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Detox Literário.

Vida Roubada (Google)

Há quem diga que nascer é uma dádiva, que viver é uma luta e que envelhecer é uma graça. O que acontece entre essas três verdades é aquilo o torna quem você é.

Começo a me dar conta de quem eu sou por volta dos 5 anos. Uma criança reclusa, de poucos afetos e abraços. O destino foi um pouco traiçoeiro. Me presenteou com um irmão mais velho e outro que estava a caminho. Toda atenção para estes dois.

Quando o Júlio nasceu, minha situação ficou um pouco pior.   Meu pai passava a maior parte do tempo com Mauricio, o mais velho. Minha mãe, estava sempre com o Júlio, o mais novo. Eu estava experimentando o desprazer de ser a sobra do que estes dois não precisavam. 

A falta de atenção me fez buscar o carinho dos meus pais até os sete anos de idade. Foi então que percebi que eu estava fadado a ter de aprender a viver sozinho.

A idade escolar pareceu ser uma benção. No entanto, o medo de me aproximar e ser rejeitado de novo me fez ser uma criança ainda mais recolhida do que já era. Sensações, toques, afagos nem pensar. Não admitia receber um abraço que não fosse daqueles que me deram vida. 

Não me faltava nada. Tinha casa, brinquedos, comida. Evidentemente, não eram brinquedos meus. Eram presentes deixados de lado pelo Maurício ou esquecidos pelo Júlio. Para completar ainda mais minha tristeza de vida, eles me obrigavam a comemorar meu aniversário 5 dias antes, por causa do aniversário do Mauricio. Meus pais sempre vinham com a velha desculpa: — Vamos fazer uma festa só, assim economizamos e comemoramos o aniversário de vocês dois. 

Cantavam parabéns pelo aniversário dele e se esqueciam que o meu estava para acontecer. Presentes dos tios e tias para ele. Nada para mim. Aliás, tios e tias foram outros que em nada acrescentaram minha vida. Como meus pais, eles voltavam suas atenções para o xodó da família, Mauricio, e seu caçula, Júlio. 

Quando completei 12 anos meu pai disse que eu tinha idade suficiente para trabalhar. Não me lembro dele ter feito o Mauricio trabalhar nesta idade. Me fazia carregar suas ferramentas pesadas rumo a sua labuta. 

Mauricio tinha começado a namorar e Júlio iniciava no ensino fundamental. Foco nestes dois. Foi a primeira vez que resolvi surtar. 

Numa visita feita por uma de minhas tias, peguei da bolsa dela uma nota de cinco cruzeiros. Tinham outras notas de valor maior, mas, eu não queria extrapolar. Só queria chamar atenção. Quando descobriram, Júlio e eu fomos chamados. Ele sempre aprontava, mas, eu não podia deixar que ele levasse a culpa por uma coisa que eu fiz. Tentei bancar o ladrão herói. Foi um erro. Algumas cicatrizes nunca desapareceram. Serviu de lição. Nunca mais peguei nada sem pedir permissão. 

Com 13 anos meu pai me arrumou um emprego numa loja de brinquedos. O sonho de toda criança. Ia trabalhar sorrindo, mesmo carregando resquícios de uma infância sofrida. 

O dono era amigo do meu pai e ele sempre ia na loja para saber como eu estava me comportando. Não para saber se estava tudo bem, mas, por que tinha medo de que um de seus filhos pudesse vir a ser um ladrão. 

Um dia, cansado de tudo, eu fugi.   Faltei serviço e me escondi nas mangueiras que tinham perto da igreja. Passei o dia e metade da noite lá, sobrevivendo com mangas verdes. Quando voltei, passavam das duas da manhã. Estava com frio, fome, sede. Foi quando me dei conta de que ninguém ia me procurar.

Meus pais nunca me disseram uma só palavra a este respeito. Eu entrei em casa na mesma hora que o Maurício terminava de “comer” sua namorada no sofá.

— Sai daqui sua bichinha. — Ele me disse.

Uma mistura de tristeza, raiva e ódio tomavam conta de mim. Mesmo assim, eu os amava, a minha maneira.

Voltei no dia seguinte para o trabalho. Meu pai acabou parando de me importunar. Parecia não se importar se eu ia ser um perdido, um ladrão ou um homem de bem. Esse foi o seu maior erro.

Coisas estranhas começaram a acontecer na loja. Luiz, meu patrão, me esperava todos os dias para me dar carona. Eu nem morava tão longe assim. Tocava minhas mãos e me abraçava gentilmente.  Eu gostava. 

Recebia os afetos que nunca recebi de nenhum dos meus familiares. Foi assim, até que, ele me beijou. Eu me assustei. Tive medo, mas não reagi. Simplesmente deixei ele me beijar e me tocar.  Por dentro eu chorava. O maior de todos os medos que senti. Chegava à conclusão de que meu irmão estava certo. Eu sou bichinha.

Não contei para ninguém e meu patrão me forçou a não dizer também. Continuei trabalhando como se nada tivesse acontecido, sendo constantemente lembrado de nunca dizer nada a respeito. 

Quando a loja fechava, ele me tocava, de todos os jeitos e formas. Eu até gostava quando ele me abraçava. Pensava no quão bom podia ser se o abraço viesse dos meus pais. Eles não tinham tempo pra mim.

Dos treze até os dezesseis fiquei silenciosamente sendo aliciado por um pedófilo. Um homem de quase setenta anos, pai de família, esposo, avô e muito bem quisto na sociedade. Não tinha maturidade para saber se o que ele fazia comigo era crime ou não.

Quando fiz dezessete, pedi demissão. Disse a ele que pretendia entrar no exército. Ele me ameaçou de todas as formas possíveis. Disse que ia contar para minha família e que depois me mataria. Velho insano. Ele roubou tudo de mim.

Aos dezoito, agraciado pela vontade dos céus, fui selecionado para servir a pátria. Isso me libertou das mãos daquele maldito. Como fui burro. Tamanho foi o meu sofrimento. Dias de dor, de angústia, de desesperança. Achava que seria o orgulho dos meus pais por me tornar um homem da pátria. Eles não deram a mínima.

Mauricio se formou engenheiro civil como o meu pai e estava para se casar. Júlio havia ganhado uma bolsa de estudos na Europa. Os orgulhos da família.

Servi durante dois anos, comendo o pão que o diabo amassou.  Quando sai, entrei na faculdade de Administração. Sempre fui o primeiro aluno da turma por ter facilidade nas contas. 

Conheci muitas garotas, mas, não havia mais jeito pra mim. Foram quase cinco anos sendo usado pelo mesmo homem. Ninguém sabia. Esse segredo começou a me consumir. Ficava com meninas lindas, garotas desejadas, mas, na hora H, não funcionava.

Por alguma razão o relacionamento do Mauricio não deu certo e ele ficou esquisito. Júlio havia aprontado na Europa e ficou preso por um mês por causa de drogas. Ele se dizia inocente. Um pouco mais de atenção para estes dois sofredores.

Meu pai culpava minha mãe pelo que havia acontecido com o Júlio. Minha mãe culpava meu pai por se meter demais no relacionamento do Mauricio. 

Eu seguia minha vida como um gay que não se aceitava. Carregava nas minhas memórias a frustração de uma infância sofrida e uma adolescência de abusos sexuais constantes. Coisas bem pequenas perto dos sofrimentos vivenciados pelo Júlio e pelo Mauricio.

Com 24, me formei e arrumei um emprego mediano. Ainda morávamos todos na casa dos meus pais. 

Júlio apresentou ao Mauricio um possível tratamento para sua tristeza. As drogas entravam e saiam de dentro de casa sem que nenhum dos seus donos percebesse. 

Quando as coisas iam mal, eles pegavam o que podiam para custear suas despesas com entorpecentes. Deviam até as calças para os marginais que se diziam donos da cidade. 

Durante muitas ocasiões tirei dinheiro das minhas economias para ajuda-los. Não queria que eles fossem arrebentados pelos bandidos. Me doía demais tal situação, pois, eu guardava dinheiro para sair daquela maldita casa.

Perto dos trinta conheci um cara bacana, respeitoso, gentil e muito atencioso. Ficamos amigos, parceiros e namorados as escondidas. Quando o Mauricio o descobriu ele acabou com a minha vida. 

Me espancou até o ponto de quebrar o meu braço. Perdi meu emprego e fiquei durante um ano sendo chantageado para que ele não contasse aos meus pais o que havia acontecido. Eu tinha muito medo de que todos soubessem quem eu era. Nem eu mesmo me aceitava. 

Marcos, o cara gentil e bacana com quem me envolvi desapareceu. Ele não ia querer nada com uma pessoa como eu, vítima de uma família violenta, de drogados e instável em muitos aspectos.

Não sei o que eu havia feito para merecer tanto descaso. Imaginava ter sido alguém muito ruim na minha vida anterior. Tudo o que eu conquistava, perdia. 

No ano seguinte, Luiz, o meu ex patrão pedófilo, aliciador de menor, morreu. Fiz questão de ir até o velório para ver a sua face moribunda. Esperava que ele pudesse pagar pelo que fez. Assim que entrei, minhas pernas tremeram, meu coração palpitou e minhas mãos sentiram o seu toque. Até depois de morto aquele desgraçado me trouxe desequilíbrio. 

Eu era frágil. Emocionalmente frágil. Espiritualmente frágil. Comecei a ter insônia, crises de pânico, ansiedade, transtornos de adaptação. Não conseguia parar em nenhum emprego por mais bom que pudesse ser.

Perto dos quarenta, percebi que Mauricio, Júlio e eu nos tornávamos três derrotados. Meus pais se divorciaram. Minha mãe entrou em depressão. 

Meu pai finalmente deixou aflorar o seu lado sem vergonha. Eu sabia que ele traia a minha mãe, só que, ele se reservava. Não contava por que eu sabia que ela ficar como ficou.

Foi então que meu irmão Mauricio foi morar com o meu pai. A verdade é que ele estava jurado de morte.

Antes dele ir, tentei lhe dar bons conselhos. Este foi mais um dos meus erros. Acabamos discutindo e ele partiu me deixando um presente. Uma carta que revelava a minha mãe que ela tem um filho gay.

O choque foi tão grande que ela mudou completamente. Saiu do seu estado depressivo para um comportamento agressivo. 

Não tinha muita coisa, mas, o pouco que eu tinha, ela jogou pra fora de casa. 

Gritou aos quatro cantos que não aceitaria ser mãe de um gay. Aquilo despedaçou de vez o meu coração. Procurei refúgio nos lugares mais absurdos. Parecia que todos me viam como o pior ser humano da face da terra.

Júlio não teve pena alguma de mim, mesmo eu o tendo ajudado tanto. Ainda assim, ele ajudou a mulher que me deu vida me expulsar de casa. 

Por ironia do destino, acabei acolhido por um velho que morava sozinho. Seu nome, Luiz. Ninguém sabia quem ele era, nem por que razão não tinha família. Seja como for, ele foi o único que teve pena de mim.

Todos comentavam sobre o que eu me tornei.  Só que, ninguém conhecia a minha verdade. Os poucos amigos que eu tinha viraram as costas pra mim.

Por algumas vezes pensei que teria sido mais fácil se eu tivesse me tornado um usuário como o Maurício ou como Júlio. Eles eram mais aceitos que eu. Recebiam atenção familiar e da sociedade. Foram incluídos em programas de recuperação e até receberam auxílio financeiro para conseguir reerguer suas vidas. Que ajuda um estuprado que acabou virando gay poderia ter? 

Quando conheci a história do senhor Luís, vi que não fui o único que sofri. Ele havia sido roubado pela sua esposa e filhos. Todas as suas economias tinham sido levadas. 

Ele me arrumou um emprego e finalmente pude levantar minha cabeça. Alguns meses depois ele sofreu um derrame. Passei a cuidar dele. Ironias do destino. Como entender?

Mauricio acabou vindo a falecer por overdose. Tive que assistir o enterro dele de longe.

Júlio ficou anos em tratamento. Nunca se recuperou. Meu pai sumiu. Minha mãe, destruiu sua própria vida tentando cuidar do Júlio. Ela nunca me perdoou.

Segui em frente, carregando na alma o pecado não me sentir amado. Carregando no peito a dor de querer ter sido uma pessoa normal. Por esta razão, hoje, com quase sessenta, percebo que tive praticamente toda minha vida roubada.

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Informação

Publicado em 22 de março de 2020 por em Envelhecer, Envelhecer - Grupo 2.