EntreContos

Detox Literário.

O Jardim da Infância (Kindergaarten)

As primeiras lembranças que tenho, e que mantenho muito bem guardadas desde os meus cinco anos sob uma grossa camada de medo e saudade, são apenas sensações: o frio do metal das correntes enferrujadas, por entre meus pequenos dedos, e o enjoo do movimento no balanço. Havíamos nos mudado no final do inverno, minha mãe e eu, para o subúrbio daquela vila, fugindo do caos da cidade; a vida ali deveria ser mais tranquila. De qualquer forma, mamãe ficava preocupada por não termos mais ninguém por perto; porém, ali havia emprego e era preciso trabalhar. Permitiu aos poucos que eu descesse para brincar, sozinha, pelas redondezas, mesmo quando ela não estivesse em casa.

Da janela do quarto onde morávamos, um velho prédio descuidado e cheio de marcas, era possível ver o bosque de coníferas bem próximo; e, na quadra ao lado, havia um jardim público onde azaleias em arbustos altos cercavam um pequeno parque de brinquedos abandonados. Entre balanços, o carrossel enferrujado e um escorregador, vivi minhas primeiras aventuras. Não havia muitas crianças na vizinhança mas, a princípio, eu não me importava muito com isso. Já estava acostumada – somente a gangorra permaneceria inútil.

Aquele jardim era o meu refúgio, santuário para onde eu ia quando não queria estar perto de nada ou ninguém. Passava horas e horas brincando na areia, até pouco antes do horário em que mamãe voltaria para casa. Foi ali que conheci Ilana, minha primeira melhor amiga.

 

Uma tarde, a menina apareceu, de mansinho, perguntando se eu queria brincar com ela. Pode ser, eu disse. Ilana era um pouco mais velha do que eu, e também não ia à escola. Nem sei o que aconteceu naquele dia, mas nos tornamos, na hora, amigas desde sempre. O parquinho era nosso castelo. Inventávamos histórias de princesas, cozinhávamos pedras e lama, e até nos escondíamos quando era necessário, da realidade dura e incompreensível daqueles dias. Mas ela sempre ia embora mais cedo.

Pois um dia Ilana teve a ideia de explorar o que havia além do jardim, na floresta. A princípio, senti medo, mas ela me desafiou, correndo na minha frente. Depois de alcançá-la, caminhamos de mãos dadas por entre as árvores despedaçadas e quase mortas. Uma densa fumaça cinza subia do outro lado do bosque, espalhando-se pelo céu e em todas as direções. Ruídos que ao longe pareciam gritos de pássaros agourentos, e tornavam-se cada vez mais nítidos e aterradores.

Surgiu então, detrás de uma árvore, um espectro sinistro, velho, muito magro, quase um esqueleto branco, completamente nu. Movia-se devagar, mas certamente vinha em nossa direção.

Ilana largou a minha mão, paralisada. Eu queria gritar mas a voz continuava presa na garganta, estrangulada. Naquele momento, tive a certeza de que o monstro teria de escolher entre uma de nós.

Caí no chão, indefesa, protegendo meu rosto com os braços, enquanto Ilana continuava em pé, sem reação.

O espectro, ofegante, parou bem próximo à minha amiga, fixando seus olhos encovados diretamente nos olhos dela, e exibiu os dentes podres no que poderia ser um sorriso maligno. Alguma coisa o fez mudar de ideia. Desviou-se e seguiu na direção oposta, sumindo assim como havia chegado, por entre as árvores.

Ilana virou-se, impressionantemente calma, mas quase tão branca quanto o espectro, perguntou se eu estava bem, enquanto me ajudava a levantar. Nisso, ouvimos um rosnado horrível, bem próximo, e vozes de homens. Resolvemos sair dali o mais rápido possível.

Se eu estivesse sozinha, não teria acreditado. Mas Ilana estava comigo e tinha visto o espectro também. Como nos separamos na fuga, não pude conversar com ela na hora. Mas fiquei tão nervosa que decidi conversar com mamãe, assim que ela chegasse em casa.

 

Ela chegou da fábrica na hora do jantar. Estava cada vez mais cansada, tinha pouca vontade e muito pouco o que cozinhar. Por isso, na maioria das vezes, trazia um pão com salame seco, que comíamos juntas, em silêncio.

– Mamãe, fantasma é gente que morre?

– Que história é essa, Elsie? Onde você ouviu isso?

– É que eu acho que eu vi um deles hoje.

– Pare com isso, menina. Não existem fantasmas aqui.

– A Ilana também viu, quando ele apareceu, do nada…

– Ilana? Quem é Ilana? – mamãe estranhou aquele nome.

Fiquei sem jeito por não ter contado antes sobre a menina do jardim.

– Ilana é minha melhor amiga.

Mamãe deveria ter entendido.

– Ah, que bom, Elsie, que você tem uma amiguinha agora para brincar…

– Pois é, nós duas estávamos…

(Percebi que não podia contar que tínhamos ido ao bosque sozinhas.)

– … brincando no parquinho, quando surgiu um vulto branco, um esqueleto. Fiquei com muito, muito medo, mas ele deu meia volta e foi embora. Acho que foi a Ilana que assustou ele.

Apesar de achar a história absurda, mamãe ficou preocupada comigo.

– Elsie, querida, você passa o dia inteiro por aí – por favor, fique no apartamento, não saia. Eu sei que o jardim é pertinho, mas se acontecer alguma coisa…

Ela começou a chorar, escondendo o rosto. Fiquei triste, mas entendi. Coisas estranhas aconteciam em toda parte. Garanti que iria obedecer e mamãe me abraçou, mais controlada:

– Fantasmas são coisas do passado, Elsie.

 

Nem preciso dizer que quebrei a promessa já no dia seguinte. Estava ansiosa por conversar com Ilana sobre a aparição. Quando cheguei na gangorra, ela já estava lá, pensativa, me esperando. Perguntei, enquanto subia no brinquedo:

– E o fantasma de ontem?

Ilana, lá de cima, deu de ombros, indiferente.

– Aquilo não foi nada.

Nossa, pensei. Como é que ela poderia falar uma coisa daquelas?

– Como não foi nada? Você não acredita em fantasmas?

Ilana, agora descendo, balançou a cabeça.

– Elsie, você também é bem grandinha, já deveria saber.

– Saber o que?

– O que está acontecendo agora. Sinta esse cheiro, ao redor.

Era verdade. Havia sempre um cheiro ocre naquela vila. Mas, assim como a fumaça e o barulho, a gente acabava se acostumando.

– O que é que tem?

Ilana desceu da gangorra devagar, segurando o assento para eu descer também, e saímos do brinquedo.

– Venha. Quero te mostrar mais uma coisa.

 

Caminhávamos novamente pelo bosque, agora não mais de mãos dadas. Ilana ia à frente, desviando dos galhos caídos e das crateras no solo, mas com confiança absoluta sobre a direção em que deveríamos seguir. Percebi que os ruídos agourentos pouco a pouco se transformavam em murmúrios quase humanos. Finalmente, chegamos a uma clareira onde estava escondida a resposta: nos troncos das árvores ao redor, pendurados a dois metros de altura, pendiam vários homens nus, pregados pelos punhos e tornozelos. O sangue que escorria dos corpos manchava a neve ao redor das raízes das árvores. Alguns deles ainda gemiam. Outros já estavam mortos.

Um ruído aterrador parecia vir dos céus.

Fugi dali o mais rápido que pude, deixando Ilana para trás.

 

À noite, mamãe chegou apavorada e eu continuava escondida, embaixo da cama. As imagens tornavam a aparecer, mesmo quando eu fechava os olhos. Mamãe não sabia onde estava e preocupou-se que algo houvesse me atingido. Mas, ao me ouvir soluçar, acabou me encontrando. Preferi não contar para ela o motivo do meu medo, e acabei dormindo sem jantar.

Durante a semana, fiquei sozinha e trancada em casa, observando pela janela o movimento fora do comum de caminhões e veículos pela cidade. Mamãe continuava indo à fábrica, mas voltava mais cedo do que antes. Continuava com semblante preocupado. Eu não tinha vontade de fazer nada. Nem mesmo de ir ao jardim onde permaneciam vazios as balanças, a gangorra, o carrossel e o escorregador. Sentia vergonha por ter abandonado Ilana, sozinha, no meio do bosque. Mas não tinha a coragem de pedir desculpas.

No sábado, bem cedo, todos foram convocados através do sistema de som a comparecerem à praça central. Mamãe me levou pela mão, assustada, em meio a uma densa neblina. Eu ainda estava sonolenta, mas tive a esperança de encontrar Ilana. Talvez ela pudesse me desculpar. Só que não conseguimos nos encontrar, no meio daquela multidão. Em poucos minutos, uma fila enorme de pessoas seguia pela estrada, caminhando em meio bosque maldito. Senti um arrepio. Sabia que não iríamos muito longe.

O sol tímido dissipou a neblina, tornando o clima mais ameno durante quase todo o percurso. Mulheres conversavam em voz baixa, dividindo fofocas cotidianas. Os homens cumprimentavam-se, circunspectos, em seus melhores ternos. Outros deles, militares, trajavam uniformes de gala, sérios e empertigados. Mamãe permanecia em silêncio.

Atravessamos sem incidentes o bosque, agora estranhamente quieto, e chegamos ao portão de madeira na cerca de arame farpado, que se estendia ao redor do grande galpão. As chaminés da fábrica ainda fumegavam. Do outro lado da grade, espectros e seus guardiões abriram passagem para que nós, que éramos vizinhos deles e nada sabíamos, pudéssemos testemunhar todo o horror daquele lugar.

Mulheres choravam. Homens tentavam se conter, ao receber as pás e reconhecer a tarefa que lhes fora designada. Oficiais e soldados, derrotados, tiveram que arrastar para valas comuns centenas de cadáveres putrefatos.

Dentre eles, Ilana, minha amiga, jogada no topo de uma enorme pilha de corpos. Mamãe, já acostumada a ver todos os dias aquela atividade de arrastar os mortos, teve de trabalhar sob o olhar de dezenas de sobreviventes. Dentre eles, o espectro que encontramos no bosque. Ele havia sido capturado naquela tentativa de fuga e reconduzido ao inferno. Agora, havia suportado o suficiente para testemunhar a libertação do campo pelos exércitos aliados. Um dos poucos sobreviventes daqueles dias em Nordhausen.

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Informação

Publicado em 1 de maio de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 2, Série A.