I
Samuel escorria na direção do sono. O dia de trabalho na loja de antiguidades havia sido longo. A chuva se lançava fina contra a janela, ritmada como uma canção de ninar.
Quando molhava os pés no primeiro sonho da noite, algo o puxou de volta. Sua mãe separava panelas na cozinha. Logo, lançava legumes na frigideira. Súbito, Samuel abriu os olhos. O coração acelerou. Ouvia o cantarolar distraído da mãe, abafado pelas paredes da casa. Sua mãe, que estava morta há anos.
Levantou-se da cama devagar. Um trovão cruzou o céu e iluminou o quarto por um instante. A escuridão que seguiu pareceu ainda mais densa. Abriu a porta. O canto da mãe tornou-se mais nítido, acompanhado pelo som da faca que descia ritmada contra a tábua de corte.
Samuel ignorou o interruptor no corredor e seguiu andando na escuridão. Os pés descalços o levaram até a escada. Esforçou-se para manter o silêncio. Queria ser invisível. Sentia que aquele momento estava por um fio; um movimento em falso e ele a perderia mais uma vez.
Outro trovão retumbou, e o raio iluminou a sua loja de antiguidades no andar de baixo. As bonecas de porcelana nas prateleiras estavam viradas na direção da cozinha como se admirassem a melodia que vinha de lá.
Desceu o último degrau. Sua mãe agora parecia descascar cenouras. Era estranho que estivesse fazendo tudo aquilo no escuro. Espiou pela esquina com todo o cuidado. Ela não estava lá. Ao invés de legumes na frigideira, o som era o da chuva que o vento soprava para dentro através da janela aberta. O lugar estava vazio, tão solitário como ele nos últimos anos.
Andou até a janela para fechá-la. Surpreendeu-se com o envelope sobre a pia. Era branco, com detalhes finos pintados à mão, e selado à moda antiga, com cera vermelha.
Samuel nunca tinha visto nada parecido com aquilo.
II
A noite estava avançada, e na escuridão do escritório o único nicho de luz era o do monitor do computador que iluminava o rosto de Thomas. A música clássica vazava abafada do headset.
Thomas pesquisava informações sobre mais um caso de desaparecimento em Londres. Os fóruns públicos da internet estavam cheios de teorias conspiratórias sem sentido, e alguns Youtubers um pouco mais sérios só discutiam o óbvio. Ele, por outro lado, fazia parte de um grupo mais seleto, e trocava informações em um fórum privado. Sentia falta de Isaac Danpora. No pouco tempo que o amigo estivera ativo no fórum, sempre trazia excelentes pontos às investigações que faziam. O garoto parecia sempre ter alguma informação que ninguém mais tinha acesso. Porém, há meses ele não aparecia online.
Sentiu a movimentação no andar de baixo da casa sem ter que ouvi-la. Vivia lá há tantos anos que sabia quando havia algo de errado, a casa falava, e ele sabia escutá-la. Retirou o headset. A tempestade do outro lado da janela era tudo o que conseguia ouvir.
“Veronica?”
Nenhuma resposta. Mesmo que já estivesse aposentado, o instinto falou mais alto, incrustrado fundo em seu âmago, treinado por uma vida inteira de trabalho como investigador da Scotland Yard. Abriu a porta do escritório e espiou pelo parapeito da escada. Algo tinha caído no andar de baixo, e ainda fazia um som fugaz, como uma moeda que demora a assentar após cair ao chão. Abriu a porta do quarto devagar. Pela fresta, viu que a esposa dormia tranquila.
Tentou descer as escadas em silêncio, mas se os costumes de investigador ainda estavam vivos na sua memória, o corpo já não era o mesmo. Assim como ele, sua casa em Londres já mostrava os sinais da idade, e os degraus rangiam alto.
A luz da sala estava apagada, mas a luz da lua preenchia o ambiente com uma penumbra sinistra. Tudo era sombras e sugestões. A ventania drapejava as cortinas de uma janela aberta. Um dos descansos de copo que deveria estar sobre a mesa havia caído ao chão – ou teria sido derrubado?
Na penumbra, aquele envelope branco sobre o sofá era destaque, com os detalhes dourados pintados à mão, e o selo de cera vermelha.
Para Thomas, o caso era óbvio: estava diante de uma cena de invasão domiciliar. Restava saber o que havia dentro daquele estranho envelope.
III
Em seu sonho, Edward havia conseguido tirar a maldita foto. Estava há três semanas vigiando aquele idiota, sabia que ele traía a esposa, tinha todas as evidências, mas aquele papel fotográfico nas suas mãos era à prova conclusiva, a última peça do quebra-cabeça. A imagem ia ganhando cor aos poucos. Balançou a fotografia para acelerar a secagem. Edward sorria sem perceber. Finalmente deixaria de receber as ligações diárias da senhora Hammington exigindo urgência.
Quando a foto ganhou um pouco mais de nitidez, Edward notou que estava escura – mais escura do que deveria, mas decidiu esperar mais um pouco antes de se sentir um idiota por ter errado a exposição da lente. O que viu não foi o marido promíscuo da senhora Hammington, mas sim o seu próprio escritório, em uma foto tirada da sua própria mesa de trabalho. A luz vermelha do laboratório dificultava a visão. Na fotografia as luzes do seu escritório estavam apagadas, exceto a luz da luminária sobre a mesa. Havia algo na escuridão. Um vulto, muito parecido com os que tinha visto naquele dia fatídico, anos atrás. Os olhos brancos se abriram. No breu do escritório, na folha de papel fotográfico, o vulto olhava na sua direção.
Edward acordou com a cabeça latejando. Tinha caído no sono novamente sobre a mesa de trabalho. Ergueu o rosto e sentiu um filete de saliva acompanhar o movimento. Esperava que não tivesse estragado os relatórios que usou como travesseiro.
A única fonte de luz no escritório era a sua luminária acesa. O cenário era idêntico ao do sonho do qual acabava de acordar. Edward apertou os olhos e fixou-se na escuridão do cômodo. De fato, como no sonho, havia algo no escritório com ele. Estava bem ali no limiar da penumbra, onde a luz da luminária acabava e a escuridão começava. Uma sombra no escuro, perfeitamente imóvel, como uma fotografia mal revelada. Se forçasse a imaginação, podia determinar pequeninos braços e pernas, e dedos.
Coçou os olhos. O movimento lembrou-o da ressaca lancinante. Abriu uma gaveta na escrivaninha e encontrou o cantil de aço, sentindo o resto de whisky dançar no fundo. Então, sem pensar duas vezes, jogou a coisa na lixeira. Olhou adiante novamente. O vulto ainda estava ali, imóvel, pequeno, como uma criança surpreendida durante uma travessura. Não, ainda menor. Como um gnomo de jardim escondido bem no limiar de onde a vista alcançava.
A princípio descartou a coisa como um jogo de imagens criado pela pouca iluminação – com toques da ressaca como a cereja do bolo. Porém, quanto mais olhava para a coisa, mais achava que havia algo de errado. Estava fixado na imagem. Sem tirar os olhos dela, alcançou a fiel Canon AE-1 com uma das mãos. Era uma máquina antiga, mas tão costumeira que não precisava desviar o olhar para ajustá-la. Clicou. O obturador rangeu. A foto estava tirada.
Saltou até o interruptor e acendeu a luz. Apenas seu velho escritório, com o estalar constante das tubulações de aquecimento que remontavam à era vitoriana, os quadros baratos pendurados nas paredes, e o cabideiro ao lado da porta, sempre segurando ao menos um dos seus dois sobretudos.
Edward não sabia se estava aliviado ou frustrado. Há anos buscava por alguma experiência paranormal, mas nunca havia encontrado nada que o satisfizesse. Nada que respondesse suas perguntas. Tudo o que via eram sombras projetadas pelo whisky.
Voltou a se sentar, e dessa vez sentiu uma vontade imediata de terminar de beber o whisky no cantil. Olhou para a lixeira. Sentiu-se observado, com a certeza de que alguém seguia seus movimentos. Olhou para frente novamente. A única outra cadeira no lugar, reservada para os seus clientes, julgava-o, vazia.
“O que foi?”
A cadeira escolheu manter o silêncio debochado.
Foi só então que Edward notou o envelope no chão. Era branco, e estava selado com cera vermelha. Suas cores o destacavam das tábuas escuras, tanto que não entendeu como não o havia notado antes. Andou até ele. O chão rangeu com os seus passos – os sons de um escritório centenário. Pegou o envelope. Os detalhes dourados no papel pareciam feitos à mão. Seu nome estava escrito no verso.
“A Edward Basser,
um convite inoportuno”
Procurou nas gavetas um abridor de cartas – sabia que tinha uma tranqueira daquelas em algum lugar – mas não encontrou.
Decidiu abrir o envelope com as próprias mãos.
IV
Cory acelerou e ultrapassou o último sinal vermelho. A chuva lavava o sangue no seu corpo. A água escorria vermelha e encontrava o cano de escape da moto, quente como as chamas do inferno, então virava vapor e era levada pelo vento. Enquanto mantinha um punho girado no acelerador, Cory tentou ligar mais uma vez para Isaac Danpora. O telefone tocou e tocou e tocou, mas ninguém atendeu. Precisava de ajuda. Queria que aquele vento que batia em seu rosto levasse embora também a sua angústia. Mas não importava o quanto acelerasse, os pensamentos continuavam lá, misturados aos poucos fragmentos de memória que permaneciam, como se um demônio o atormentasse e o permitisse lembrar apenas o suficiente para que o terror tomasse conta da sua alma.
Skye, seu sorriso, o vestido branco dançando com o vento.
Todas aquelas pessoas mortas. As máscaras cobrindo os rostos defuntos.
A pele da gravidez de Skye no seu rosto, o bebê chutando o veludo.
O sangue que impregnava tudo. O chão, as paredes, suas mãos. Tudo.
A plateia morta gritando o seu nome. Cory, The beast. The beast.
The Beast.
Gritou, mas a ventania e a chuva engoliram a sua voz. Pouco tempo depois, chegou à garagem que chamava de lar.
Demorou para encontrar as chaves: as mãos tremiam. Abriu a porta de correr, empurrou a moto para dentro, e fechou o lugar com um estrondo metálico. Apertou o interruptor, mas a luz não respondeu. Lembrou-se que haviam cortado a energia por falta de pagamento. Arrastou o corpo encharcado até um canto onde a luz da lua se fazia notar desbotada. A anatomia musculosa e rígida não condizia com o caminhar zumbificado. Escorreu o corpo pela parede e sentou-se no chão. Pegou o celular, querendo encontrar o contato de Skye, mas a água havia danificado a tela touchscreen e agora os gestos não funcionavam.
Chorou. Os soluços o ninaram devagar, até cair em um sono profundo.
Acordou com o toque do telefone. No aparelho, Skye sorria para ele, exatamente como a eternizou naquela foto tirada há três anos. Atendeu.
“Por que você continua me ligando?”, falou a voz de Skye. Cory não soube responder. Estava feliz apenas de ouvi-la.
“Cory?”
“Eu…”
“Você não fez merda de novo, fez?”
“Não sei. Acho que não…”
Tudo estava acontecendo rápido demais. Skye havia desaparecido há meses. Ele foi o principal suspeito por muito tempo, a polícia havia cansado de interrogá-lo, e ele, cansado de estar preso no próprio corpo e na própria culpa. Procurou-a em cada canto de Londres, cada clube e hotel. Buscou seu corpo nos necrotérios. Nada. E agora ela sorria para ele na palma de sua mão, mas a voz era como uma faca a perfurá-lo.
“Cory, quer saber? Já chega. Eu vou aí agora buscar o Simon.”
“Simon?”
“Seu filho, Cory. Meu filho. Toma jeito, se recompõe. Toma um banho gelado. E arruma o Simon. Chego aí em dez minutos.”
“Meu… filho?”
Então os rumores eram verdade. Skye estava grávida antes de desaparecer. Mas por que ele não se lembrava de nada?
“Cory… o Simon está aí com você, não está? Cory?”
A voz de Skye tornou-se um eco distante. Ele ainda digeria a recém-descoberta paternidade. Nas janelas altas da garagem a noite persistia, mas a chuva havia cessado. Havia dormido poucas horas, ou muitos dias?
Notou o lodo no chão logo à frente. Apesar da pouca luz, a lua revelou que eram pegadas. Suas pegadas. Ele não lembrava delas. Não lembrava de muita coisa ultimamente.
“Cory? Onde está meu filho, Cory? Abre a boca, sua besta. Seu animal. Cadê meu filho?”
Ele deixou Skye no chão. Sua voz era agora como uma lembrança da qual não queria recordar. Levantou-se. O corpo todo doía, especialmente as pernas e o peito, que gritavam. Seguiu as pegadas. O rastro de lama o levou até a saída dos fundos da garagem, uma porta simples de metal que abria para o campo de futebol comunitário. Uma pá enlameada descansava na parede ao lado. Cory girou a maçaneta. A porta rangeu.
Poucos passos adiante, no gramado, viu um pequeno monte de terra, como se alguém houvesse enterrado ali um animal de estimação. Ou uma criança.
Jogou-se sobre o monte de terra, cavando com as mãos o solo molhado. Ainda conseguia ouvir a voz de Skye perguntando pelo filho, ecoando em sua mente naquele tom digital filtrado pelo alto-falante. Sentiu pedras e raízes machucarem as mãos, mas a dor apenas o fez cavar com mais afinco. Até que encontrou.
Um envelope imaculado pela terra, perfeitamente branco, com detalhes dourados, selado com cera vermelha. Dentro, um convite.
Meu querido amigo. Se você está lendo esta carta, eu não estou mais no reino dos vivos.
Meu enterro será em Bishopstone, Sussex, no dia 19 de Setembro, na Igreja de Santo André às 10:00.
É muito importante para mim que você compareça, para que possamos nos ver uma última vez.
Seu eterno amigo,
Isaac Danpora
O convite tremia em suas mãos. Sabia que as alucinações haviam ido longe demais daquela vez, e que tinha que fazer algo a respeito, mas seus dois únicos confidentes naquele mundo não estavam mais ali. Seu coração estava quebrado, partido em dois lutos.
Simon. O nome do seu filho veio como um soco através das memórias quebradiças. Para tentar encontrar um fio da realidade e entender onde estava, voltou para a garagem e achou o celular no chão. Seu histórico de ligações não acusava nenhum contato recente de Skye. A data na tela, porém, chamou a atenção: dezoito de setembro. A festa havia acontecido há seis dias. Não era a primeira vez que vivenciava perda de tempo, mas nunca havia perdido seis dias seguidos.
Como se a realização moldasse a realidade, sentiu fome, e a garganta queimou. Bebeu dois copos de água da torneira. Na geladeira, desligada pela falta de luz, a maior parte da comida havia estragado. Encontrou um pacote de salgados ainda fechado no armário e o devorou, empurrando tudo para baixo com mais água.
Seis dias. Certamente deveria estar morto agora. Não conseguia pensar em uma explicação, mas já há algum tempo não conseguia explicar muito do que acontecia em sua vida.
Cory vestiu a jaqueta e pegou o capacete. As feridas nos punhos já cicatrizavam. Olhou-se no espelho: hematomas e cortes, e uma expressão sombria. Montou na moto e buscou por Bishopstone no celular. Parecia a única coisa a ser feita agora, como se estivesse sentado na arquibancada e assistisse a sua vida ser ditada por um convite e um traço de esperança. Sentiu o peito apertar, mas as lágrimas não vieram.
Com um pisão a moto roncou, e ele acelerou.
V
Samuel não conseguiu voltar a dormir. Cada tentativa de fechar os olhos era frustrada por um som diferente. Algo na cozinha. Passos na loja no andar de baixo. Vozes que poderiam ser o vento, sombras projetadas na parede.
O sol mal nascia quando ele se levantou e encheu uma mochila com algumas mudas de roupa e outros itens essenciais. Desceu e, sem pensar muito no que fazia, foi direto para a estação de trem mais próxima. Não encontrou passagens para Bishopstone: o lugar não tinha estação ferroviária local. Ao invés disso, comprou uma passagem para Brighton, que era a cidade mais próxima. Foi até um Starbucks e comprou um café, e segurou o copo com as duas mãos para esquentar o corpo.
Na rua onde morava, a cidade ainda acordava. Uma placa rústica balançava contra o vento, as juntas de ferro rangendo sobre a porta da sua loja de antiguidades. Na madeira, o nome talhado balançava: Orbuculum. Enquanto esperava a condução chegar, Samuel lembrou-se do seu primeiro encontro com Isaac há dois anos, quando o jovem entrou na loja e fez soar o sino. O garoto imediatamente se enamorou da bola de cristal que descansava sobre uma almofada em um canto da loja há gerações. Era o item mais caro e mais chamativo do lugar, e ele a comprou no primeiro dia em que pôs os pés ali. Disse que sentia uma energia benigna que emanava da esfera. Seguiu-se uma longa conversa. Isaac Danpora sabia de tantas coisas sobre misticismo que até mesmo Samuel, considerando-se um especialista no ramo, ficou assombrado. A amizade entre os dois floresceu fácil. E agora, ele ia para o seu enterro. Sentiu o coração apertar. Bebeu um pouco mais de café.
Na vitrine da loja, longe dali, as bonecas de porcelana assistiam os transeuntes na rua. Na maçaneta da porta, uma placa: “fechado”.
VI
O relógio na parede da sala marcou a meia-noite e Thomas ainda estava sentado no sofá, com as luzes apagadas e o convite nas mãos. A iluminação pública invadia o ambiente apenas o suficiente para que ele pudesse ler e reler o texto no papel.
Por instinto, não havia fechado a janela, como se ela agora fizesse parte de uma cena criminosa. Minutos atrás ele havia recuperado a filmagem da câmera externa da sua casa, e o vídeo só o deixou mais confuso. Fosse quem fosse a pessoa que realizou aquela pegadinha, sabia o que estava fazendo. Havia um espaço em branco na filmagem; o equipamento parou de funcionar justamente quando o arrombamento aconteceu. Em um momento a câmera capturava o exterior da sua casa, a noite chuvosa e monótona típica de Londres. Então, estática. Quando o aparelho voltou a funcionar a janela da sala já estava aberta e o ato consumado.
O que o intrigou não foi a falha no aparelho – era de se esperar que um criminoso experiente soubesse neutralizar uma câmera simples. O que realmente o deixava com a pulga atrás da orelha era que, pouco antes da falha, a câmera havia capturado alguma coisa. Um vulto; uma sombra de algo se aproximando, mas a aproximação vinha de cima, do telhado, e ele não conseguia imaginar alguém rápido o suficiente para descer daquela altura, abrir a janela trancada, deixar o bilhete sobre o sofá e sair em tão poucos segundos. A não ser que tivessem agido em grupo. Mas, se fosse o caso, para que tanto esforço apenas para entregar o convite para um funeral?
O caso era estranho demais para não ser dividido com Edward, seu amigo do fórum online de atividades paranormais. De qualquer forma, Edward era tão amigo de Isaac quanto ele, e se o convite fosse verdade, ele merecia saber da notícia. Como a noite já estava avançada demais, decidiu enviar apenas uma mensagem de texto. Quando pegou o telefone, porém, notou uma chamada não atendida do próprio Edward. Thomas estivera mergulhado demais nas próprias reflexões para ter notado as vibrações do celular.
Em seu escritório, o mundo de Edward foi pintado de vermelho por alguns minutos. A cena e o processo eram lugar-comum para ele. Revelar fotos era um misto de terapia e hobby. A luz vermelha mal iluminava, como a noite banhada por uma lua de sangue.
Sequer havia tentado dormir naquela noite. Sabia que não conseguiria, não após ter lido o convite. Como Thomas não havia atendido a sua ligação – provavelmente porque já estaria dormindo – dedicou-se a revelar a foto que havia tirado antes.
O telefone tocou no escritório. No papel fotográfico, a imagem ainda ganhava nitidez. Deixou o processo seguir naturalmente e foi atender a ligação. Era Thomas, retornando à sua chamada de quase uma hora atrás. Em poucos minutos os amigos atualizaram um ao outro sobre os acontecimentos daquela noite. A dupla de investigadores digeriu os fatos em silêncio. Pela janela do escritório, Edward observava o gotejar constante da água da chuva que já não caía mais, escorrendo pelo topo das coisas.
“Acha que essa carta é verdade?”
“Eu não entendo por que todo esse esforço para entregar um convite de funeral.”
“Uma brincadeira dele, então? Isaac nunca foi de pregar peças assim. Ele some por seis meses e volta com uma pegadinha?”
“Não sei. Pode ser uma armadilha, também. Alguma espécie de esquema elaborado para nos levar para algum lugar isolado. O modus operandi é comum: a carta é urgente, faz que tomemos decisões precipitadas.”
“Armadilha? Acha que estão tentando nos sequestrar?”
“Não sei. Pelo que conversamos no fórum, já passei um tempo suspeitando que tentariam alguma coisa contra nós. Mas hoje em dia não temos investigado nada do tipo. Tudo está muito estranho.”
Thomas afundou no sofá da sala. Sentia o corpo tão pesado quanto a mente. No andar de cima, Veronica abriu a porta do quarto e desceu as escadas. A esposa olhou-o com a expressão confusa de quem ainda tenta absorver o mundo ao acordar.
“Thomas? Está tudo bem?”
Ele colocou a ligação no “mudo”.
“Está sim, amor. Estou no telefone com o Ed.”
“Aconteceu alguma coisa?”
“Não, não. Está tudo bem”
Veronica foi até a cozinha beber um pouco de água, então retornou ao quarto. Thomas retomou a conversa.
“Mas e se for verdade?”, falou Edward. “É do Isaac que estamos falando aqui.”
“Você está certo. Não sei se o convite é verdade, mas o que você descreveu, e o que eu presenciei, não são casos comuns. Estivemos procurando coisas assim as nossas vidas inteiras. Agora que nos confrontamos com o demônio, não podemos vacilar.”
“Então você vai?”
“Vou.”
“Eu diria que é perigoso irmos juntos, mas eu não vou deixar você ir sozinho. E, se for tudo verdade, preciso estar lá para dar minhas condolências à família.”
“Te busco amanhã de manhã, então?”
“Fechado.”
Thomas desligou o telefone com mais perguntas do que respostas. Levantou-se em um movimento afoito demais, e as costas reclamaram. Andou a passos lentos até a garagem, deixando a dor passar. Encontrou um dos seus muitos kits que ainda guardava mesmo após a aposentadoria. Pegou o pó prateado e foi até a sala coletar digitais. Queria passar na Scotland Yard antes da viagem no dia seguinte, cobrar alguns favores que ainda podiam ser cobrados.
Por mais que tentasse, porém, não encontrou digital alguma. A janela, o sofá, o envelope: todos estavam incólumes. Estava lidando com um profissional – ou algo sobrenatural. Para adicionar à crescente lista de mistérios, o pó prateado, apesar de não ter ajudado com as digitais, reagiu com outras partículas, destacando o que parecia ser uma camada de pó finíssimo, semitranslúcido, como um rastro de poeira peculiar que o meliante havia deixado para trás, traçando um claro caminho da janela ao sofá, e então voltando à janela. Ele não fazia ideia do que era aquilo, mas coletou o material mesmo assim. Alguém nos laboratórios da Scotland Yard saberia informá-lo.
Ao desligar o telefone, Edward voltou ao laboratório mergulhado em vermelho. A foto estava pronta. Nela, uma mão magra e de pele cinzenta, com os dedos alongados e afiados, nascia da escuridão e ajeitava, com cuidado, seu convite no chão.
VII
Vista de cima, Londres era uma planície de metal, o Tâmisa entre prédios e pontes captando a luz do sol em manchas que cintilavam como um milhão de diamantes. Finnegan olhava pela janela do topo do The Shard, e a vista ajudava a acalmar a aflição. Sentia-se um deus olhando curioso das nuvens o mar de gente e seus cotidianos absurdos, cada um o próprio Sísifo, dali apenas imaginação. Não eram sequer pontos na paisagem, eram apenas sugestão. Mas sabia que estavam lá e queria ter igual certeza quando pensava sobre o paradeiro dos pais. Queria saber que estavam em algum lugar de Londres, talvez presos, talvez em sofrimento, mas vivos. Queria certeza, mas só conseguia esperança.
Estava em outro beco sem saída. Os arquivos confidenciais espalhados na mesa do café eram o resultado de meses de pesquisa, mas não levavam a lugar algum. Isaac Danpora, na foto do perfil oficial da National Crime Agency, olhava-o em preto-e-branco, pedindo que continuasse, que buscasse respostas.
Espreguiçou-se. Olhou para longe novamente, como se o horizonte pudesse ajudá-lo. Um garçom serviu a segunda xícara de café daquela manhã. Finnegan gostava do lugar porque era silencioso e pouco invasivo. Ninguém tentava puxar assunto, nenhum curioso esticava os olhos para espiar o seu trabalho. As mesas ao redor estavam vazias. Eram apenas ele e os arquivos, e todas as perguntas não respondidas.
Tamborilou a caneta na mesa. Passeou o olhar pelos documentos. Alguém na cozinha lançou carne em óleo quente, e o som efervescente lembrou-o da sua mãe. Uma das chefs mais renomadas de Londres, desaparecida há dois anos. Se fosse alguém diferente, choraria. Mas a sua natureza transformava luto em fervor.
O celular tocou. Era George.
“Temos uma nova pista”, falou o amigo da NCA.
“Desembucha.”
“Tanya voltou. Quer nos encontrar no Chaopraya. Hoje.”
“Tanya? Sério?”
“Yup. Às vezes os deuses estão do nosso lado, Finn. Ou o que quer que esteja nos acompanhando nesse caso. Me encontra no escritório às um-meia-zero-zero para o briefing.“
Finnegan juntou o material espalhado em uma pasta. Pagou a conta e desceu de elevador para a garagem. Dentro do Audi Q8, jogou a pasta de arquivos no porta-luvas, ao lado da sua Desert Eagle. Acelerou.
No escritório da NCA, o briefing foi simples: Tanya havia ligado para o número protegido e pedido uma conversa olho-no-olho, e o restaurante tailandês foi o lugar escolhido. A informante parecia nervosa. Dois agentes foram enviados para o restaurante à paisana alguns minutos antes, com a missão de encontrar algum ângulo na situação que havia passado desapercebido pelo time. Apesar de todos os fatos sugerirem que aquele seria um contato simples, nada era trivial quando recebiam uma ligação do mundo dos mortos.
Finnegan e George subiam o elevador do prédio comercial em silêncio. Apesar da robustez, o terno vestia Finnegan como se fosse extensão da própria pele. George parecia desconfortável com qualquer indumentária que não fosse equipamento de guerra. As caixas de som tocavam música clássica. George testou a escuta escondida no terno; tudo funcionava bem.
“Você fala?”, perguntou Finnegan.
“Mete bala você. Ela vai mais com a sua cara.”
“É difícil nascer bonito.”
“Cala a boca.”
A porta do elevador se abriu, e a música clássica deu lugar ao jazz que escapava do salão principal do restaurante. Duas recepcionistas os aliviaram de seus sobretudos.
O Chaopraya era um lugar típico daquele lado de Londres, onde os números no cardápio falavam mais sobre o ambiente do que sobre a comida. A música à meia-luz tecia uma atmosfera intimista. Tanya os esperava um pouco mais isolada do resto dos assentos, e apenas a chama da vela singular no centro da mesa iluminava trêmula a sua fronte.
Finnegan sabia que tudo o que via em Tanya era falso. Os lábios, os seios, a cor do cabelo, a cor dos olhos. Era o tipo de mulher que sugeria simplicidade, mas quanto mais de perto olhasse, mais complexa se tornava. Naquela noite ela se apresentava jovem e inocente, com ares de inexperiência, brincando com um copo de bebida que havia esvaziado antes que chegassem. O cabelo caía sobre parte do rosto como um véu.
“Sentiram a minha falta, cavalheiros?”
Sentaram-se diante dela. George manteve o silêncio. Vez ou outra olhava ao redor, procurando qualquer coisa fora do lugar. Notou os dois agentes à paisana em mesas opostas.
“Você sumiu. Achamos que o pior tinha acontecido”, disse Finnegan.
“Ficaram preocupados?”
“Tanya. A esta altura já tínhamos agentes procurando o seu corpo no Tâmisa. Ficamos em alerta por horas, um setor inteiro esperando o seu contato. Fizemos uma força-tarefa para te encontrar nas ruas.”
A modelo não o olhava nos olhos. Tamborilava as unhas na mesa. O garçom se aproximou, e George pediu bebidas para todos, incluindo uma nova dose do que quer que ela estivesse tomando. Tanya esperou que o garçom se afastasse.
“Eu não tive coragem de ir na festa.”
“Então você nunca saiu de Londres?”
“Não. Mas Melina queria a grana então eu deixei ela ir no meu lugar.”
“Perdoa o meu francês”, falou George. “Mas o que caralhos você achou que podia acontecer? A gente tinha um time inteiro te dando cobertura.”
Tanya girava o copo vazio na mão, mas os olhos perscrutavam o salão. Finnegan captou seu rosto em um ângulo diferente. Havia algo de errado com o olho que ela cobria com o cabelo. Ele esticou o braço e tocou a mecha. Ela enrijeceu, mas permitiu que continuasse. Havia um corte no supercílio e uma roxidão recente.
“Não é nada. Eu tinha que voltar a trabalhar. Tenho que pagar as contas.”
“Cliente?”
“Você sabe que não. Emmet. Ele não gostou que eu troquei de lugar com a Melina sem avisar. Mas já falei que não é nada.”
O garçom se aproximou novamente e Tanya voltou a mascarar o rosto por trás das mechas louras. Três copos foram servidos sobre a mesa. Seu copo vazio foi retirado.
“Então, quer contar a história para nós?”, falou Finnegan.
“Eu falei pra vocês. Eu vivo falando que essas pessoas são perigosas. Não no sentido normal da coisa. Eu reconheço gente violenta ou com más intenções, quando vejo. Dá pra notar. Mas essa gente é perigosa de outro jeito. Não sei se vocês iam conseguir me ajudar, se eu realmente precisasse de ajuda.”
Em uma sala de operações da NCA, no discreto setor de Casos Especiais, um pequeno time monitorava a cena, ouvindo cada palavra captada pelos microfones da dupla. Tanya bebericou um pouco do dry martini.
“Quando eu vi a quantidade de meninas que o Emmet tava mandando… era alguma coisa grande. E evento grande, pra esse pessoal, não sei não. Quero distância.”
“Nós sabíamos que o evento seria grande. Por isso toda a operação. Era a nossa chance de pegar os caras com a boca na botija. Por isso te enchemos de escutas. Você estava com um GPS. Equipamentos caros que você jogou fora em uma lixeira.”
Finnegan respirou fundo. Não estava ali para reclamar. Tanya o olhava com ares de criança que sabe que fez malcriação.
“O que você achou que ia acontecer nesse evento, que te apavorou tanto?”
“Sei lá. Sacrifício humano? Eu sei lá que porra que eles fazem.”
Ela bebeu o resto do martini de uma só vez.
“Você chamou a gente aqui só para isso?”, falou George. “Só para dizer que tá viva e repetir o que a gente já sabe?”
A modelo abriu a bolsa e pegou o celular. Ao fundo, o saxofone introduzia uma nova melodia. Risadas, conversas e o tilintar de taças acompanhavam a música enquanto Tanya tocava a tela do aparelho, procurando algo.
“Aqui”, virou a tela para eles. Era o mapa de Londres, com o zoom focado em uma área montanhosa. Um marcador indicava um ponto de interesse, em um vale no meio de uma reserva florestal. A modelo olhava para a tela como se fitasse uma certidão de óbito.
“Antes de Melina ir, eu pedi pra ela dividir a localização comigo. Esse foi o último lugar que eu peguei.”
George tirou uma foto da tela com o próprio celular. Então pediu as coordenadas, que ela ditou, número por número.
“Ela não voltou?”, perguntou Finnegan.
“Eu ainda não vi nenhuma das meninas que foram pra festa depois daquele dia.”
“É por isso que você está com tanto medo?”
“Eu não sei se eles têm meu nome escrito em algum lugar, se eles tavam esperando me ver e viram a Melina, e agora tão me procurando por aí. Emmet fala que isso não faz sentido, que ele não dá lista de nomes pra ninguém, mas sei lá. Vai que o diabo falou meu nome pra eles.”
“Você sabe que pode pedir custódia protetiva se quiser.”
“Eu tô pensando em sair da cidade por um tempo. Tenho um lugar pra ficar em Manchester.”
“Manchester não é exatamente longe daqui.”
“Porra, Finnegan, se você não tiver um lugarzinho na Irlanda pra mim, Manchester é o mais longe que eu consigo ir e ainda ganhar um trocado.”
“O lugar é uma hora e meia de carro daqui”, falou George, referindo-se ao mapa que Tanya havia fornecido.
“Por favor, me diz que vocês vão lá procurar a Melina.”
“Nós vamos.”
“Então me liga quando encontrarem ela.”
A modelo se levantou. O vestido elegante acompanhava as curvas do seu corpo, mostrando muito e revelando pouco. Tanya estava vestida para o trabalho.
“Eu tenho que ir agora.”
“A gente entra em contato”, falou George.
Ela anuiu. Finnegan segurou o seu braço.
“Fala pro Emmet que da próxima vez que ele fizer isso com você, ele é um homem morto.”
Ela abriu um sorriso amuado, beijou-o no rosto, e partiu.
Com a modelo fora do cenário, o lugar assumiu outra atmosfera. Finnegan estava agora sentado em uma mesa de restaurante, não em uma mesa de trabalho. Ele mudou de assento e foi para o outro lado, onde ela antes havia sentado, para conversar com George de frente. Deixou escapar um suspiro cansado.
“Sério? Emmet é um homem morto?”, falou George, soltando uma risada. “Ouviram isso? Mister Finn está fazendo aulas com o Denzel Washington agora.”
Na escuta, a equipe soltou risadas. O próprio Finnegan riu. Os agentes à paisana pagaram as suas contas e se retiraram, a equipe foi dispensada, e as escutas desligadas.
“Vai comer alguma coisa?”, falou George.
“A NCA está pagando?”
“Como se isso fizesse diferença.”
“Faz diferença no whisky que eu vou pedir.”
“Agora você falou a minha língua.”
Passaram o resto da noite digerindo o que havia acontecido, e preparando os próximos passos da operação.
VIII
Sentados em bancos de metal no baú da van, Finnegan, George e outros quatro agentes sacudiam com cada solavanco do automóvel. Há alguns minutos haviam abandonado a rodovia, e agora seguiam por uma estrada de terra, subindo a encosta da montanha por um caminho serpenteante. Revisavam seus equipamentos: pistolas e munição, coletes a prova de balas feitos com malhas-de-faraday, equipamento de observação e pequenas bolsas de couro cheias de sal. Não carregavam armamento pesado. O objetivo naquela manhã era coletar informações e recolher as evidências que George precisava para que o Departamento de Casos Especiais enviasse uma unidade de invasão tática.
Do assento de passageiros, Samantha abriu a portinhola na parede.
“Dez minutos, meninos.”
A van chacoalhou vigorosamente: estavam agora fora da estrada, e mesmo que a motorista mal pisasse no acelerador, o solo desnivelado forçava-os a se segurarem em seus bancos. Assim que o automóvel parou, Finnegan abriu a porta traseira e foi o primeiro a saltar.
Os coturnos encontraram solo macio. O outono mal havia começado, mas algumas árvores já se despiam em um tapete de folhas douradas. A brisa soprava gelada, e o céu, parcialmente coberto pela folhagem, era de um cinza sinistro. Os outros cinco agentes desceram da van. Acostumavam-se com a atmosfera do lugar em um silêncio tenso. Até mesmo Karen, a jovem motorista do grupo, desceu do automóvel sem o sorriso típico no rosto.
George reuniu todos em um círculo. O mapa no aparelho que segurava indicava a última localização de Melina. Era o endereço de uma mansão construída há um quilômetro e meio dali, longe da civilização, em terras ignoradas pelas cidades para que bilionários pudessem aproveitar o anonimato. Era uma coisa centenária, opulenta, e que havia sido comprada há sete anos por uma empresa ligada ao grupo que investigavam há meses. Um aglomerado de gente sem nome e sem rosto, cuja existência era apenas inferência e conjectura, mas que pareciam com os desaparecimentos recentes.
Todos sabiam das suas instruções, mas George fez questão de revisá-las em um minuto: Karen e Samantha permaneceriam na van, monitorando os arredores e acompanhando-os pelo feed de vídeo e som. Os outros seis seguiriam em duplas: Nick e Scott para a entrada traseira da mansão, Lucas e Anton para a entrada frontal. George e Finnegan subiriam uma elevação próxima para analisar a propriedade de um ângulo mais favorável.
“Vocês me escutaram, né? Estamos coletando evidências. Eu quero fotos, vídeos, espectrograma completo. Não esqueçam das lentes ultravioleta. No geral, a prioridade hoje é não sermos vistos. Não assumam riscos desnecessários e notifiquem o grupo de qualquer atividade. Se não se sentirem seguros, recuem. Eu quero sair daqui com o meu time inteiro e um mandato garantido, sem ter que preencher nenhum formulário de disparo, entenderam?”
As duplas seguiram os seus caminhos e avançaram pela floresta em passos cuidadosos.
George e Finnegan eram os únicos ali com histórico militar. Caminhavam em sincronia, predadores que não precisavam de uniforme camuflado para ativar os instintos refinados por anos de treinamento. A caminhada até o topo da elevação foi silenciosa e eficiente. Para Finnegan, a situação era terapêutica. Pelas próximas horas, tinha carta branca para relegar ao segundo plano todos os outros problemas da sua vida pessoal.
Alcançaram o ponto de observação no tempo esperado, antes dos outros agentes chegarem às suas posições. Encontraram uma área com vegetação rasteira e se deitaram de bruços. No céu as nuvens corriam rápidas, nunca deixando o sol brilhar por entre as camadas de algodão cinza. George monitorava o time pelo GPS, então Finnegan foi quem pegou o binóculo.
A mansão misturava-se bem com a mata que a cercava. Apesar dos muros altos, as árvores dentro do terreno da propriedade eram como uma extensão da floresta. Era um amplo monolito vitoriano, com os seus milhares de detalhes intrincados, torres cilíndricas com pontas cônicas voltadas para o céu, um número estrondoso de janelas, tudo coberto por tons de cores frias. Havia um ar de ancianidade no lugar. Mesmo com a tinta aparentemente nova, a casa transmitia a imponência de quem existia há séculos.
“Guarita no portão principal. Muitos carros estacionados, a maioria de luxo. Parecem civis. Ninguém na frente. Duas câmeras no portão frontal, cobrindo ao menos cento e vinte graus”. O time confirmou, e Finnegan prosseguiu: “Entrada de serviço nos fundos. Câmera no portão, olhando para Sudeste. Há um jardim, mas não vejo ninguém. Porta dos fundos com uma única câmera pegando um ângulo amplo do terreno”.
O time confirmou novamente. Tendo coberto os pontos mais urgentes, Finnegan analisou o resto do cenário.
“O lugar está vazio”, falou, fora do rádio.
“Você não falou que tinha carros estacionados?”
“Sim, mas não tem ninguém em nenhuma janela. Nenhum guarda. Nenhum filhinho de papai fumando maconha no jardim. Espera. Tem alguém na porta da frente.”
“Guarda?”
A entrada principal da mansão era digna de filmes de época. Uma fonte de água talhada em pedra branca adornava a passagem de carros. Poucos metros adiante, um breve lance de escadas terminava em uma volumosa porta dupla de madeira maciça. Uma das bandas da porta estava entreaberta, e o corpo de um homem se projetava para fora, no chão, com o braço estendido adiante como se tentasse escapar do lugar, congelado no tempo.
“Finnegan?”
“Ele está morto.”
“Quem?”
Passou o binóculo para o amigo. George soltou um grunhido ao avistar a cena. A floresta farfalhava com a ventania. No rádio, os agentes confirmaram suas posições e iniciaram o trabalho. George e Finnegan não precisavam trocar palavras para endereçarem a pergunta que pairava no ar. Os segundos que George levou para tomar alguma ação se arrastaram. Ele pegou o rádio.
“Mudança de postura. Possível ambiente hostil e possível homicídio. Há um corpo na porta principal. Samantha, eu preciso de uma permissão para entrar.”
A chefe de comunicações levou um momento para responder.
“Ok, me dá um minuto.”
No rádio, Anton confirmou que tinha visual do corpo avistado por Finnegan. Os agentes mais próximos da mansão ficaram a postos.
“Vamos entrar, então?”, falou Finnegan, pronto para se levantar.
“Calma.”
Aguardou em silêncio. A espera pelo retorno da permissão foi um desafio de autocontrole. Os pássaros sentiram-se corajosos o suficiente para retornarem aos seus postos sobre os galhos das árvores, e agora cantavam como se os instigassem a prosseguir.
“Temos permissão com restrição de não-engajamento”, falou a voz de Samantha, misturada à estática. “Duas unidades de reforço estão a caminho.”
“Vocês ouviram”, falou George. “Sem engajamento. Recuem ao primeiro sinal de antagonismo. Nick, Scott, entrem pelos fundos e nos alcancem na entrada principal.”
“Há muitas janelas aqui, George”, respondeu Scott no rádio, o sotaque escocês diferenciando-o do resto da equipe inglesa. “E o jardim é muito amplo. Seremos alvos fáceis.”
“Então circulem a casa e nos encontrem no portão principal. Eu e Finn vamos entrar com vocês.”
Levaram quinze minutos para se reunirem próximos ao portão principal, ainda encobertos pela mata alta. Havia menos janelas naquela face da mansão, e cobertura ampla para avançarem devagar, caso encontrassem problemas. Assim que chegaram, Lucas os atualizou.
“Nenhum movimento. O portão principal está aberto.”
“Aberto?”
“É mecânico, com retorno hidráulico”, falou Finnegan, que analisou a passagem de longe. “Vê como as duas bandas não encostam uma na outra? Alguém forçou o portão para fora, e o sistema hidráulico ficou comprometido.”
Estavam prontos para entrar. Finnegan pediu que o time aguardasse e avançou primeiro. Seguiu agachado. Forçou o portão, que cedeu com facilidade, e avançou até a guarita. A porta estava aberta. O lugar era pequeno, com espaço para apenas dois vigias. Sobre a mesa havia um maço de cigarros aberto, um cinzeiro com cinzas frias. Acionou o mecanismo de abertura do portão, que se abriu torto, liberando o caminho para o resto do time.
Prosseguiram com Finnegan à frente e George na retaguarda. Adiante, a mansão os observava imóvel, aguardando a sua aproximação. O time procurou se posicionar atrás da fonte de água que enfeitava a entrada, ou ao lado dos carros estacionados por todo o percurso, em busca de algum tipo de cobertura. Mantinham os olhos nas janelas. A porta principal estava muito próxima agora. Podiam ver o corpo no chão e sentir o cheiro acre de carne em decomposição.
Finnegan agachou-se ao lado do morto. O rigor mortis o havia transformado em uma estátua congelada em um grito de horror. Uma espuma avermelhada fugia da boca do defunto, os olhos arregalados fitavam o vazio. Vestia roupa de gala: o terno preto, camisa branca e gravata vermelha disfarçavam a decomposição. Achou que conhecia o homem. Encontrou sua carteira no bolso interno, e confirmou a suspeita.
“É Arthur McGrimmon”, falou no rádio.
“Sir Arthur McGrimmon?”
“Sim. Ele mesmo.”
O homem era uma figura proeminente na política inglesa e nome importante no parlamento. De todas as coisas que esperavam encontrar naquele dia, conexões entre sequestros e desaparecimentos e o Parlamento Britânico não estavam entre elas – quanto mais o cadáver de uma figura pública daquele porte.
“Puta merda”, disse Anton. O agente havia espiado para dentro do salão principal e agora se afastava do grupo para vomitar. Scott arriscou abrir um pouco mais da porta e arregalou os olhos.
“Jesus, Maria e José…”
George foi em seu encalço. Com um empurrão, escancarou uma das bandas da porta. O hall de entrada da mansão estava pintado com sangue e vísceras.
Era um imenso salão aberto, e tudo o que o adornava era a morte. O carpete e os tapetes haviam adquirido o tom escuro do sangue seco, as cortinas e os pilares gregos estavam pintados de carmim e entranhas. Havia um pandemônio de corpos em decomposição, dispostos em um padrão lôbrego, o desespero estampado nos rostos voltados para a porta. Era óbvio que haviam morrido tentando fugir de alguma coisa. Havia cadeiras luxuosas que, apesar de agora jogadas ao chão pela fuga infrutífera da multidão, formavam um semicírculo voltado na direção de uma parte vazia do saguão, onde o chão de mármore exibia longas manchas de sangue.
Karen, que acompanhava o time com Samantha pelo feed de vídeo, tentou falar alguma coisa no rádio, mas desistiu. Anton ainda vomitava, afastado da porta principal, apoiado em um dos carros de luxo. Finnegan evitava tocar no sangue seco. Todos observavam a cena em silêncio, como se tivessem esquecido o próprio idioma. Até mesmo as paredes e o teto abobadado, seis metros acima, não haviam escapado dos sinais da carnificina. Um braço desprendido do corpo jazia pendurado em um dos ganchos do lustre dourado ao centro, o sangue já seco não pingava mais.
Finnegan avançou para dentro da cena, devagar. Os corpos inchados vestiam roupas de gala e alguns dos rostos ainda inteiros vestiam máscaras variadas. Uma parte dos cadáveres exibia claros sinais de alvejamento, porém outros haviam sofrido golpes concussivos, e ainda outros foram retalhados por armamentos medievais espalhados pelo chão, antes meros objetos de decoração, agora os instrumentos de um massacre.
“Finn, volta. Vamos deixar isso para a perícia.”
“Vamos investigar primeiro.”
“Isso é…”
“Eu sei o que é, mas você sabe o que vai acontecer quando a perícia chegar.”
Os agentes fingiam não ouvir a conversa. Sabiam o que aconteceria: tempo perdido. Havia ao menos uma figura proeminente morta, e dezenas de outros corpos a serem investigados. Por sua natureza sigilosa, o Departamento de Casos Especiais era ainda mais burocrático do que o resto da NCA. Mas Finnegan não fazia parte daquele meio. Era um empréstimo do Exército Irlandês, e andava à margem das regras, sem precisar tocá-las. No pior caso, ele seria enviado de volta ao país de origem sob acusações de obstrução da justiça, mas Finnegan parecia achar que a tentativa valia a pena.
“Você vai”, falou George. “Eu e os outros vamos estabelecer um perímetro.”
Era inevitável sujar as botas naquela cena, e por vezes Finnegan teve que erguer os pés para evitar pisar nos os corpos mutilados. Notou que segurava o cabo da pistola com força desnecessária. Respirou fundo. Só naquele instante notou o esforço que despendia para manter a calma. Havia tomado a decisão no calor do momento, considerava-se forte o suficiente para aquilo, mas agora, vendo-se cercado por um mar de sangue e moscas, vacilava. O cheiro de morte era intenso demais para que seus sentidos se acostumassem. Atravessava as narinas e penetrava na pele, e ele estava convencido de que nenhum banho o removeria do corpo. Já havia passado por sua cota de batalhas no Afeganistão, onde a visão de corpos soterrados por escombros ou empilhados em valas comuns não era rara, mas ali a atmosfera assumia um tom surreal: era uma mansão transformada em mausoléu. Uma festa interrompida pelo desespero. As memórias vieram tão pungentes que ele sentiu o peso do fuzil nas mãos, a pressão do capacete contra o crânio, e ouviu o tilintar do equipamento de guerra. Teve que redobrar os esforços para voltar à realidade. Diminuiu o ritmo respiratório e afrouxou o punho que segurava a arma.
Olhou para trás: os olhos do resto do time o acompanhavam em silêncio fúnebre. Avançou até o centro do salão, onde os corpos rareavam e de onde todos pareciam fugir. Encontrou no chão – nas mãos rígidas de uma mulher – um cartão com uma lista de nomes, dispostos em duplas.
“Era um ringue de lutas ilegais.”
“O que disse?”
A voz de George veio de longe. Finnengan notou que sussurrava para si mesmo. Repetiu a dedução no rádio.
“Era um ringue de lutas ilegais. Achei o card. Não reconheço todos os nomes, mas alguns eu sei que são lutadores antigos de MMA. Lembra do Chael Sonnen?”
“Lembro, o cara foi banido por doping.”
“Sim. E Cory Walker estava aqui também.”
“O namorado da Skye Levy?”, falou Samantha no rádio.
“Ele mesmo.”
“Vou puxar a ficha dele.”
Skye era uma cantora de alguma relevância no Reino Unido e que havia desaparecido há poucos meses, mas eles nunca haviam conectado o seu desaparecimento com o resto dos casos que investigavam. Cory, seu namorado, era um lutador de MMA que caíra em desgraça quando foi banido do esporte por ter matado o seu oponente, no que foi obviamente um uso de violência desnecessária. Finnegan exalou frustração. Não queria imaginar que o corpo da cantora estivesse ali também, entre cadeiras e vísceras. Não queria pensar que seus pais poderiam estar naquele mesmo lugar, e que seus últimos momentos foram desespero.
Tomado por uma urgência repentina, caminhou a passos largos até um dos corredores laterais.
“Vou entrar.”
“Algo em mente?”, falou a voz de George, abafada pela estática.
“Quero entender que merda aconteceu aqui.”
Procurou por um lugar específico. Abriu porta atrás de porta. O silêncio imperava dentro da mansão, mas os pássaros lá fora assoviavam uma canção inocente, como querubins carregando para longe as almas daquela gente. Viu quartos luxuosos, alguns com malas de viagem abertas sobre a cama. Viu salas de estar, salas de leitura e de jantar, alguns com sinais da morte que havia irradiado do salão. Corpos sobre o carpete, manchas de sangue nas paredes. Encontrou a cozinha, de onde poderia acessar os fundos da mansão. Até que, ao seguir o som das moscas, finalmente encontrou o que buscava.
Havia mais um corpo no chão diante de uma das portas de um longo corredor, perfeitamente ornamentado por um carpete macio. As entranhas do homem escapavam pelo estômago e se espalhavam pelo uniforme. Era um dos funcionários de segurança do evento. Aparentemente havia morrido tentando fugir até aquela sala, que fora convertida em um centro de vigilância, com monitores espalhados sobre mesas, cujas telas exibiam o feed das câmeras do lugar. Finnegan ergueu os pés para passar por cima do corpo. A aparelhagem ainda funcionava. Em uma das telas, George era um aglomerado de pixels aguardando o seu retorno. O resto do time era exibido pelas câmeras externas, fazendo o reconhecimento da área e estabelecendo um perímetro seguro.
Seu objetivo era encontrar as gravações do que aconteceu, que ele suspeitava ter sido o evento de seis dias atrás. Talvez avistasse Melina e outros conhecidos pelas câmeras e descobrisse os seus paradeiros. Apertou enter em um teclado, e uma tela surgiu, exigindo credenciais. Estalou a língua. Não conhecia muito de eletrônicos. Estava acostumado a ver salas como aquela, mas jamais conseguiria navegar pelo sistema de vigilância, tanto menos quebrar a proteção por senha. Tinha a solução para o impasse, mas ela era no mínimo ineficiente. Procurou por um cabo USB. Encontrou o celular de um dos guardas ainda conectado ao carregador. Retirou o cabo, e ligou ao seu próprio celular, então encontrou o gabinete de um dos computadores e conectou o aparelho. Acessou um aplicativo do Exército Irlandês, feito pelo departamento de inteligência. Executou o comando e aguardou. O sinal ali não era bom, mas o aplicativo não precisava de muita coisa. Ele varreria o computador e se o sistema de vigilância fosse conhecido e tivesse brechas, o aplicativo faria o download do máximo de informações que pudesse. O problema, para Finnegan, era que havia muita incerteza naquela equação. Olhava para a tela exibindo caracteres mais rápido do que conseguia lê-los, como se observasse a escrita fantasmagórica de algum pergaminho de magia negra. Tudo o que podia fazer era confiar nos cérebros do departamento de inteligência que haviam criado o aplicativo, e aguardar.
Perambulou pelo quarto, com passos impacientes. Abriu gavetas. Abriu um armário e encontrou dezenas de pastas com documentos diversos. Folheando-as, viu que uma delas carregava o nome de Isaac Danpora.
“Bingo.”
No salão principal, George não queria perturbar a cena, mas a espera e o silêncio eram extenuantes. Viu-se caminhando pelas beiradas da hecatombe, procurando rostos familiares na multidão de cadáveres. Nick e Scott fizeram o mesmo. Olhar a cena tão de perto, e de forma tão corriqueira, ajudava a fixá-la no olho da mente. Precisavam daquilo para manter a motivação correta, e seria destas imagens, no futuro, que tirariam energia para continuar buscando a verdade quando o mundo inteiro estivesse lutando para que desistissem.
Foi George que encontrou Melina. Agachou-se ao seu lado, um xingamento sussurrado que soou como uma prece. O corpo da modelo estava entrelaçado com outros três, braços e pernas misturados em um fim desesperado. Seu rosto, porém, havia encontrado uma serenidade única, os olhos fechados, o cabelo, endurecido com o sangue, caía-lhe sobre o rosto e escondia um pouco da violência. George se levantou, e a cena diante dele era agora mais triste do que absurda. Pensou em Tanya. Então o rádio em seu ombro soou com estática.
“Puta merda”, falou Karen, a voz esbaforida.
“Diga.”
Silêncio.
“Karen? O que aconteceu?”
Nada. A equipe que formava o perímetro do lado de fora o chamou, e quando George saiu da mansão pela porta da frente e olhou na mesma direção que olhavam, viu o filete de fumaça preta esticando-se até o céu na distância.
“Karen? Samantha? Na escuta?”
A motorista demorou longos segundos para respondê-lo. Quando a sua voz alcançou o rádio da equipe, soava sussurrada, mas o tom era de urgência.
“Eles colocaram fogo na Van!”
“Quem?”
“Múltiplos hostis. Indo na sua direção, com equipamento incendiário. Saiam daí agora!”
“Eles estão atrás de vocês?”
“Eles não viram a gente, eu e Samantha estávamos fora da van quando vieram. Estamos escondidas. Sam machucou o joelho na correria, mas está bem. Eu já notifiquei os reforços. Eles estão chegando. Agora sai daí!”
“Finnegan, sai daí de dentro imediatamente. Scott, Nick, para fora, agora.”
George via os hostis, mas sabia que estavam próximos. Uma revoada de pássaros alçou voo ao Norte. Teriam que seguir para o Sul, para longe da van. Lucas e Anton o alcançaram em poucos segundos, mas ninguém que estava dentro da mansão o respondeu. George tentou o rádio novamente, e a reposta foi um disparo vindo de dentro do salão principal.
Correu até lá. Melina tinha os dentes fincados no braço de Nick, que urrava de dor. Os mortos se erguiam, e Scott abria caminho entre eles com disparos. Levantavam-se apoiados nos membros que ainda possuíam, como se acordassem de um longo sono. Os que não tinham pernas, rastejavam-se a esmo. O som era de músculo, tecido e juntas se partindo e cedendo e encontrando novas posições em uma nova vida.
Os gemidos eram de fome.
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