EntreContos

Detox Literário.

ER 1 – Parte Um (Mariana Carolo)

Somos seres esburacados. Sedentos. 

Andamos por aí, colecionando tentativas de suprir o que nos falta. Decorando o vazio com coisas, pessoas, ideias. 

Comprar é mais fácil do que amar, o sentimento é lento e exigente. Queremos a posse imediata.

E a ânsia de possuir carrega em seu colo a destruição. 

Nenhuma arma dispara sozinha. Antes do tiro, é preciso a pulsão.

A história a seguir é sobre alguém que quis demais. 

I – Lugar nenhum

Lucio acordou sozinho no acostamento, com o gosto de sangue e grama nas gengivas. Tendo o sol como testemunha, levantou zonzo, lutando contra o peso das pernas. Na sua frente deparou-se com um deserto verde, renque de plantas. Milho? Soja? Seja o que fosse, era irrelevante… Como chegou ali? Procurou por Marcos, que deveria estar por perto. Chamou e ninguém respondeu. 

Quando conseguiu mais ou menos se situar, deu-se conta de que não tinha a mínima ideia de onde estava metido. Achou a paisagem desagradável. Odiava fazendas, a fantasia da vida simples no campo. Vacas e mosquitos, tédio e a sensação de que perderia uma grande chance. O seu barato era ser um dos predadores da selva de cimento; acumular casas, carros e outros troféus. Gostava de barulho e risco, foi pelo prazer da adrenalina urbana que se aventurou em construir o seu patrimônio na bolsa de valores. Enfim, pasto não é dinheiro. Cuspiu o resto de sangue entre os dentes e deu um passo para a frente. 

A ausência de casas ao redor, celeiros e currais ou placas de sinalização. Tentou lembrar dos eventos que o levaram até a área, mas a dor na nuca pulsava. Alguma festa selvagem? Parou de beber desde a última vez que prometeu a ela e fazia tempo que tinha cheirado pó demais. Vivia um período de quase sobriedade, apenas uma carreirinha, de vez em quando, para desenrolar os negócios. Desprezava as drogas menores e os viciados, zumbis que acabavam embaixo da ponte com cachimbos de lata de refrigerante.

O céu pálido e sem nuvens. Azul em cima da cabeça, verde ao seu redor. O calor o obrigava a franzir as carnes do rosto. Contudo, por mais que apertasse os olhos, o único vestígio de outros seres humanos era a estrada que atravessava a sua vista. Lambida de asfalto infinita e silenciosa, que pouco prometia além de uma longa caminhada. Sem as roupas apropriadas não conseguiria andar rápido o suficiente. Ainda assim, seguiu reto. Gotas de suor começavam a brotar em sua testa, até que reparou no chumaço de cabelo grudado no sapato. Fios unidos por fragmentos de pele e matéria viscosa, contrastando com o couro marrom do calçado. 

Não desviou o olhar, se abaixou e pinçou aquilo com os dedos. Examinou os fios compridos e embolados. Eram loiros, dela. Ou não, as últimas horas (talvez dias) sumiram da sua memória. Pode ter pisado na sujeira e levado consigo os cabelos de outra pessoa. Esperançoso, cheirou com certa vontade de que fossem sim de Giovana. Não tinha nenhum perfume bom no chumaço, apenas um aroma terroso que lembrava sangue. Jogou aquilo fora, balançou os pés, ajeitou o colarinho e seguiu. 

A maleta de Lucio desapareceu, bem como o seu carro. Ele se tateou na esperança de  encontrar, pelo menos, a carteira e o celular. Será que foi dopado, roubado e o largaram ali? O cartão de crédito, documentos, que transtorno… Mas, se isso ocorreu mesmo, que tipo de ladrão deixa para trás um celular de última geração? O aparelho estava sem sinal, mesmo assim, mandou uma mensagem para o seu assessor. A notificação de “mensagem enviando” ficou brilhando, teimosa na incompletude. Desligou a tela, perturbado com o sorriso de batom vermelho que enfeitava o papel de parede.

Andar consiste em colocar um pé na frente do outro. Lucio adquiriu rápido a habilidade, antes dos outros bebês. Desde cedo usou seus músculos e ossos como ferramentas a serviço das suas vontades. Porém, não era a criança perfeita que a sua avó, Dona Iracema, gostava de se gabar. No que se tratava de emoções, o menino tinha dificuldade para controlar-se. Quando inundado por lembranças, era frequente ele ser invadido por uma raiva inexplicável, ou pior, uma tristeza profunda: um caixão cercado de velas, uma colisão de carros, ele chorando sozinho em um berço… A avó então dizia que cabeça vazia era a oficina do diabo. Mandava o neto parar quieto e estudar, ficar rico e não se envolver com bobagens. Não suportaria perder outro menino. 

As plantas, divididas pelo asfalto, repetiam-se no horizonte. Chutou uma pedra em direção a elas e o pedregulho foi  silenciosamente engolido pelo verde. O vestido favorito dela também era verde, lembrou. Verde e vermelho no tapete felpudo do quarto. 

Conexão é item de primeira necessidade e Lucio pagava caro pelo recurso. Tinha optado por um plano de telefonia que garantia cobertura sem interferências em qualquer lugar do planeta. Considerou inaceitável, ao verificar o celular de novo, que o aparelho permanecia fora de área.  Pensou se a promessa não cumprida lhe renderia uma indenização:

— Bah Marcos, seu merda, cadê você pra me buscar? 

Bancava salários acima do mercado para que? O homem se viu como o último da linhagem dos competentes, cavaleiro solitário cercado por idiotas. Os demais que não sabiam ganhar dinheiro e, como vingança, o prejudicavam com estupidezes. A sua única culpa era fazer as coisas certas, tentava ensinar o sucesso. Xingar lhe deu sede. Procurou água, contudo, não quis arriscar sair do caminho. Além disso, entusiasmou-se por avistar um pequeno ponto preto. A saída dependia  dele, que caminhasse até lá. 

Imaginou um local repleto de agricultores simplórios, que iriam brigar de socos para levá-lo de volta para casa. Sim, quem escolher para ser o seu salvador vai tirar a sorte grande, sempre soube recompensar quem faz por merecer… Retornar ao que é seu. Digitar a chave do apartamento, tomar um banho demorado, ligar o ar e deitar nu. Pedir para a empregada lhe preparar um suculento filé. E, enquanto Martinha trabalhar, contará por onde andou. Quer testar a narrativa e os feitos que pretende atribuir a si, antes de impressionar os colegas da bolsa. Lembrou de tirar algumas selfies para desarmar quem o chamasse de mentiroso. 

Tem certeza de que os caras sentirão inveja do quanto foi homem. De repente, essa roubada o levará até a ser convidado para ir em algum podcast. Ela é atraída por fama e dinheiro como as outras. Não nega que quer reatar. Só que precisa se preservar, mostrar quem manda. O que Giovana deve estar fazendo? Quando ele reaparecer, viralizado como aventureiro, ela vai se arrepender. Ligará quase de madrugada. Decidirá a data, mandará que ela use aquele vestido, a levará para comprar… O plano se desfez no tapa automático que desferiu no próprio rosto. Não tem ela, não tem compras.

Agora, perdido e suado, apenas um caminho cercado de mato. O possível resgate brilhava como uma estrela negra, distante das mãos dele. Novamente a mulher relampejou em sua mente. Visualizou ela rindo e isso o irritou, Lucio nunca sabia se era com ele ou dele que Giovana gargalhava. O seu punho levantado, tentando destruir aquela risada… Tropeçou com a memória e, frustrado, cedeu ao próprio peso, caindo no acostamento.

Sentou, as pernas cruzadas como fazia quando era pequeno e se preparava para assistir televisão. Uma parte sua queria ficar ali, talvez em posição fetal, até se tornar um esqueleto. Quem sabe descansasse em paz. A outra lhe mandava ser homem e parar de choramingar. Rolando no chão, esbravejando sobre como a situação era injusta, Lucio reparou que as plantas do lugar não possuíam insetos ao redor. No céu, a ausência das cigarras e os outros bichos de campo. 

Além dele, a única vida no local era aquela matéria verde, expurgada de outras espécies. Constatou a obviedade da simetria dos caules, que despejavam para o ar a mesma quantidade de folhas. Deveriam existir diferenças, estágios variados de crescimento, algum apodrecimento ou deformidade. Um único e mísero erro. Contudo, o horizonte era assustadoramente matemático e limpo. As suas aflições se apequenaram. Resolveu voltar a caminhar, mais rápido e olhando com cuidado para os lados dessa vez. 

Seguiu até perder a noção dos quilômetros. O céu e a paisagem ainda idênticos ao ponto de partida, combinados de bagunçar as noções dele de espaço e tempo. E Lucio não tinha um mísero pedaço de pão para marcar o caminho. As panturrilhas doíam e, em seu ouvido, o vento parecia murmurar xingamentos. Homenzinho pequeno, pagando por tudo… 

Não queria deixar o que estava sentindo derrotá-lo. Reforçou para si que tudo é uma questão de trabalhar a mente… Afinal de contas, tinha desenvolvido ou não o seu guerreiro interior? Era um leão da selva, como aprendeu no podcast do seu ídolo. Na tentativa de se encorajar, entoou o “lema dos leões”:  

— Ame problemas, para amar as recompensas! Ame problemas, para amar as recompensas! Ame problemas, para amar as recompensas! Ame… 

Um queixume o interrompeu. Olhou para trás, ainda sem viva alma para tirá-lo dali. Tinha certeza do que escutou, mas o ambiente seguia inerte. A possibilidade de que começava a alucinar o assustou. Retomou a ladainha.

Logo teve de parar o mantra novamente, por causa da sequidão na garganta e aspereza da língua. A sede aumentava, naquele instante trocaria algumas ações por uma garrafa de água sem pestanejar. Passou os dentes nos lábios e foi como rasgar papel. A inclemência do sol obrigou que tirasse a camisa e a amarrasse na cabeça. Quase dois mil reais, transformado em um arremedo de chapéu… 

Talvez parecesse bonito, como um aventureiro de filme. Sim, tinha certeza que faltava pouco para chegar ao borrão preto.  Ao mesmo tempo, a possibilidade de que estivesse morto tomou conta da sua mente. Viu-se cadáver, deitado como um dia o seu pai esteve… Se fosse o caso, bem que o tal borrão poderia ser o Jardim, com vinhos e jovens virgens lhe esperando. Elas implorariam para servi-lo. Diria não, seria cruel. Talvez, na eternidade, fosse a chance de se vingar das… Desferiu um “vagabundas” automático e histérico, que o fez sentir uma pontada de vergonha.

O gemido novamente, agora mais alto e acompanhado de um cheiro de carne rançosa. Lucio explodiu de alívio quando, dessa vez, avistou alguém na estrada, só que bem distante. Uma outra pessoa. Real. Dane-se tudo, começou a acenar loucamente, na expectativa de que, quem quer que fosse, tivesse um veículo para sair dali. Gargalhava, inebriado pela esperança de não precisar mais caminhar. Decidiu que colocaria fora os sapatos que calçava. Melhor, queimaria o calçado e as roupas que usava em um tonel. Queria mesmo um celular novo. 

Imerso em suas fantasias, não atinou quando a figura começou a correr em sua direção. Rápido e forte demais, os seus passos soavam como o trote de uma dezena de cavalos. Seres humanos não galopam. Subitamente, ela parou a poucos metros e se acocorou no asfalto. Ainda entusiasmado pelas possibilidades da companhia, Lucio se aproximou para fazer contato. Poderia ser outro indivíduo na mesma situação e que não aguentava de cansaço… Não tinha mais volta no instante em que entendeu. Deparou-se com o horror.

Aquele ser, encolhido e nu, a pele amarelada coberta por uma grossa capa de sebo e suor. Arfando, como se fosse um saco enchendo e esvaziando, aguardando para dar o bote. A primeira coisa que virou foi o pescoço para cima, que soou feito um galho se partindo. A sua imensa cabeça procurou a caça, revelando poucos fios de cabelo e cavidades oculares vazias.  Lucio teve medo que saísse algo daquelas órbitas.

O bizarro de verdade se concentrava na boca aberta sem dentes. Dela surgia uma extensa língua cinza, tubular. O órgão estava tapado por indecifráveis mensagens e desenhos. Atordoado, Lucio, quase que por reflexo, apertou o celular para conferir se o aparelho ainda estava com ele. Ao olhar para aquela aparição, teve a impressão de que todas as suas conversas com Giovana pendiam expostas no órgão. O vermelho invadiu as suas bochechas, gritou tentando espantar aquilo.

A criatura, em resposta, levantou-se em um segundo, sustentando a sua encarada cega. Uma fenda que ia quase até o umbigo confirmava que a coisa era mulher. Quase ritualisticamente, ela passou a saltar em círculos e emitir barulhos incompreensíveis. Os pés e mãos eram arroxeados e finos, semelhantes a minhocas. Os membros contorciam-se aleatoriamente, como se dançassem uma música própria. Ou desejassem cavocar a terra. 

A urina desceu quente pelas pernas dele. Não tinha discurso, postura, nada preparado para aquele pesadelo. Queria gritar pela sua avó, a única capaz de expulsar os demônios. Fechou os olhos, na esperança de que estivesse em sua cama. Giovana o acordaria, o sobrevivente de um sonho ruim, e fariam sexo. Enjoou com a possibilidade de morrer na mão da coisa e o seu cadáver ser esquecido ali. 

Indiferente ao desespero, a fêmea preparava-se. Enrolou a gigantesca língua para dentro do rasgo que lhe servia de boca, as bochechas infladas como um balão. Dominava o órgão, que funcionava tal qual uma cobra treinada. No segundo seguinte, a despejou para fora, enrijecida. Da sua fenda respingava um líquido escuro e grosso, um convite para o acasalamento.

A língua procurou a mão do homem. O toque dela era gelatinoso e quente. Não tinha como escapar de sentir aquilo enrolando e pressionando, as juntas estalando e a mão contorcendo.  Qualquer movimento era impossível, deparou-se com alguém mais forte do que ele. Foi obrigado a se ajoelhar de dor. A condenação coube em poucos e eternos segundos.

Abriu os olhos após os dedos se afrouxarem. Permanecia longe do leito, perdido na paisagem que possuía regras próprias. Nada tinha mudado, exceto que a criatura havia esvaído em fumaça. Contudo, ela deixou um presente. Quando Lucio olhou para a sua mão, percebeu o membro tapado pelas mesmas estampas que adornavam a língua da monstra. Vislumbrou que morrer talvez não fosse o pior dos destinos. 

O asco que sentiu de si o fez desmaiar.

II –  O garoto da vovó

  —  Giovana… Droga, quanto tempo apaguei dessa vez? Ai minha cabeça, é a pior ressaca que já tive e não lembro de ter bebido. Deixa eu ver, não tem sangue escorrendo, acho que tô inteiro. Tá, continuo no meio do nada. Marcos? Alguém? É, sozinho… Preciso chegar até o socorro. Melhor abrir a câmera, conferir se estou apresentável. Nossa, que estrago. Como consegui esse hematoma? Rosto todo vermelho, a camisa podre, a calça manchada. É mais negócio desligar o celular por enquanto. Quando a bateria morrer, não vou ter espelho nem relógio. Preciso dar um jeito de disfarçar nem que seja esse cheiro, ninguém pode saber que me mijei… Porra, o que é isso? Foi de verdade! A minha mão… AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!

Por que essa provação, Deus? Eu pago os meus funcionários, faço caridade, nunca atrasei o dízimo. O inferno não deveria ser reservado para os miseráveis?  É um plano, um teste? Aceito os seus desígnios, mas tinha necessidade dessa doença, feridas, sei lá. 

Ou foi ela. Giovana, isso é vingança? Pois saiba que quem merecia estar aqui era você, a culpa de tudo é tua. Se eu fiz qualquer coisa de errado, foi porque a senhora, Miss Porto Alegre, me deixou sem alternativas. Sempre fui da paz, nunca quis… Era a tua mão que devia apodrecer e cair. Não a minha. Te dei aliança de compromisso, te tratei que nem rainha. Arquei com o vestido do desfile, o teu título é meu. 

Lucio, tu é homem de negócios, um leão da selva! Esquece a vagabunda e se orienta! Raciocina, tens que chegar até o resgate. Aliás, desgraça de mancha preta. Ando e ando e, quando parece que está mais perto, aquilo foge e se afasta. Mas só paro quando chegar lá… E vou aparecer assim na frente dos outros? Será que, se eu esfregar a mão em uma folha ou colocar terra, isso sai? Nossa, que planta fria, dá a impressão que é de plástico, vou tentar puxar a folha. Urgh, que coisa é essa saindo de dentro? Meu, chega de gosmas, vamos ao plano B. Bosta! Essa terra tá presa no chão? É alguma palhaçada? Se for, mando dar uma surra no engraçadinho.

 Aposto que o Marcos é cúmplice desse circo, ele e a Giovana se juntaram para me largar aqui. Apareçam desgraçados! Será que o invejoso é outro dos casos dela? Ele pode até querer, mas a madame nunca olharia para ele. É mulher cara, não ia dar moral para um irrelevante que nem aquele. Essas marcas parecem pulsar, tomara que não espalhem. Preciso me livrar disso. Prometo que, se conseguir ir embora e tudo der certo, faço uma boa ação das grandes. Falo com o pastor, ele me orienta no que abençoar e eu passo o cartão. 

Não foi um pesadelo. Aquela criatura… Agonia só de lembrar: feia, repulsiva, nojenta!  Deus, me tira tudo, mas não me transforma em uma aberração. Um pária social que assusta as crianças, todo leproso e estragado. Não quero acabar na porta de uma igreja, pedindo um prato de comida e me escondendo do mundo. Me livra de terminar que nem a Fabiana que a vó ajudava, com o corpo coberto de verrugas. Todo mundo chutava ela, com medo que fosse contagioso…  

Vovó. Ela dizia que um homem de valor começa no terno que veste. Dona Iracema, nunca deixei de seguir seus ensinamentos, viu? Continuo lutando pelo sucesso, trabalhando cada detalhe da minha imagem. Custe o que custar. Não se preocupe, eu vou dar um jeito nessa mão. O seu neto não vai ser alvo de risadas, comentários… O Marcos adoraria me ver humilhado… Esquece esse inútil, Lucio. Os perigosos de verdade são os tubarões do teu círculo. Se te chutam, porta que fecha é  impossível de abrir de novo. 

Que saudades, vó. A senhora teria me aberto os olhos, me poupado desse sofrimento. Sabia reconhecer de longe quem servia e quem era figura que não prestava. Queria tanto que estivesse comigo, vendo a nossa linhagem prosperar. Tô morrendo de fome e não tenho o teu bolinho de milho, dona Iracema. Sim, eu sei, a senhora fazia por não ter coisa melhor. E que somos o que comemos, por isso devemos nos alimentar como gente bem de vida. Hoje eu só como o que tem de melhor, vovó. Mas assistir desenhos, devorando aqueles farelos amarelos nos dedos, é uma das melhores lembranças que tenho.

Nós conversávamos tanto. Lembro da senhora na cadeira do pátio, dizendo que, quando eu virasse homem, teria de lhe comprar roupas sob medida e os doces mais finos da cidade. Pena que não deu tempo. Sabia que eu te tirei daquela sepultura miserável e cremei o teu corpo? As tuas cinzas agora estão guardadas em um belo vaso dourado, protegidas em uma cristaleira na sala. Uma urna de rainha… Nunca permiti que qualquer uma chegasse perto. A Giovana foi a única que tentou e eu dei uma lição nela. A família é sagrada e aquela lá nunca mereceu fazer parte da nossa. 

Eu vou lhe dar os bisnetos, a continuação que tanto planejava. Um lindo casal. O garoto forte e esperto. Herdeiro dos negócios, a garantia de que nosso nome se firmará. A guriazinha será linda. Comprarei as melhores roupinhas, bonecas e tudo o que a princesinha desejar. Antes, obviamente, encontrarei uma boa mãe para eles. Farei testes, para ter certeza de que ela vai cuidar da casa e entender que a mulher serve e o marido provém. Submissão, modéstia e fidelidade. Claro, beleza e genética serão requisitos… Jamais vou te esquecer, vó. Quando tirarmos as nossas fotos comemorativas, a senhora estará sempre presente. Colocarei a sua urna no centro de tudo. 

Não tem nada para beber, nem sinal de lago ou comércio, meu reino por um gole de whisky? O buraco do estômago não para de roncar, a sede só aumenta. Quem sabe eu mastigo uma dessas folhas. É o que tem, né. Tiro a gosma pra pôr na boca e engano o desespero até sair daqui. E se for venenosa não tem problema, é bem possível que eu já esteja no inferno mesmo…  Recuso morrer de inanição, seria muito perdedor. Afinal de contas, o que é esse ponto preto? Uma casa, um prédio, o fim do cenário? E se eu caminho tudo isso e não tem nada lá? Martinha, saudades da tua comida, vou pedir que asse um boi inteiro quando voltar. Vai cozinhar até eu dizer chega. 

Parece vômito. Quando tiver internet de novo eu vou descobrir o que é essa porcaria, proibir que entre lá em casa. Sou capaz de virar prefeito só para arrancar isso de tudo quanto é lugar. Voltar aqui de trator e destruir tudo. Ainda queimava a terra e jogava sal, nunca mais nascia nada. Força Lucião, sacudir para sair o que ainda tem aí dentro, deixar só essa parte verde. Nossa, quando mastiga também parece plástico, um chiclete sem gosto. Certo, não morri, nem estou babando no chão… 

Sentado de novo, no meio do nada. Cadê a polícia quando um cidadão de bem precisa dela? Uma mísera viatura, ficaria contente até com uma carroça. Nem formigas passam por aqui. Só eu nessa estrada, o escolhido. 

Estranho, que bobeira, sono mesmo. Do nada. Eu podia cochilar no asfalto… Devo descansar, é uma questão de sobrevivência. Pensando melhor, do jeito que o azar grudou em mim, vou para a plantação. Capaz de ser atropelado, algum carro que resolva aparecer justo quando eu dormir. Mas também não seria inteligente me embrenhar, vai saber o que espera lá no fundo. Aqui, na beira, consigo observar, se aparecer algo ou alguém dá pra fugir. Dobrar a camisa e, olha só, tenho até um travesseiro. Deitar no chão é menos desconfortável do que parece. O céu é pacífico daqui, quase como um mar calmo. Eu vou só fechar os… 

III – Noite

A folha o saciou e lhe deu um sono sem sonhos. Quase feliz, Lucio, quando abriu novamente os olhos, foi engolido pela escuridão. O sol, observador da sua jornada até então, tinha sumido e a noite não trouxe qualquer estrela para lhe oferecer. Ele só conseguia tatear o negrume ao seu redor, o que parecia intensificar o silêncio ensurdecedor do lugar. Agora, ouvia nitidamente o sangue correndo pelo seu corpo, os seus ossos estalando, a pele latejando… Assustado, pegou o telefone. Queria ver se tinham respondido a sua mensagem, a data, qualquer coisa… 

O brilho da tela iluminou ao redor, desvelando uma estranha novidade. Apontou o telefone para os lados e percebeu que a paisagem estava nua. O mar de plantas desapareceu, como se tivesse sido arrebatado aos céus. Lucio, ao ter ficado, tornou-se a única presença na gigantesca mancha marrom. Se aquela criatura, ou alguma coisa pior, surgisse, não teria qualquer chance de se esconder. 

Uma horda pronta para despedaçá-lo… Tremendo com o quadro dantesco, apressou-se em retornar para a estrada. A lanterna do celular lhe garantia um círculo de claridade, perímetro no qual tentava permanecer. Rangeu os dentes, tinha perdido o controle até da bateria do seu aparelho: naquele momento contava com vinte e cinco por cento de carga e só. Calculou que lhe restava cerca de uma hora de luz, provável que fosse menos. Sentiu a chicotada da pressa no rosto.

Não, nunca ia admitir que o desconforto era mais profundo. Quando Giovana passou a frequentar o seu apartamento, falava para ela que as luzes sempre acesas eram para dar um clima de romance. Depois, mandava que ficasse tudo iluminado e deu. Ele não precisava dar satisfação. Sim, ainda morria de medo do escuro. Quem quer que tenha armado esse castigo, conhecia o seu íntimo. O obrigava a enfrentar, além da hostilidade do ambiente, lembranças que havia escondido em cantos da memória. 

Lucio tentou se camuflar, disfarçar os sons que emitia. O seu próprio corpo o entregando para sabe-se lá o que… Mais do que nunca, chegar ao resgate para sobreviver. O ponto preto fundiu-se com o breu, a sua localização era um mistério. Nada garantia que ele também não tivesse evaporado. O cara que vivia de riscos apostou em uma direção e foi. 

Para ele, expressões como “uma agulha no palheiro” eram bobagens que a vizinhança de sua infância dizia. Ai que Dona Iracema o pegasse copiando gíria ou fala deles! Teria as suas orelhas puxadas, ser pobre e grosso era inaceitável. Ali, arfando e cuidando para não deixar o último fio de luminosidade apagar, se deu conta de que estava procurando uma agulha no palheiro. Só não teve coragem de articular em voz alta.  

Dezessete por cento, apressou a marcha. Negrume atrás e na sua frente. A estrada foi reduzida ao brilho do celular. Nada mais que a perspectiva de um passo. As pernas falharam e Lucio caiu no chão. O celular saltou longe, a lanterna para baixo tingiu o chão com uma tonalidade amarelada. Desesperado, ele se arrastou para resgatar o telefone. Abraçou o aparelho, que aqueceu as suas mãos. A tela rachou, o sorriso vermelho agora desdobrou-se em vários. Sem tempo para sofrer. Quatorze por cento. Ignorando o aviso da necessidade de recarga, partiu para onde quer que fosse.

Não havia uma curva, declive ou subida. O percurso que cumpria era dolorosamente reto. Queria parecer uma flecha, mas sentia-se rato. Oito por cento. Passou pela mente dele que, se surgisse um abismo na sua frente, ia permanecer correndo. O que o fez parar foi a aparição da própria Giovana, que chegou como enviada pela escuridão. Estacionou diante dela que, linda, brilhava como uma esmeralda. Seis por cento. Lucio não questionou. Tinha a sua mulher junto dele e ela o queria de novo. A pele branca colada na sua, o cheiro bom do cabelo macio.

Apalpou suas carnes, certificando-se da solidez da presença. Notou-a esquisita, mais mecânica, mas o que ficava normal nesse inferno? Não queria discutir a relação. Cobiçava levá-la para a terra e tomá-la, um leito sujo para uma mulher suja. Giovana o desejava, ponto. A sua vitória de homem, era realmente macho. Ela envolveu-o com seus braços finos. Três por cento. Chegou perto da sua orelha,  mordeu o lóbulo e soltou um grunhido.

Um som grave, de um animal com raiva. O feitiço foi desmanchado, a clareza fulminou a  escuridão e despedaçou o véu da luxúria. Não era ela, nunca foi. Um por cento. Quem o agarrava era aquilo, a monstra. O celular morreu e Lucio não pôde gritar, pois a aparição enrolava a língua em seu pescoço. 

Estava com fome e queria caçar.   

IV- Pedaços

Apagou as luzes para rolar na cama, pensando nas formas de Eduarda. A colega que ele decorava cada pinta e que nunca se deu conta de que Lucio existia. Fantasiava puxar aquela trança para perto de si, desfazê-la e se enredar naqueles cabelos dourados… Iracema entrou no quarto sem bater à porta, os passos silenciosos para surpreender o neto. Lucio, ao perceber os olhos julgadores da avó o mirando, se escondeu debaixo do edredom. Ninguém falou sobre o momento de intimidade, o garoto apenas se recompôs e sentou na cama. O rosto da mulher era uma máscara indecifrável: 

— A bença, vó. Posso ajudar a senhora em algo?

— A bença, meu filho. Vim te dar boa noite. 

— Durma bem, vózinha.

Iracema fez menção de sair, mas ficou na soleira da porta. Virou-se de um jeito solene. Parou nos pés de Lucio, que ficou imóvel esperando o discurso da avó: 

— Filho, eu não te condeno por isso. É errado, mas tu está na idade. Você tá virando um homem, é normal. O teu pai era assim também, aquele me deu trabalho. O meu Reginaldo, ainda por cima, era bonito que nem o Diabo. Vocês são tão parecidos…  Eu só tenho medo é que uma mulher acabe te arruinando, como aquela chocadeira destruiu o teu santo pai. 

— Vó, por favor, a minha…

— Deixa eu terminar, guri, não me interrompa. Se o meu Reginaldo não tivesse conhecido aquela vagabunda, ele não tinha se afogado na garrafa. Agora tu não seria órfão e o teu pai te ensinaria a ser homem. Eu te dou a educação que posso, mas sou viúva, mal me sustento com as costuras. 

— Eu quero logo trabalhar, para ajudar a senhora.

— Não, vai estudar e enriquecer. Ninguém pode te tirar o estudo e, se tu tens dinheiro, o mundo é teu… Uma esposa melhor, eu implorava. Teu herdeiro não pode vir da ralé, Reginaldo. Ele não me escutou, mas te deixou aqui. Lembro que era madrugada de frio, ele no portão com aquele pacotinho nas mãos. Eu te aceitei nos meus braços, Lucinho, e te nanei até tu dormir. Promete que vai me obedecer. Eu quero que case, tudo o que tens direito. Vai me dar um casal de bisnetos. Mas escolhe melhor do que ele. E fica rico, gente miserável só sofre…  Mulher direita, que não te destrua. 

— Prometo, vó.

— Certo, agora sim. Dorme com os anjos, meu filho. Se eu morrer essa noite, vou em paz. 

A imagem de Eduarda foi sugada por um buraco negro. Sozinho no quarto, Lucio chorou baixinho até adormecer.

***

Giovana assistia uma série, mas não conseguia se acomodar completamente no sofá. Só parou para aproveitar porque estava sozinha. Queria apagar as luzes do apartamento e dar  um pouco de sossego para os olhos. Era alta madrugada, o sono relaxava as suas articulações, quando a chave virou na porta. Um arrepio percorreu a sua espinha, que automaticamente retesou.  

Ela não reclamou do horário para Lucio, que ele não tinha avisado que sairia, nem do cheiro de perfume feminino e bebida que empesteou o ar. O olhar embriagado dele a avisou que era melhor ficar quieta. Pensou que precisava ir embora dali, mas não tinha casa para voltar:

— Tu tá assistindo a minha série? No meu sofá?  Quem te deixou ligar a TV? Eu não vi esse episódio ainda. E essa merda de escuridão, acende essa bosta de luz. Volta o episódio. Escrota.

— Amor, desculpa. 

— Chama tudo quanto é homem assim né? Só que eu é que sou o teu macho.

— Lucio, eu tava sozinha e só quis me distrair, tu sabe que eu assisto essa série também.

— Responde, quem é o teu macho?

— Você. 

— Eu comprei essa televisão. Ninguém assiste nada antes de mim não.

Lucio, cambaleando, foi até o armário das bebidas. Pegou um copo e encheu de conhaque. Entornou e ficou encarando o vidro vazio, a boca rasgada em uma careta. Imobilizou Giovana sem esforço, com uma mão fechou o seu pescoço e a empurrou contra a parede: 

—  Eu podia esmagar esse copo aqui, agora, nas tuas costas. Quebrar ele, é só empurrar. 

Giovana sentiu o vidro percorrendo a linha da sua coluna e a respiração furiosa em seus cabelos. A sua única reação foi  implorar para que não a machucasse. Ele a soltou:

— Quando que eu te machuquei, sua louca? Tá ficando maluca, ó?  

Desenhou um círculo com o dedo ao lado da orelha. O sorriso debochado fez Giovana enjoar, mas outra parte duvidou de si. De repente, ela realmente possuía algum transtorno… Afinal de contas, continuava ali:

— E a senhora vai dormir na cama, Miss de Coisa Nenhuma. Só que tu me deita com a cabeça pra baixo, não suporto o teu bafo na minha cara. 

Pela manhã, Giovana se trancou no banheiro de Martinha. Sentada na privada, a crosta de sangue seco debaixo do nariz. Repetindo para si, sem chorar e até acreditar, que alguma veia devia ter estourado sem querer. Odiava Lucio, mas não foi embora mais uma vez. Ainda lembrava que ele foi o cara que a tratou bem quando se conheceram. Antes dele, nunca tinham a enxergado como uma princesa… 

Não tem um lugar, dinheiro suficiente. Precisaria arranjar um emprego de novo, juntar algo, achar um canto… 

15 comentários em “ER 1 – Parte Um (Mariana Carolo)

  1. Gustavo Araujo
    18 de maio de 2026
    Avatar de Gustavo Araujo

    Dentre as várias dicas de escrita atribuídas a Hemingway, apócrifas ou não, uma se destaca: sempre comece o texto com uma frase verdadeira.

    Aqui a gente vê essa máxima aplicada em plenitude, já que nos seis seis parágrafos iniciais há uma espécie de desabafo contundente e que, é provável, servem como preparação para a história em si.

    Logo primeiro capítulo aparece o Lúcio, uma espécie de macho-inseguro-aspirante-a-redpill-sobrevivente-dos-legendários. Está desorientado, perdido em uma paisagem um tanto onírica. Quer regressar a seu mundo, mas nada ali se comporta de maneira trivial. A todo tempo ele se lembra de Giovana, sua mulher, a quem talvez tenha agredido ou coisa pior. Uma outra mulher, ou um ser que se parece com uma mulher, surge à beira da estrada e o deixa desconfortável, marcado até, por conta de uma língua enorme que o aterroriza, até desaparecer.

    No segundo capítulo, a desorientação se mantém, com o fluxo de pensamento que toma conta de Lúcio. Ele se lembra da avó, do pensamento conservador que herdou dela, critica Giovana por ela não se encaixar no papel destinado às mulheres. Critica Marcos também, que parece ser um assessor ou algo do tipo. Lucio está, enfim, carente do controle a que sempre teve. Quer chegar ao ponto preto. Recuperar-se. Por isso entrega-se ao sono.

    No terceiro capítulo a noite chega. E com ela vem a revelação das fragilidades de Lúcio, o medo do escuro. A bateria do celular que se esvai serve como contagem regressiva do terror. Giovana aparece, mas não é ela. É o monstro-mulher com sua língua terrível.

    No quarto capítulo a avó Iracema ganha mais cores. É aí que percebemos a influência dela, reacionária (ou realista, para quem preferir), anti-feminista, na educação do neto, como ela ajuda a moldar na cabeça dele, ainda menino, a necessidade de dominar. Quer, enfim, transformar o neto em um cidadão de bem.

    O capítulo derradeiro dessa parte dá vida à Giovana, vítima de um relacionamento abusivo e tóxico, do qual ela não consegue se livrar. Ora se culpa, ora tenta se convencer de que precisa dar o fora, mas como acontece normalmente, é difícil levar a cabo qualquer ruptura.

    Pois bem.

    A prosa em todo o texto é seca. As frases curtas ajudam a criar o clima de desorientação, típico de quem está perdido e avalia a todo momento as chances que tem, os detalhes do terreno, enfim, aquilo que o cerca, tudo em busca de controle. E Lucio, como autêntico representante do universo da pílula vermelha, um self-made-man acostumado a ser obedecido por conta do patrimônio que possui, não admite a humilhação de ver-se fora do protagonismo, mesmo numa realidade etérea e incompreensível.

    Vejo que a ambientação cede por vezes espaço à introspecção. Não do tipo contemplativo ou lento, mas da espécie que desafia, que é atirada com a velocidade de uma metralhadora. Isso ajuda a dar força à narração, já que Lucio está, de fato, prisioneiro de um acerto de contas.

    De fato, ao menos nessa primeira parte, há uma forte crítica ao ambiente que a machosfera tenta resgatar, não só aqui no Brasil, mas no mundo todo. Pessoalmente, concordo com todas os apontamentos, com a necessidade de fazer Lucio despertar – ele e tantos outros homens que se mantêm voluntariamente cegos e que buscam resgatar em os dias em que exerciam o poder sem questionamentos – mas é preciso cuidado para não transformar esse contexto em algo panfletário ou repetitivo, assumindo que se trata de um romance que se desdobrará por mais três etapas.

    O trecho final, em que Giovana aparece, não me pareceu à altura dos demais. Talvez pela falta do ambiente onírico, talvez pela falta da confusão mental. É um tanto frio, teatral, com diálogos esquemáticos. Não curti muito essa parte. Talvez fosse o caso de reescrevê-la pelas lentes de Lúcio, já que é por intermédio dele que a trama se desenvolve. A opção pelo olhar da Giovana quebrou isso, funcionando como um apêndice estranho. A não ser que esteja se inaugurando aí uma trama paralela, com foco nela, do ponto de vista dela. A conferir.

    O texto, ao menos do jeito que está, parece prestes a terminar, assemelhando-se a um conto. Isso não é de maneira nenhuma ruim, mas estou um tanto receoso por saber como você, Mariana, irá prolongar esse purgatório dos personagens.

    Há muito de Simone de Beauvoir nas linhas e eu espero que você consiga desdobrar esse tema tão necessário numa narrativa igualmente instigante.

  2. Desafio Entre Contos
    18 de maio de 2026
    Avatar de Desafio Entre Contos

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    Atenção: esta é uma análise gerada por Inteligência Artificial, no contexto do presente Desafio, com base em fontes selecionadas pela Autora.

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    Esta análise técnica do texto “Parte 1”, de Mariana Carolo, fundamenta-se nas premissas literárias, filosóficas e psicológicas estabelecidas pelas fontes selecionadas, como Harold Bloom, Stephen King, Jean-Paul Sartre, Albert Camus e C.G. Jung. 1. Resumo e Ambientação

    O texto introduz Lucio, um homem que desperta desorientado em um “deserto verde”. Ele é um personagem moldado pela “adrenalina urbana” e pelo acúmulo de bens, um “predador da selva de cimento” que vê a paisagem rural com desprezo: “pasto não é dinheiro”. A narrativa alterna entre sua tentativa de sobrevivência nesse cenário matemático e limpo — onde a ausência de insetos e a simetria das plantas sugerem uma realidade absurda — e flashbacks que revelam sua natureza violenta e abusiva no relacionamento com Giovana. O encontro com uma criatura grotesca, que marca sua mão com mensagens indecifráveis, sinaliza uma descida a um inferno pessoal e metafísico. 2. Conexão com o Leitor e Valores Universais

    O texto estabelece uma conexão imediata através de uma verdade universal expressa logo na abertura: “Somos seres esburacados. Sedentos”. Esta metáfora da incompletude humana ressoa com a busca de sentido discutida por Camus, onde o homem tenta “unificar” e “reduzir o mundo ao humano” para aplacar sua nostalgia.

    A conexão ocorre também pelo reconhecimento da Sombra, termo de Jung para o lado escuro da nossa natureza. Lucio não é um herói, mas um espelho de patologias contemporâneas: o consumismo como substituto do afeto e a possessividade que gera destruição. O leitor é levado a confrontar o “divórcio entre o homem e sua vida”, o sentimento de absurdo que surge quando os cenários habituais desmoronam. 3. Aspectos Psicológicos e Filosóficos

    Do ponto de vista filosófico, Lucio vive o que Sartre chama de má-fé, escondendo de si mesmo sua “liberdade total” através de desculpas deterministas ou do foco exclusivo no ente (o objeto, o dinheiro) em vez do ser. A situação de Lucio exemplifica o “sentimento da absurdidade”: ele é um “estrangeiro” em um universo subitamente privado de ilusões.

    Psicologicamente, o texto explora a dissociação de personalidade. Lucio é o “neurótico cuja mão direita não sabe o que faz a sua mão esquerda”. Ele se vê como um homem de valor, seguindo os preceitos de sua avó Iracema sobre imagem e sucesso, enquanto sua realidade factual é de um agressor doméstico:

    “Tu tá assistindo a minha série? No meu sofá? […] Escrota.”

    O surgimento da criatura fêmea pode ser interpretado como o encontro traumático com o Self ou com a Anima negativa, que surge para cobrar a conta de uma vida unilateral e voltada apenas para o exterior. 4. Aspectos Técnico-Literários

    • Arco Narrativo: A estrutura é de uma descida (catábase). Lucio sai do topo da cadeia alimentar urbana para a humilhação física e moral. O texto segue a recomendação de Stephen King de iniciar com uma situação forte: um homem que acorda sangrando no acostamento, sem memória.
    • Construção de Personagens: Mariana Carolo aplica a técnica de “mostrar, não dizer”. Em vez de rotular Lucio como vilão, ela mostra sua brutalidade através de ações e diálogos: “Imobilizou Giovana sem esforço, com uma mão fechou o seu pescoço e a empurrou contra a parede”. Lucio possui a “terrivel interioridade” que Bloom atribui a figuras como Macbeth ou Satã.
    • Linguagem e Metáfora: O uso de metáforas como a “estrela negra” do resgate e o “sorriso de batom vermelho” no celular que se estilhaça confere densidade ao texto. A linguagem é direta, evitando o que King chama de “baboseira”, focando no essencial para drenar o pântano da confusão do leitor.

    5. Afinidades com Obras Clássicas

    • Similaridades:
      • Milton (Paraíso Perdido): Lucio guarda afinidade com o Satã de Milton no seu ressentimento e no “sentimento de mérito não reconhecido”. Ele acredita que merece o céu e que o inferno é para os outros.
      • Camus (O Mito de Sísifo): A rotina mecânica de Lucio em Porto Alegre ecoa o ciclo “bonde, escritório, sono” de Camus. O desmoronamento desse cenário é o motor da trama.
      • Shakespeare (Otelo): O ciúme de Lucio e sua necessidade de controle sobre Giovana remetem a Otelo e Iago, onde o amor se torna uma “busca do espaço perdido” através do controle obsessivo.
    • Divergências: Diferente do herói de um Bildungsroman tradicional (romance de aprendizado) como o de Goethe ou o Hans Castorp de Thomas Mann, Lucio parece resistir ao crescimento. Ele é um “Homem do Subsolo” (Dostoiévski), cuja consciência serve apenas para aumentar seu sofrimento e sua alienação.

    6. Qualidades e Defeitos

    Qualidades: O texto possui uma originalidade factícia forte. A autora consegue criar um clima de “insólito” (uncanny) ao transformar elementos familiares, como um celular ou um vestido verde, em fontes de angústia. A prosa é visceral e honesta na representação da violência, evitando a “idealização perigosa”.

    Defeitos: Há o risco de o texto se tornar um “romance de tese”, o que Camus considera “odioso” por se inspirar em um pensamento satisfeito que tenta provar uma verdade. Lucio corre o risco de ser uma caricatura da masculinidade tóxica se não houver, nas partes seguintes, uma exploração mais profunda de suas contradições humanas, como a “trágica ambiguidade” que torna personagens como Macbeth interessantes. O excesso de adjetivos em certas descrições da criatura (“repulsiva, nojenta”) pode ferir a regra da parcimônia verbal defendida por Stephen King.

    Conclusão: “Parte 1” é um início promissor que utiliza bem a teatralidade e o diálogo para expor a vacuidade do protagonista. A obra se sustenta ao não oferecer “paz envenenada” ou “renúncias mortais” ao leitor, mantendo a tensão entre a lucidez e o horror

  3. toniluismc
    15 de maio de 2026
    Avatar de toniluismc

    Olá mais uma vez,

    Conforme prometido, trago agora o resultado da minha análise detalhada. O discurso está em terceira pessoa porque assim fica mais organizado na minha mente. Espero que seja útil.

    Aqui há um projeto forte, com boas imagens e uma protagonista ausente que pode vir a ser central (antes da sua resposta ao meu último comentário, eu já imaginava a questão da avó como base e a companheira como um desdobramento posterior, eu apontei mais no sentido de dizer que isso já se faria necessário nos próximos capítulos e não acabar deixando isso muito mais pra frente). O problema maior é que ainda não houve equilíbrio de três coisas: horror alegórico, thriller psicológico e estudo de relação abusiva.

    A narrativa tem uma premissa potente: Lucio acorda em um lugar impossível, cercado por uma plantação artificial, sem sinal, sem memória clara, carregando vestígios de violência contra Giovana. O ambiente parece funcionar como punição, purgatório ou materialização do próprio horror interno dele. Isso é bom.

    O grande acerto está em fazer o horror externo refletir a podridão moral do personagem. A criatura, a língua marcada por mensagens, a mão contaminada, a paisagem sem insetos, a plantação matematicamente limpa, o ponto preto inalcançável: tudo isso cria uma lógica de pesadelo interessante.

    O problema é que o texto revela muito cedo que Lucio é um homem repulsivo. Ele já entra em cena misógino, classista, arrogante, violento, ressentido, obcecado por posse, dinheiro, status e controle. Isso gera nojo, mas reduz a complexidade. Em vez de o leitor ir descobrindo a monstruosidade dele, o texto praticamente anuncia: “este homem é horrível”. Para horror psicológico, isso enfraquece a progressão.

    Seção I — a melhor abertura, mas com excesso de tese

    A seção I tem força. O acordar no acostamento, o sangue, a grama, o celular sem sinal, o chumaço de cabelo, a estrada vazia e a plantação antinatural criam uma abertura eficiente. Há mistério, atmosfera e uma promessa clara: algo aconteceu com Giovana, Lucio não lembra ou finge não lembrar, e o lugar onde ele está não obedece às regras comuns.

    O final da seção, com a criatura, é realmente o ponto alto em termos de asco. A imagem da língua marcada por mensagens e o toque na mão de Lucio funcionam como punição simbólica: aquilo que ele disse, escreveu, fez ou tentou esconder volta para o corpo dele.

    A fragilidade está no prólogo e em alguns trechos explicativos. A abertura com “somos seres esburacados”, “comprar é mais fácil do que amar”, “a história a seguir é sobre alguém que quis demais” já entrega a chave moral da obra antes de a cena começar. Isso pode soar elegante, mas também didático. A narrativa ficaria mais forte se confiasse mais na cena e menos na formulação filosófica.

    Seção II — o experimento funciona

    A seção II, em monólogo interno, é ousada e funciona melhor do que eu esperaria. A voz de Lucio aparece com clareza: paranoica, vulgar, narcisista, religiosa por conveniência, misógina, classista, infantilizada pela avó e obcecada por aparência.

    É uma boa seção porque aprofunda o personagem sem sair da situação de sobrevivência. A mão marcada, a fome, a sede, a lembrança da avó, a fantasia dos filhos, a obsessão com Giovana e com a própria imagem vão se misturando. Aqui a autora consegue transformar pensamento em ação psicológica.

    O risco é a saturação. Ficar muito tempo dentro da cabeça de um agressor exige muito controle. O leitor entende a perversidade dele, mas pode se cansar se não houver contraste. Ainda assim, entre as quatro seções, essa talvez seja a mais bem-sucedida formalmente.

    Seção III — aqui o texto perde precisão

    O problema da seção III não é exatamente “falha de redação”; é perda de função dramática.

    A noite chega, a plantação desaparece, o celular vira fonte de luz, há contagem regressiva da bateria, Lucio vê uma falsa Giovana e depois percebe que é a criatura. Em termos de thriller, a cena é compreensível. O problema é que ela parece mais convencional do que o restante. A narrativa sai do horror simbólico e entra em perseguição/ataque.

    Além disso, a aparição de Giovana como isca sexual é delicada. O texto quer mostrar que Lucio só consegue enxergá-la como corpo, posse e objeto de dominação. Isso faz sentido. Mas, como Giovana ainda não foi desenvolvida por si mesma, a cena corre o risco de reduzi-la à fantasia nojenta dele. O leitor sente repulsa por Lucio, sim, mas ainda não conhece Giovana o bastante para que a violência tenha densidade humana.

    Seção IV — boa intenção, execução desequilibrada

    A seção IV melhora em clareza, mas confirma o problema: Giovana entra tarde e quase sempre como vítima.

    A cena da avó é importante porque mostra a origem da educação moral de Lucio: dinheiro, linhagem, controle feminino, desprezo pela mãe, masculinidade deformada, medo de ser destruído por uma mulher. Isso dá contexto sem absolver o personagem.

    Mas o discurso de Iracema é muito explicativo. Ela verbaliza quase toda a tese do romance. Funciona como origem psicológica, mas falta ambiguidade. Seria mais forte se a violência simbólica dela aparecesse em gestos, hábitos, pequenas humilhações e afetos contraditórios, não apenas em discurso.

    A cena de Giovana é forte e incômoda. O controle da TV, da luz, do sofá, do corpo e do sono mostra bem a dinâmica abusiva. O detalhe dela repetir para si que o sangue talvez fosse uma veia que estourou “sem querer” é muito bom, porque mostra a autossabotagem psíquica da vítima. Mas ainda é pouco. Para uma narrativa sobre relação abusiva, Giovana precisa existir mais fora da violência de Lucio.

    Resumindo: O texto funciona muito bem quando transforma Lucio em horror. Funciona menos quando precisa transformar Giovana em personagem.

    Essa é a crítica mais importante.

    Se Giovana for apenas o corpo que ele deseja, humilha, agride, persegue e fantasia, a narrativa corre o risco de ficar centrada demais no agressor. Para o tema ter peso, ela precisa ter vontade, contradição, história, inteligência, rede afetiva, medo, cálculo, vergonha, dependência e desejo de saída. Não basta ela sofrer; ela precisa existir.

    No fim das contas, estou falando de ajuste do pacto narrativo. O texto está bem escrito e tem grande potencial, só precisa tomar cuidado para não ficar caricatural.

    Até a próxima, abraço!

  4. GIVAGO DOMINGUES THIMOTI
    12 de maio de 2026
    Avatar de GIVAGO DOMINGUES THIMOTI

    Obra: [Parte 1] | Autor(a): [Mariana Carolo]

    Fase de Leitura: [Ex: Capítulos I – IV]

    Data: 12/05/2026

    I. 📌 SÍNTESE E IMPRESSÕES GERAIS

    Uma breve introdução que contextualiza a proposta da obra, o gênero literário e o impacto imediato da leitura.

    “XY – Parte um” é trecho inicial de um terror psicológico, que abordará o relacionamento violento de Lúcio e Giovana. Ele começa a partir dasa digressões psicológicas na mente pertubada do antagonista.

    É um trecho que solidifica o estilo da Mariana Carolo quando vemos alguns contos dela: A  Santa no Altar, Respingos do Negro Desespero, Os Dentes Doem se Você Não Dorme.  

    É um trecho que carece de alguns refinamentos mas que, quando lapidado, conhecendo o talento da autora, terá tudo para ser um romance contundente. Se um dia vier a ser publicado (e tomara que seja), tem tudo para ter um lugar especial na minha estante.

    II. 🛠️ ANÁLISE DOS ELEMENTOS DE CONSTRUÇÃO (Objetiva)

    Avaliação detalhada da técnica, estrutura e engrenagens narrativas utilizadas pelo autor.

    1. Arquitetura do Enredo e Ritmo

    • ⚠️ Pontos de Ajuste: [Onde a história perde tração ou parece apressada?]
      • A história começa num mergulho na psiquê do personagem e vai acompanhando os delírios de Lúcio. Me pareceu muito precoce, especialmente se tratando de um terror psicológico. É um início estranho, lento e até mesmo arriscado, porque pode perder a atenção do leitor logo de cara.
      • Além disso, acho que esse início meio epílogo (no qual você fala sobre o que a história irá abordar), por mais bem articulado que seja (Lacan bateria palmas!), careceu de um cuidado maior (ou pouquinho mais de lirismo). Sobrou umas palavras, algumas ideias me pareceram meio redundantes e deslocadas (Nenhuma arma dispara sozinha. Antes do tiro, é preciso a pulsão.). Talvez colocar em itálico o trecho todo também seria interessante, para dar o destaque apropriado.

    2. Modelagem de Personagens

    • ✨ Pontos Fortes: [As vozes são distintas? As motivações estão claras?]
      • A avó está bem desenhada.
    • ⚠️ Pontos de Ajuste: [Há inconsistências ou falta de profundidade em algum personagem?]
      • De uma forma geral, Giovana quase não aparece.

    A composição de Lúcio me incomodou. Sei que vou caminhar por um trajeto espinhoso (que alguns até consideram ofensivo) que é questionar quem escreve porque seguir um caminho Y e não X. Mas não me leve a mal, Mariana, é só uma impressão que me sinto obrigado a compartilhar. 

    Ao meu ver, Lúcio está extremamente caricato/estereotipado. Logo de início, vemos que ele é mal: abusa de drogas e álcool, é um retrato de um homem neoliberal e patrimonialista, misógino e por aí vai. Desde o início, percebemos também que, pelo menos, um dos conflitos que o antagonista possui é uma relação tóxica e violenta com sua parceira, a Giovana. 

    Bom, dito tudo isso, eu penso que a composição do Lúcio está de acordo com o terror desse livro (um homem terrível assombrado por algo terrível), mas de alguma maneira, não bate com o quadro geral social dos homens violentos. Ou, melhor dizendo, embora o Lúcio seja um grande exemplo de homem tóxico e violento, não acho que ele seja o melhor exemplo para antagonizar o perfil porque ele é fora da curva. Talvez, a melhor composição deste personagem fosse um perfil de um homem comum. Por exemplo, nem todo homem machista é endinheirado e poderoso e pisa naqueles que consideram inferiores. Na realidade, alguns são considerados muito dóceis e amigáveis, mascarando completamente perante a sociedade sua misoginia. Creio que no momento que você retrata Lúcio como um homem misógino médio, você torna a problemática apresentada mais fidedigna com a realidade que vivemos, além de tornar o terror mais assustador de fato (porque, até o momento, estou pensando que Lúcio merece).

    Por fim, também acho que essa “revelação misógina de Lúcio” está muito cedo dentro da narrativa. Talvez fosse melhor mascarar alguns traços para que o leitor pense “por que ele está passando por isso?” ao invés de “ele merece isso!”.

    3. Estilo e Domínio da Linguagem

    • ✨ Pontos Fortes: [Uso de metáforas, clareza do texto, tom adequado ao gênero.]
      • Penso que o tom está muito adequado ao terror psicológico abordado. 
      • Não é um texto claro. Dentro desse aspecto, faz sentido, mas destaco que deve ter cuidado para não exagerar nesse ponto;
      • Gramaticalmente, me pareceu muito bem revisto. 
    • ⚠️ Pontos de Ajuste: [Repetições de palavras, problemas de pontuação ou ritmo de frase.]
      • Senti algumas frases soltas, as quais, de certa forma, me incomodaram:
        • E a ânsia de possuir carrega em seu colo a destruição. Nenhuma arma dispara sozinha. Antes do tiro, é preciso a pulsão. A história a seguir é sobre alguém que quis demais.
        • A ausência de casas ao redor, celeiros e currais ou placas de sinalização.
        • Andar consiste em colocar um pé na frente do outro.

    III. 🎭 ANÁLISE DA EXPERIÊNCIA DE LEITURA (Subjetiva)

    O impacto estético, a imersão e a originalidade da voz autoral.

    • 🗣️ A Força da Voz Autoral: [O autor possui uma identidade própria de escrita? O texto traz frescor ao gênero?]

    Mariana, dos poucos contos seus que li, consegui perceber nesse trecho inicial alguns traços que gosto: uma predileção por histórias mais sociais/políticas, utilizando-se do terror para enquadrá-las, uma escrita arrojada, dura e sem muito floreios (e ainda assim poética), uma ambientação gaúcha. 

    É interessante (neste caso, até me deu um sorriso no rosto) perceber como alguns dos seus contos desembocaram nesse romance. 

    • 🌍 Poder de Imersão e Ambientação: [O universo do romance é crível? O leitor consegue se transportar para o cenário?]

    Confesso que ser jogado, de cara, dentro do universo surrealista e pertubado do antagonista me incomodou. Isso é positivo, contudo, em alguns momentos, foi um incômodo mais para o lado do “será que eu quero terminar de ler isso?” do que para o lado “preciso compreender melhor o que está acontecendo”. Felizmente, ao inserir uma memória do personagem com a avó e com a Giovana trouxe um pouco mais de terra firme para eu me prender à narrativa,

    Penso ser importante trazer um equilíbrio melhor. E repensar um pouco a composição do Lúcio, como destrinchei anteriormente. 

    • ❤️ Engajamento Emocional: [O texto desperta curiosidade, tensão ou empatia? O que faz o leitor querer continuar?]

    É um trecho que desperta muitos sentimentos no leitor. Incomoda, causa estranheza, asco e, de certa forma, até um prazer em perceber o antagonista sofrendo logo de cara. É uma narrativa bem escrita, do ponto de vista técnico. 

    Por um outro lado, mais subjetivamente, em alguns momentos, especialmente no início, a falta de uma narrativa mais pé no chão me incomodou. Não compreender para onde a narrativa estava indo. Ou, Lúcio. Enfim, tenho uma enorme dificuldade de acompanhar e desfrutar de narrativas assim. Talvez seja algo a se retrabalhar (ou não). 

    Esse trecho merece atenção nas próximas etapas. Tem muito potencial para ser um ótimo romance.

  5. Thales Soares
    11 de maio de 2026
    Avatar de Thales Soares

    Terminei de ler essa parte inicial do seu romance. Agora tenho vários apontamentos para fazer, de alguns pontos que desgostei. Porém, quero que você saiba que, como um todo, essa primeira parte me agradou bastante.

    Acho que o Lucius deu uma enfraquecida como personagem. Se por um lado, no Capítulo 1, ele estava bastante convincente e interessante, agora ele parece que deu uma saturada. Isso porque a todo momento você apenas fica tentando dizer ao leitor “Ei gente! Olha isso. Olha como meu protagonista é escroto! Ele é um verdadeiro cuzão!”. E isso é mostrado de tantas formas diferentes ao leitor, que fica parecendo que ele não tem nuances. Não tem camadas. A única camada que ele possui é a de “macho escroto”. No capítulo 1 você ainda tentava mostrá-lo como uma pessoa, como uma vítima de um problema misterioso. Mas depois foi usado todos os artifícios possíveis para tentar tirar essa visão humana dele, e deixá-lo apenas como o escrotão, perdendo assim conexão com o público, e transformando-o num personagem raso. O capítulo 2, por exemplo, não acrescenta muita coisa para o desenvolvimento da trama… apenas mostra, na primeira pessoa, o quão escroto são os pensamentos dele. Aí o Capítulo 3 volta a ficar interessante, pois foca no mistério e no terror! Então no Capítulo 4 volta a focar no quão escrotão ele é, com a justificativa barata de “Mas veja bem, ele é criadão com a vó! Foi a avó dele que o educou para ser um merda!”, e terminando com um flashback que me pareceu forçar a barra (mais adiante vou comentar mais sobre isso).

    Acho complicado trabalhar com um personagem assim como protagonista. Não porque ele é cuzão. Mas porque se você fizer ele parecer um ser humano, vivo, com camadas, e interessante, você corre o risco de o público gostar dele. Então, a solução que você encontrou, parece ter sido fazê-lo raso como um pires, porque o seu propósito era fazer com que o leitor o odiasse, e no final pensasse “Sofre desgraçado, sofre!! Seja devorado por esse bicho!”. Mas essa satisfação não me veio à cabeça, porque a narração me pareceu manipulada para que eu pensasse dessa forma. Eu gostaria que Lucius fosse um personagem completo, com lado bom e lado ruim, como qualquer pessoa, mostrando que ele também pode ter qualidades admiráveis, apesar de os defeitos se sobressaírem. Vamos pegar um exemplo famoso de personagem cuzão e que é muito bem desenvolvido, a ponto de algumas pessoas amarem: o Capitão Pátria. Ele é o símbolo do macho escroto. E mesmo assim, algumas pessoas o amam. É porque ele tem camadas. E é legal o público ter a escolha de amar ou odiar o seu personagem, e você não ficar impondo isso o tempo inteiro. A não ser que… oh não… o comentário do Martim foi o que mais causou horror e repulsa, só de pensar… a não ser que esta obra seja panfletária, cujo objetivo ideológico é maior do que o simples entretenimento, com a mensagem grifada com marca texto, como seu o leitor fosse burro e não conseguisse chegar a essa conclusão, dizendo “O protagonista é um homem branco sis, rico, e portanto é escroto!”. Esse tipo de discurso para mim é tão pobre, tão desprezível… no entanto, torço para que o Martim esteja enganado, e que a obra não caminhe por essa trilha.

    E aliás, não há nada de errado em fazer uma crítica social em sua obra. Mas é necessário ter bastante sutileza, senão fica parecendo algo lacrador, tanto se for de esquerda, quanto se for de direita. Ficar jogando as coisas na cara do leitor o tempo inteiro não me parece o melhor caminho, caso essa seja a intenção. O Thiago Amaral, do Entre Contos, adora fazer críticas sociais contra machistas e red pills, e faz isso em todos os contos dele. E fica até que interessante, pois ele não deixa a crítica dominar a obra, e deixa ela ali, oculta, nas entrelinhas. Isso torna uma crítica mais forte.

    No entanto, existe a possibilidade B, que seria: o Martim está errado, e esta obra não possui viés político forte. Você, como escritora, quer apenas criar um personagem detestável, para que o público o odeie, e sinta prazer com o sofrimento dele. Ele pode estar numa espécie de… sei lá… limbo! E aqui ele está pagando por seus pecados, e no final ele vai ter alguma redenção (ou não). Esse caminho me parece mais nobre. Mas se for o caso, ainda faltam as nuances do protagonista, por mais que corra o risco e parte dos leitores gostarem dele. Talvez, com um desenvolvimento mais profundo do protagonista, mostrando suas camadas, o leitor até torcesse por ele… como acontecesse no filme do Coringa. E não há nada de errado nisso. Às vezes queremos torcer por um cuzão filho da puta, porque ele é tão bem desenvolvido que nos conquista mesmo sendo mal, gerando identificação do público.

    No capítulo 4, você pareceu forçar a barra. Para mim, a cena de “marido opressor” não funcionou, porque faltou sutileza. Falas como: “Responde, quem é o teu macho?”, me tiraram um pouco da obra. Afinal, que tipo de homem utiliza o termo “macho”? Eu só vejo feministas falando dessa forma (opa! pera… não estou dizendo que você, autora, fala isso… estou criticando apenas a obra, e não você). Acredito que, um homem cuzão de verdade, diria “Responde, quem é o teu homem?”. Uma mudança muito sutil, mas que torna o comportamento tóxico mais convincente. Ou até mesmo um “Responde, quem é o teu mestre?”, caso você queira dar um toque mais “Neil Gaiman”.

    E por falar em Neil Gaiman, ele seria um ótimo exemplo de como um ser humano imundo pode ser carismático, cheio de camadas, e até mesmo adorado por muitos. Na vida real, ele parece ser tudo o que você quer que o Lucius seja: um escrotão. Mas ele tem seu lado bom, tem qualidades, e em suas entrevistas até consegue conquistar seus fãs. Mas uma parte dentro dele é maligna, e ele comete abusos sexuais, trai sua mulher e faz com que sua funcionária coma merda (literalmente). Isso é interessante, porque mostra altos e baixos em uma mesma pessoa. Ela tem muitas qualidades boas, mas às vezes, um único comportamento abominável torna-a no mesmo instante um escroto, sobressaindo todas as outras qualidades dela. Imagine um personagem que é carismático, simpático, bem humorado, rico, cheio de lábia… mas ele estuprou a secretária, pois é desses homens que não aceita um “não” como resposta. Acho que isso seria bem mais impactante, pois aí você mostra a camada do “bom moço”, a camada do “homem qualificado, cheio de habilidades”, e a camada do “macho escroto” que vai acabar prevalecendo, pois é impossível de se passar pano para um estupro. Essas diversas camadas faria com que o público tivesse ainda mais asco do protagonista… porque ele pareceria ser bom, mas tem esse segredo aí que faz com que tudo desmorone. O próprio mundo do leitor desmoronaria ao descobrir isso, pois ele pensaria “Como eu estava gostando de um merda desses? Espero que ele morra logo!”. Porém, do jeito que está, mostrando apenas coisas ruins do Lucius, e desde a primeira linha até a última você ficar tentando dizer pro leitor que ele é escrotão, a sensação que causa do monstro atacando ele é indiferente. Não há impacto.

    Outra coisa que poderia ser interessante para desenvolver essas nuances na personalidade de Lucius, seria você colocar ali no limbo outro sobrevivente humano. Uma interação com outro personagem masculino poderia mostrar mais facetas do protagonista. De repente, por um minuto, o leitor pode realmente pensar que ele é gente boa, pois ele tem lábia, tem carisma. Mas então, de repente a situação aperta… o monstro surge! Os dois começam a correr. O outro homem corre mais rápido que Lúcius… mas se Lúcius ficar para trás, ele vai ser devorado. Então Lúcius agarra o homem pelo braço, jogando-o no chão, e deixando ele como sacrifício ali para o monstro devorar, e assim poder salvar sua própria pele. Isso sim seria muito interessante, e não precisaria você ficar afirmando que o Lucius é um cuzão, pois o protagonista estaria VENDO isso. Mostrar é bem mais forte do que falar.

    Enfim, espero que você entenda o que estou tentando dizer. Acho que acabei sendo um pouco longo em meu comentário, e me expressei de forma um tanto confusa. Como ficou grande demais, nem sequer revisei esse meu comentário… mas espero que tenha sido útil. Espero realmente que o Martim esteja errado. E estou muito ansioso para ver a próxima parte deste romance, pois, apesar dos deslizes que eu citei, eu ainda possuo genuíno interesse por essa obra. E a propósito, os capítulos que eu mais amei foram o 1 e o 3. Porque neles o foco é o mistério, o suspense, o terror. Se a história focasse mais nesse mundo louco, mostrando uma luta por sobrevivência, e parasse de ficar tachando o protagonista como “macho escroto” o tempo inteiro, as coisas se tornariam bem mais interessantes. Espero que siga por esse caminho daqui em diante.

    Boa sorte! Espero ser surpreendido no próximo capítulo!

  6. Martim Butcher
    10 de maio de 2026
    Avatar de Martim Butcher

    Olá, Mariana,

    Vim aqui dar uma olhada no seu romance…

    A premissa é muito eficiente. O sujeito que acorda sem saber onde está, em uma situação repleta de elementos inusitados, já garante que o romance sustente o interesse por muitas páginas. Há, claro, o risco de que a explicação posterior seja forçada (sobre algum outro romance do desafio li que alguém apontou um risco de acabar como Lost). Não acho que isso vá acontecer com seu romance, pois o elemento mais bizarro até agora – o monstro – já apresenta características que, embora inexplicáveis, mantém uma relação de continuidade com as questões psicológicas do protagonista. Como ele é misógino, seu monstro é uma espécie de corporificação da sua fobia. Quero dizer, com isso, que o meu receio é maior em relação a uma possível explicação racional para a presença do monstro do que a uma falta de explicação. Se no fim houver uma explicação por demais ancorada na causalidade, pode ser que o romance abra mão da potência da imagem em prol de garantir que as coisas sejam justificadas como “realismo”.

    O capítulo de abertura é não apenas eficiente, mas muito bem construído do ponto de vista da técnica. Gosto também da maneira como você vai intercalando pontos de vista e momentos no tempo, nos capítulos posteriores. Já deu para entender que há uma estrutura propícia para o desenvolvimento de distintos núcleos narrativos, e isso pode ser muito favorável para que você consiga expandir a narrativa sem ter que revelar as coisas tão rapidamente.

    Agora vou dar de advogado do diabo…

    Fico aqui pensando na construção do Lucio e nas implicações que ela tem sobre a obra como discurso, em sua dimensão política. Tenho receio de que ele, pintado assim a tintas grossas, seja meramente suporte de uma crítica que antecede a feitura da sua obra literária. Lucio reúne todos os componentes de um tipo bastante problemático em nossa sociedade. É um típico machista, misógino, provavelmente segue influencers red pill, bate na mulher e se ampara no pastor, acha que seu dinheiro dá conta de tudo, é classista etc. etc. O risco de dar protagonismo a um personagem tão típico como esse é de submeter sua obra à funcionalidade quase panfletária. Meu medo é de que, restringindo Lucio a um tipo, você subordine seu romance a uma função quase informativa, em detrimento da poética.

    Talvez, é claro, eu esteja me precipitando, afinal o que você mostrou de Lucio é apenas o ponto de partida. A transformação pela qual ele passará determinará se seu romance toma um conteúdo social e o submete à imaginação (que é, a meu ver, o que marca a singularidade da ficção em relação a outros tipos de discurso) ou se, pelo contrário, deixará a ficção submissa a conteúdos que já são plenamente preenchidos por outras linguagens. Quando isso acontece, a ficção perde sua especificidade (e, para mim, sua razão de ser).

    Faz sentido isso para você?

    Parabéns pelo trabalho até aqui, e espero poder saber como segue essa história.

  7. claudiaangst
    9 de maio de 2026
    Avatar de claudiaangst

    🌻 Mariana, tudo bem? Perdoe-me pelo comentário caótico que farei. Espero que ajude de alguma maneira.

    Não consegui ser técnica na minha leitura, pois Lúcio me deu asco 🤮​ e me fez lembrar de tantas histórias tão parecidas que ouvimos, lemos, testemunhamos enquanto mulheres.

    Vou me ater agora à escolha dos nomes dos personagens:

    • nome Lúcio, do latim “Lucius”, remete à ideia de luz 💡, brilho e claridade. Lúcifer tem a mesma origem, e acabou como um anjo caído. Será que o protagonista vai alcançar a luz? 🕯️ Vai descobrir o grande idiota que sempre foi?

    Lúcio seria a grafia de acordo com as regras de acentuação, mas…

    (fala a Claudia que não recebeu o acento devido no seu nome ao ser registrada, pois segundo a IA: “O acento agudo no “a” (Cláudia) é uma característica da língua portuguesa (e às vezes espanhola), devido às regras de acentuação de paroxítonas terminadas em ditongo crescente. Inglês, Italiano, Alemão, Espanhol: A grafia comum é Claudia (sem acento).” Isso tudo para dizer: é melhor tacar um acento aí no nome Lúcio só para agradar os revisores chatos de plantão.

    • O nome Marcos vem do latim Marcus, derivado de Mars (Marte), o deus romano da guerra ⚔️. Deve ser um companheiro de luta do Lucinho. Um dos companheiros na jornada dos machos, uma espécie de curso para aprenderem a ser líderes alpha?
    • Giovana significa “Deus é gracioso”, “agraciada por Deus” ou “a graça e misericórdia de Deus”. Seria a ex-mulher de Lúcio um presente de Deus, a escolhida para estar ao seu lado, digo, sob o seu domínio, submissa e fiel? 🎁 🙌

    Observação: Giovana é o nome da minha filha, e estou sofrendo com o destino da sua personagem. 🥺

    • Iracema, em guarani, significa “lábios de mel”. 💋​🍯 Vovó Iracema 👵 tinha sempre doces palavras para o netinho, adoçando a realidade para ele. Em tupi, “saída de mel”, aí já penso na tal fenda da monstra – o que escorria era mel? A monstra é uma fêmea, assim como Giovana e Iracema. Interessante notar que há IRA logo no começo do nome… Ela parece ser uma senhora cheia de ressentimentos, que criou um filho na base da papinha de letras machistas e o netinho também. Pela sua fala dá pra perceber de onde Lúcio tirou as barbaridades que diz e comete.

    Lúcio é um elemento movido aos preceitos da cultura red pill. Exala a tal masculinidade dominante, que defende que os homens perderam espaço e devem reassumir sua condição de ser dominador. Há muito de misoginia em suas atitudes, ódio 👺 e aversão às mulheres, pois as trata como seres inferiores, interesseiros e manipuladores. São tantas as falas e pensamentos tóxicos, horríveis que ele tem, que fica difícil citar todos os disparates, mas vai aí uma pequena amostra:

    • A sua única culpa era fazer as coisas certas, tentava ensinar o sucesso.
    • Ela é atraída por fama e dinheiro como as outras.
    • Decidirá a data, mandará que ela use aquele vestido, a levará para comprar
    • mandava ser homem e parar de choramingar.
    • a chance de se vingar das… Desferiu um “vagabundas”
    • ela vai cuidar da casa e entender que a mulher serve e o marido provém. Submissão, modéstia e fidelidade.
    •  

    O protagonista/vilão revela uma postura violenta, típica de um macho escroto, ao empurrar Giovana contra a parede e ameaçá-la com um copo de vidro. Naturaliza a agressão. E, na manhã seguinte, a jovem percebe sangue coagulado sob o nariz 🤕.  

    A coisa, a monstra 👹​, talvez seja a representação do que Lúcio sente em relação às mulheres. No fundo, ele tem medo de ser engolido pelo poder feminino. É como o bicho-papão escondido no armário querendo pegar a criancinha. “deparou-se com alguém mais forte do que ele” > Agora não tem mais a vovó 👵 por perto para salvá-lo das meninas más.  

    Pareceu-me que Lúcio foi abandonado na estrada 🛣️​🥺​​​, talvez pelos seus companheiros lá da Montanha Mágica dos Machos. Espera por um salvador, alguém que o leve de volta ao seu mundo, à sua realidade-bolha.

    Lembra-se de Giovana 🙅‍♀️​, sua ex-mulher, mas parece que algo aconteceu com ela, pois em um momento ele pensa: “Se eu fiz qualquer coisa de errado…/ Não tem ela, não tem compras/ reparou no chumaço de cabelo grudado no sapato. Fios unidos por fragmentos de pele e matéria viscosa.”  

    Imagino que Lucinho-bicho-ruim se empolgou na sua demonstração de força e acabou matando a sua ex. Talvez ela tenha finalmente rompido o relacionamento e o macho alpha não aceitou isso 🤜🏼​👊🏽. Pelo fato de haver cabelo e sangue no sapato do idiota, presumo que ele chutou a cabeça da Giovana. ​🦵​👞​🙆‍♂️​

    Pelo final da parte 1 do seu romance, ela sabia que precisava fugir, mas não tinha condições, faltava dinheiro 💰 e acolhimento 🤗. No entanto, pelo que entendi, esse foi um recorte do passado, uma cena mostrando o quanto o relacionamento era tóxico, doente. Deduzo que depois Giovana, sem saída, criou coragem e pediu o divórcio.

    A planta gosmenta seria babosa? Serve para tratar feridas e queimaduras, dizem que melhora a saúde digestiva.

    Pitacos quanto à revisão/coesão de texto ✔️​❌​:

    • Ele se tateou > não está errado, mas o mais comum é dizer Ele se apalpou
    • — Bah Marcos, seu merda > — Bah, Marcos, seu merda
    • […] mercado para que? > […] mercado para quê?
    • Visualizou ela rindo > ficou estranho > Visualizou Giovana rindo
    • Um único e mísero erro / um mísero pedaço > a repetição não está tão próxima, mas mesmo assim, consideraria trocar um dos míseros
    • Subitamente, ela parou > trocaria o ELA por A COISA, ou O SER, pois você ainda não determinou que era uma fêmea.
    • cavocar a terra > cavoucar a terra OU cavucar a terra(é aceito também)
    • […] para dar um clima de romance. Depois, mandava que ficasse tudo iluminado e deu. Ele não precisava dar satisfação. > repetição do verbo DAR.  O DEU isolado ficou estranho… deu certo? Funcionou?
    • mas tu está na idade.> ficaria mais natural com TÁ > mas tu tá na idade.
    • Chama tudo quanto é homem assim né? > vírgula depois do assim.
    • Força Lucião, sacudir para sair >Força, Lucião, sacudir para sair

    Enfim, o seu romance está muito bem construído, com um toque de caos (fluxo de consciência, flashes do passado, cenários estranhos, etc.) que muito me agrada. O ser humano é caótico por natureza, não é mesmo?

    Sua narrativa prende muito a atenção, apresenta uma fluidez que facilita a leitura. Quero saber mais do que aconteceu com esse Lucinho malvadeza, o que ele fez com Giovana, e que castigo receberá.

    Este não é um texto gostosinho, para se divertir, muito pelo contrário, leva à reflexão, ao sentimento de identificação, de reconhecimento da realidade que nos cerca.

    Sei lá, vou precisar descansar a mente com alguma bobagem bem leve, para fazer a higiene dos pensamentos 🧼​🧠 e do sentir ​💔 ❤️‍🩹.

    Parabéns, Mariana, você é uma baita de uma escritora ✍️.

    • Mariana
      10 de maio de 2026
      Avatar de Mariana

      Claudia, você foi a primeira mulher a ler o texto e agradeço tuas reações. O teu entendimento… E o elogio, vindo de ti, é multiplicado por mil. Muito obrigada mesmo…

  8. toniluismc
    9 de maio de 2026
    Avatar de toniluismc

    Vamos ao comentário da impressão de leitura da última seção:

    Este trecho está melhor escrito do que o anterior, mas confesso que fiquei confuso. No início do romance achei que viria alguma história com realismo mágico indo pro lado do terror, mas agora vejo um enredo de Thriller psicológico e não consigo afirmar que tenha me agradado.

    Independente da questão da minha frustração, pois é um componente subjetivo, acho que o romance perdeu em qualidade nas duas últimas seções em relação às primeiras. Os detalhes da análise virão em comentário posterior.

    O que posso adiantar é que se o enredo vai tratar de relação abusiva, talvez seja necessário desenvolver melhor a personagem Giovana. Às vezes tenho a impressão de que conheço mais a Iracema do que ela.

    Se o objetivo era deixar o leitor com nojo de Lucio, foi atingido com sucesso. Agora no final muito mais do que antes.

    Para completar a parte da impressão de leitor, preciso dizer que a sua narrativa prende lá no início, mas essa segunda metade que relatei ter falhas acho que já abre margem para pensar abandonar a leitura. E não é porque ficou mais visceral, acho que é a questão de estar confuso mesmo. Quando se trata de um assunto tão delicado como o que você tá ousando trazer, é necessário ter consciência de cada palavra que está sendo utilizada, sob o risco de você afastar quem poderia se beneficiar dessa mensagem e agradar apenas àqueles que já sentem prazer com práticas perversas como as descritas.

    No próximo comentário vou buscar ser mais detalhista na análise para que você possa fazer os ajustes que considerar cabíveis.

    De todo modo, parabéns pelo trabalho!

    Até mais, abraço!

    • Mariana
      9 de maio de 2026
      Avatar de Mariana

      Luis, agradeço teus comentários e concordo com eles.

      • Giovana vai ter o olhar que merece. Mas é para ela não ser tão conecida quanto Iracema mesmo – a vó é base; Giovana é frustração/idealização.
      • Concordo com o cuidado que o tema merece, mas esse é o primeiro ciclo e ele se encerra aí. Pode ter certeza que o Lucio não escapa impune.
      • O elemento do terror não foi embora. A ideia é que ele sirva como um castigo para um cara podre. Infelizmente, em muitos casos, a única coisa que a gente pode é torcer para uma punição divina ou algo perto disso.
      • A história é toda fragmentada, acredito que com as outras partes vai fazer sentido. Ou não.
  9. toniluismc
    8 de maio de 2026
    Avatar de toniluismc

    Olá novamente,

    Acabei de ler a seção III e a sensação que ficou foi ruim. As falhas na redação acabaram tornando a experiência de não ter entendido a função deste trecho ainda pior.

    Que Lucio é um animal selvagem, isso já ficou claro, mas daí o tratamento de Giovana no meio disso ficou raso. Acho que você poderia ter escrito mais para trazer mais nuances, pois o choque foi muito grande e, ao mesmo tempo, tão rápido. A sensação é de flatulência que se esvai sem saber exatamente qual a origem do odor.

    Espero que na próxima seção as coisas voltem a fazer sentido.

    Até mais!

  10. Gabriel Kolisch
    6 de maio de 2026
    Avatar de Gabriel Kolisch

    Gostei como a experiência foi se desenrolando de forma imprevisível. Começa parecendo um mistério/crime, toma uma outra dimensão de tamanho, começa a parecer uma coisa fora da realidade e vira um horror.

    Gostei muito da escrita, e como você construiu só com elementos curtos, o contexto do Lucio. “A inclemência do sol obrigou que tirasse a camisa e a amarrasse na cabeça. Quase dois mil reais, transformado em um arremedo de chapéu…  “

    Achei que você conseguiu deixar bem vivo os sentimentos dele, as raivas súbitas, a vergonha e incerteza constantes, e mesmo com o cenário “mudando” (ou talvez por isso) ficou bem dinâmico tentando entender o que estava acontecendo.

    Senti que o ritmo de leitura deu uma diminuída para mim no trecho entre “–”, do “Andar consiste em colocar…”. Talvez eu tenha achado uma quebra grande no meio do fluxo.

    Eu não consegui construir a criatura na minha cabeça muito bem, eu imagino que tenha sido a intenção, mas se não foi, fica minha experiência.

    Coisa menor: teve um trecho que ele fala que trocaria ações. E na hora me confundi porque eu entendi que ele faria algo, e não ações de empresa.

    A fala inicial chega como uma quebra bem vinda, mas pareceu artificial por ser tão longa. Até pq a narração segue no mesmo formato.

    Inclusive se buscar essa quebra, alguns parágrafos poderiam ser intercalados entre a narração dele com falas. Como o  que começa com “Lucio, tu é homem de negócios, um leão da selva!”    (mas isso tudo só se for algo que você ache que somaria)

    Me parece estranho que ele variar entre achar que tá no inferno ou algo fora da realidade, e suspeitar Giovana e Marcos por terem feito aquilo.

    “Se te chutam, porta que fecha é  impossível de abrir de novo.” não entendi esse trecho.

    Nos cap III e IV eu flui que mal percebi pontos para trazer.

    No geral, acho que minha maior estranheza é do Lucio variar entre ver algo distante da realidade e ao mesmo tempo naturalizar. O que eu justifico, como leitor, como ele ser meio ruim da cabeça.

    Dito isso, gostei muito da prosa, das descrições e do ritmo.

    Parabéns pelo personagem que gera asco constantemente!

  11. toniluismc
    5 de maio de 2026
    Avatar de toniluismc

    Olá novamente!

    Li a seção II e vou falar sobre ela agora:

    Achei a escrita mais fluida e gostei bastante da ousadia de fazer o capítulo inteiro só de diálogo interno.

    Não há muito o que pontuar sobre a técnica, pois o excelente conteúdo acaba se sobrepondo e tirando o foco das eventuais falhas. Futuramente pretendo me debruçar mais analiticamente sobre a parte estrutural, mas por enquanto você tem um leitor com muita vontade de saber o que vai acontecer nessa história.

    Lucio é um personagem muito bem construído, parabéns!

    Abraço e até a próxima!

  12. Thales Soares
    3 de maio de 2026
    Avatar de Thales Soares

    Uma coisa interessante neste desafio é que já sabemos, antes mesmo de começar a ler, a autoria da obra. E como estamos entre amigos, em um grupo que frequentemente participamos de campeonatos literários juntos, já sabemos o que esperar de cada autor. E quando, em minha lista, apareceu o nome Mariana Carolo, eu logo fiquei contente, e com a mais alta das expectativas!

    Meu texto favorito desta autora é aquele de terror e suspense, postado no desafio de viagem e roubo, o Dentes que Rangem. É uma obra envolta em mistério, de uma forma surrealista até. Eu estava torcendo para que este romance, ainda sem nome, fosse algo nesse estilo. E, lendo o capítulo 1, me parece que de fato é!

    A história começa com uma vibe meio Twilight Zone, onde o protagonista acorda com um pouco de sangue na boca, e um chumaço de cabelo no sapato, largado sozinho no meio de uma estrada, com umas plantações ao seu redor. Logo de cara a narrativa nos envolve com esse mistério, causando curiosidade e prendendo totalmente a atenção do leitor. E aliás… esse é o primeiro ponto que estou avaliando nos romances: se ele consegue ou não prender a atenção logo de início. O romance que não possui uma boa abertura, costuma ser automaticamente descartado pelo leitor. No caso deste, ele já começa incrível!

    E a linha narrativa que guia o leitor é excepcionalmente bem construída, pois sabemos que a autora tem uma habilidade fora do comum para construir uma narrativa interessante. Meio que com um conta gotas, as informações são passadas para o leitor, e vamos conhecendo o protagonista sem pressa. Ele tem uma personalidade bem interessante, pois é um empresário com uma personalidade meio complicada. Gostei bastante dele! E parece que ele tem algum enrosco com uma ex… algo que acredito que vá ser mostrado mais pra frente.

    Essa ideia de mostrar um personagem perdido no meio do nada é uma premissa muito interessante. Me lembrou de uma história do The Witcher, onde a Ciri acorda toda estrupiada no meio de um deserto. Eu adoro, nesses casos, ficar observando como o personagem vai lidar com a situação, e quais são os desafios que ele terá que enfrentar. E os desafios aqui são o calor, a caminhada com pouca esperança, delírios, sede. E tudo é muito bem construído, a ponto que o leitor consegue sentir tudo isso.

    Ao final do capítulo 1, temos a cena do monstro. Podemos sentir muito bem a sensação de horror neste momento, e ela é bem legal! A minha única ressalva, porém, é que eu tive um pouco de dificuldade de imaginar o monstro através da descrição dada. Ele parece ser uma figura bem abstrata, mas achei um pouquinho confusa a escolha de palavras na hora de mostrá-lo, e não consegui enxergar direito. Talvez tenha sido um problema meu… depois vou tentar ler novamente esse trecho, e então, no meu próximo comentário, confirmo se a sensação permaneceu um pouco embaçada.

    Ainda não li o capítulo 2, mas já estou ansioso para prosseguir com a leitura! Voltarei aqui assim que eu tiver concluído a leitura!

  13. toniluismc
    1 de maio de 2026
    Avatar de toniluismc

    Olá, Mariana!

    Farei comentários ao longo do mês para expor organicamente a experiência completa com a leitura. A seguir, as primeiras impressões da seção I:

    Redação invejável, como sempre. O uso das palavras está muito bom, principalmente no final da seção, na qual você consegue transmitir fielmente a sensação de asco.

    Entretanto, está nítido que é uma história em construção, pois alguns trechos são eloquentes demais, mas trazem muita coisa que não fica com o leitor. Pelo menos não na primeira leitura.

    Já imaginava que o seu texto seria um dos que eu teria que ler mais de uma vez pra entender, pois quase sempre precisei fazer isso nas outras ocasiões. No caso de contos, isso é tranquilo, mas em romances, eu, particularmente, acho algo negativo, mas isso é o meu relato como leitor e cada pessoa tem seu próprio processo. Então, para ser fiel a uma experiência “original”, vou continuar a próxima seção sem reler a primeira para ver se as coisas ficam mais claras.

    De todo modo, o que você escreveu nesse primeiro trecho deu vontade genuína de continuar. Estou curioso para saber o que vai acontecer com o Lucio.

    Parabéns mais uma vez.

    Abraço!

E Então? O que achou?

Informação

Publicado às 1 de maio de 2026 por em E-Rom G3, Entre Romances e marcado .

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