EntreContos

Detox Literário.

ER 1 – Dicotomia do Dragão (Thales Soares)

– CAPÍTULO 1 –
A Fagulha do Caos

A Academia Arcana de Lyverath erguia-se sobre uma colina íngreme. Não havia muralhas nem torres de vigia em sua arquitetura, apenas pavilhões de pedra clara, telhados curvos e corredores abertos, entrelaçados por jardins geométricos, cerejeiras antigas e espelhos d’água que refletiam o céu com uma perfeição inquietante. Tudo naquele lugar exalava ordem e contemplação. Uma paz tão absoluta que o caos, presumia-se, não sabia como entrar.

No centro do pátio principal, entre canteiros de ervas e colunas talhadas com runas ancestrais, um ancião acariciava a longa barba grisalha enquanto observava o mundo por uma bola de cristal apoiada sobre um pedestal de jade. A esfera era translúcida, com uma névoa azulada girando em seu interior. Às vezes revelava paisagens vastas, como desertos distantes e montanhas cobertas de neve, e às vezes cenas mais mundanas, um tanto íntimas demais. Naquele momento, exibia um senhor feudal usufruindo do direito à suposta primeira noite com uma camponesa de curvas voluptuosas.

— Primeira noite é o meu ovo… — murmurava o velho, exibindo um sorriso sacana ao constatar que, no passado, aquela mesma camponesa já havia se deitado com cinco homens diferentes. Em uma das ocasiões, inclusive, fora com dois de uma só vez: um comerciante das terras do Oeste e o sobrinho dele, que trabalhava como carregador de encomendas.

A bola de cristal era capaz de mostrar passado, presente e futuro em qualquer canto dos Quatro Reinos.

O ancião chamava-se Enoch. Dentro da Academia havia quem dissesse, em tom reverente, que ele era o maior oráculo vivo desde os tempos do Grande Cisma. Outros, em tom menos respeitoso, diziam que passava tempo demais espionando a vida alheia por sua bola de cristal, como uma velha fofoqueira dotada de poderes cósmicos. Ambas as afirmações eram verdadeiras.

Não muito longe dali, ajoelhada à beira de uma pequena fonte circular adornada com lírios, uma menina de cabelos claros observava atentamente uma rã pousada sobre a borda de pedra. Tinha pouca idade, mas havia em seus olhos uma concentração fora do comum.

— Fique parada — sussurrou, erguendo as mãos devagar. — Se colaborar, prometo te transformar numa criatura majestosa.

A rã coaxou, inquieta, enquanto a menina moveu os dedos no ar, traçando símbolos invisíveis. Um brilho rosado envolveu o pequeno anfíbio, mas não houve explosão de energia nem faíscas descontroladas. A magia apenas se curvou à sua vontade. Então, com um estalo seco, duas asas brotaram das costas da criatura. Pequenas, amarelas e surpreendentemente bem estruturadas.

A rã alada deu dois pulinhos hesitantes na borda da fonte e, em seguida, bateu as asas de forma desengonçada, erguendo-se no ar com uma inesperada dignidade.

A garota soltou uma gargalhada e saiu correndo pelo pátio atrás da criatura.

— Voa, rainha dos pântanos! Voa!

A criatura descreveu um círculo no ar, passou raspando por uma cerejeira, contornou uma estátua de mármore representando Nymora, deusa do rio, do ciclo e das colheitas, e por fim aterrissou com surpreendente elegância bem diante de Enoch.

Ao notar a aproximação da criança, o ancião moveu discretamente dois dedos e a bola de cristal abandonou às pressas suas cenas impróprias para passar a exibir um pacato rebanho pastando sob o sol do Reino do Leste.

— O que está aprontando, pequena Sarah? — resmungou, recompondo a compostura. — Não vê que estou trabalhando?

— Eu estava entediada então resolvi copiar uma magia que vi um tiozinho fazendo outro dia. Daqui a pouco pretendo projetar minha consciência pra dentro daquela rã voadora e observar o mundo através dos olhos dela! — a garota falava rápido e quase sem pausas.

Enoch observou a rã por um instante. Não havia espanto em seu rosto. A garota era jovem, mas seu talento estava muito acima da média.

— Não duvido que consiga — disse ele, alisando a barba. — O que me incomoda é ver uma mente brilhante desperdiçando dons tão raros com esse tipo de travessura.

— Travessura?!

— Espionar o mundo pelos olhos de uma criatura alada improvisada, apenas por curiosidade frívola, é um uso bastante questionável da arte arcana. A magia não deve servir aos caprichos mais baixos de seu conjurador.

Sarah ergueu uma sobrancelha.

— Engraçado ouvir isso do senhor, porque é exatamente isso o que faz. Fica aí sentado, usando magia pra olhar a vida dos outros, espiando reis, nobres e comerciantes, assistindo a todas as fofocas do mundo!

— Sou um guardião da Ordem. Observo os movimentos do mundo à procura de qualquer oscilação suspeita no Caos. Limito-me a cumprir meu dever: observar tudo, sem jamais intervir diretamente.

— O senhor só observa mesquinharia, escândalos e adultérios!

— E onde mais você acha que o Caos reside? — disse, estreitando os olhos.

A garota se aproximou mais, apoiando as mãos na base de jade do pedestal e erguendo o rosto com curiosidade.

— E o que está vendo agora? Outro caso de comerciante cortejando a esposa de um nobre?

— Hoje não. Embora eu reconheça que certas misérias humanas possuam inegável valor recreativo.

A névoa dentro da bola começou a se mover de forma estranha. O azul translúcido foi lentamente contaminado por veios escuros, como tinta derramada em água parada. O rosto do ancião perdeu a leveza e seus dedos enrugados se fecharam devagar sobre o braço da cadeira de pedra.

— O que foi? — Sarah perguntou, percebendo a mudança.

Enoch não respondeu. Aproximou o rosto da esfera, com um olhar atento, enquanto a névoa se adensava, até formar a imagem de muralhas, torres e telhados. A menina reconheceu na hora.

Era o castelo real do Reino do Sul, que ficava a pouca distância dali. Um brilho instável pulsava no interior da visão, oculto entre corredores e salões ainda não revelados.

O ancião endireitou-se na cadeira.

— Hm.

— “Hm” o quê? — perguntou a garota, subindo em um banco ao lado do pedestal, tentando enxergar melhor. — Mestre Enoch, me diga… o que está havendo?

— Algo grandioso está prestes a acontecer neste reino.

A névoa tremeu e um lampejo sombrio cruzou a superfície da bola. O ar ao redor esfriou.

— Sinto uma fonte poderosa de magia do Caos — continuou Enoch, agora em tom mais grave. — Se eu estiver correto, isso pode abalar a ordem que sustenta o mundo. Pode até mesmo ferir a paz legada pelos Quatro Deuses e abrir uma rachadura por onde o imprevisível envenenará a realidade.

Sarah desceu do banco e correu para mais perto dele, com os olhos brilhando de fascínio.

— Então me conte! — pediu, juntando as mãozinhas. — Conte o que vai acontecer!

Enoch enfim olhou para ela. Naquele rosto antigo, sulcado pelo tempo e pela contemplação de diversos horrores, surgiu um brilho que Sarah conhecia muito bem. Era o brilho que aparecia sempre que ele se deixava seduzir por uma boa história.

— Muito bem. Venha. Vamos observar juntos. Afinal, certas narrativas não devem ser apenas ouvidas, mas testemunhadas.

A névoa se dissipou por mais um instante, revelando agora com nitidez o castelo erguido no coração do Reino do Sul.

***

O salão do trono cintilava sob a luz trêmula das tochas, que iluminavam os vitrais e as tapeçarias finamente bordadas. Ao centro, sobre um trono majestoso adornado com joias reluzentes, sentava-se Zarkon, o Tirano. A impaciência marcava-lhe as feições, enquanto seus dedos tamborilavam nervosamente no braço do assento.

Ao seu lado, diante de uma harpa dourada, uma mulher de beleza hipnotizante entoava uma melodia etérea. Não era princesa, tampouco rainha, mas uma convidada querida do rei, a famosa Selene. Sua voz parecia capaz de acalentar até as almas mais inquietas. Os cabelos loiros desciam em ondas sobre os ombros, contrastando delicadamente com a pele clara e as vestes de seda translúcidas, que lhe realçavam o corpo à luz bruxuleante.

A canção cessou imediatamente ao sinal do rei, que ergueu a mão assim que Archelaus adentrou o salão. O olhar ansioso de Zarkon fixou-se no mago.

— E então? — perguntou, sem esconder a impaciência. — Se livrou do dragão?

Archelaus fez uma leve reverência antes de responder.

— Majestade, como já expliquei anteriormente, o Feitiço da Dicotomia é bastante complexo.

— Dicotomia? — perguntou a barda, prestando atenção na conversa, agora atenta e curiosa. O rei não se importava que ela se intrometesse em seus assuntos particulares. Na realidade, até achava graça nisso. — Como isso funciona exatamente?

O mago endireitou-se, assumindo um tom solene e professoral.

— A dicotomia, jovem dama, divide o destino em duas partes opostas, verdades incompatíveis. Sob a influência deste feitiço, porém, esses opostos passam a existir simultaneamente, ainda que por tempo limitado.

Selene levou a ponta do dedo indicador ao queixo, repuxando os lábios de forma graciosa, com uma expressão de dúvida. Archelaus prosseguiu, acompanhando suas palavras com gestos eloquentes:

— Em termos mais simples, esse feitiço possui exatamente cinquenta por cento de chance de destruir completamente o alvo, e cinquenta por cento de não surtir efeito algum. Entende?

O rei refletiu por um instante, até que seus olhos brilharam com súbita satisfação.

— Ora, mas isso é fácil de resolver! — exclamou, animado. — Basta lançar o feitiço novamente! Se com uma vez temos cinquenta por cento de chance, então duas vezes nos darão cem!

O mago hesitou, desconcertado.

— Majestade… não funciona exatamente assi…

— Não, não, espere! Melhor ainda: lance quatro vezes! Assim teremos duzentos por cento de certeza! Nem os ossos daquele maldito dragão restarão para ameaçar meu tesouro!

O mago abriu a boca para protestar, mas foi interrompido por um dos guardas, visivelmente maravilhado com aquela demonstração de raciocínio.

— Brilhante, Majestade! Ninguém pensa como vós.

Selene ergueu os dedos delicadamente para ocultar uma risada discreta. Archelaus, por sua vez, conteve-se para não suspirar.

— Majestade — explicou ele, com paciência —, como mencionei hoje mais cedo, esta magia consome uma quantidade imensa de energia arcana. Só pode ser conjurada uma vez por dia. Então não seria possível lançá-la novamente hoje. Apenas amanhã.

Zarkon cerrou os punhos, irritado.

— Inaceitável! Não posso dormir com essa maldita dúvida! Preciso saber agora mesmo se o dragão morreu! E se você não for capaz de garantir que meu tesouro estará a salvo ainda hoje, tratarei de encontrar alguém mais competente para o serviço!

O mago sentiu o peso da ameaça. Sabia que perder a confiança do rei não significava apenas humilhação, mas possivelmente o fim da própria vida. Inspirou de for profunda, recompondo-se.

— Majestade, compreendo perfeitamente sua preocupação, mas a situação não é tão simples quanto parece. Posso garantir, com toda certeza, que o dragão na sala do tesouro está morto. Mas também posso garantir que ele continua vivo.

Zarkon ergueu uma sobrancelha e fez uma careta.

— Está me dizendo que… o dragão está morto e vivo ao mesmo tempo?

— Exatamente, meu senhor. Quando o feitiço da dicotomia é lançado, ele provoca uma bifurcação no destino do alvo. Até que alguém observe o resultado diretamente, ambas as possibilidades continuam coexistindo. Ou seja, o dragão agora se encontra em uma superposição de estados.

— Superposição? — perguntou a barda, adiantando a dúvida do rei. — E como isso pode ser resolvido?

— Bom… a realidade só será definida quando alguém entrar na sala do tesouro e testemunhar o resultado. Dessa forma, a superposição colapsará, reduzindo-se a uma única verdade.

Um silêncio desconfortável pairou no salão enquanto Zarkon assimilava a informação.

— Então… basta qualquer bastardo abrir aquela porta e dar uma olhada?

— Exatamente, Majestade.

Selene inclinou a cabeça.

— Mas e se quem abrir a porta for devorado antes de conseguir contar o que viu?

Archelaus lançou um olhar para os soldados reais ali presentes. Todos faziam o possível para parecer invisíveis, desviando os olhos e tentando pensar em qualquer outra coisa. Só então o mago respondeu:

— Digamos que… é melhor que isso não aconteça. Precisamos de alguém que consiga entrar e sair de lá inteiro.

***

Há poucos dias atrás, os portões da cidade se abriram para a entrada de um bárbaro que parecia ter sido talhado a golpes de machado. Era alto, largo de ombros e todo musculoso, e avançava pela rua principal com passos pesados. Havia sangue seco espalhado pelos braços, arranhões recentes cruzando o peito e um corte ainda úmido junto à clavícula. Os cabelos escuros e desgrenhados caíam-lhe sobre o rosto, e a barba espessa estava suja de poeira e suor.

Em uma das mãos, preso por uma corda grossa e arrastado sem qualquer cerimônia, vinha o troféu de sua caçada. Era uma cabeça monstruosa, coberta por uma pelagem escura e rala, manchada de lama e sangue endurecido. O focinho, longo e desproporcional, estreitava-se na ponta e alargava-se na base, lembrando o de um tamanduá deformado. Da boca entreaberta escapavam dentes curtos e amarelados, ainda sujos de carne, emanando um cheiro azedo. O olho baço, semiaberto, continuava preso a uma expressão de ódio.

Qualquer camponês com um mínimo de conhecimento sobre os perigos para além da cidade seria capaz de reconhecer aquela aberração à distância. Tratava-se de um capelobo.

Ao vê-lo passar, as pessoas não demoravam a se afastar. Alguns ainda lançavam olhares curiosos, mas bastava uma olhada na criatura para que apressassem o passo, desviando do bárbaro, que seguia sem olhar para os lados.

Seu destino era a Taverna do Javali Manco, um edifício amplo de madeira velha, cujas janelas abertas deixavam escapar o cheiro de cerveja e gordura. Sobre a entrada pendia uma placa pintada com um javali torto apoiado em uma muleta, obra de algum artista evidentemente bêbado.

Lá dentro, o movimento era moderado. As tochas lançavam uma luz vacilante sobre as mesas ocupadas, e o barulho do salão se espalhava em murmúrios, risadas e cadeiras arrastando no assoalho. Atrás do balcão, o taverneiro enxugava uma caneca mal lavada. Na parede às suas costas, um grande painel de madeira exibia cartazes de toda espécie: recompensas por monstros, procurados vivos ou mortos, pedidos de escolta, cobranças de dívida e outros problemas que as pessoas preferiam resolver pagando alguém mais brutal para lidar com eles.

O bárbaro foi direto até o balcão e, sem dizer uma palavra, largou a cabeça do monstro sobre a madeira. O impacto ecoou pela taverna inteira. A cabeça do monstro quicou uma vez sobre o balcão e ficou ali, com a boca frouxamente aberta, deixando escorrer sobre a madeira um rastro espesso e escuro. O mercador despertou com um sobressalto. Um dos bêbados fez o sinal dos Quatro Deuses. Outro apenas murmurou:

— Pelas barbas de Torun…

O taverneiro ergueu os olhos e abriu um sorriso satisfeito.

— Ora, se não é a velha praga do Desfiladeiro de Khar… — disse, inclinando-se um pouco mais para examinar. — Já tava na hora de alguém trazer esse bicho.

O bárbaro apoiou o antebraço no balcão.

— Você precisava ouvir o barulho que fez quando morreu.

— Por favor, nem me faça imaginar. Quero poder dormir tranquilo esta noite.

O taverneiro agachou-se, puxou debaixo da bancada um pequeno cofre e dele retirou um saco de couro robusto, já cheio de moedas. Depositou-o sobre o balcão, proporcionando um tilintar agradável.

— Recompensa integral. A pedido do rei. E, considerando o tamanho dessa desgraça… — pegou uma caneca de barro, encheu-a diretamente de um barril e a empurrou para diante do bárbaro. — Uma cerveja por conta da casa.

O guerreiro apanhou a caneca e cheirou o conteúdo. Então deu um gole longo, sem pressa.

— Está decente — disse.

Com o saco de moedas preso ao cinto e a caneca em mãos, o bárbaro se afastou do balcão e escolheu uma mesa próxima à parede. Sentou-se de lado, apoiando o braço sobre a madeira, ainda com a postura de quem poderia se levantar para matar alguém, caso a ocasião pedisse.

Então uma voz rouca surgiu ao seu lado, acompanhada de um bafo de álcool.

— Pela cabeça, e por sua aparência, esse aí deu trabalho, hein?!

Na mesa vizinha, um anão o observava por cima da caneca. Vestia trajes de clérigo, mas a túnica estava aberta no peito, o cinto meio aberto, e o símbolo sagrado pendia de lado, como se até os deuses já tivessem desistido de exigir compostura. Perto dele repousava um martelo de guerra, pesado o bastante para resolver pecados alheios de uma forma alternativa.

— Vai me condenar? — perguntou o bárbaro. — Dizer que toda vida é sagrada e que eu devia ter poupado o bicho?

O anão lançou um olhar para a cabeça do capelobo sobre o balcão. Um sorriso se abriu por debaixo de sua barba.

— Tá me achando com cara de druida, rapaz? Pro inferno com essas aberrações!

— Então você não é desses clérigos que choram por qualquer criatura imunda?

— Não costumo chorar nem por humanos imundos. E, cá entre nós, monstro bom é monstro morto. Os deuses que me perdoem, mas tenho certeza de que eles próprios concordam.

A resposta arrancou do bárbaro um esboço de sorriso.

O anão se levantou e ergueu a caneca em um cumprimento informal.

— Thorin.

O bárbaro repetiu o gesto com a própria bebida, embora com menos entusiasmo.

— Ulgar.

— Nome simples, mas fácil de lembrar — disse Thorin, inclinando levemente a cabeça para a cadeira vazia diante da mesa. — Posso me sentar? Cerveja costuma descer melhor quando temos companhia.

Ulgar respondeu apenas com um movimento de cabeça.

Satisfeito, o anão tomou um gole do caneco, deixando um resto espumoso preso ao bigode. Então apanhou o martelo de guerra e acomodou-se na cadeira.

— Diz aí… — disse ele, inclinando-se com interesse — que tipo de desgraça era aquela?

O bárbaro baixou os olhos para o fundo da caneca e girou a bebida antes de responder.

— Um devorador de caravanas. Couro duro, bafo de esgoto, garras grandes. Tinha se escondido entre as pedras do desfiladeiro, atacando tudo que passava por lá.

O anão assobiou, impressionado.

— E você deu conta do serviço sozinho?

Ulgar ergueu os olhos, encarando o companheiro.

— Viu mais alguém trazendo a cabeça pra cá?

— Gostei de você, grandalhão! — disse Thorin, rindo e batendo na mesa com a base da caneca. — Aceita mais um gole? Não precisa mexer na sua recompensa. Hoje a sorte também sorriu pra mim.

O bárbaro deu de ombros.

— Não nego bebida de graça.

Thorin então se virou para o balcão e ergueu a voz:

— Ei, compadre! Mais uma rodada pra mim e pro meu novo companheiro! E pode mandar no copo mais sujo da casa!

— Todos os copos do Javali Manco são igualmente sujos — respondeu o taverneiro. — Mas, no seu, eu posso caprichar.

Thorin esfregou as mãos, satisfeito.

— Ah, isso é que é vida! — disse, abrindo um sorriso. — Nós dois aqui, com os bolsos pesados e a caneca cheia. Momentos assim deveriam ser o direito de todo homem.

Ulgar apoiou o cotovelo na mesa.

— Tô vendo que o dízimo foi generoso.

— Dízimo e vinho são luxos dos sacerdotes. Eu sou clérigo. É outra espécie de desgraça.

Após molhar a garganta com um gole de seu copo especialmente sujo, continuou:

— Sacerdote fica trancado no templo, cantando, benzendo criança e ouvindo confissões de adúlteros arrependidos. Mas pelo menos bebe vinho sem dividir com ninguém. Já o clérigo não. Clérigo anda pelo mundo, entra em ruína mal-assombrada, quebra maldição na base da reza e do martelo, espanta morto-vivo, enfrenta demônio e, quando precisa, desce o cacete em pecador teimoso.

— Então seu trabalho é rezar e bater?

— Nessa ordem, quando possível. Mas às vezes a pancada precisa vir primeiro.

Ulgar soltou uma risada discreta.

— Então essa bolsa cheia — disse ele — veio como recompensa por alguma maldição quebrada na base da porrada?

— Não. Veio de uma tragédia de natureza mais íntima.

O anão suspirou e deu outro gole em sua bebida, e continuou:

— Vendi a aliança da minha ex-mulher.

O bárbaro também deu um longo gole em seu copo, aproveitando cada gota antes de continuar a conversa.

— Você se divorciou?

— Sim. Era uma mulher complicada. Quando tudo acabou, pensei em arremessar o anel de noivado no mar, com um discurso dramático diante do pôr do sol. Mas, depois de refletir um pouco, percebi que seria melhor descolar uma grana do que fazer cena.

— Sábia decisão.

— Eu também achei. No fim, consegui faturar bem com ele. Quase o mesmo tanto que você recebeu por aquela cabeça fedida — o anão encostou seu saco no do companheiro para comparar o volume.

— Afaste esse saco do meu. Está ficando estranho.

O anão soltou um riso, então virou-se e gritou para o taverneiro:

— Ei, compadre! Meu copo está vazio. Faça o seu trabalho e venha com sua bunda gorda até aqui!

Uma nova rodada chegou, trazida pelo taverneiro com a má vontade habitual. As canecas pousaram sobre a mesa com um baque úmido, espalhando um pouco de espuma.

O anão já ia beber a sua quando, sem aviso, o destino resolveu aprontar uma das suas. A porta da taverna se abriu, deixando entrar três homens mal encarados. Vieram falando alto e seguiram direto para uma mesa próxima ao balcão.

— Estou dizendo a vocês — falava o primeiro, um sujeito magro de bigode esquisito —, isto aqui é uma relíquia de verdade!

Ergueu a mão para exibir a peça entre os dedos. À primeira vista, parecia apenas um anel comum: um aro de metal antigo, gasto nas bordas, sem qualquer pedra preciosa encrustada. Mas, quando a luz bateu de lado, inscrições finíssimas surgiram em sua superfície, pequenas runas entalhadas que pareciam emitir uma energia sutil.

O homem ao lado inclinou-se para observar melhor.

— E quem, em sã consciência, pagaria uma fortuna nisso?

— Um estudioso, um mago, um nobre metido a colecionador… sei lá, porra — respondeu o bigodudo. — Qualquer um que saiba o que tem diante dos olhos. Este anel pertenceu a um rei ancestral. Dizem que foi forjado nas próprias fornalhas de Torun, numa era em que os encantadores ainda falavam diretamente com os deuses. Está coberto de runas arcanas, viu só? Não parece grande coisa, eu sei… mas vale, pelo menos, cem cabeças de gado.

O terceiro homem soltou um assobio, aproximando o olhar. Mas sua curiosidade foi interrompida pelo taverneiro, que, atrás do balcão, fingia limpar um copo de origem duvidosa. Após uma cusparada lateral, resmungou:

— Isso tudo é balela!

Os três se viraram na mesma hora.

— Balela? — repetiu o bigodudo, indignado. — Está duvidando da autenticidade da peça?

— Toda semana aparece algum desgraçado por aqui dizendo que encontrou a espada dum herói lendário, ou a costela de algum santo que ninguém conhece, ou a cueca encantada dum rei antigo. Até hoje, tudo que vi foi um monte de lixo e mentiras!

O homem do anel ergueu o queixo.

— Então examine você mesmo, espertão.

O bigodudo hesitou por um instante, mas acabou entregando a joia para o taverneiro, que a pegou entre os dedos grossos e a ergueu na altura dos olhos, franzindo o cenho enquanto a girava devagar de um lado para o outro. Depois aproximou ainda mais do rosto e, não satisfeito, levou-o à boca para mordê-lo com os dentes do fundo.

— Hm… — resmungou.

Foi então que algo mudou.

Uma luminosidade tênue começou a brotar da superfície do anel, espalhando-se pelas runas entalhadas no aro. O metal vibrou levemente entre seus dedos, e um som baixo e áspero emergiu da peça.

— Aju… da… me… — sussurrou a relíquia. — Aju… de…

O taverneiro arregalou os olhos, ficando mais espantado do que quando a cabeça do capelobo havia sido jogada em seu balcão.

— Pela Virgem Marie… — murmurou, com a voz repentinamente mais fina. — É verdadeiro!

Devolveu o anel ao dono com rapidez, com medo de danificar ou de derrubar no chão.

— De onde foi que você arranjou isso? — perguntou.

— Comprei de um anão filho da puta, por uma verdadeira pechincha.

— Deve ter sido um anão muito burro — disse o taverneiro.

— Burro de dar nó! — completou o outro homem, rindo e batendo na mesa.

Ulgar, que até então observava a cena, virou o rosto na direção de Thorin para comentar alguma coisa. Mas permaneceu em silêncio quando viu que o companheiro havia parado completamente. A caneca continuava suspensa a meio caminho da boca e o sorriso desaparecera. Seu rosto agora estava contraído com uma expressão dura, fechada.

Até que apanhou o martelo de guerra ao lado do banco e caminhou até a mesa dos três homens, fazendo o assoalho ranger. Não levava a arma para usá-la de fato. Afinal, uma martelada poderia transformar uma simples discussão comercial em velório. O martelo servia apenas como argumento visual.

— Com licença, camaradas — disse, em tom bastante cordial. — Gostaria apenas de esclarecer uma pequena dúvida, antes que eu comece a interpretar a conversa de vocês como provocação.

Os três se viraram para ele. O homem do anel, ainda recostado na cadeira, arqueou uma sobrancelha.

— E que dúvida seria essa, tampinha?

O anão apontou para a joia entre os dedos do sujeito.

— Esse anel aí… por acaso foi comprado ontem, no mercado velho, de um anão charmoso e boa pinta?

Os homens se entreolharam, e um sorriso largo se abriu no rosto do bigodudo.

— Ah! Agora eu me lembro de você! Você é o anão burro que me vendeu essa preciosidade!

— Sim, fui eu. E agora estou começando a suspeitar que houve, digamos, uma leve desproporção entre o valor do objeto e a quantia que me foi oferecida.

Um dos comparsas soltou uma gargalhada.

— Leve desproporção? Você vendeu uma relíquia por preço de bijuteria!

— O que combina bastante com a sua cara de otário! — acrescentou o outro, culminando em uma risada espalhafatosa dos três companheiros.

Thorin respirou fundo.

— Certo. Então vamos simplificar. Vocês devolvem o anel, eu devolvo o dinheiro, e todos seguimos em frente.

— Escuta aqui, pastor — disse o bigodudo, girando o anel entre os dedos. — Negócio fechado é negócio fechado. Se você foi idiota o bastante pra vender uma fortuna por migalha, isso não é problema nosso!

Com toda a serenidade do mundo, o anão recuou meio passo, estendeu o braço e colocou sua caneca de cerveja em segurança sobre a mesa. Só depois ajustou o martelo na mão, segurando-o pela cabeça de metal, com o cabo apontado para a frente como se empunhasse um taco de bilhar.

— Pois bem… — disse, com um suspiro resignado. — Tentei resolver a situação como um homem civilizado.

E estocou.

A ponta do cabo do martelo encontrou o saco do comparsa mais próximo — não o de moedas — com uma violência pedagógica. O sujeito soltou um guincho que mal parecia humano, dobrou-se ao meio e caiu de joelhos, com as mãos entre as pernas.

A mesa virou no mesmo instante.

O bigodudo se levantou aos berros, e o outro comparsa avançou com um soco desajeitado. O anão desviou de lado e lhe acertou uma cotovelada seca nas costelas.

— Segurem esse filho da puta! — gritou o homem com a dor latejando na virilha.

Um deles conseguiu passar o braço em volta do pescoço de Thorin em um mata-leão, puxando-o para trás. Outro lhe prendeu um dos braços, enquanto o terceiro, ainda meio dobrado de dor, tentava recuperar a dignidade à base de socos na cara do clérigo.

O anão rosnava, sufocado, com as pernas curtas patinando no chão.

A poucos passos dali, Ulgar continuava sentado à própria mesa, observando tudo em silêncio enquanto apreciava a cerveja.

Thorin, já com o rosto ficando roxo, esticava o braço na direção da mesa com a obstinação de um devoto tentando alcançar um relicário. Seus dedos enfim tocaram a caneca. Com enorme dificuldade, puxou-a para perto, ergueu-a até os lábios e deu um gole sofrido.

O efeito foi imediato. Seus olhos se arregalaram e o peito inflou. Os músculos dos braços tensionaram sob a túnica. Então, com um urro que misturava fé, álcool e ressentimento amoroso em partes iguais, fincou as botas no chão e se ergueu de uma vez, levando consigo os dois homens que o seguravam. O que o mantinha no mata-leão foi arremessado por cima do ombro e caiu de costas sobre o balcão com um estrondo escandaloso.

O homem que ainda se recuperava da dor nos ovos, sacou uma adaga.

Finalmente Ulgar se levantou. Não estava com pressa, nem com raiva. Apenas ergueu o corpo e estralou os dedos das mãos.

O sujeito da faca mal teve tempo de virar o rosto, quando foi agarrado pelo colarinho e pelo cinto e arremessado de lado pelo bárbaro. Seu corpo voou por cima de uma mesa, espalhando canecas, pão, pedaços de carne e um velho bêbado que até então dormia em paz. A adaga girou no ar e foi parar cravada em uma coluna de madeira.

A taverna inteira já havia mergulhado no caos. Gritos se erguiam de todos os lados, alguns oriundos do medo, outros de um entusiasmo grotesco. Um bêbado passou a incentivar a briga, enquanto o mercador que até pouco cortejava a garçonete se arrastava para debaixo de uma mesa, agarrado à própria bolsa com desespero. Até um cachorro que ninguém sabia de onde surgira passou a latir para o bigodudo caído.

— Já chega! — rugiu o taverneiro, golpeando o balcão com um pedaço grosso de madeira. — Chega, seus filhos de uma mula sifilítica!

Ninguém pareceu lhe dar ouvidos. Thorin já montava sobre o peito do homem do anel, tentando arrancar-lhe a joia do dedo enquanto o sujeito praguejava e tentava mordê-lo. Ulgar, por sua vez, segurava um dos comparsas pelo tornozelo e o arrastava pelo chão.

O taverneiro puxou uma besta curta debaixo do balcão e apontou para o centro da confusão.

— Eu juro pelos Quatro Deuses que vou chamar a guarda dos Capas Azuis! — bradou, com a voz rouca de ódio. — Quero todo mundo fora da minha taverna. Agora!

A ameaça verbal teve mais efeito do que a besta. Bastou o nome dos Capas Azuis ser mencionado para que alguns dos clientes parassem imediatamente. A guarda real era conhecida por sua tirania e falta de paciência. Quando aparecia, costumava resolver qualquer problema na base da violência, quase sempre encerrando a questão com um encarceramento nas masmorras do castelo.

O anão ainda segurava o anel entre dois dedos, recém-arrancado à força da mão do bigodudo, quando se voltou para o taverneiro.

— Tecnicamente, eu estava só corrigindo uma injustiça comercial.

— Pois corrija lá fora! — berrou o dono do Javali Manco.

O bárbaro largou o homem que arrastava, e o sujeito bateu com a cara no chão, ficando ali mesmo, gemendo. Thorin se levantou, ajeitou a túnica, cuspiu um dente que não sabia dizer se era seu ou do adversário, e guardou o anel no bolso. Ao mesmo tempo, Ulgar aproveitou para dar o último gole em uma cerveja sem dono que encontrara pelo caminho.

Em poucos instantes, os dois já estavam sendo empurrados porta afora, com o sereno da noite os recebendo como se nada tivesse acontecido. O bárbaro estralou o pescoço para um lado, depois para o outro, sentindo a tensão dos músculos se rearranjar após a pancadaria.

— É sempre bom beber e se exercitar um pouco — comentou.

O anão, porém, mal pareceu ouvi-lo. Já havia tirado o anel do bolso e o observava com atenção profunda, sob a luz fria da lua. Havia em seu rosto uma seriedade desconfortável. Ulgar lançou-lhe um olhar desconfiado.

O anel começou a se comportar de forma estranha. Uma tênue linha dourada surgiu correndo pelas runas finíssimas entalhadas no aro, como se a luz brotasse de dentro do próprio metal. Aos poucos, o brilho se intensificou, até envolver a peça em uma claridade pulsante. Então, de seu interior, escapou um ruído estranho, uma espécie de sussurro.

— Jogue fora essa porcaria! — disse Ulgar, dando um passo para trás. — Está amaldiçoada!

Thorin ergueu o artefato um pouco mais, espantado.

— Espere…

— Isso fede a magia. E vou te dizer mais: tudo o que vem de ex-mulher é desgraça. Jogue isso fora, agora!

— Espera, grandalhão… escute.

O anão aproximou o anel do ouvido. O brilho se intensificou por um instante, e então uma voz fraca surgiu, entrecortada, com um tom meio espectral:

— Tho… rin… pres…te… aten…ção…

O rosto do anão mudou na hora.

— Mirabel?!

A resposta veio em fragmentos, esmagada por interferências estranhas.

— Terra… Ras… gada… me captura… ram… Pés Inverti… dos… por favor… de… pressa…

Ulgar permaneceu imóvel, encarando aquilo com um horror supersticioso que já beirava o pavor, enquanto Thorin apertava o anel com tanta força que os nós dos dedos embranqueceram.

— Mirabel! Mirabel! Você está me ouvindo? O que fizeram com você? Responda!

Por um instante pareceu que a voz voltaria. Mas o brilho do anel vacilou. Então a luz se apagou e o metal voltou a ser apenas metal. O anel permaneceu imóvel entre os dedos do anão, que ficou ali parado, encarando a peça sem saber como reagir. Ainda tentou falar de novo, chamou o nome dela mais duas vezes, aproximou o aro do ouvido e o sacudiu com cuidado. Mas não houve resposta.

— Eu odeio magia — resmungou Ulgar. — Não dê ouvidos a essa tranqueira! É mais provável que isso seja um lorde das trevas tentando nos atrair pra uma armadilha do que sua ex-mulher pedindo ajuda. E as duas possibilidades me parecem igualmente ruins!

Fechando os dedos em torno da aliança, Thorin respirou fundo, tentando conter o abalo. Quando voltou a encarar o bárbaro, o humor de taverna havia sumido. Ele já havia se decidido.

— Eu preciso ir até a Floresta da Terra Rasgada. Se Mirabel está em perigo, eu vou salvá-la!

— Você ouviu o que eu disse? Aquilo era magia! E eu não gosto de me meter em assuntos desse tipo.

— Não estou te pedindo pra gostar. Estou te oferecendo trabalho.

Dizendo isso, soltou o saco de moedas do cinto e o estendeu na direção do companheiro.

— Já que houve devolução do produto — continuou —, pode ficar com o valor da venda. Vou precisar de um braço forte ao meu lado nessa missão.

O bárbaro pegou o saco, pesou-o na mão e depois o devolveu ao anão.

— Pode ficar com isso.

Thorin não conseguiu esconder o desapontamento.

— Não vai me ajudar?

Um breve sopro escapou pelo nariz de Ulgar, algo que talvez fosse um riso suprimido.

— Faz tempo que não encontro alguém pra me meter em encrenca. Além disso, você me agradou, anão. E eu gosto de aventuras em que existe chance real de morrer, com adversários perigosos pra desafiar. Eu vou com você!

O anão ergueu o queixo com dignidade, mostrando um sorriso sincero.

***

Sarah continuava inclinada sobre a bola de cristal, com o queixo quase tocando a superfície translúcida da esfera. Durante algum tempo acompanhou em silêncio os fios da narrativa que se desenrolavam em sua frente. Mas a impaciência, como quase sempre acontecia com ela, não tardou a vencer.

— Esses dois aí são legais e tudo mais… — comentou de repente. — Mas qual a relação deles com o dragão? Quero ver logo a parte do dragão!

O ancião demorou para responder. Limitou-se a alisar a barba com lentidão, ainda encarando as névoas da esfera.

— Paciência, minha pequena. Paciência.

Mais alguns minutos se passaram até que a garota tornou a se manifestar:

— Mestre Enoch, tive uma ideia! Já que sua bola de cristal enxerga pontos diferentes do espaço e do tempo, por que a gente não olha logo pra sala do tesouro? Assim descobrimos se o dragão morreu ou não.

— Ah, essa seria uma ideia excelente. Mas a dicotomia não tolera esse tipo de curiosidade. Se observássemos, estaríamos alterando a situação. E, como você bem sabe…

— … você não pode intervir, só observar — completou a garota. — Mas como é que dar uma espiadinha pode mudar alguma coisa?

Enoch se ajeitou na cadeira de pedra.

— Deixa eu te perguntar uma coisa. Quando você observa uma pessoa sem que ela saiba, o que acontece?

— Nada. Ela continua fazendo o que estava fazendo.

— Correto. Mas e quando ela percebe que está sendo observada?

— Hmm, deixa eu ver… As pessoas costumam ficar com medo quando percebem que estão sendo observadas. Então acho que ela tentaria despistar a gente.

— Exato. Elas alteram seu comportamento. Agora imagine que isso não vale apenas para pessoas. Imagine que vale para tudo. Para dragões, para o vento, para a luz e para o destino.

A menina ficou quieta por um instante, refletindo.

— Isso não faz muito sentido…

— Há alguns anos, um sábio chamado Osric conduziu um experimento curioso. Ele abriu duas fendas numa placa de metal e disparou contra ela pequenos grãos de luz, um por vez. Feito isso, esperava encontrar duas listras do outro lado. Uma para cada fenda.

— E não encontrou?

— Não. Encontrou várias faixas, como ondas num lago. Era como se cada grão de luz tivesse atravessado as duas fendas ao mesmo tempo, seguindo mais de um caminho antes de chegar ao seu destino.

— Isso é impossível!

— Foi exatamente o que Osric disse. Então colocou um cristal detector diante das fendas, para descobrir por onde exatamente cada grão passava. E, no instante em que tentou observar… cada grão de luz definiu o seu caminho. As várias faixas desapareceram, e do outro lado restaram apenas duas listras.

— Isso tudo só porque ele olhou?

— O fato de ele ter olhado cravou o destino de cada grão de luz.

Os dois ficaram em silêncio por um breve período.

— Então se olharmos para o dragão… — disse Sarah devagar.

— Nós estaríamos definindo o seu destino — completou Enoch. — Com isso, a sala do tesouro deixaria de conter duas possibilidades ao mesmo tempo e passaria a conter apenas uma, acabando com a dicotomia.

Sarah ficou quieta por um momento. Depois mordeu o lábio, contrariada.

— Tá. Mas continuo achando injusto existir um dragão na história e ele não aparecer logo!

— Essa é uma observação típica de alguém que ainda não entendeu a graça de ver as peças se posicionando no tabuleiro. Cada coisa tem seu tempo, minha pequena. Logo tudo vai se entrelaçar.

Com uma careta, ela voltou a encarar a bola.

— Mas então pule logo pra parte da ação. Quero ver mais pancadaria!

O velho soltou um resmungo baixo pelo nariz. Sarah o conhecia o bastante para saber que aquilo era um bom sinal. Significava que ele estava cedendo.

— Muito bem — disse por fim. — Se é agitação que você deseja, prossigamos para o encontro de Ulgar e Thorin com a tribo dos Pés Invertidos. É ali que a história começa, de fato, a acelerar.

***

Ulgar mantinha a espada erguida, mas não avançava.

O suor escorria por sua testa, descendo pelo rosto e sumindo entre a barba, enquanto seus olhos saltavam de uma lança a outra, calculando as distâncias e ângulos por onde viriam. Mas havia pontas demais apontadas para ele. Bastaria um deslize mínimo, um músculo mais apressado, e aquela clareira se converteria em seu túmulo antes que conseguisse abrir espaço com a lâmina.

A um passo atrás estava Thorin, segurando o martelo de guerra com firmeza nas duas mãos. Estava nas mesmas condições que o companheiro, mas sua atenção não se voltava aos guerreiros que os rodeavam.

Estava nela.

A mulher permanecia de joelhos junto ao líder da tribo, com os pulsos amarrados para trás e uma mordaça apertada entre os lábios. As vestes estavam rasgadas em alguns pontos, manchadas de terra e folhas secas, e havia marcas vermelhas nos braços. Ainda assim, seus olhos continuavam determinados. Mesmo com uma lâmina encostada no pescoço. A arma de pedra negra era apoiada de leve contra sua pele, sem perfurá-la, sustentada pelo próprio líder dos Pés Invertidos. Ao redor dele, outros membros da tribo fechavam o cerco com lanças em punho, todos com os pés virados ao contrário.

— Pela última vez — rosnou ele. — Quero que vocês devolvam a relíquia sagrada de Boitatá!

O anão apertou os dentes.

— Eu já disse que não sei do que está falando!

— Mentira! — gritou, apertando a lâmina contra a pele de Mirabel. Um filete de sangue escorreu. — Esta mulher veio até nossa terra trazendo mapas e anotações. Ela sabia sobre nossa relíquia. Acham mesmo que eu sou idiota?!

— Solte ela agora! — ordenou o bárbaro, sem deixar de encarar as lanças. — Nós não pegamos sua relíquia! Não queremos nada com as tranqueiras do seu povo!

A lâmina de pedra fez nova pressão. A feiticeira encarava o líder com um olhar cheio de desprezo.

Ulgar deu um passo à frente.

Imediatamente, uma dúzia de lanças avançou alguns centímetros em sua direção.

Ele parou.

— Não dê mais nenhum passo! — alertou o líder.

A expressão no rosto do bárbaro mudou. Ele odiava receber ordens.

— Você fala demais.

Ao dizer isso, moveu os ombros de leve, e seus dedos se retesaram no cabo da espada. O anão percebeu na mesma hora. Conhecia aquele pequeno sinal. Era o instante preciso em que alguma coisa, dentro de um guerreiro, deixava de aceitar a utilidade das palavras e decidia que dali em diante a conversa prosseguiria pela lâmina.

— Não… — sussurrou o clérigo, quase sem mexer os lábios. — Ainda não!

Mas já era tarde.

O bárbaro explodiu para a frente. Nenhum homem daquele tamanho deveria ser capaz de se mover tão depressa. Um instante antes estava imóvel. No seguinte, já havia girado o corpo com a espada em arco, desviando de três lanças ao mesmo tempo e partindo a haste de uma quarta antes mesmo que o dono entendesse o que estava acontecendo. O primeiro guerreiro caiu com um grito sufocado, a garganta rasgada de lado a lado. O segundo recebeu a ombreira do bárbaro no peito e foi arremessado para trás, derrubando dois companheiros e uma fogueira baixa, que se desfez em brasas espalhadas pelo chão.

A clareira inteira entrou em colapso.

Os Pés Invertidos berraram em sua língua áspera e se lançaram ao combate de uma vez só, parecendo uma matilha de pequenos demônios de cabelos ruivos. O anão rugiu um palavrão sagrado, erguendo o martelo e avançando na direção da feiticeira. Duas lanças vieram primeiro. Ele aparou uma com a haste da arma e agarrou a outra com a mão livre, puxando o dono com violência para a frente. Quando o sujeito tropeçou, recebeu uma martelada na boca tão brutal que três dentes saíram voando.

— Sai da frente, pé torto!

Outro guerreiro tentou perfurá-lo pelo flanco. Mas ele se virou a tempo de receber a ponta da lança de raspão no ombro. Rosnou de dor, mas respondeu com uma cotovelada no queixo do inimigo, seguida de uma joelhada curta entre as costelas. O pequeno combatente se dobrou, e o martelo desceu-lhe nas costas com um estalo.

Enquanto isso, Ulgar já parecia ter abandonado por completo qualquer noção de prudência.

Quatro guerreiros cercaram-no de uma vez. Uma lança passou rente à sua face, abrindo-lhe um risco na bochecha. Outra rasgou-lhe o braço. Uma terceira ainda conseguiu alcançá-lo de raspão na lateral do tronco. Ele não pareceu notar. A espada descreveu um arco horizontal e abriu o ventre de um adversário. O sangue saltou quente, espirrando-lhe no peito e no rosto. Um segundo inimigo veio por trás, mas o bárbaro girou sobre os calcanhares e enterrou a lâmina por baixo da axila do sujeito, arrancando-lhe um urro tão agudo que até os pássaros noturnos, ocultos nas copas, bateram asas em pânico.

Próxima à clareira, Mirabel, ainda ajoelhada, fora quase esquecida no centro de tudo. O líder da tribo recuara com ela no momento em que a luta explodira, arrastando-a pelo braço, mas agora lutava para manter a própria vida à medida que o caos crescia ao seu redor. Com a mordaça entre os dentes, ela observava tudo com atenção, enquanto os pulsos se torciam para dentro e para fora em busca de qualquer folga nas cordas. Sentia a amarração firme, áspera, cruelmente bem-feita. Ainda assim, uma de suas mãos, ensanguentada e já quase sem sensibilidade, começou enfim a ceder um pouco dentro dos nós.

Foi então que algo cortou o ar.

A feiticeira virou a cabeça por reflexo e viu a arma vindo em sua direção: um machado enorme, lançado do meio da confusão, girando sobre si mesmo e refletindo as chamas das tochas. Não havia espaço para feitiço, nem para esquiva. Restou apenas a certeza de que morreria ali. Assim, fechou os olhos e se entregou ao inevitável.

Mas o golpe não veio.

Por um momento, quase irreal, a feiticeira permaneceu imóvel, suspensa entre a expectativa da morte e o espanto de continuar viva. Quando tornou a abrir os olhos, ainda atordoada, levou um tempo para compreender o que estava vendo.

Havia alguém diante dela. Baixo, largo, de costas arqueadas e braços abertos como se fosse uma muralha humana.

Thorin estava plantado entre ela e a morte. Seus joelhos vacilavam, e um fio de sangue descia do canto de sua boca. A princípio, Mirabel não entendeu. Então seus olhos desceram.

O machado estava cravado nas costas dele. A lâmina havia atravessado a túnica e afundado entre as escápulas. O cabo ainda tremia levemente.

Os olhos da feiticeira se arregalaram. Ela tentou dizer alguma coisa, o nome dele, talvez, ou um protesto furioso. Mas tudo o que saiu foi um som abafado e indignado contra a mordaça.

Thorin virou um pouco o rosto, o suficiente para que ela pudesse ver seu perfil. Havia dor ali, muita dor, mas também aquele aspecto esquisito de sempre.

— Não se preocupe, querida… — murmurou, com a voz falhando. — Eu parei a lâmina do machado com a minha espinha dorsal.

Mirabel ainda permaneceu por mais alguns segundos em estado de choque. Até que, com um movimento brusco de cabeça, começou a esfregar a mordaça contra o ombro do ex-marido, forçando o tecido para o lado até conseguir prendê-lo entre os dentes e arrancá-lo de uma vez.

— Seu idiota! — disparou ela, com a voz saindo rouca. — Você enlouqueceu de vez?!

O anão, ainda respirando com dificuldade, virou o rosto um pouco mais em sua direção. Havia suor em sua testa, sangue nos lábios e dor na coluna, mas, mesmo assim, ainda encontrou forças para abrir um sorriso.

— Achei que — balbuciou, com um fio de voz — você ficaria feliz em me ver…

— Estou impressionada com o tamanho da sua estupidez, Thorin! Mas, para ser sincera… fiquei surpresa por você ter ouvido meu chamado. Conhecendo você, imaginei que a esta altura já teria vendido nossa aliança de casamento para comprar cerveja, ou algo assim.

— Vender nossa aliança?! Eu?! — protestou com uma voz desafinada. Em seguida pigarreou, tentando recompor a dignidade — Ora, querida. Fico até ofendido que você me imagine capaz de agir de forma tão… ahn… desprezível.

Tossiu de novo, e uma fisgada violenta atravessou-lhe o corpo inteiro.

— Thorin! — Mirabel se aproximou, examinando o machado em suas costas.

— Relaxa, chuchu. Eu sou clérigo, lembra? Servo devoto de Nymora. Tenho poderes de cura, você sabe disso.

Com um gemido abafado, o anão apoiou um joelho no chão e fechou os olhos por um momento. Quando tornou a abri-los, o brilho debochado havia cedido lugar a um aspecto mais profissional. Levou a mão ao símbolo sagrado pendurado junto ao peito, agora manchado de sangue, e respirou fundo.

— Escute — disse, com a voz firme, embora baixa. — Vou precisar da sua ajuda. A cura não é instantânea, e enquanto eu estiver puxando a graça da deusa, meu corpo vai ficar indefeso. Se algum daqueles desgraçados chegar perto de mim nesse estado, eu já era.

— Então trate de ser rápido — assentiu a feiticeira, apanhando para si um cajado improvisado, feito com uma tocha apagada.

O anão se ajeitou como pôde, levou as duas mãos à altura do peito e começou a sussurrar as primeiras palavras do encantamento. Seu tom era reverente, quase íntimo. Uma luz azulada brotou entre seus dedos e passou a escorrer devagar por seu corpo, contornando os ombros, a espinha e o tronco, até se concentrar ao redor do machado cravado em suas costas. O metal vibrou de leve. A carne ao redor pareceu relaxar, e sua respiração oscilava entre espasmos de dor e pequenos suspiros de alívio.

Mirabel puxou de dentro do decote um talismã marcado por uma runa ancestral, com o símbolo do Boitatá.

— Mirabel… ei, querida… — sussurrou Thorin. — Essa por acaso é a relíquia desses caras?

Ela se manteve em silêncio.

— Você roubou mesmo?

— Agora não, Thorin.

A feiticeira ergueu o amuleto na direção de uma das fogueiras derrubadas.

— Queime apenas o bastante para afastá-los — ordenou.

A fogueira pareceu inflar. O brilho alaranjado se adensou, ganhando corpo e volume. Então o fogo se ergueu do chão, torcendo-se sobre si mesmo até assumir a forma de uma serpente gigantesca, feita de labaredas e brasas. Seu corpo ardente se contorcia no ar com um silvo ensurdecedor, e seus olhos, duas fendas negras, ardiam com uma intensidade maligna.

Mirabel apertou o talismã.

— Obedeça.

A criatura ignorou e seguiu em frente, rasgando em chamas o acampamento dos Pés Invertidos. Chicoteou cabanas e derrubou árvores com o corpo incandescente. Por onde passava, a madeira explodia em chamas e o ar se enchia de fumaça. Os gritos se espalharam pelo acampamento. Alguns guerreiros largaram as lanças para tentar salvar os seus. Outros, menos afortunados, queimavam até virar cinzas.

— Querida…? — disse Thorin, ainda em meio ao processo de cura. — Não acha que está exagerando um pouquinho?

Mirabel se esforçava para retomar o controle, com o talismã queimando entre os dedos. Mas aquela chama não se comportava como um feitiço comum. Crescia além do limite que qualquer encantamento deveria alcançar, com uma força e uma fúria grandes demais para terem nascido de uma simples fogueira derrubada.

— Thorin… — disse por fim, com voz tensa. — Tem alguma coisa errada! Acho que esta relíquia era algum tipo de selo.

O anão, que já havia recomposto a própria coluna, aproximou-se dela e a envolveu num abraço firme. Mirabel cedeu ao gesto e caiu de joelhos, buscando apoio naquele breve refúgio em meio a toda aquela loucura.

E, no centro de todo aquele inferno, Ulgar se encontrava frente a frente com o chefe da tribo.

O líder dos Pés Invertidos empunhava duas lâminas curvas de pedra negra. Era maior que os outros e tinha uma aparência brutal. Seus passos invertidos desenhavam no chão um movimento torto, confundindo distância e intenção. Havia sangue em seu braço, no peito e no rosto. Havia sangue demais também no bárbaro diante dele.

Nenhum dos dois parecia disposto a recuar.

O chefe atacou primeiro. As duas lâminas cortaram o ar em uma sequência feroz. Ulgar aparou a primeira, tomou a segunda no ombro e sentiu a carne abrir. Aquilo lhe fez sorrir. Era por isso que viera. Toda a floresta, toda a magia, toda a confusão ao redor pareciam perder importância diante daquele único instante em que, enfim, tinha diante de si um inimigo digno de ser abatido.

— Desgraçado! — gritou o líder da tribo. — Olhe em volta. Veja o que fizeram!

Atrás dele, uma cabana desabou em brasas. Os gritos dos Pés Invertidos se misturavam ao silvo da serpente. Corpos se contorciam na terra escura. Pequenas sombras fugiam entre a fumaça. Nem mulheres e crianças foram poupadas.

— Os homens são mesmo uma praga! — continuou. — São de longe a criação mais maldita da deusa Marie!

Ulgar deu de ombros.

— Vai lutar, ou vai chorar?

— Você não entende! Não faz ideia do que destruiu. Minha tribo era milenar, e este era o último grupo que havia restado. E agora… agora tudo está perdido!

— Isso é problema seu e do seu povo. A única coisa que me importa é que…

O bárbaro deu um passo à frente.

— …você é grande…

Mais um.

— …e forte…

Parou a poucos centímetros do oponente, com o incêndio refletindo nos olhos.

— …mas será que sabe lutar?

Naquele momento, o líder dos Pés Invertidos hesitou. Apesar de todo o seu treinamento como guerreiro, reconheceu no homem à sua frente algo terrível. Aquele bárbaro sorria. Coberto de sangue e cercado de fogo. O medo abalou o espírito de luta do chefe, e essa foi sua sentença.

Ulgar avançou. A espada desceu em um corte limpo.

Por um momento, a cabeça do líder ainda parecia ligada ao corpo. Depois se separou. Girou no ar, atravessada pela luz das chamas, e caiu rolando no chão. Seu corpo deu dois passos vacilantes sem comando algum, e então tombou de joelhos antes de desabar por inteiro.

— Fracote de merda!

O bárbaro deu uma cusparada e permaneceu de pé diante do cadáver, arfando, com a espada pingando sangue negro e vermelho.

Ao seu redor, o acampamento continuava queimando.

Os Pés Invertidos que ainda lutavam começaram a recuar. Thorin corria com Mirabel para longe das chamas. Ela, porém, ainda olhava para o homem que acabara de decapitar o chefe da tribo.

— Esse sujeito é completamente maluco! — comentou.

— Pelos deuses! — balbuciou o anão, ao se dar conta de toda a destruição à sua volta. — O que foi que nós fizemos… — estava com lágrimas nos olhos, não apenas pela compaixão, mas também pela fuligem no ar.

O sorriso de Ulgar não saíra do rosto, e seus olhos, tão vermelhos quanto o fogo ao seu redor, percorriam o caos com uma satisfação que beirava a insanidade. A mão fechada em torno do cabo da espada tremia levemente, sedenta por uma segunda rodada.

Então a serpente o viu, virando a cabeça em sua direção. Seus dois olhos negros fixaram-se nele.

Mas Ulgar não recuou.

O bárbaro e a serpente ficaram se encarando por um tempo. Até que a criatura abriu a boca e rugiu, varrendo o acampamento como uma onda. As chamas que ainda ardiam começaram a se mover. Línguas de fogo rastejavam pelo chão em direção a ela, subindo por seu corpo, fundindo-se à sua forma. Os contornos se alteraram, a silhueta se alongou, algo irrompeu de cada lado do tronco, abrindo-se contra o céu noturno. Com a luz do próprio fogo que a compunha, a criatura projetou uma sombra sinistra, que parecia um lagarto com longas asas.

Em seguida, ascendeu acima das árvores, levando consigo cada chama, brasa e fagulha que ainda respiravam no acampamento. A escuridão caiu de repente, absoluta, e então o luar tomou o lugar do fogo.

Restaram apenas cinzas e madeira enegrecida.

Ulgar permaneceu imóvel, com a espada ainda na mão e o sorriso enfim apagado, olhando para o céu com repulsa, enojado pelo cheiro de magia, até que a criatura desaparecesse de vez.

***

— Uau… Que batalha incrível! O senhor viu, mestre Enoch?

O ancião não sabia o que pensar. Seus dedos enrugados repousavam sobre os braços da cadeira de pedra, e sua atenção permanecia fixa no interior da esfera.

— Está tarde — disse ele, erguendo uma das mãos, fazendo com que as imagens da bola de cristal se apagassem. — Já vimos o bastante por hoje.

— O bastante?! Mas… ainda nem chegamos na parte do dragão! E eu queria ver mais cenas de pancadaria! Aquele bárbaro… ele tava parecendo um monstro!

O ancião voltou-se para ela, e só então a menina percebeu algo peculiar. O velho continuava sereno, mas a serenidade agora parecia forçada.

— Há momentos em que até o mais diligente observador deve saber recolher os olhos — disse ele. — Bisbilhotar o tecido do destino por tempo demais cobra seu preço. Precisamos descansar.

— Mas eu não estou com sono!

— Mesmo assim vai dormir.

— Mas…

— Sarah.

A menina fechou a boca e obedeceu, enquanto o ancião recolhia a bola de cristal e se dirigia para fora do pátio. Passou a mão pela barba uma última vez, organizando os pensamentos.

— Tenha uma ótima noite, pequena.

Ela ainda hesitou por um momento, mordendo o lábio inferior. No entanto, como toda criança inteligente sabe fazer, decidiu guardar a revolta para mais tarde.

— Amanhã o senhor me mostra o resto?

— Se o destino permitir…

Sarah fez uma careta, pouco satisfeita com a resposta, mas acabou cedendo. Recolheu-se com passos lentos, arrastando um pouco as sandálias pelo chão de pedra para deixar claro, da forma mais infantil possível, que saía contrariada.

Em seus aposentos, o ancião permanecia imóvel diante da bola de cristal. Por um longo período, não ousou tocá-la.

Por muitos anos, acreditara saber reconhecer os sinais de uma grande ruptura. Guerras começavam com exércitos. Pragas, com cadáveres. Golpes de Estado, com sussurros em corredores de pedra.

Mas aquilo era diferente.

Havia algo naquele bárbaro que o perturbava. Não era apenas sua força, nem sua ferocidade. A destruição que deixara para trás fora excessiva, descontrolada, maior do que a necessidade pedia. Parecia que, onde quer que ele estivesse, a desordem crescia ao seu redor.

Além disso, Boitatá havia sido despertado. E aquilo não era um detalhe pequeno, mas sim uma faísca lançada sobre o tecido da ordem, com grande potencial de gerar um incêndio.

Enoch pousou a mão sobre a bola de cristal, sem despertá-la. A superfície fria refletiu seu rosto cansado. O ancião estremeceu e balbuciou:

— Pelas barbas de Torun… O Caos está avançando!

Mas nem mesmo ele sabia dizer qual peça daquele tabuleiro merecia maior atenção: Boitatá ou Ulgar.

E Então? O que achou?

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Publicado às 1 de maio de 2026 por em E-Rom G2, Entre Romances e marcado .