Somos seres esburacados. Sedentos.
Andamos por aí, colecionando tentativas de suprir o que nos falta. Decorando o vazio com coisas, pessoas, ideias.
Comprar é mais fácil do que amar, o sentimento é lento e exigente. Queremos a posse imediata.
E a ânsia de possuir carrega em seu colo a destruição.
Nenhuma arma dispara sozinha. Antes do tiro, é preciso a pulsão.
A história a seguir é sobre alguém que quis demais.
I – Lugar nenhum
Lucio acordou sozinho no acostamento, com o gosto de sangue e grama nas gengivas. Tendo o sol como testemunha, levantou zonzo, lutando contra o peso das pernas. Na sua frente deparou-se com um deserto verde, renque de plantas. Milho? Soja? Seja o que fosse, era irrelevante… Como chegou ali? Procurou por Marcos, que deveria estar por perto. Chamou e ninguém respondeu.
Quando conseguiu mais ou menos se situar, deu-se conta de que não tinha a mínima ideia de onde estava metido. Achou a paisagem desagradável. Odiava fazendas, a fantasia da vida simples no campo. Vacas e mosquitos, tédio e a sensação de que perderia uma grande chance. O seu barato era ser um dos predadores da selva de cimento; acumular casas, carros e outros troféus. Gostava de barulho e risco, foi pelo prazer da adrenalina urbana que se aventurou em construir o seu patrimônio na bolsa de valores. Enfim, pasto não é dinheiro. Cuspiu o resto de sangue entre os dentes e deu um passo para a frente.
A ausência de casas ao redor, celeiros e currais ou placas de sinalização. Tentou lembrar dos eventos que o levaram até a área, mas a dor na nuca pulsava. Alguma festa selvagem? Parou de beber desde a última vez que prometeu a ela e fazia tempo que tinha cheirado pó demais. Vivia um período de quase sobriedade, apenas uma carreirinha, de vez em quando, para desenrolar os negócios. Desprezava as drogas menores e os viciados, zumbis que acabavam embaixo da ponte com cachimbos de lata de refrigerante.
O céu pálido e sem nuvens. Azul em cima da cabeça, verde ao seu redor. O calor o obrigava a franzir as carnes do rosto. Contudo, por mais que apertasse os olhos, o único vestígio de outros seres humanos era a estrada que atravessava a sua vista. Lambida de asfalto infinita e silenciosa, que pouco prometia além de uma longa caminhada. Sem as roupas apropriadas não conseguiria andar rápido o suficiente. Ainda assim, seguiu reto. Gotas de suor começavam a brotar em sua testa, até que reparou no chumaço de cabelo grudado no sapato. Fios unidos por fragmentos de pele e matéria viscosa, contrastando com o couro marrom do calçado.
Não desviou o olhar, se abaixou e pinçou aquilo com os dedos. Examinou os fios compridos e embolados. Eram loiros, dela. Ou não, as últimas horas (talvez dias) sumiram da sua memória. Pode ter pisado na sujeira e levado consigo os cabelos de outra pessoa. Esperançoso, cheirou com certa vontade de que fossem sim de Giovana. Não tinha nenhum perfume bom no chumaço, apenas um aroma terroso que lembrava sangue. Jogou aquilo fora, balançou os pés, ajeitou o colarinho e seguiu.
A maleta de Lucio desapareceu, bem como o seu carro. Ele se tateou na esperança de encontrar, pelo menos, a carteira e o celular. Será que foi dopado, roubado e o largaram ali? O cartão de crédito, documentos, que transtorno… Mas, se isso ocorreu mesmo, que tipo de ladrão deixa para trás um celular de última geração? O aparelho estava sem sinal, mesmo assim, mandou uma mensagem para o seu assessor. A notificação de “mensagem enviando” ficou brilhando, teimosa na incompletude. Desligou a tela, perturbado com o sorriso de batom vermelho que enfeitava o papel de parede.
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Andar consiste em colocar um pé na frente do outro. Lucio adquiriu rápido a habilidade, antes dos outros bebês. Desde cedo usou seus músculos e ossos como ferramentas a serviço das suas vontades. Porém, não era a criança perfeita que a sua avó, Dona Iracema, gostava de se gabar. No que se tratava de emoções, o menino tinha dificuldade para controlar-se. Quando inundado por lembranças, era frequente ele ser invadido por uma raiva inexplicável, ou pior, uma tristeza profunda: um caixão cercado de velas, uma colisão de carros, ele chorando sozinho em um berço… A avó então dizia que cabeça vazia era a oficina do diabo. Mandava o neto parar quieto e estudar, ficar rico e não se envolver com bobagens. Não suportaria perder outro menino.
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As plantas, divididas pelo asfalto, repetiam-se no horizonte. Chutou uma pedra em direção a elas e o pedregulho foi silenciosamente engolido pelo verde. O vestido favorito dela também era verde, lembrou. Verde e vermelho no tapete felpudo do quarto.
Conexão é item de primeira necessidade e Lucio pagava caro pelo recurso. Tinha optado por um plano de telefonia que garantia cobertura sem interferências em qualquer lugar do planeta. Considerou inaceitável, ao verificar o celular de novo, que o aparelho permanecia fora de área. Pensou se a promessa não cumprida lhe renderia uma indenização:
— Bah Marcos, seu merda, cadê você pra me buscar?
Bancava salários acima do mercado para que? O homem se viu como o último da linhagem dos competentes, cavaleiro solitário cercado por idiotas. Os demais que não sabiam ganhar dinheiro e, como vingança, o prejudicavam com estupidezes. A sua única culpa era fazer as coisas certas, tentava ensinar o sucesso. Xingar lhe deu sede. Procurou água, contudo, não quis arriscar sair do caminho. Além disso, entusiasmou-se por avistar um pequeno ponto preto. A saída dependia dele, que caminhasse até lá.
Imaginou um local repleto de agricultores simplórios, que iriam brigar de socos para levá-lo de volta para casa. Sim, quem escolher para ser o seu salvador vai tirar a sorte grande, sempre soube recompensar quem faz por merecer… Retornar ao que é seu. Digitar a chave do apartamento, tomar um banho demorado, ligar o ar e deitar nu. Pedir para a empregada lhe preparar um suculento filé. E, enquanto Martinha trabalhar, contará por onde andou. Quer testar a narrativa e os feitos que pretende atribuir a si, antes de impressionar os colegas da bolsa. Lembrou de tirar algumas selfies para desarmar quem o chamasse de mentiroso.
Tem certeza de que os caras sentirão inveja do quanto foi homem. De repente, essa roubada o levará até a ser convidado para ir em algum podcast. Ela é atraída por fama e dinheiro como as outras. Não nega que quer reatar. Só que precisa se preservar, mostrar quem manda. O que Giovana deve estar fazendo? Quando ele reaparecer, viralizado como aventureiro, ela vai se arrepender. Ligará quase de madrugada. Decidirá a data, mandará que ela use aquele vestido, a levará para comprar… O plano se desfez no tapa automático que desferiu no próprio rosto. Não tem ela, não tem compras.
Agora, perdido e suado, apenas um caminho cercado de mato. O possível resgate brilhava como uma estrela negra, distante das mãos dele. Novamente a mulher relampejou em sua mente. Visualizou ela rindo e isso o irritou, Lucio nunca sabia se era com ele ou dele que Giovana gargalhava. O seu punho levantado, tentando destruir aquela risada… Tropeçou com a memória e, frustrado, cedeu ao próprio peso, caindo no acostamento.
Sentou, as pernas cruzadas como fazia quando era pequeno e se preparava para assistir televisão. Uma parte sua queria ficar ali, talvez em posição fetal, até se tornar um esqueleto. Quem sabe descansasse em paz. A outra lhe mandava ser homem e parar de choramingar. Rolando no chão, esbravejando sobre como a situação era injusta, Lucio reparou que as plantas do lugar não possuíam insetos ao redor. No céu, a ausência das cigarras e os outros bichos de campo.
Além dele, a única vida no local era aquela matéria verde, expurgada de outras espécies. Constatou a obviedade da simetria dos caules, que despejavam para o ar a mesma quantidade de folhas. Deveriam existir diferenças, estágios variados de crescimento, algum apodrecimento ou deformidade. Um único e mísero erro. Contudo, o horizonte era assustadoramente matemático e limpo. As suas aflições se apequenaram. Resolveu voltar a caminhar, mais rápido e olhando com cuidado para os lados dessa vez.
Seguiu até perder a noção dos quilômetros. O céu e a paisagem ainda idênticos ao ponto de partida, combinados de bagunçar as noções dele de espaço e tempo. E Lucio não tinha um mísero pedaço de pão para marcar o caminho. As panturrilhas doíam e, em seu ouvido, o vento parecia murmurar xingamentos. Homenzinho pequeno, pagando por tudo…
Não queria deixar o que estava sentindo derrotá-lo. Reforçou para si que tudo é uma questão de trabalhar a mente… Afinal de contas, tinha desenvolvido ou não o seu guerreiro interior? Era um leão da selva, como aprendeu no podcast do seu ídolo. Na tentativa de se encorajar, entoou o “lema dos leões”:
— Ame problemas, para amar as recompensas! Ame problemas, para amar as recompensas! Ame problemas, para amar as recompensas! Ame…
Um queixume o interrompeu. Olhou para trás, ainda sem viva alma para tirá-lo dali. Tinha certeza do que escutou, mas o ambiente seguia inerte. A possibilidade de que começava a alucinar o assustou. Retomou a ladainha.
Logo teve de parar o mantra novamente, por causa da sequidão na garganta e aspereza da língua. A sede aumentava, naquele instante trocaria algumas ações por uma garrafa de água sem pestanejar. Passou os dentes nos lábios e foi como rasgar papel. A inclemência do sol obrigou que tirasse a camisa e a amarrasse na cabeça. Quase dois mil reais, transformado em um arremedo de chapéu…
Talvez parecesse bonito, como um aventureiro de filme. Sim, tinha certeza que faltava pouco para chegar ao borrão preto. Ao mesmo tempo, a possibilidade de que estivesse morto tomou conta da sua mente. Viu-se cadáver, deitado como um dia o seu pai esteve… Se fosse o caso, bem que o tal borrão poderia ser o Jardim, com vinhos e jovens virgens lhe esperando. Elas implorariam para servi-lo. Diria não, seria cruel. Talvez, na eternidade, fosse a chance de se vingar das… Desferiu um “vagabundas” automático e histérico, que o fez sentir uma pontada de vergonha.
O gemido novamente, agora mais alto e acompanhado de um cheiro de carne rançosa. Lucio explodiu de alívio quando, dessa vez, avistou alguém na estrada, só que bem distante. Uma outra pessoa. Real. Dane-se tudo, começou a acenar loucamente, na expectativa de que, quem quer que fosse, tivesse um veículo para sair dali. Gargalhava, inebriado pela esperança de não precisar mais caminhar. Decidiu que colocaria fora os sapatos que calçava. Melhor, queimaria o calçado e as roupas que usava em um tonel. Queria mesmo um celular novo.
Imerso em suas fantasias, não atinou quando a figura começou a correr em sua direção. Rápido e forte demais, os seus passos soavam como o trote de uma dezena de cavalos. Seres humanos não galopam. Subitamente, ela parou a poucos metros e se acocorou no asfalto. Ainda entusiasmado pelas possibilidades da companhia, Lucio se aproximou para fazer contato. Poderia ser outro indivíduo na mesma situação e que não aguentava de cansaço… Não tinha mais volta no instante em que entendeu. Deparou-se com o horror.
Aquele ser, encolhido e nu, a pele amarelada coberta por uma grossa capa de sebo e suor. Arfando, como se fosse um saco enchendo e esvaziando, aguardando para dar o bote. A primeira coisa que virou foi o pescoço para cima, que soou feito um galho se partindo. A sua imensa cabeça procurou a caça, revelando poucos fios de cabelo e cavidades oculares vazias. Lucio teve medo que saísse algo daquelas órbitas.
O bizarro de verdade se concentrava na boca aberta sem dentes. Dela surgia uma extensa língua cinza, tubular. O órgão estava tapado por indecifráveis mensagens e desenhos. Atordoado, Lucio, quase que por reflexo, apertou o celular para conferir se o aparelho ainda estava com ele. Ao olhar para aquela aparição, teve a impressão de que todas as suas conversas com Giovana pendiam expostas no órgão. O vermelho invadiu as suas bochechas, gritou tentando espantar aquilo.
A criatura, em resposta, levantou-se em um segundo, sustentando a sua encarada cega. Uma fenda que ia quase até o umbigo confirmava que a coisa era mulher. Quase ritualisticamente, ela passou a saltar em círculos e emitir barulhos incompreensíveis. Os pés e mãos eram arroxeados e finos, semelhantes a minhocas. Os membros contorciam-se aleatoriamente, como se dançassem uma música própria. Ou desejassem cavocar a terra.
A urina desceu quente pelas pernas dele. Não tinha discurso, postura, nada preparado para aquele pesadelo. Queria gritar pela sua avó, a única capaz de expulsar os demônios. Fechou os olhos, na esperança de que estivesse em sua cama. Giovana o acordaria, o sobrevivente de um sonho ruim, e fariam sexo. Enjoou com a possibilidade de morrer na mão da coisa e o seu cadáver ser esquecido ali.
Indiferente ao desespero, a fêmea preparava-se. Enrolou a gigantesca língua para dentro do rasgo que lhe servia de boca, as bochechas infladas como um balão. Dominava o órgão, que funcionava tal qual uma cobra treinada. No segundo seguinte, a despejou para fora, enrijecida. Da sua fenda respingava um líquido escuro e grosso, um convite para o acasalamento.
A língua procurou a mão do homem. O toque dela era gelatinoso e quente. Não tinha como escapar de sentir aquilo enrolando e pressionando, as juntas estalando e a mão contorcendo. Qualquer movimento era impossível, deparou-se com alguém mais forte do que ele. Foi obrigado a se ajoelhar de dor. A condenação coube em poucos e eternos segundos.
Abriu os olhos após os dedos se afrouxarem. Permanecia longe do leito, perdido na paisagem que possuía regras próprias. Nada tinha mudado, exceto que a criatura havia esvaído em fumaça. Contudo, ela deixou um presente. Quando Lucio olhou para a sua mão, percebeu o membro tapado pelas mesmas estampas que adornavam a língua da monstra. Vislumbrou que morrer talvez não fosse o pior dos destinos.
O asco que sentiu de si o fez desmaiar.
II – O garoto da vovó
— Giovana… Droga, quanto tempo apaguei dessa vez? Ai minha cabeça, é a pior ressaca que já tive e não lembro de ter bebido. Deixa eu ver, não tem sangue escorrendo, acho que tô inteiro. Tá, continuo no meio do nada. Marcos? Alguém? É, sozinho… Preciso chegar até o socorro. Melhor abrir a câmera, conferir se estou apresentável. Nossa, que estrago. Como consegui esse hematoma? Rosto todo vermelho, a camisa podre, a calça manchada. É mais negócio desligar o celular por enquanto. Quando a bateria morrer, não vou ter espelho nem relógio. Preciso dar um jeito de disfarçar nem que seja esse cheiro, ninguém pode saber que me mijei… Porra, o que é isso? Foi de verdade! A minha mão… AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!
Por que essa provação, Deus? Eu pago os meus funcionários, faço caridade, nunca atrasei o dízimo. O inferno não deveria ser reservado para os miseráveis? É um plano, um teste? Aceito os seus desígnios, mas tinha necessidade dessa doença, feridas, sei lá.
Ou foi ela. Giovana, isso é vingança? Pois saiba que quem merecia estar aqui era você, a culpa de tudo é tua. Se eu fiz qualquer coisa de errado, foi porque a senhora, Miss Porto Alegre, me deixou sem alternativas. Sempre fui da paz, nunca quis… Era a tua mão que devia apodrecer e cair. Não a minha. Te dei aliança de compromisso, te tratei que nem rainha. Arquei com o vestido do desfile, o teu título é meu.
Lucio, tu é homem de negócios, um leão da selva! Esquece a vagabunda e se orienta! Raciocina, tens que chegar até o resgate. Aliás, desgraça de mancha preta. Ando e ando e, quando parece que está mais perto, aquilo foge e se afasta. Mas só paro quando chegar lá… E vou aparecer assim na frente dos outros? Será que, se eu esfregar a mão em uma folha ou colocar terra, isso sai? Nossa, que planta fria, dá a impressão que é de plástico, vou tentar puxar a folha. Urgh, que coisa é essa saindo de dentro? Meu, chega de gosmas, vamos ao plano B. Bosta! Essa terra tá presa no chão? É alguma palhaçada? Se for, mando dar uma surra no engraçadinho.
Aposto que o Marcos é cúmplice desse circo, ele e a Giovana se juntaram para me largar aqui. Apareçam desgraçados! Será que o invejoso é outro dos casos dela? Ele pode até querer, mas a madame nunca olharia para ele. É mulher cara, não ia dar moral para um irrelevante que nem aquele. Essas marcas parecem pulsar, tomara que não espalhem. Preciso me livrar disso. Prometo que, se conseguir ir embora e tudo der certo, faço uma boa ação das grandes. Falo com o pastor, ele me orienta no que abençoar e eu passo o cartão.
Não foi um pesadelo. Aquela criatura… Agonia só de lembrar: feia, repulsiva, nojenta! Deus, me tira tudo, mas não me transforma em uma aberração. Um pária social que assusta as crianças, todo leproso e estragado. Não quero acabar na porta de uma igreja, pedindo um prato de comida e me escondendo do mundo. Me livra de terminar que nem a Fabiana que a vó ajudava, com o corpo coberto de verrugas. Todo mundo chutava ela, com medo que fosse contagioso…
Vovó. Ela dizia que um homem de valor começa no terno que veste. Dona Iracema, nunca deixei de seguir seus ensinamentos, viu? Continuo lutando pelo sucesso, trabalhando cada detalhe da minha imagem. Custe o que custar. Não se preocupe, eu vou dar um jeito nessa mão. O seu neto não vai ser alvo de risadas, comentários… O Marcos adoraria me ver humilhado… Esquece esse inútil, Lucio. Os perigosos de verdade são os tubarões do teu círculo. Se te chutam, porta que fecha é impossível de abrir de novo.
Que saudades, vó. A senhora teria me aberto os olhos, me poupado desse sofrimento. Sabia reconhecer de longe quem servia e quem era figura que não prestava. Queria tanto que estivesse comigo, vendo a nossa linhagem prosperar. Tô morrendo de fome e não tenho o teu bolinho de milho, dona Iracema. Sim, eu sei, a senhora fazia por não ter coisa melhor. E que somos o que comemos, por isso devemos nos alimentar como gente bem de vida. Hoje eu só como o que tem de melhor, vovó. Mas assistir desenhos, devorando aqueles farelos amarelos nos dedos, é uma das melhores lembranças que tenho.
Nós conversávamos tanto. Lembro da senhora na cadeira do pátio, dizendo que, quando eu virasse homem, teria de lhe comprar roupas sob medida e os doces mais finos da cidade. Pena que não deu tempo. Sabia que eu te tirei daquela sepultura miserável e cremei o teu corpo? As tuas cinzas agora estão guardadas em um belo vaso dourado, protegidas em uma cristaleira na sala. Uma urna de rainha… Nunca permiti que qualquer uma chegasse perto. A Giovana foi a única que tentou e eu dei uma lição nela. A família é sagrada e aquela lá nunca mereceu fazer parte da nossa.
Eu vou lhe dar os bisnetos, a continuação que tanto planejava. Um lindo casal. O garoto forte e esperto. Herdeiro dos negócios, a garantia de que nosso nome se firmará. A guriazinha será linda. Comprarei as melhores roupinhas, bonecas e tudo o que a princesinha desejar. Antes, obviamente, encontrarei uma boa mãe para eles. Farei testes, para ter certeza de que ela vai cuidar da casa e entender que a mulher serve e o marido provém. Submissão, modéstia e fidelidade. Claro, beleza e genética serão requisitos… Jamais vou te esquecer, vó. Quando tirarmos as nossas fotos comemorativas, a senhora estará sempre presente. Colocarei a sua urna no centro de tudo.
Não tem nada para beber, nem sinal de lago ou comércio, meu reino por um gole de whisky? O buraco do estômago não para de roncar, a sede só aumenta. Quem sabe eu mastigo uma dessas folhas. É o que tem, né. Tiro a gosma pra pôr na boca e engano o desespero até sair daqui. E se for venenosa não tem problema, é bem possível que eu já esteja no inferno mesmo… Recuso morrer de inanição, seria muito perdedor. Afinal de contas, o que é esse ponto preto? Uma casa, um prédio, o fim do cenário? E se eu caminho tudo isso e não tem nada lá? Martinha, saudades da tua comida, vou pedir que asse um boi inteiro quando voltar. Vai cozinhar até eu dizer chega.
Parece vômito. Quando tiver internet de novo eu vou descobrir o que é essa porcaria, proibir que entre lá em casa. Sou capaz de virar prefeito só para arrancar isso de tudo quanto é lugar. Voltar aqui de trator e destruir tudo. Ainda queimava a terra e jogava sal, nunca mais nascia nada. Força Lucião, sacudir para sair o que ainda tem aí dentro, deixar só essa parte verde. Nossa, quando mastiga também parece plástico, um chiclete sem gosto. Certo, não morri, nem estou babando no chão…
Sentado de novo, no meio do nada. Cadê a polícia quando um cidadão de bem precisa dela? Uma mísera viatura, ficaria contente até com uma carroça. Nem formigas passam por aqui. Só eu nessa estrada, o escolhido.
Estranho, que bobeira, sono mesmo. Do nada. Eu podia cochilar no asfalto… Devo descansar, é uma questão de sobrevivência. Pensando melhor, do jeito que o azar grudou em mim, vou para a plantação. Capaz de ser atropelado, algum carro que resolva aparecer justo quando eu dormir. Mas também não seria inteligente me embrenhar, vai saber o que espera lá no fundo. Aqui, na beira, consigo observar, se aparecer algo ou alguém dá pra fugir. Dobrar a camisa e, olha só, tenho até um travesseiro. Deitar no chão é menos desconfortável do que parece. O céu é pacífico daqui, quase como um mar calmo. Eu vou só fechar os…
III – Noite
A folha o saciou e lhe deu um sono sem sonhos. Quase feliz, Lucio, quando abriu novamente os olhos, foi engolido pela escuridão. O sol, observador da sua jornada até então, tinha sumido e a noite não trouxe qualquer estrela para lhe oferecer. Ele só conseguia tatear o negrume ao seu redor, o que parecia intensificar o silêncio ensurdecedor do lugar. Agora, ouvia nitidamente o sangue correndo pelo seu corpo, os seus ossos estalando, a pele latejando… Assustado, pegou o telefone. Queria ver se tinham respondido a sua mensagem, a data, qualquer coisa…
O brilho da tela iluminou ao redor, desvelando uma estranha novidade. Apontou o telefone para os lados e percebeu que a paisagem estava nua. O mar de plantas desapareceu, como se tivesse sido arrebatado aos céus. Lucio, ao ter ficado, tornou-se a única presença na gigantesca mancha marrom. Se aquela criatura, ou alguma coisa pior, surgisse, não teria qualquer chance de se esconder.
Uma horda pronta para despedaçá-lo… Tremendo com o quadro dantesco, apressou-se em retornar para a estrada. A lanterna do celular lhe garantia um círculo de claridade, perímetro no qual tentava permanecer. Rangeu os dentes, tinha perdido o controle até da bateria do seu aparelho: naquele momento contava com vinte e cinco por cento de carga e só. Calculou que lhe restava cerca de uma hora de luz, provável que fosse menos. Sentiu a chicotada da pressa no rosto.
Não, nunca ia admitir que o desconforto era mais profundo. Quando Giovana passou a frequentar o seu apartamento, falava para ela que as luzes sempre acesas eram para dar um clima de romance. Depois, mandava que ficasse tudo iluminado e deu. Ele não precisava dar satisfação. Sim, ainda morria de medo do escuro. Quem quer que tenha armado esse castigo, conhecia o seu íntimo. O obrigava a enfrentar, além da hostilidade do ambiente, lembranças que havia escondido em cantos da memória.
Lucio tentou se camuflar, disfarçar os sons que emitia. O seu próprio corpo o entregando para sabe-se lá o que… Mais do que nunca, chegar ao resgate para sobreviver. O ponto preto fundiu-se com o breu, a sua localização era um mistério. Nada garantia que ele também não tivesse evaporado. O cara que vivia de riscos apostou em uma direção e foi.
Para ele, expressões como “uma agulha no palheiro” eram bobagens que a vizinhança de sua infância dizia. Ai que Dona Iracema o pegasse copiando gíria ou fala deles! Teria as suas orelhas puxadas, ser pobre e grosso era inaceitável. Ali, arfando e cuidando para não deixar o último fio de luminosidade apagar, se deu conta de que estava procurando uma agulha no palheiro. Só não teve coragem de articular em voz alta.
Dezessete por cento, apressou a marcha. Negrume atrás e na sua frente. A estrada foi reduzida ao brilho do celular. Nada mais que a perspectiva de um passo. As pernas falharam e Lucio caiu no chão. O celular saltou longe, a lanterna para baixo tingiu o chão com uma tonalidade amarelada. Desesperado, ele se arrastou para resgatar o telefone. Abraçou o aparelho, que aqueceu as suas mãos. A tela rachou, o sorriso vermelho agora desdobrou-se em vários. Sem tempo para sofrer. Quatorze por cento. Ignorando o aviso da necessidade de recarga, partiu para onde quer que fosse.
Não havia uma curva, declive ou subida. O percurso que cumpria era dolorosamente reto. Queria parecer uma flecha, mas sentia-se rato. Oito por cento. Passou pela mente dele que, se surgisse um abismo na sua frente, ia permanecer correndo. O que o fez parar foi a aparição da própria Giovana, que chegou como enviada pela escuridão. Estacionou diante dela que, linda, brilhava como uma esmeralda. Seis por cento. Lucio não questionou. Tinha a sua mulher junto dele e ela o queria de novo. A pele branca colada na sua, o cheiro bom do cabelo macio.
Apalpou suas carnes, certificando-se da solidez da presença. Notou-a esquisita, mais mecânica, mas o que ficava normal nesse inferno? Não queria discutir a relação. Cobiçava levá-la para a terra e tomá-la, um leito sujo para uma mulher suja. Giovana o desejava, ponto. A sua vitória de homem, era realmente macho. Ela envolveu-o com seus braços finos. Três por cento. Chegou perto da sua orelha, mordeu o lóbulo e soltou um grunhido.
Um som grave, de um animal com raiva. O feitiço foi desmanchado, a clareza fulminou a escuridão e despedaçou o véu da luxúria. Não era ela, nunca foi. Um por cento. Quem o agarrava era aquilo, a monstra. O celular morreu e Lucio não pôde gritar, pois a aparição enrolava a língua em seu pescoço.
Estava com fome e queria caçar.
IV- Pedaços
Apagou as luzes para rolar na cama, pensando nas formas de Eduarda. A colega que ele decorava cada pinta e que nunca se deu conta de que Lucio existia. Fantasiava puxar aquela trança para perto de si, desfazê-la e se enredar naqueles cabelos dourados… Iracema entrou no quarto sem bater à porta, os passos silenciosos para surpreender o neto. Lucio, ao perceber os olhos julgadores da avó o mirando, se escondeu debaixo do edredom. Ninguém falou sobre o momento de intimidade, o garoto apenas se recompôs e sentou na cama. O rosto da mulher era uma máscara indecifrável:
— A bença, vó. Posso ajudar a senhora em algo?
— A bença, meu filho. Vim te dar boa noite.
— Durma bem, vózinha.
Iracema fez menção de sair, mas ficou na soleira da porta. Virou-se de um jeito solene. Parou nos pés de Lucio, que ficou imóvel esperando o discurso da avó:
— Filho, eu não te condeno por isso. É errado, mas tu está na idade. Você tá virando um homem, é normal. O teu pai era assim também, aquele me deu trabalho. O meu Reginaldo, ainda por cima, era bonito que nem o Diabo. Vocês são tão parecidos… Eu só tenho medo é que uma mulher acabe te arruinando, como aquela chocadeira destruiu o teu santo pai.
— Vó, por favor, a minha…
— Deixa eu terminar, guri, não me interrompa. Se o meu Reginaldo não tivesse conhecido aquela vagabunda, ele não tinha se afogado na garrafa. Agora tu não seria órfão e o teu pai te ensinaria a ser homem. Eu te dou a educação que posso, mas sou viúva, mal me sustento com as costuras.
— Eu quero logo trabalhar, para ajudar a senhora.
— Não, vai estudar e enriquecer. Ninguém pode te tirar o estudo e, se tu tens dinheiro, o mundo é teu… Uma esposa melhor, eu implorava. Teu herdeiro não pode vir da ralé, Reginaldo. Ele não me escutou, mas te deixou aqui. Lembro que era madrugada de frio, ele no portão com aquele pacotinho nas mãos. Eu te aceitei nos meus braços, Lucinho, e te nanei até tu dormir. Promete que vai me obedecer. Eu quero que case, tudo o que tens direito. Vai me dar um casal de bisnetos. Mas escolhe melhor do que ele. E fica rico, gente miserável só sofre… Mulher direita, que não te destrua.
— Prometo, vó.
— Certo, agora sim. Dorme com os anjos, meu filho. Se eu morrer essa noite, vou em paz.
A imagem de Eduarda foi sugada por um buraco negro. Sozinho no quarto, Lucio chorou baixinho até adormecer.
***
Giovana assistia uma série, mas não conseguia se acomodar completamente no sofá. Só parou para aproveitar porque estava sozinha. Queria apagar as luzes do apartamento e dar um pouco de sossego para os olhos. Era alta madrugada, o sono relaxava as suas articulações, quando a chave virou na porta. Um arrepio percorreu a sua espinha, que automaticamente retesou.
Ela não reclamou do horário para Lucio, que ele não tinha avisado que sairia, nem do cheiro de perfume feminino e bebida que empesteou o ar. O olhar embriagado dele a avisou que era melhor ficar quieta. Pensou que precisava ir embora dali, mas não tinha casa para voltar:
— Tu tá assistindo a minha série? No meu sofá? Quem te deixou ligar a TV? Eu não vi esse episódio ainda. E essa merda de escuridão, acende essa bosta de luz. Volta o episódio. Escrota.
— Amor, desculpa.
— Chama tudo quanto é homem assim né? Só que eu é que sou o teu macho.
— Lucio, eu tava sozinha e só quis me distrair, tu sabe que eu assisto essa série também.
— Responde, quem é o teu macho?
— Você.
— Eu comprei essa televisão. Ninguém assiste nada antes de mim não.
Lucio, cambaleando, foi até o armário das bebidas. Pegou um copo e encheu de conhaque. Entornou e ficou encarando o vidro vazio, a boca rasgada em uma careta. Imobilizou Giovana sem esforço, com uma mão fechou o seu pescoço e a empurrou contra a parede:
— Eu podia esmagar esse copo aqui, agora, nas tuas costas. Quebrar ele, é só empurrar.
Giovana sentiu o vidro percorrendo a linha da sua coluna e a respiração furiosa em seus cabelos. A sua única reação foi implorar para que não a machucasse. Ele a soltou:
— Quando que eu te machuquei, sua louca? Tá ficando maluca, ó?
Desenhou um círculo com o dedo ao lado da orelha. O sorriso debochado fez Giovana enjoar, mas outra parte duvidou de si. De repente, ela realmente possuía algum transtorno… Afinal de contas, continuava ali:
— E a senhora vai dormir na cama, Miss de Coisa Nenhuma. Só que tu me deita com a cabeça pra baixo, não suporto o teu bafo na minha cara.
Pela manhã, Giovana se trancou no banheiro de Martinha. Sentada na privada, a crosta de sangue seco debaixo do nariz. Repetindo para si, sem chorar e até acreditar, que alguma veia devia ter estourado sem querer. Odiava Lucio, mas não foi embora mais uma vez. Ainda lembrava que ele foi o cara que a tratou bem quando se conheceram. Antes dele, nunca tinham a enxergado como uma princesa…
Não tem um lugar, dinheiro suficiente. Precisaria arranjar um emprego de novo, juntar algo, achar um canto…
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