, falou Edward. “É do Isaac que estamos falando aqui.”
“Você está certo. Não sei se o convite é verdade, mas o que você descreveu, e o que eu presenciei, não são casos comuns. Estivemos procurando coisas assim as nossas vidas inteiras. Agora que nos confrontamos com o demônio, não podemos vacilar.”
“Então você vai?”
“Vou.”
“Eu diria que é perigoso irmos juntos, mas eu não vou deixar você ir sozinho. E, se for tudo verdade, preciso estar lá para dar minhas condolências à família.”
“Te busco amanhã de manhã, então?”
“Fechado.”
Thomas desligou o telefone com mais perguntas do que respostas. Levantou-se em um movimento afoito demais, e as costas reclamaram. Andou a passos lentos até a garagem, deixando a dor passar. Encontrou um dos seus muitos kits que ainda guardava mesmo após a aposentadoria. Pegou o pó prateado e foi até a sala coletar digitais. Queria passar na Scotland Yard antes da viagem no dia seguinte, cobrar alguns favores que ainda podiam ser cobrados.
Por mais que tentasse, porém, não encontrou digital alguma. A janela, o sofá, o envelope: todos estavam incólumes. Estava lidando com um profissional – ou algo sobrenatural. Para adicionar à crescente lista de mistérios, o pó prateado, apesar de não ter ajudado com as digitais, reagiu com outras partículas, destacando o que parecia ser uma camada de pó finíssimo, semitranslúcido, como um rastro de poeira peculiar que o meliante havia deixado para trás, traçando um claro caminho da janela ao sofá, e então voltando à janela. Ele não fazia ideia do que era aquilo, mas coletou o material mesmo assim. Alguém nos laboratórios da Scotland Yard saberia informá-lo.
Ao desligar o telefone, Edward voltou ao laboratório mergulhado em vermelho. A foto estava pronta. Nela, uma mão magra e de pele cinzenta, com os dedos alongados e afiados, nascia da escuridão e ajeitava, com cuidado, seu convite no chão.
VII
Vista de cima, Londres era uma planície de metal, o Tâmisa entre prédios e pontes captando a luz do sol em manchas que cintilavam como um milhão de diamantes. Finnegan olhava pela janela do topo do The Shard, e a vista ajudava a acalmar a aflição. Sentia-se um deus olhando curioso das nuvens o mar de gente e seus cotidianos absurdos, cada um o próprio Sísifo, dali apenas imaginação. Não eram sequer pontos na paisagem, eram apenas sugestão. Mas sabia que estavam lá e queria ter igual certeza quando pensava sobre o paradeiro dos pais. Queria saber que estavam em algum lugar de Londres, talvez presos, talvez em sofrimento, mas vivos. Queria certeza, mas só conseguia esperança.
Estava em outro beco sem saída. Os arquivos confidenciais espalhados na mesa do café eram o resultado de meses de pesquisa, mas não levavam a lugar algum. Isaac Danpora, na foto do perfil oficial da National Crime Agency, olhava-o em preto-e-branco, pedindo que continuasse, que buscasse respostas.
Espreguiçou-se. Olhou para longe novamente, como se o horizonte pudesse ajudá-lo. Um garçom serviu a segunda xícara de café daquela manhã. Finnegan gostava do lugar porque era silencioso e pouco invasivo. Ninguém tentava puxar assunto, nenhum curioso esticava os olhos para espiar o seu trabalho. As mesas ao redor estavam vazias. Eram apenas ele e os arquivos, e todas as perguntas não respondidas.
Tamborilou a caneta na mesa. Passeou o olhar pelos documentos. Alguém na cozinha lançou carne em óleo quente, e o som efervescente lembrou-o da sua mãe. Uma das chefs mais renomadas de Londres, desaparecida há dois anos. Se fosse alguém diferente, choraria. Mas a sua natureza transformava luto em fervor.
O celular tocou. Era George.
“Temos uma nova pista”, falou o amigo da NCA.
“Desembucha.”
“Tanya voltou. Quer nos encontrar no Chaopraya. Hoje.”
“Tanya? Sério?”
“Yup. Às vezes os deuses estão do nosso lado, Finn. Ou o que quer que esteja nos acompanhando nesse caso. Me encontra no escritório às um-meia-zero-zero para o briefing.“
Finnegan juntou o material espalhado em uma pasta. Pagou a conta e desceu de elevador para a garagem. Dentro do Audi Q8, jogou a pasta de arquivos no porta-luvas, ao lado da sua Desert Eagle. Acelerou.
No escritório da NCA, o briefing foi simples: Tanya havia ligado para o número protegido e pedido uma conversa olho-no-olho, e o restaurante tailandês foi o lugar escolhido. A informante parecia nervosa. Dois agentes foram enviados para o restaurante à paisana alguns minutos antes, com a missão de encontrar algum ângulo na situação que havia passado desapercebido pelo time. Apesar de todos os fatos sugerirem que aquele seria um contato simples, nada era trivial quando recebiam uma ligação do mundo dos mortos.
Finnegan e George subiam o elevador do prédio comercial em silêncio. Apesar da robustez, o terno vestia Finnegan como se fosse extensão da própria pele. George parecia desconfortável com qualquer indumentária que não fosse equipamento de guerra. As caixas de som tocavam música clássica. George testou a escuta escondida no terno; tudo funcionava bem.
“Você fala?”, perguntou Finnegan.
“Mete bala você. Ela vai mais com a sua cara.”
“É difícil nascer bonito.”
“Cala a boca.”
A porta do elevador se abriu, e a música clássica deu lugar ao jazz que escapava do salão principal do restaurante. Duas recepcionistas os aliviaram de seus sobretudos.
O Chaopraya era um lugar típico daquele lado de Londres, onde os números no cardápio falavam mais sobre o ambiente do que sobre a comida. A música à meia-luz tecia uma atmosfera intimista. Tanya os esperava um pouco mais isolada do resto dos assentos, e apenas a chama da vela singular no centro da mesa iluminava trêmula a sua fronte.
Finnegan sabia que tudo o que via em Tanya era falso. Os lábios, os seios, a cor do cabelo, a cor dos olhos. Era o tipo de mulher que sugeria simplicidade, mas quanto mais de perto olhasse, mais complexa se tornava. Naquela noite ela se apresentava jovem e inocente, com ares de inexperiência, brincando com um copo de bebida que havia esvaziado antes que chegassem. O cabelo caía sobre parte do rosto como um véu.
“Sentiram a minha falta, cavalheiros?”
Sentaram-se diante dela. George manteve o silêncio. Vez ou outra olhava ao redor, procurando qualquer coisa fora do lugar. Notou os dois agentes à paisana em mesas opostas.
“Você sumiu. Achamos que o pior tinha acontecido”, disse Finnegan.
“Ficaram preocupados?”
“Tanya. A esta altura já tínhamos agentes procurando o seu corpo no Tâmisa. Ficamos em alerta por horas, um setor inteiro esperando o seu contato. Fizemos uma força-tarefa para te encontrar nas ruas.”
A modelo não o olhava nos olhos. Tamborilava as unhas na mesa. O garçom se aproximou, e George pediu bebidas para todos, incluindo uma nova dose do que quer que ela estivesse tomando. Tanya esperou que o garçom se afastasse.
“Eu não tive coragem de ir na festa.”
“Então você nunca saiu de Londres?”
“Não. Mas Melina queria a grana então eu deixei ela ir no meu lugar.”
“Perdoa o meu francês”, falou George. “Mas o que caralhos você achou que podia acontecer? A gente tinha um time inteiro te dando cobertura.”
Tanya girava o copo vazio na mão, mas os olhos perscrutavam o salão. Finnegan captou seu rosto em um ângulo diferente. Havia algo de errado com o olho que ela cobria com o cabelo. Ele esticou o braço e tocou a mecha. Ela enrijeceu, mas permitiu que continuasse. Havia um corte no supercílio e uma roxidão recente.
“Não é nada. Eu tinha que voltar a trabalhar. Tenho que pagar as contas.”
“Cliente?”
“Você sabe que não. Emmet. Ele não gostou que eu troquei de lugar com a Melina sem avisar. Mas já falei que não é nada.”
O garçom se aproximou novamente e Tanya voltou a mascarar o rosto por trás das mechas louras. Três copos foram servidos sobre a mesa. Seu copo vazio foi retirado.
“Então, quer contar a história para nós?”, falou Finnegan.
“Eu falei pra vocês. Eu vivo falando que essas pessoas são perigosas. Não no sentido normal da coisa. Eu reconheço gente violenta ou com más intenções, quando vejo. Dá pra notar. Mas essa gente é perigosa de outro jeito. Não sei se vocês iam conseguir me ajudar, se eu realmente precisasse de ajuda.”
Em uma sala de operações da NCA, no discreto setor de Casos Especiais, um pequeno time monitorava a cena, ouvindo cada palavra captada pelos microfones da dupla. Tanya bebericou um pouco do dry martini.
“Quando eu vi a quantidade de meninas que o Emmet tava mandando… era alguma coisa grande. E evento grande, pra esse pessoal, não sei não. Quero distância.”
“Nós sabíamos que o evento seria grande. Por isso toda a operação. Era a nossa chance de pegar os caras com a boca na botija. Por isso te enchemos de escutas. Você estava com um GPS. Equipamentos caros que você jogou fora em uma lixeira.”
Finnegan respirou fundo. Não estava ali para reclamar. Tanya o olhava com ares de criança que sabe que fez malcriação.
“O que você achou que ia acontecer nesse evento, que te apavorou tanto?”
“Sei lá. Sacrifício humano? Eu sei lá que porra que eles fazem.”
Ela bebeu o resto do martini de uma só vez.
“Você chamou a gente aqui só para isso?”, falou George. “Só para dizer que tá viva e repetir o que a gente já sabe?”
A modelo abriu a bolsa e pegou o celular. Ao fundo, o saxofone introduzia uma nova melodia. Risadas, conversas e o tilintar de taças acompanhavam a música enquanto Tanya tocava a tela do aparelho, procurando algo.
“Aqui”, virou a tela para eles. Era o mapa de Londres, com o zoom focado em uma área montanhosa. Um marcador indicava um ponto de interesse, em um vale no meio de uma reserva florestal. A modelo olhava para a tela como se fitasse uma certidão de óbito.
“Antes de Melina ir, eu pedi pra ela dividir a localização comigo. Esse foi o último lugar que eu peguei.”
George tirou uma foto da tela com o próprio celular. Então pediu as coordenadas, que ela ditou, número por número.
“Ela não voltou?”, perguntou Finnegan.
“Eu ainda não vi nenhuma das meninas que foram pra festa depois daquele dia.”
“É por isso que você está com tanto medo?”
“Eu não sei se eles têm meu nome escrito em algum lugar, se eles tavam esperando me ver e viram a Melina, e agora tão me procurando por aí. Emmet fala que isso não faz sentido, que ele não dá lista de nomes pra ninguém, mas sei lá. Vai que o diabo falou meu nome pra eles.”
“Você sabe que pode pedir custódia protetiva se quiser.”
“Eu tô pensando em sair da cidade por um tempo. Tenho um lugar pra ficar em Manchester.”
“Manchester não é exatamente longe daqui.”
“Porra, Finnegan, se você não tiver um lugarzinho na Irlanda pra mim, Manchester é o mais longe que eu consigo ir e ainda ganhar um trocado.”
“O lugar é uma hora e meia de carro daqui”, falou George, referindo-se ao mapa que Tanya havia fornecido.
“Por favor, me diz que vocês vão lá procurar a Melina.”
“Nós vamos.”
“Então me liga quando encontrarem ela.”
A modelo se levantou. O vestido elegante acompanhava as curvas do seu corpo, mostrando muito e revelando pouco. Tanya estava vestida para o trabalho.
“Eu tenho que ir agora.”
“A gente entra em contato”, falou George.
Ela anuiu. Finnegan segurou o seu braço.
“Fala pro Emmet que da próxima vez que ele fizer isso com você, ele é um homem morto.”
Ela abriu um sorriso amuado, beijou-o no rosto, e partiu.
Com a modelo fora do cenário, o lugar assumiu outra atmosfera. Finnegan estava agora sentado em uma mesa de restaurante, não em uma mesa de trabalho. Ele mudou de assento e foi para o outro lado, onde ela antes havia sentado, para conversar com George de frente. Deixou escapar um suspiro cansado.
“Sério? Emmet é um homem morto?”, falou George, soltando uma risada. “Ouviram isso? Mister Finn está fazendo aulas com o Denzel Washington agora.”
Na escuta, a equipe soltou risadas. O próprio Finnegan riu. Os agentes à paisana pagaram as suas contas e se retiraram, a equipe foi dispensada, e as escutas desligadas.
“Vai comer alguma coisa?”, falou George.
“A NCA está pagando?”
“Como se isso fizesse diferença.”
“Faz diferença no whisky que eu vou pedir.”
“Agora você falou a minha língua.”
Passaram o resto da noite digerindo o que havia acontecido, e preparando os próximos passos da operação.
VIII
Sentados em bancos de metal no baú da van, Finnegan, George e outros quatro agentes sacudiam com cada solavanco do automóvel. Há alguns minutos haviam abandonado a rodovia, e agora seguiam por uma estrada de terra, subindo a encosta da montanha por um caminho serpenteante. Revisavam seus equipamentos: pistolas e munição, coletes a prova de balas feitos com malhas-de-faraday, equipamento de observação e pequenas bolsas de couro cheias de sal. Não carregavam armamento pesado. O objetivo naquela manhã era coletar informações e recolher as evidências que George precisava para que o Departamento de Casos Especiais enviasse uma unidade de invasão tática.
Do assento de passageiros, Samantha abriu a portinhola na parede.
“Dez minutos, meninos.”
A van chacoalhou vigorosamente: estavam agora fora da estrada, e mesmo que a motorista mal pisasse no acelerador, o solo desnivelado forçava-os a se segurarem em seus bancos. Assim que o automóvel parou, Finnegan abriu a porta traseira e foi o primeiro a saltar.
Os coturnos encontraram solo macio. O outono mal havia começado, mas algumas árvores já se despiam em um tapete de folhas douradas. A brisa soprava gelada, e o céu, parcialmente coberto pela folhagem, era de um cinza sinistro. Os outros cinco agentes desceram da van. Acostumavam-se com a atmosfera do lugar em um silêncio tenso. Até mesmo Karen, a jovem motorista do grupo, desceu do automóvel sem o sorriso típico no rosto.
George reuniu todos em um círculo. O mapa no aparelho que segurava indicava a última localização de Melina. Era o endereço de uma mansão construída há um quilômetro e meio dali, longe da civilização, em terras ignoradas pelas cidades para que bilionários pudessem aproveitar o anonimato. Era uma coisa centenária, opulenta, e que havia sido comprada há sete anos por uma empresa ligada ao grupo que investigavam há meses. Um aglomerado de gente sem nome e sem rosto, cuja existência era apenas inferência e conjectura, mas que pareciam com os desaparecimentos recentes.
Todos sabiam das suas instruções, mas George fez questão de revisá-las em um minuto: Karen e Samantha permaneceriam na van, monitorando os arredores e acompanhando-os pelo feed de vídeo e som. Os outros seis seguiriam em duplas: Nick e Scott para a entrada traseira da mansão, Lucas e Anton para a entrada frontal. George e Finnegan subiriam uma elevação próxima para analisar a propriedade de um ângulo mais favorável.
“Vocês me escutaram, né? Estamos coletando evidências. Eu quero fotos, vídeos, espectrograma completo. Não esqueçam das lentes ultravioleta. No geral, a prioridade hoje é não sermos vistos. Não assumam riscos desnecessários e notifiquem o grupo de qualquer atividade. Se não se sentirem seguros, recuem. Eu quero sair daqui com o meu time inteiro e um mandato garantido, sem ter que preencher nenhum formulário de disparo, entenderam?”
As duplas seguiram os seus caminhos e avançaram pela floresta em passos cuidadosos.
George e Finnegan eram os únicos ali com histórico militar. Caminhavam em sincronia, predadores que não precisavam de uniforme camuflado para ativar os instintos refinados por anos de treinamento. A caminhada até o topo da elevação foi silenciosa e eficiente. Para Finnegan, a situação era terapêutica. Pelas próximas horas, tinha carta branca para relegar ao segundo plano todos os outros problemas da sua vida pessoal.
Alcançaram o ponto de observação no tempo esperado, antes dos outros agentes chegarem às suas posições. Encontraram uma área com vegetação rasteira e se deitaram de bruços. No céu as nuvens corriam rápidas, nunca deixando o sol brilhar por entre as camadas de algodão cinza. George monitorava o time pelo GPS, então Finnegan foi quem pegou o binóculo.
A mansão misturava-se bem com a mata que a cercava. Apesar dos muros altos, as árvores dentro do terreno da propriedade eram como uma extensão da floresta. Era um amplo monolito vitoriano, com os seus milhares de detalhes intrincados, torres cilíndricas com pontas cônicas voltadas para o céu, um número estrondoso de janelas, tudo coberto por tons de cores frias. Havia um ar de ancianidade no lugar. Mesmo com a tinta aparentemente nova, a casa transmitia a imponência de quem existia há séculos.
“Guarita no portão principal. Muitos carros estacionados, a maioria de luxo. Parecem civis. Ninguém na frente. Duas câmeras no portão frontal, cobrindo ao menos cento e vinte graus”. O time confirmou, e Finnegan prosseguiu: “Entrada de serviço nos fundos. Câmera no portão, olhando para Sudeste. Há um jardim, mas não vejo ninguém. Porta dos fundos com uma única câmera pegando um ângulo amplo do terreno”.
O time confirmou novamente. Tendo coberto os pontos mais urgentes, Finnegan analisou o resto do cenário.
“O lugar está vazio”, falou, fora do rádio.
“Você não falou que tinha carros estacionados?”
“Sim, mas não tem ninguém em nenhuma janela. Nenhum guarda. Nenhum filhinho de papai fumando maconha no jardim. Espera. Tem alguém na porta da frente.”
“Guarda?”
A entrada principal da mansão era digna de filmes de época. Uma fonte de água talhada em pedra branca adornava a passagem de carros. Poucos metros adiante, um breve lance de escadas terminava em uma volumosa porta dupla de madeira maciça. Uma das bandas da porta estava entreaberta, e o corpo de um homem se projetava para fora, no chão, com o braço estendido adiante como se tentasse escapar do lugar, congelado no tempo.
“Finnegan?”
“Ele está morto.”
“Quem?”
Passou o binóculo para o amigo. George soltou um grunhido ao avistar a cena. A floresta farfalhava com a ventania. No rádio, os agentes confirmaram suas posições e iniciaram o trabalho. George e Finnegan não precisavam trocar palavras para endereçarem a pergunta que pairava no ar. Os segundos que George levou para tomar alguma ação se arrastaram. Ele pegou o rádio.
“Mudança de postura. Possível ambiente hostil e possível homicídio. Há um corpo na porta principal. Samantha, eu preciso de uma permissão para entrar.”
A chefe de comunicações levou um momento para responder.
“Ok, me dá um minuto.”
No rádio, Anton confirmou que tinha visual do corpo avistado por Finnegan. Os agentes mais próximos da mansão ficaram a postos.
“Vamos entrar, então?”, falou Finnegan, pronto para se levantar.
“Calma.”
Aguardou em silêncio. A espera pelo retorno da permissão foi um desafio de autocontrole. Os pássaros sentiram-se corajosos o suficiente para retornarem aos seus postos sobre os galhos das árvores, e agora cantavam como se os instigassem a prosseguir.
“Temos permissão com restrição de não-engajamento”, falou a voz de Samantha, misturada à estática. “Duas unidades de reforço estão a caminho.”
“Vocês ouviram”, falou George. “Sem engajamento. Recuem ao primeiro sinal de antagonismo. Nick, Scott, entrem pelos fundos e nos alcancem na entrada principal.”
“Há muitas janelas aqui, George”, respondeu Scott no rádio, o sotaque escocês diferenciando-o do resto da equipe inglesa. “E o jardim é muito amplo. Seremos alvos fáceis.”
“Então circulem a casa e nos encontrem no portão principal. Eu e Finn vamos entrar com vocês.”
Levaram quinze minutos para se reunirem próximos ao portão principal, ainda encobertos pela mata alta. Havia menos janelas naquela face da mansão, e cobertura ampla para avançarem devagar, caso encontrassem problemas. Assim que chegaram, Lucas os atualizou.
“Nenhum movimento. O portão principal está aberto.”
“Aberto?”
“É mecânico, com retorno hidráulico”, falou Finnegan, que analisou a passagem de longe. “Vê como as duas bandas não encostam uma na outra? Alguém forçou o portão para fora, e o sistema hidráulico ficou comprometido.”
Estavam prontos para entrar. Finnegan pediu que o time aguardasse e avançou primeiro. Seguiu agachado. Forçou o portão, que cedeu com facilidade, e avançou até a guarita. A porta estava aberta. O lugar era pequeno, com espaço para apenas dois vigias. Sobre a mesa havia um maço de cigarros aberto, um cinzeiro com cinzas frias. Acionou o mecanismo de abertura do portão, que se abriu torto, liberando o caminho para o resto do time.
Prosseguiram com Finnegan à frente e George na retaguarda. Adiante, a mansão os observava imóvel, aguardando a sua aproximação. O time procurou se posicionar atrás da fonte de água que enfeitava a entrada, ou ao lado dos carros estacionados por todo o percurso, em busca de algum tipo de cobertura. Mantinham os olhos nas janelas. A porta principal estava muito próxima agora. Podiam ver o corpo no chão e sentir o cheiro acre de carne em decomposição.
Finnegan agachou-se ao lado do morto. O rigor mortis o havia transformado em uma estátua congelada em um grito de horror. Uma espuma avermelhada fugia da boca do defunto, os olhos arregalados fitavam o vazio. Vestia roupa de gala: o terno preto, camisa branca e gravata vermelha disfarçavam a decomposição. Achou que conhecia o homem. Encontrou sua carteira no bolso interno, e confirmou a suspeita.
“É Arthur McGrimmon”, falou no rádio.
“Sir Arthur McGrimmon?”
“Sim. Ele mesmo.”
O homem era uma figura proeminente na política inglesa e nome importante no parlamento. De todas as coisas que esperavam encontrar naquele dia, conexões entre sequestros e desaparecimentos e o Parlamento Britânico não estavam entre elas – quanto mais o cadáver de uma figura pública daquele porte.
“Puta merda”, disse Anton. O agente havia espiado para dentro do salão principal e agora se afastava do grupo para vomitar. Scott arriscou abrir um pouco mais da porta e arregalou os olhos.
“Jesus, Maria e José…”
George foi em seu encalço. Com um empurrão, escancarou uma das bandas da porta. O hall de entrada da mansão estava pintado com sangue e vísceras.
Era um imenso salão aberto, e tudo o que o adornava era a morte. O carpete e os tapetes haviam adquirido o tom escuro do sangue seco, as cortinas e os pilares gregos estavam pintados de carmim e entranhas. Havia um pandemônio de corpos em decomposição, dispostos em um padrão lôbrego, o desespero estampado nos rostos voltados para a porta. Era óbvio que haviam morrido tentando fugir de alguma coisa. Havia cadeiras luxuosas que, apesar de agora jogadas ao chão pela fuga infrutífera da multidão, formavam um semicírculo voltado na direção de uma parte vazia do saguão, onde o chão de mármore exibia longas manchas de sangue.
Karen, que acompanhava o time com Samantha pelo feed de vídeo, tentou falar alguma coisa no rádio, mas desistiu. Anton ainda vomitava, afastado da porta principal, apoiado em um dos carros de luxo. Finnegan evitava tocar no sangue seco. Todos observavam a cena em silêncio, como se tivessem esquecido o próprio idioma. Até mesmo as paredes e o teto abobadado, seis metros acima, não haviam escapado dos sinais da carnificina. Um braço desprendido do corpo jazia pendurado em um dos ganchos do lustre dourado ao centro, o sangue já seco não pingava mais.
Finnegan avançou para dentro da cena, devagar. Os corpos inchados vestiam roupas de gala e alguns dos rostos ainda inteiros vestiam máscaras variadas. Uma parte dos cadáveres exibia claros sinais de alvejamento, porém outros haviam sofrido golpes concussivos, e ainda outros foram retalhados por armamentos medievais espalhados pelo chão, antes meros objetos de decoração, agora os instrumentos de um massacre.
“Finn, volta. Vamos deixar isso para a perícia.”
“Vamos investigar primeiro.”
“Isso é…”
“Eu sei o que é, mas você sabe o que vai acontecer quando a perícia chegar.”
Os agentes fingiam não ouvir a conversa. Sabiam o que aconteceria: tempo perdido. Havia ao menos uma figura proeminente morta, e dezenas de outros corpos a serem investigados. Por sua natureza sigilosa, o Departamento de Casos Especiais era ainda mais burocrático do que o resto da NCA. Mas Finnegan não fazia parte daquele meio. Era um empréstimo do Exército Irlandês, e andava à margem das regras, sem precisar tocá-las. No pior caso, ele seria enviado de volta ao país de origem sob acusações de obstrução da justiça, mas Finnegan parecia achar que a tentativa valia a pena.
“Você vai”, falou George. “Eu e os outros vamos estabelecer um perímetro.”
Era inevitável sujar as botas naquela cena, e por vezes Finnegan teve que erguer os pés para evitar pisar nos os corpos mutilados. Notou que segurava o cabo da pistola com força desnecessária. Respirou fundo. Só naquele instante notou o esforço que despendia para manter a calma. Havia tomado a decisão no calor do momento, considerava-se forte o suficiente para aquilo, mas agora, vendo-se cercado por um mar de sangue e moscas, vacilava. O cheiro de morte era intenso demais para que seus sentidos se acostumassem. Atravessava as narinas e penetrava na pele, e ele estava convencido de que nenhum banho o removeria do corpo. Já havia passado por sua cota de batalhas no Afeganistão, onde a visão de corpos soterrados por escombros ou empilhados em valas comuns não era rara, mas ali a atmosfera assumia um tom surreal: era uma mansão transformada em mausoléu. Uma festa interrompida pelo desespero. As memórias vieram tão pungentes que ele sentiu o peso do fuzil nas mãos, a pressão do capacete contra o crânio, e ouviu o tilintar do equipamento de guerra. Teve que redobrar os esforços para voltar à realidade. Diminuiu o ritmo respiratório e afrouxou o punho que segurava a arma.
Olhou para trás: os olhos do resto do time o acompanhavam em silêncio fúnebre. Avançou até o centro do salão, onde os corpos rareavam e de onde todos pareciam fugir. Encontrou no chão – nas mãos rígidas de uma mulher – um cartão com uma lista de nomes, dispostos em duplas.
“Era um ringue de lutas ilegais.”
“O que disse?”
A voz de George veio de longe. Finnengan notou que sussurrava para si mesmo. Repetiu a dedução no rádio.
“Era um ringue de lutas ilegais. Achei o card. Não reconheço todos os nomes, mas alguns eu sei que são lutadores antigos de MMA. Lembra do Chael Sonnen?”
“Lembro, o cara foi banido por doping.”
“Sim. E Cory Walker estava aqui também.”
“O namorado da Skye Levy?”, falou Samantha no rádio.
“Ele mesmo.”
“Vou puxar a ficha dele.”
Skye era uma cantora de alguma relevância no Reino Unido e que havia desaparecido há poucos meses, mas eles nunca haviam conectado o seu desaparecimento com o resto dos casos que investigavam. Cory, seu namorado, era um lutador de MMA que caíra em desgraça quando foi banido do esporte por ter matado o seu oponente, no que foi obviamente um uso de violência desnecessária. Finnegan exalou frustração. Não queria imaginar que o corpo da cantora estivesse ali também, entre cadeiras e vísceras. Não queria pensar que seus pais poderiam estar naquele mesmo lugar, e que seus últimos momentos foram desespero.
Tomado por uma urgência repentina, caminhou a passos largos até um dos corredores laterais.
“Vou entrar.”
“Algo em mente?”, falou a voz de George, abafada pela estática.
“Quero entender que merda aconteceu aqui.”
Procurou por um lugar específico. Abriu porta atrás de porta. O silêncio imperava dentro da mansão, mas os pássaros lá fora assoviavam uma canção inocente, como querubins carregando para longe as almas daquela gente. Viu quartos luxuosos, alguns com malas de viagem abertas sobre a cama. Viu salas de estar, salas de leitura e de jantar, alguns com sinais da morte que havia irradiado do salão. Corpos sobre o carpete, manchas de sangue nas paredes. Encontrou a cozinha, de onde poderia acessar os fundos da mansão. Até que, ao seguir o som das moscas, finalmente encontrou o que buscava.
Havia mais um corpo no chão diante de uma das portas de um longo corredor, perfeitamente ornamentado por um carpete macio. As entranhas do homem escapavam pelo estômago e se espalhavam pelo uniforme. Era um dos funcionários de segurança do evento. Aparentemente havia morrido tentando fugir até aquela sala, que fora convertida em um centro de vigilância, com monitores espalhados sobre mesas, cujas telas exibiam o feed das câmeras do lugar. Finnegan ergueu os pés para passar por cima do corpo. A aparelhagem ainda funcionava. Em uma das telas, George era um aglomerado de pixels aguardando o seu retorno. O resto do time era exibido pelas câmeras externas, fazendo o reconhecimento da área e estabelecendo um perímetro seguro.
Seu objetivo era encontrar as gravações do que aconteceu, que ele suspeitava ter sido o evento de seis dias atrás. Talvez avistasse Melina e outros conhecidos pelas câmeras e descobrisse os seus paradeiros. Apertou enter em um teclado, e uma tela surgiu, exigindo credenciais. Estalou a língua. Não conhecia muito de eletrônicos. Estava acostumado a ver salas como aquela, mas jamais conseguiria navegar pelo sistema de vigilância, tanto menos quebrar a proteção por senha. Tinha a solução para o impasse, mas ela era no mínimo ineficiente. Procurou por um cabo USB. Encontrou o celular de um dos guardas ainda conectado ao carregador. Retirou o cabo, e ligou ao seu próprio celular, então encontrou o gabinete de um dos computadores e conectou o aparelho. Acessou um aplicativo do Exército Irlandês, feito pelo departamento de inteligência. Executou o comando e aguardou. O sinal ali não era bom, mas o aplicativo não precisava de muita coisa. Ele varreria o computador e se o sistema de vigilância fosse conhecido e tivesse brechas, o aplicativo faria o download do máximo de informações que pudesse. O problema, para Finnegan, era que havia muita incerteza naquela equação. Olhava para a tela exibindo caracteres mais rápido do que conseguia lê-los, como se observasse a escrita fantasmagórica de algum pergaminho de magia negra. Tudo o que podia fazer era confiar nos cérebros do departamento de inteligência que haviam criado o aplicativo, e aguardar.
Perambulou pelo quarto, com passos impacientes. Abriu gavetas. Abriu um armário e encontrou dezenas de pastas com documentos diversos. Folheando-as, viu que uma delas carregava o nome de Isaac Danpora.
“Bingo.”
No salão principal, George não queria perturbar a cena, mas a espera e o silêncio eram extenuantes. Viu-se caminhando pelas beiradas da hecatombe, procurando rostos familiares na multidão de cadáveres. Nick e Scott fizeram o mesmo. Olhar a cena tão de perto, e de forma tão corriqueira, ajudava a fixá-la no olho da mente. Precisavam daquilo para manter a motivação correta, e seria destas imagens, no futuro, que tirariam energia para continuar buscando a verdade quando o mundo inteiro estivesse lutando para que desistissem.
Foi George que encontrou Melina. Agachou-se ao seu lado, um xingamento sussurrado que soou como uma prece. O corpo da modelo estava entrelaçado com outros três, braços e pernas misturados em um fim desesperado. Seu rosto, porém, havia encontrado uma serenidade única, os olhos fechados, o cabelo, endurecido com o sangue, caía-lhe sobre o rosto e escondia um pouco da violência. George se levantou, e a cena diante dele era agora mais triste do que absurda. Pensou em Tanya. Então o rádio em seu ombro soou com estática.
“Puta merda”, falou Karen, a voz esbaforida.
“Diga.”
Silêncio.
“Karen? O que aconteceu?”
Nada. A equipe que formava o perímetro do lado de fora o chamou, e quando George saiu da mansão pela porta da frente e olhou na mesma direção que olhavam, viu o filete de fumaça preta esticando-se até o céu na distância.
“Karen? Samantha? Na escuta?”
A motorista demorou longos segundos para respondê-lo. Quando a sua voz alcançou o rádio da equipe, soava sussurrada, mas o tom era de urgência.
“Eles colocaram fogo na Van!”
“Quem?”
“Múltiplos hostis. Indo na sua direção, com equipamento incendiário. Saiam daí agora!”
“Eles estão atrás de vocês?”
“Eles não viram a gente, eu e Samantha estávamos fora da van quando vieram. Estamos escondidas. Sam machucou o joelho na correria, mas está bem. Eu já notifiquei os reforços. Eles estão chegando. Agora sai daí!”
“Finnegan, sai daí de dentro imediatamente. Scott, Nick, para fora, agora.”
George via os hostis, mas sabia que estavam próximos. Uma revoada de pássaros alçou voo ao Norte. Teriam que seguir para o Sul, para longe da van. Lucas e Anton o alcançaram em poucos segundos, mas ninguém que estava dentro da mansão o respondeu. George tentou o rádio novamente, e a reposta foi um disparo vindo de dentro do salão principal.
Correu até lá. Melina tinha os dentes fincados no braço de Nick, que urrava de dor. Os mortos se erguiam, e Scott abria caminho entre eles com disparos. Levantavam-se apoiados nos membros que ainda possuíam, como se acordassem de um longo sono. Os que não tinham pernas, rastejavam-se a esmo. O som era de músculo, tecido e juntas se partindo e cedendo e encontrando novas posições em uma nova vida.
Os gemidos eram de fome.
Marcão!! Deixei seu romance por último, porque era o que eu mais estava ansioso para ler, de todo o desafio. Eu só não queria deixar para comentar ele na última hora do último dia… mas tudo bem, vamos lá!
Primeiramente, vamos sintetizar os capítulos, para termos uma melhor visão do enredo:
Cap. 1: Conhecemos Samuel, o cara da loja de antiguidades. Numa noite ele ouve sons que parecem ser de sua mãe morta na cozinha e, ao investigar, encontra sobre a pia um envelope misterioso.
Cap. 2: Conhecemos Thomas, o investigador aposentado. Ele percebe uma possível invasão em sua casa durante a tempestade e encontra sobre o sofá um envelope. Isaac Danporra ajudava ele a desvendar alguns casos.
Cap. 3: Conhecemos Edward Basser, o cara das fotos (detetive particular). Ele acorda de um sonho com um vulto em seu escritório e encontra no chão o envelope.
Cap. 4: Conhecemos Cory, o motoqueiro traumatizado. Ele se culpa pelo desaparecimento de Skye e do filho Simon. Encontra enterrado no campo atrás de sua garagem o envelope. Aqui descobrimos que esse envelope é um convite para o funeral de Isaac Danporra em Bishopstone.
Cap. 5: Samuel, o cara da loja de antiguidades, parte de trem rumo a Brighton para chegar ao enterro de Isaac Danporra em Bishopstone, lembrando como conheceu o amigo quando ele comprou uma bola de cristal em sua loja.
Cap. 6: Thomas (o aposentado) e Edward (o cara das fotos), são investigadores do paranormal ligados a Isaac Danpora. Um telefona pro outro, e fofocam sobre o que aconteceu com eles. Então decidem ir juntos ao funeral, enquanto Thomas encontra um rastro estranho sem digitais e Edward revela uma foto mostrando uma mão cinzenta colocando o envelope em seu escritório.
Cap. 7: As coisas finalmente se entrelaçam? Não! Aqui partimos para um novo núcleo narrativo. Conhecemos Finnegan, o irlandes, que é um agente ligado à uma organização especial. Ele está investigando desaparecimentos dos próprios pais. E conhecemos George, parceiro de Finnegan. Ele parece ser ex militar, ou coisa assim. Conhecemos também Tanya, uma puta informante (literalmente), ligada a um esquema perigoso. Ela deveria ter ido a uma festa investigada pela agência deles, mas ficou com cagaço e mandou uma outra putanga, chamada Melina, em seu lugar. O ponto de ligação com os capítulos anteriores é que Isaac Danpora aparece nos arquivos de Finnegan, como alguém importante para essa investigação.
Cap. 8: Finnegan e George investigam seguem uma dica de Tanya, que revela a eles qual foi o último ponto de GPS que ela conseguiu detectar de Melina. Eles então vão até lá junto com uma equipe de agentes especiais. O local é uma mansão da festa clandestina, organizada por bilionários. Eles fazem toda uma abordagem estilo Missão Impossível aqui, e são extremamente cautelosos. Mas eles percebem que tá todo mundo morto, porque rolou a maior carnificina ali, envolvendo políticos, lutadores de lutas clandestinas, um tal de Cory Walker, Melina e Isaac Danpora. Quando Finnegan está quase descobrindo o que rolou, através de um pendrive de guerra que hakeia qualquer coisa, aparece uns malucos com lança chamas, e então os cadáveres do salão principal se levantam e rola uma festa de zumbis!
Ok! Agora vamos lá, para a minha opinião.
Primeiramente, quero dizer que, de todos os romances obrigatórios que li, este foi o que mais gostei! Seu estilo me chama bastante a atenção, porque você é criativo, e escreve altas loucuras, assim como eu. Posso dizer, seguramente, que sou seu público alvo. Vi algumas pessoas reclamando do excesso de personagens… no entanto, não acho que tenha sido esse o problema. Sim, vi alguns probleminhas narrativos (que já vou falar mais sobre eles), mas nada que tire o brilho do que você escreveu.
A história sofre, principalmente, de um ritmo meio esquisito. No primeiro capítulo, parece que teremos aqui uma parada meio os casal Warren, com umas paradas envolvendo espíritos malignos e essas coisas. Os seis primeiros capítulos parecem conduzir o leitor a isso, cada um levantando um pilar na trama, apresentando calmamente um novo personagem, e entrelaçando os fios narrativos. Aqui você proporciona uma sensação muito boa no leitor, pois tem muita coisa que lemos e pensamos “Há!!! Eu sabia!!”. Isso é bastante recompensador, pois mostra que você não fez uma trama previsível, mas sim algo que possui um sentido lógico, e apresentou muito bem tudo para o leitor. Você é um ótimo contador de histórias porque você sabe como guiar o leitor.
No entanto, o problema de ritmo que eu citei vem porque os capítulos seguintes não tem nada a ver com os primeiros. Calma, vou explicar. O meu romance eu também sofri um pouco com isso… com a divisão das cenas. Aqui, eu acho que se você tivesse chamado os subcapítulos I, II, III, IV, V e VI, de Capítulo 1, e os subcapítulos VII e VIII, que são mais longos, de Capítulo 2, acho que as coisas ficariam mais claras na cabeça do leitor. Mas você parece ter feito uma sopa, e jogou tudo no mesmo caldeirão.
Nesse suposto “Capítulo 2” (vou dividir assim a história, para ficar mais fácil de comentar), o ritmo muda completamente. Aqui saimos de invocação do Mal e vamos direto para 007. Investigadores, martíni, Jazz, ricaços, mulheres sensuais, operações de espionagem e infiltração. Você narra tudo de forma primorosa. Mas aqui a história, que estava seguindo por uma estrada retilínea do ponto A até o ponto B, faz uma curva radical e vai até um ponto C aleatório. E o ritmo fica totalmente louco, principalmente quando chegam os malucos, e os zumbis começam a atacar, e a história vira uma espécie de Uma Noite Alucinante. E o gancho que você deu, no final: “Os gemidos eram de fome”. Cara, que doideira…
Sim, eu gostei… na verdade, é totalmente o meu estilo! Mas vejo uma problemática aqui. O leitor não faz a menor ideia do que esperar para a segunda parte. Não dá mais pra simplesmente deduzirmos as coisas, porque você parece ter estabelecido um conjunto de regras claras nos 6 capítulos iniciais, que guiavam até um lugar específico… mas então, de repente… não é que você quebrou essas regras… mas você apresentou outro conjunto de regras, totalmente diferente das outras. É difícil de explicar o que estou tentando dizer… mas é como se essa história tivesse sido narrada meio que no improviso, num free style, sem se preocupar tanto em fazer algo tão redondo, já que há até uma mudança de gênero meio brusca… mas isso não necessariamente é algo ruim, pois como eu mencionei, você não quebrou nenhuma regra do seu próprio universo. Você apenas deixou de cumprir a promessa do velório do Isaac… sim, eu sei que você vai abordar isso mais tarde, nos capítulos seguintes. Mas é que agora o leitor está envolvido com outra coisa… você soltou um rojão brilhante demais, que tirou a atenção daquela coisa mais contida que você estava construindo de forma tão paciente no início… e agora o leitor já nem se importa mais com esse velório. Fico com medo, inclusive, dos zumbis roubarem a cena na continuidade da história… porque fico imaginando você chegando aqui na próxima etapa do desafio, dizendo ao leitor “Gente, agora vou mostrar o velório do Isaac Dan porra, e o que aconteceu com os amigos de internet dele”, e o leitor pense “Foda-se o Dan Porra!! A história tem batalhas contra zumbis agora!!!”.
Enfim, ótimo romance, Marcóla!! To extremamente ansioso para ler a segunda parte. Vou deixar por último novamente, porque tenho certeza de que será o meu favorito.
Vlww!
Marco escreveu um início de um romance de terror com imagens bem elaboradas. Quatro personagens são unidos por um envelope. A violência e os zumbis trazem um tempero interessante. A tensão paira em todos os ambientes. Realmente prendeu a atenção.
Senti falta de mais tempo na mansão, acho que a cena poderia render ainda mais.
As piadas de George e Finnegan no restaurante dão uma quebrada na narrativa, trazendo originalidade ao ambiente escuro.
Fiquei procurando o jarro! Cadê?
Parabéns. Sigo curioso para os próximos capítulos.
Marco,
Comecei a ler seu texto faz uns dez dias, larguei (por necessidade da vida) e hoje, fazendo uma horinha num café do centro, li o restante numa sentada. Peguei o texto mais ou menos onde o havia deixado, com receio de que pudesse ter me perdido na trama, mas a verdade é que isso não fez a menor diferença. É um tipo de romance que a gente pode agarrar meio por qualquer parte, como quando ligamos a televisão e está passando um filme que não conseguimos largar. Não que o enredo a longo prazo seja irrelevante. Ele é, mas o que mais me atrai é a escrita esperta dos diálogos, a agilidade das situações, a imensa eficácia na edição de tipo cinematográfica. Estamos diante de um profissional – foi isso que pensei ao ler sua entrega. Trata-se de alguém que tem pleno domínio do gênero e do estilo escolhidos, ainda que corra o risco, justamente por conta desse domínio, de submeter uma possível pessoalidade da voz autoral aos ditames estandarizados de um produto pop. Volto a isso daqui a pouco.
Os nomes escolhidos são ótimos. Isaac Danpora sugere um monte de coisas, não dá pra saber bem a origem, que deve ser mista, e por isso mesmo é adequado a uma figura eixo do mistério. O nome do restaurante tailandês também é bem escolhido. Adorei o diálogo lá, bem aos estilo policial. Para mim é o ponto alto da entrega. Só reparei que você se refere a copos, quando sabe-se que o dry martini se toma em taça (fiquei até imaginando a modelo brincando com o caroço de azeitona na boca depois de matar o drink, mas aí lembrei que o estilo londrino do dry martini é com casca de limão, não azeitona, confere?). Ah, e quando o sax entra com a melodia, senti falta do nome da melodia. Blue Train? Caravan? Alguma do Charlie Parker? Enfim, ajudaria a compor a “mobília” narrativa, que de resto já está muito bem desenhada.
Quando chegam à mansão, pareceu para mim um De Olhos Bem Fechados meets Resident Evil. Talvez por isso tenha achado uma pena que o Resident Evil tenha se imposto tanto e tão rápido. Mas você precisava deixar um gancho, e isso é justo.
Agora vem minha provocação. A pergunta é: por que um autor com tanto domínio técnico dentro do que ele se propõe se destina a escrever um livro que poderia ser escrito por várias outras pessoas? A minha sensação é que aquilo que chamei de seu profissionalismo é também o que te distancia de uma voz original. Para deixar bem claro: está muito bem feito, e eu leria sem parar de cabo a rabo, querendo saber o que vai acontecer. Talvez meu questionamento não seja tanto em relação a O Jarro, porque ele já está em andamento e acho que você deve ir até o fim nas escolhas que já fez. Mas para o futuro, talvez valha a pena pensar: será que o mundo precisa de mais um livro como O Jarro? Será que ele é necessário? São perguntas sobre a construção de uma voz autoral, que acho que no seu caso valem muito a pena serem feitas, uma vez que o domínio narrativo está bem consolidado.
Aguardo ansioso pela continuação, de todo modo. Parabéns!
Desde ja peco perdao pela falta de acentos, estou digitando esta resposta no meu laptop do trabalho (com teclado em ingles). Estou viajando e ele eh o unico computador ao qual tenho acesso no momento.
Obrigado pelo retorno e pela leitura. Sua correcao sobre as tacas (ao inves de copos) eh justa, adicionei na minha lista de revisoes. Agradeco os elogios: essa comunidade eh o que me faz sempre continuar evoluindo como escritor!
Sua nota sobre a especificidade da musica ambiente, por outro lado, eh uma que nunca me agradou. Quase sempre que um autor cita algum grupo musical, musica em especifico ou artista em particular, eu nao o conheco. Entao as palavras escritas no texto nao querem dizer nada para mim. Sao apenas nomes proprios de pessoas que nao me trazem nenhum tipo de referencia. Eh claro que, por um lado, isso pode despertar um interesse em expandir os meus horizontes musicais, mas eu nunca vou interomper uma leitura, ainda mais quando ela esta interessante, para ouvir o som de algum grupo de jazz citado pelo autor, apenas para me ambientar. Por outro lado, quando o autor fala que “toca jazz”, ora, eu conheco o jazz, e consigo imaginar a atmosfera, sem ter que torna-la especifica. Eh o tipo de trabalho que gosto de colocar na mente do leitor e nao interferir muito. Mas nao sou contra! So nao tenho boas experiencias com este tipo de abordagem, quando a vejo.
Engracado voce ter trazido o ponto da originalidade no final. Como voce pode, na primeira de quatro partes, deduzir que “o mundo nao precisa deste livro”? Eu nao quero comecar nenhum debate ou discussao acalorada, mas voce tem nocao de como isso soa prepotente? Eu me esforcei para nao assumir nada em todos os textos que eu li ate agora. Critiquei alguns mais do que outros, mas sempre baseado no que vi, e tentei nao deduzir o que viria a seguir. Mas de qualquer forma, dizer que “o mundo talvez nao precise deste livro”… pense bem em como isso afeta a mente de um escritor. Imagine se Tolkien nao escrevesse O Senhor dos Aneis, ja que, afinal, o mundo ja tinha O Hobbit? Imagine se Dostoevsky deixasse de fora Alyosha em Irmaos Karamazhov, ja que ja havia explorado conceito parecido com Myshkin em O Idiota? Quantos autores hoje consagrados, vistos como classicos, nao teriam dado ao mundo o que deram, por acharam que o mundo “nao precisa de outro livro como este”? Quantos filmes? Quantas musicas?
E ainda assim – ainda assim! Mesmo que o presente livro seja o maior dos cliches: nao consigo imaginar algum momento onde falar isso para um autor teria algum valor! O mundo precisa do meu livro, nem que seja para que eu mesmo o coloque para fora. E que evolua. E que crie. Eh claro que opinioes quanto ao enredo, forma, filosofia, temas, personagens e outras abordagens sao sempre uteis, especialmente vindo de um grupo tao incrivel de escritores. Mas por em questao a existencia do texto? O ego de quem fala essa frase tem que estar na estratosfera.
Eu ja estou ciente do preconceito da maioria quanto ao que escrevo – e o que outros no EC escrevem tambem. Nas livrarias, terror, ficcao cientifica e fantasia ficam relegados as prateleiras ao lado dos Mangas e literatura infanto-juvenil e jogos de tabuleiro (E olha que alguns mangas sao extremamente profundos tambem, mas muita gente acha que todos sao bobos). O mundo decidiu que apenas a ficcao realista e o drama poetico – e classicos e a tal da Alta Literatura – podem explorar a natureza humana. Mas eu resisto, nao por que sou um tolo que quer continuar em erro. Eu amo ler Dostoevsky, Tolstoi, Emily Bronte, Jane Austen, Comarc McCarthy, Tolkien, Sanderson, Steven King. Amo ler TODAS essas obras. Entao tenho, na verdae, um pouco de pena de muitas pessoas que se negam a ler o que cismam em chamar de “literatura de genero”, apenas por puro preconceito! Ja vi tantas pessoas negarem a si mesmas experiencias maravilhosas e leituras incriveis, apenas por que “jamais lerao fantasia” ou “terror eh coisa de gente boba”. Ainda pior: ja vi pessoas lerem livros incriveis e perderem a nata da leitura apenas por ja iniciarem a empreitada com a ideia de que o genero jamais tera a mesma capacidade narrativa e alcance emocional de um classico.
Entao, voltando a sua pergunta: sim, o mundo precisa de um livro como O Jarro. Nem que apenas eu e os do meu circulo sejam os unicos a le-lo!
Marco, te peço desculpas se o que disse te chegou como depreciação. Como eu disse na primeira frase do bendito parágrafo, era uma provocação. E você respondeu muito bem a ela, de verdade. Eu não afirmei que o mundo não precisa do seu livro, apenas te sugeri perguntas que me faço constantemente e que acredito serem produtivas para a consciência crítica do autor a respeito do que ele produz. E quer saber? Na maior parte das vezes eu mesmo me respondo: não, o mundo não precisa do que escrevo, mas vou escrever mesmo assim, e quem sabe, lá no fim, uma necessidade que não existia passe a existir.
Agora, se essa necessidade vai surgir ou não, do meu ponto de vista, depende da relação que o autor estabelece com os lugares-comuns a partir dos quais ele constrói sua empreitada. Nesse sentido, o problema a se enfrentar por quem escreve em gênero ou “em alta literatura” é o mesmo. Eu mesmo acho o conceito de alta literatura bem furado. No fim, a singularidade (ou a “necessidade”, para usar o termo do debate) de uma obra depende de um certo deslocamento desses lugares-comuns. Às vezes o deslocamento é mínimo, mas cirúrgico. E o fato de um obra pertencer a um gênero não é nenhum impeditivo para que seja uma grande obra.
Enfim, reitero minhas desculpas se acaso o que comentei chegou aí como um fator de desmotivação para continuar escrevendo. Não era minha intenção (embora, como a gente sabe, de boas intenções o inferno está cheio). Reconheci no que você escreve habilidade e talento enormes, e justamente por isso achei que cabia uma provocação – no sentido mais elevado do termo. Meu desejo não é que O Jarro seja bom. Meu desejo é que seja excepcional.
É isso, por enquanto.
CRÍTICA APÓS LEITURA DA PRIMEIRA ETAPA
Cara, que texto legal. Sério. Feliz por termos esse tipo de narrativa no desafio. É um romance que tem uma ambição de construção coral. Você abriu com quatro personagens em quatro situações distintas, conectados por um envelope misterioso, e expandiu progressivamente até uma cena de massacre em mansão vitoriana com mortos-vivos levantando do chão kkk sério, eu estava quase que desejando ler algo desse tipo.
É uma trajetória longa e variada para uma primeira etapa, e há partes que funcionam muito bem, mas tenho algumas sugestões para a segunda etapa!
O que funciona de forma mais imediata é a atmosfera da abertura. Os três primeiros capítulos, Samuel com sua loja de antiguidades e os sons da mãe morta, Thomas acordando pelo instinto de investigador aposentado, Edward no laboratório fotográfico com a ressaca e o vulto, têm uma qualidade densa e melancólica que combina bem com o registro do romance. Acho que você gosta dessa tradição do thriller sobrenatural britânico, e isso aparece na escrita quando o texto desacelera o suficiente para deixar a atmosfera trabalhar (E vou falar sobre o ritmo mais adiante).
O capítulo de Edward é o mais forte dos três iniciais. A cena do laboratório com a luz vermelha, a ressaca, o vulto que pode ser real ou criação do whisky, tudo isso tem tensão construída com economia. E a foto revelada no final do sexto capítulo, a mão cinzenta com dedos alongados ajeitando o envelope, é a melhor imagem de todo o texto. Você guardou bem essa carta. Mas sinto que queria ver mais dessas construções imagéticas na história, pois ficou realmente muito bom.
O capítulo de Cory talvez eu deva classificar como corajoso (?) porque é o mais fragmentado e o que mais arrisca. Os fragmentos de memória intercalados com a corrida de moto, Skye, o bebê, o sangue, a plateia morta gritando The Beast, criam um estado dissociativo que funcionou, eu curti. A ligação de Skye, com aquela voz cortante pedindo pelo filho enquanto Cory escava o solo com as mãos, é um dos momentos de maior tensão emocional do romance. O envelope enterrado no jardim de futebol comunitário é uma variação inteligente das outras entregas. Ficou criativo.
É um romance extremamente criativo, por sinal, cheio de atmosfera e com personagens bem legais. O maior problema estrutural, que julgo ser um ponto de atenção pra segunda etapa, é a mudança de registro entre os capítulos mais intimistas e os capítulos de ação da NCA. Samuel, Thomas e Edard existem numa atmosfera de horror psicológico contido, enquanto Finegan e George existem num thriller de ação corporativo. São dois romacnes diferentes convivendo no mesmo texto, e a costura entre eles ainda não aconteceu de verdade. O envelope é o único fio que os conecta, mas é um fio fino demais para sustentar duas linguagens tão distintas. Sei que estamos na primeira etapa ainda, mas em termos de estrutura narrativa, são palavras demais que ainda deixam o leitor sem saber muito bem sobre o que exatamente está lendo. Sinto que isso foi proposital, não estou dizendo que é um ERRO, mas é um risco que, ao meu ver, pode ser mitigado já na segunda etapa.
Finnegan é o personagem mais subespecificado considerando o espaço que ocupa. Ele aparece no sétimo capítulo já em plena operação, sem que o leitor tenha tido qualquer momento de intimidade com ele antes. Sabemos que tem histórico militar irlandês, que perdeu os pais, que é emprestado à NCA, mas tudo isso chega como informação funcional em vez de como peso emocional. Talvez seja interessante adicionar esse background, o que acha da sugestão?
Sobre os capítulos da mansão, achei que o ritmo acelerou masi do que devia. A cena do massacre é descrita como um texto quase jornalístico que não combina com o registro dos primeiros capítulos. Eu gostei mais do ritmo mais lento e descritivo do início. O braço pendurado no lustre dourado, as máscaras sobre os rostos dos cadáveres, o cheiro de decomposição, tudo isso tem potencial de ser perturbador, mas é enumerado com velocidade que não deixa o horror pousar no leitor. A chegada dos mortos-vivos no final, com Melina mordendo o braço de Nick, é um golpe narrativo válido, mas chega meio que num ritmo de blockbuster. Se eu pudesse exigir algo como leitor que gostou da obra, exigiria que esses momentos tivessem mais peso narrativo, como você fez no início.
APANHADO GERAL
É uma premissa sólida e começa com uma qualidade atmosférica muito boa que me envolveu absurdamente. Os primeiros capítulos mostram uma sensibilidade para o horror psicológico e para personagens marcados por perdas. O envelope como dispositivo de convergência é instigante e promete um ponto de encontro que quero ver acontecer.
O desafio da segunda etapa é integrar de verdade os dois registros do romance, ou fazer uma escolha sobre qual deles vai dominar. Se for o horror intimista dos primeiros capítulos, os capítulos de ação da NCA precisam ganhar mais textura emocional e menos eficiência operacional. Se for o thriller de ação, os três personagens iniciais precisam entrar nesse mundo de uma forma que não abandone o que os tornou interessantes. Ou, agora aqui pensando enquanto escrevo, você pode acabar adotando uma terceira via surpreendente também kk.
A força do seu texto eswtá nos personagens, sem dúvida. E me peguei pensando no Isaac que foi morto antes de aparecer fisicamente, mas presente em quase todas as tramas ao mesmo tempo. Ele acaba sendo o grande personagem ausente do romance. Mas tudo em que ele está envolvido acaba criando uma presença enorme para alguém que não conheci “vivo” . Esse paradoxo pode ser o coração do romance se você confiar nele. Quem sabe? Muitos caminhos!
Parabéns pelo fôlego! E vamos pra segunda etapa!
Impressões do capítulo VI ao VIII
Oi Mariana, obrigado pela leitura!
“Afinal de contas, quem é esse bendito Isaac Danpora e o que vai acontecer nesse enterro?” – era esta a pergunta que eu queria levantar, mesmo. Hahahaha! Que bom que despertou o interesse.
“Os personagens finais são comuns nessa Londres? Ou era uma teoria da conspiração do fórum?” – não entendi a pergunta. Que personagens finais?
Enfim, grande abraço e nos vemos na próxima parte!
Olá, Marco! Tudo bem?
Voltemos ao seu texto!
VII – VIII
Aqui tem uma mudança bem expressiva no tom do romance, deixa de ser mais misterioso, enevoado e noir, pra ser mais investigativo.
Gostei bastante dos diálogos, deram agilidade e mostraram bem o tipo de pessoas que os personagens são. A ambientação está muito boa mesmo. E a escrita continua firme, cheia de personalidade, mas simples e eficaz, meu estilo preferido!
O último capítulo ficou excelente, mais focado na ação, com a pegada investigativa na prática.
“para evitar pisar nos os corpos mutilados” escapou da revisão
“Não queria imaginar que o corpo da cantora estivesse ali também, entre cadeiras e vísceras. Não queria pensar que seus pais poderiam estar naquele mesmo lugar, e que seus últimos momentos foram desespero.” Não sei se perdi alguma coisa, mas por causa de ter citado o Corry e a Skye e logo depois vir essa frase, eu entendi que o Finnegan pudesse ser o filho deles. Se não for isso, seria legal rever essa frase…
“George via os hostis, mas sabia que estavam próximos.” Aqui não é “George não via os hostis…”?
Zumbis?? Não estava preparada pra isso… me pegou real de surpresa! Não imaginava que o romance iria para esse lado, mas achei bem interessante, deu um gancho bem legal pra próxima fase.
Bem, Marco, já dá pra perceber que seu romance vai ser ótimo, bem instigante de acompanhar, e a escrita está excelente também.
Espero poder contribuir com minha percepção de leitora até o final!
Até a próxima etapa!
Olá novamente Priscila! De novo obrigado pela leitura!
Rapaz, você já pegou umas duas deslizadas minhas nas descrições. Realmente, quando cito os pais de Finnegan naquela frase, parece que ele está falando de Cory e Skye, o que com certeza não é o caso. Vou alterar, obrigado!
Boa tarde, Marco.
Enquanto eu lia os personagens, fiquei pensando bastante em Joris-Karl Huysmans, principalmente por essa sensação de desgaste interno que todos carregam. Seus personagens parecem emocionalmente cansados antes mesmo do horror começar, e acho que isso é o que deixa a narrativa interessante. O Samuel, por exemplo, a cena da mãe na cozinha funciona justamente porque ele já parece assombrado pela ausência dela há muito tempo.
Edward… O escritório escuro, o whisky, a obsessão pelo paranormal, a insônia, tudo nele passa a sensação de um homem consumido pelas próprias fixações. Não parece um personagem construído para ser “cool” ou heroico, mas alguém meio prostrado, o que deixa ele mais humano.
O Cory parece viver num estado constante de ruína emocional. Tudo nele é excessivo, a culpa, a violência, a confusão mental. Em vários momentos senti que ele já não consegue mais distinguir memória, trauma e realidade. Isso me lembrou muito esses personagens decadentes da literatura francesa que vão sendo consumidos pelas próprias obsessões até perderem completamente a estabilidade emocional.
O Thomas funciona de outra maneira, mais contida. Ele tem esse ar de homem cansado pelo tempo, alguém que já viu coisas demais e agora vive quase mecanicamente. Gostei porque você evita transformar ele naquele investigador brilhante e invencível.
“Quando molhava os pés no primeiro sonho da noite”, gostei dessa frase ❤ você escreve de um jeito bem imagético.
Olá! Obrigado pela leitura e pelos apontamentos! Fico feliz que esteja curtindo. Espero que curta também as próximas partes. Não sou nenhum Joris-Karl Huysmans, mas estamos sempre evoluindo! Hahaha
Oi Marco, impressões dos capítulos IV e V:
Eba! Lembro de ter lido partes desta história na área-off e de ter gostado muito. Porém, sofria com a distância entre um capitulo e outro. Agora vou poder ler de forma um pouco mais contínua.
Em primeiro lugar, preciso dizer que eu acho que sou seu público, embora, provavelmente, não seja a sua “persona”. Mas uma história como esta parece ser, um thriller noir com mistério e um toque de sobrenatural, é bem o tipo de livro que eu xingo pelas manhãs, quando acordo cansada porque não consegui largar a leitura.
Nesta primeira parte você nos apresenta os personagens. Um tanto sem contexto, um monte de nomes e cenários. Para mim funciona. Gosto de montar o quebra-cabeças de quem é quem e quem faz o quê e onde. Aos poucos, alguns personagens vão vindo à luz. Finnegan e George aparecem um pouco mais, conhecemos a NCA, ficamos intrigados com Isaac Danpora.
Na minha opinião, a parte um cumpriu o que se espera de uma parte um. Apresentou os personagens, definiu a ambientação, apresentou pedaços do mistério e deixou o leitor curioso.
Infelizmente, eu acho que não vou poder ajudar muito, porque gostei meio demais da história e não estou conseguindo achar defeitos. Ou, melhor dizendo, pontos de melhoria.
Manda logo a parte 2, sim?
Obrigado pela leitura, Kelly! Fico muito feliz que você tenha curtido. Sinto até uma responsabilidade maior agora para manter o nível que você gostou tanto.
Eu fiz essa primeira parte sabendo que ela está um pouco “inundada” de personagens, mas achei legal você ter notado isso e mesmo assim gostado da leitura. Como você mesma falou, é uma espécie de quebra-cabeças. Nem todo mundo gosta deste estilo de história, então fico aliviado que você curtiu.
Nos vemos na próxima parte! =)
Oi Marco, aqui vai as minhas impressões dos três primeiros capítulos:
Olá, Marco!
Li até a seção IV. Infelizmente não consegui continuar, mesmo com vontade. Existem textos (não apenas escritos) que exigem uma parada pra assimilação sob o risco de arruinar a experiência e/ou a compreensão. Não sei se foi intencional da sua parte (no caso do meu texto, foi), mas o seu é um desses casos.
Como em todas as demais leituras, em um primeiro momento compartilho apenas a sensação que ficou com a leitura. Análises mais detalhadas virão futuramente, de acordo com o tempo e oportunidade.
Levando isso em consideração, acho que aqui o “leão ainda está enjaulado” (acho que você entende a piada interna rs). Você traz uma narrativa em terreno anglo-saxão, mas é perceptível que o ponto de vista é latino, o que é natural, dada a sua origem. Confesso que isso me incomoda, pois preferia ver algo que soasse mais “natural”. Às vezes parece que você está tão preocupado com a técnica que acaba sacrificando a qualidade da mensagem que você está querendo transmitir na questão do conteúdo em si.
Talvez funcione para uma proposta de entretenimento, mas eu tenho dúvidas se é realmente esse o seu propósito, vide a sua nítida preocupação com a estética do texto.
De todo modo, parabéns pelo trabalho. Você pode ignorar as minhas impressões, pois é só algo imediato que pode mudar em uma segunda leitura. Espero poder voltar em breve.
abraço
Olá. Obrigado pela leitura!
Não foi o meu propósito fazer com que você parasse no meio da leitura para assimilar o texto. A experiência é única para cada leitor, e sinceramente não me importo com a sua abordagem, desde que consiga ler o texto no seu próprio ritmo. Mas se a leitura foi cansativa para você, isso me preocupa. É uma das coisas que sempre tenho medo: escrever de forma que canse o leitor e o faça desistir de prosseguir. Enfim, se foi este o seu caso, por favor me diga!
(nota: desistir de prosseguir com a leitura porque você não se identifica com o texto por gosto pessoal é diferente de desistir por ser uma experiência cansativa. Espero que esteja me fazendo entender).
Sobre a história se passar em terreno “anglo-saxão” mas com “visão latina”, não entendi muito bem onde você quis chegar com isso. Por que o texto é de um “perceptível ponto de vista latino”? Só pelo fato de eu ser brasileiro? Será que se você não soubesse que sou brasileiro, ainda assim acharia que o texto tem um “ponto de vista latino”? Pergunto por curiosidade. Que trechos do texto fazem você achar que ele me denuncia como um latino escrevendo uma história no Reino Unido?
Não me importo muito, na verdade, se assim for interpretado. Existe por aí uma miríade de autores internacionais escrevendo seus próprios pontos de vista sobre diversas culturas (Dan Brown e Liu Cixin, por exemplo). Não acho que a escrita deva se limitar apenas à sua própria vivência e cultura. Não me limito a escrever apenas textos ambientados no Brasil, só por ser brasileiro, nem me limito a expressar apenas a cultura brasileira. Além disso, vivo no Reino Unido há mais de seis anos e acredito ter absorvido uma parte considerável da cultura desse país tão rico e tão antigo. Na verdade, tenho me apaixonado cada vez mais pela cultura daqui, e acho até interessante trazer essa visão para um grupo com textos tão majoritariamente focados na cultura brasileira.
Então realmente, só gostaria de saber o que te faz achar que a escrita é “perceptivelmente de um ponto de vista latino”. Não vejo isso como um ponto negativo, só uma curiosidade. Ou você é daqueles que despreza qualquer literatura que não se passe em terra tupiniquim?
Sobre a literatura ser de entretenimento, eu me repito (já falei isso algumas milhares de vezes no EC): eu nego completamente essa classificação de um texto. Mas sim, se você for do Clube dos Simpatizantes do Anderson, provavelmente irá classificar o meu texto como “literatura de entretenimento” e “inferior”. Não me incomodo muito com isso para dizer a verdade, vocês só não são o meu público-alvo mesmo. Mas acho interessante a sua estranheza quanto à minha técnica:
“Talvez funcione para uma proposta de entretenimento, mas eu tenho dúvidas se é realmente esse o seu propósito, vide a sua nítida preocupação com a estética do texto.“
Por que uma literatura de entretenimento, como vocês gostam de chamar, não poderia ter uma técnica bonita / rebuscada? Achei o apontamento um tanto curioso.
Abraços! Espero que goste do resto da leitura! Mas algo me diz que não vai gostar, rs rs rs.
Olá, Marco! Tudo bem?
I – VI
A melhor coisa aqui é a descrição e o clima de suspense e mistério. Saber o que vai acontecer tirou um pouquinho da surpresa, mas a escrita está tão boa e o clima tão legal que é como se estivesse lendo pela primeira vez.
“A pele da gravidez de Skye no seu rosto, o bebê chutando o veludo.” Não consegui visualizar essa cena, mas acredito que seja intencionalmente sem sentido pra mostrar o quão doido o personagem está…
O capítulo IV foi o mais sinistro até agora, os outros foram mais num tom de suspense, mas esse foi bem doido, e você conseguiu mostrar bem uma mente alucinada.
Gostei bastante do tom de suspense e mistério, e também de vários pontos de vista sendo mostrados, os personagens estão bem desenhados e interessantes, e já estou curiosa para ver onde tudo isso vai levar, imagino que seja um romance de mistério, investigação meio Sherlock Holmes, um tantinho noir, bem legal, até agora!
Por hoje é só, depois volto para ler mais!
Parabéns por ter aceito esse desafio!
Até mais!
Oi Priscila, obrigado pela leitura!
Na frase “A pele da gravidez de Skye no seu rosto, o bebê chutando o veludo” eu tentei descrever uma cena onde Cory recosta o rosto sobre a barriga da namorada grávida… talvez eu tenha sido infeliz. Hahaha!
Geralmente não explico as minhas intenções no que escrevo mas esse será um longo desafio e acho que é uma boa oportunidade de aprender mais com todos vocês, então aí está =)
Que bom que você pegou o clima noir e de mistério. A segunda parte deste texto que eu enviei teve um pouco mais de ação então foge um pouco do suspense inicial, mas não queria perder esse fio, que vou puxar de novo nas próximas partes.
Abração!
Nossa, pensei em algo muito mais mórbido, por causa do sangue, dos corpos, e defuntos, imaginei que ele tinha tirado a pele da barriga dela e feito de máscara, algo assim… 😆 se não era essa a intenção é melhor mexer nessa frase aí 😁
O Jarro | Autor(a): Marco Piscies
Fase de Leitura: I – VIII
I. 📌 SÍNTESE E IMPRESSÕES GERAIS
Uma breve introdução que contextualiza a proposta da obra, o gênero literário e o impacto imediato da leitura.
“O Jarro” (e seus oito primeiros capítulos) apresenta ao leitor uma história de terror extremamente competente, ambientada na sombria Inglaterra. Não sou um dos maiores fãs de terror, mas, pelo menos nesses primeiros instantes, conseguiu captar minha atenção. Bem escrita, bem ambientada. Um trabalho excelente.
II. 🛠️ ANÁLISE DOS ELEMENTOS DE CONSTRUÇÃO (Objetiva)
Avaliação detalhada da técnica, estrutura e engrenagens narrativas utilizadas pelo autor.
1. Arquitetura do Enredo e Ritmo
2. Modelagem de Personagens
3. Estilo e Domínio da Linguagem
III. 🎭 ANÁLISE DA EXPERIÊNCIA DE LEITURA (Subjetiva)
O impacto estético, a imersão e a originalidade da voz autoral.
Esse é um capítulo que me lembrou bastante um projeto que você começou anteriormente aqui no EC. Inclusive, tinha o mesmo esquema, salvo engano, de vários personagens tendo suas jornadas costuradas pelo mesmo modus operandi. Bom, continuando, esse trecho quevocê nos apresentou está a sua a cara, o seu estilo. Um terror no qual a tensão vai se acumulando conforme vamos lendo. Aliado a isso, uma escrita talentosa e competente. Parabéns pelo trabalho!
Aqui mais um ponto positivo: o clima sombrio de Londres é bem construído, assim como a crescente tensão, que transportam o leitor para o universo. Pessoalmente (não leve como uma crítica, mas como um desabafo), gostaria de ver essa história ambientada no BR. Enfim, chatice minha, ignora isso.
Via de regra, eu não sou de ler terror. Então, normalmente, não consumo esse tipo de obra, especialmente se for gore. Entretanto, acho que essa foi a primeira vez que continuei a leitura por livre e espontânea vontade. Repito: a escrita está tão boa, que o leitor vai tocando o barco., cada vez mais instigado pela penumbra narrativa à sua frente.
Parabéns pelo trabalho! Continue assim.
Oi Givago, obrigado pela leitura!
A pluralidade dos personagens desta história realmente é algo que martela na minha cabeça. Pensei em vários momentos cortar alguns, mas a verdade é que essa história nasceu de um jogo de RPG que narrei para um meu grupo, então sempre soava injusto para mim cortar um dos personagens. Cada um deles tem um papel a cumprir aqui, e espero que consiga fazer jus a todos eles.
Eu quase sempre tenho problemas quando inicio a leitura de novos livros de ficção, pois são muitos personagens para aprender, muitos nomes para lembrar, especialmente em fantasia. Então eu já estou acostumado com esse sentimento, e espero que ele vá embora logo nas suas próximas leituras!
PS: aliás, este livro aqui é o meu projeto que você tinha lido no EC. Então você não estava errado, você já leu esse texto antes (mas esta versão agora está bem revisada e mudei algumas coisas, adicionando outras também). Tanto que pedi para o Gustavo tirar ele do ar. Vou terminá-lo por aqui, no desafio de 2026!
Abração!
Poxa, que bom que a minha memória não me traiu desta vez. Abraços!
Olá, Piscies.
Impressões gerais.
É um ótimo romance de terror. A construção em pedaços distintos, usar esse esquema de colcha de retalhos que aos poucos vai fazendo sentido, apresentando diferentes personagens ligados ao convite misterioso para o funeral de Isaac, é instigante, gera curiosidade. O parte de Cory deu a entender em algo sobrenatural, em definitivo, enquanto as anteriores apenas sugeriam tal coisa. A parte final, com o pessoal da NCA e os mortos na mansão no meio da floresta e sua reanimação final ficou realmente muito boa. Lembrou um pouco Clive Barker (um pouco mais elegante e menos sujo que o mestre).
Como são muitos personagens, minha sugestão seria um mínimo que fosse de descrição deles, para ajudar a diferenciá-los. Fora as profissões, o texto não nos oferece muitas pistas sobre isso. Não digo fazer uma ficha de cada um, pois isso é um bocado artifical, mas um tiquinho que fosse. Não formei imagens mentais de nenhum personagem.
Qualidade da escrita
Ortografia, pontuação, etc. O texto está muitíssimo bem escrito. Não passei um pente fino, mas não vi nada para apontar em termos de grafia, concordância, pontuação e tudo mais. A qualidade da escrita, em termos de metáforas, construções de frases memoráveis, descrições, etc., é muito boa e inspirada também. Pequenas coisinhas, como citar os pássaros na cena do massacre, por exemplo, acrescentaram um “molho” bacana ao texto, tornaram a coisa visual e deram um quê de ironia.
Diálogos
Achei todos os diálogos bons, embora eu não goste do formato que usa aspas duplas, típico da língua inglesa. No diálogo com a Tanya no restaurante fiquei com um pouquinho de dificuldade de identificar quem falava o quê. Talvez ficasse bom referenciar isso. Veja o trecho:
“Eu não tive coragem de ir na festa.”
“Então você nunca saiu de Londres?”
“Não. Mas Melina queria a grana então eu deixei ela ir no meu lugar.”
Os personagens ainda eram novos para mim, eu ainda não sabia quem era Melina e Tanya havia acabado de aparecer. Não é erro, veja bem, apenas acho que ficaria melhor adicionar um “- confessou Tanya”, por exemplo. A pergunta sobre se ela saíra de Londres, não sei qual dos dois a fez.
No mais, fico aqui na torcida que a 2a parte não tarde muito.
Abraço!
Oi Rubem, obrigado pela leitura!
Acabei absorvendo o costume dos diálogos com aspas. Leio muita literatura internacional e acho que acabou ficando. Prefiro escrever assim, mesmo.
Sobre o número de personagens: como comentei em outro lugar aqui, o número de personagens deste texto é realmente um ponto fraco, mas não consegui a energia para cortar nenhum. Talvez fosse a melhor decisão, mas agora é tarde. De qualquer forma, a ideia é que eles, com o tempo, se tornem mais distintos uns dos outros, especialmente nos próximos capítulos onde eles terão mais espaço para se desenvolverem.
Eu não costumo fazer descrições físicas a não ser que seja necessário. Mas se você não formou imagem mental nenhuma de nenhum dos personagens, talvez esse seja um ponto que eu deva levar em consideração mesmo. Vou anotar.
Sobre o diálogo e a distinção de quem está falando o que, geralmente eu considero a fluidez da leitura. Prefiro manter o diálogo correndo e evitar escrever “ela disse”, “falou fulano”, “disse sicrano”. No exemplo que você usou, o diálogo era entre Tanya e Finnegan, com ocasionais comentários de George (comentários pontuados por mim, esses sim com artefatos como “disse George”). Não vejo necessidade de pontuar cada pedaço de diálogo, prefiro correr o risco de ser menos claro e deixar o diálogo mais fluido na mente do leitor.
Grande abraço!