Capítulo 1
Durante muito tempo adormeci mais cedo do que gostaria. Não porque, em maior grau do que qualquer mãe, a minha me fizesse deitar em horário adiantado. Às quartas-feiras, dia de jogo, ela até concedia uma tolerância – malandragem materna, pois sabia que eu, no auge dos meus sete anos, levaria-me por conta própria aos braços de Morfeu. Dito e feito: nem bem entrevia o gramado cintilante no televisor, ou antes mesmo, ao simples subir de créditos do fim da novela das oito, sentia pesarem os olhos e depositar-se sobre meu corpo de criança um irresistível desejo de abandono.
Não vou dizer que não lutasse. Bulia, virava, mexia, azucrinava pálpebras e sofás, tudo para postergar o momento em que o sono me embalaria à escuridão sem retorno. Também me aferrava à ideia, como um garoto endividado consigo, de que aquele instante esportivo tinha sido investido por mim durante toda a semana. Em vão: logo, miúdo, macio, cedia. E nesse ceder, à medida que a vida lá fora se apagava aos poucos, obtinha uma espécie rara de deleite: o de quem, exausto de antemão por uma batalha que mal e mal principia, admite para si a derrota que o mundo lhe dá em forma aparente de benefício.
Às vezes, caso uma lasca de vigília me trouxesse de volta à tona, eu notava que lá, no sono, reinava o silêncio. Absoluto silêncio. Também agora, enquanto vejo o corpo de mulher cada vez menor no retrovisor lateral, com o livro na mão, o carro se torna uma câmara silenciosa quando aciono o botão da janela e o vidro me isola de todo ruído externo. Seu braço que acena em despedida, a rua que desliza para trás, as margens da imagem deformadas pelo retrovisor que a enquadra, tudo tem uma cara inegável de filme de drama e combinaria à perfeição com um piano bem sentimental. Deve ser por isso que eu tateio o celular, jogado ali perto do câmbio, até achar, sem tirar um olho da pista que avança, o ícone preto e verde do Spotify. Mas o algoritmo não dá bola para os meus afetos: calha “Enter Sandman”, no aleatório. E me emociono sem saber por quê.
Por quê? Ora, deixar-se levar pela morte não devia ser muito diferente daquele sono. Eu pensava assim. Sei lá. Isso tornava a ideia de morrer mais aceitável. Até hoje não tirei a prova. Mas o que o sono das quartas-feiras me ensinou, sim, é que o futebol, como tudo na vida, é imaginário.
Quem me ouve assim pensa que eu, moleque, me aborrecia com o jogo de bola — daí a incontornável sonolência. Muito pelo contrário: quanto mais o jogo me escapava, mais o amava. E o ponto alto desse amor eram as manhãs em que, antes que o jornal desmentisse minha fantasia, a partida não vista se multiplicava em uma coleção de dribles improváveis e placares impossíveis. Dessas manhãs, frescas e promissoras, aprendi a conceber as partidas como se alguém soprasse, de longe, de leve, um sonho entre os cabelos úmidos das minhas têmporas.
Agora sinto a brisa suave e refrescante do ar-condicionado enquanto o automóvel desliza sem muita pressa pelas ruas sinuosas do bairro residencial. De vez em quando reduzo a velocidade e me inclino em direção ao para-brisa, a fim de espiar as casas suntuosas que se escondem atrás dos muros altos. O sol do meio-dia atravessa a folhagem das árvores também altas e se pulveriza sobre a superfície das coisas em uma infinidade de pontos luminosos de diferentes tamanhos. Esse efeito contribui, não sei bem por quê, para dar um ar de sofisticação a esse bairro afastado do centro de Campinas. Vou me deixando levar assim, na confiança de que o automóvel por si só vai me conduzir à via principal por onde cheguei, até perceber, no replay da paisagem urbana, que estou andando em círculos.
Paro o carro ao notar que, logo adiante, lá está ela, de novo, na frente da casa, conversando com o mesmo segurança que bateu no vidro do meu carro com os nós dos dedos, há pouco menos de duas horas. Paro porque quero evitar a trapalhada que é dilatar um momento já encerrado, como quando nos despedimos de alguém na rua e vamos caminhando na mesma direção. Talvez, também, não queira que o segurança perceba que estou perdido e ria consigo da minha estupidez, ou mesmo dê razão para sua desconfiança de antes, olhando-me passar de novo na frente da casa. Se bem que, pensando bem, é ficando aqui, quieto, que lhe dou razão para desconfiar.
Coisa aborrecida era que nos dias sem jogo, sem tevê, o sono não vinha. Restava ninar-me com o que sabia inventar. Quieto, quietinho, sob as cobertas, eu via, como um trecho de filme que o aparelho desajustado teima em repetir, a cena de um passe ideal, um drible ideal, um lance ideal. Era assim que eu encomendava meus sonhos, com a esperança de que se fizessem, quem sabe, presságios de uma vida gloriosa de jogador. Meu desejo passava, ali, no cinema do teto do quarto, uma, outra, outra vez ainda, apenas ocasionalmente perturbado pelas luzes dos carros que atravessavam o escuro, fatiadas pelo filtro das venezianas. Lá, ele brilhava. Quem? Não sabia. Mas sei que assim o nomeava – ele –, nessa espécie rudimentar de partida que, apenas se jogava, já tomava forma de palavra. Pois não é difícil, hoje, adivinhar que esse outro era uma versão de mim – melhorada, decerto, mas também duplicada pela simples razão de que não me bastava, na pelada imaginária, estar e ser: pois queria também ver – e contar o que eu via.
Vejo no minúsculo mapa do celular o emaranhado de ruas que me encerram, e enquanto digito, no campo reservado ao destino, a palavra Vinhedo, o aplicativo calcula com velocidade impressionante o caminho que eu, por conta própria, levaria uma eternidade para achar. Depois encaixo o aparelho no suporte do console e vou deixando para trás a zona residencial sob as orientações da voz feminina. Vire à esquerda, ela me diz, vire à direita, mantenha-se na Rua Engenheiro Patrício de Melo por duzentos metros. E há um estranho prazer em obedecer sem nenhuma rebeldia a esses comandos e ver o mundo transcorrer lá fora. De vez em quando, nesse transcorrer, vem-me a impressão de que é de fato o mundo que desliza por sob o carro, como se este estivesse parado, suspenso em uma plataforma que coincide exatamente com sua largura e seu comprimento, a poucos centímetros do chão. Mas essa impressão é passageira. Quando finalmente embico na beira da rodovia, vendo crescer as motos, caminhonetes, caminhões, que passam diante de mim com a indiferença de corpos celestes, me sobressalto levemente, e vou dosando o peso dos pés entre a embreagem e o acelerador, aguardando a minha chance. Depois de uma carreta, lá vou eu: dou o bote, subo a marcha, e pego a estrada.
Alguns minutos bastam para me recordar quão tediosas, e por isso mesmo quão adoráveis, são as estradas. Estradas, filas de banco, deslocamentos ordinários nos transportes públicos: foi em ocasiões como essas, planas, monótonas, que eu percebi nos últimos anos que algo daquela invencionice infantil se havia estendido à vida adulta. A bicicleta magistral, o drible primoroso, todo o repertório de jogadas fantásticas que eu via no escuro do quarto, guardei-o como um cacoete, um vício secreto, inconfessável, que mal podia se deparar com um chá de cadeira para pôr as mangas de fora.
E o engraçado é que, como todo jogo infantil, minha compulsão por inventar essas jogadas desconhecia o desenlace. Os lances nunca se encerravam. Daí que eu me pegasse contando e recontando a mesma jogada, sempre inacabada, com mania de melhora.
Recebeu na lateral marcado pelo volante, eu imaginava, deu uma cavadinha com a esquerda deixando pro meia enquanto escapava junto à linha da cal em disparada o meia dominou girou fez o passe em profundidade e no momento em que ele ia dividir com o zagueiro…
Não. De novo.
Recebeu na lateral marcado pelo volante deu um totó de rosca com a esquerda deixando quicar pro meia enquanto escapava junto à linha da cal em disparada o meia de primeira fez o passe com o peito do pé em profundidade e quando parecia que o zagueiro ia chegar antes ele…
Não. De novo.
Antes de receber no grande círculo entre dois marcadores fez que ia pro meio mas deixou passar entre as pernas pra pelota cair com o meia enquanto ele ia em disparada pela linha lateral da cal o meia girou penteou tabelou com o ponta a bola sobrou esticada para ele que estava apertado pelo beque já na linha de fundo e aí…
Não. De novo, e de novo não, e de novo, e não, e não, e de novo.
E o que vejo nessa estrada não difere muito disso: placas, linhas, luzes, postes, a sucessão ritmada da vida em alta velocidade, minimamente variada, mas no fundo tão parecida a si que o fim, se é que há fim, parece sempre empurrado para além da curva, para além do tempo.
E quem sou eu pra falar do tempo? Só houve um homem que soube o que era o tempo, e ele, esse homem, talvez esteja perdido para sempre.
Bobagem. Ali adiante vejo se aproximar a placa verde, no alto da pista, e a moça dentro do celular se antecipa ao que vejo para anunciar que a quinhentos metros eu devo pegar a saída à direita, em direção a Vinhedo. E por mais que eu olhe fixamente para a placa, ainda pequena na distância, ela não obedece a um crescimento contínuo. Em algum momento eu pareço me distrair nos pensamentos — minha infância, meus sonhos de jogador de futebol, a imagem de mulher diminuindo no retrovisor, com o livro na mão, o segurança desconfiado batendo no vidro do meu carro, duas horas atrás, mamãe me pondo para dormir —, porque a placa está grande de repente, a ponto de que eu possa ler, em linhas brancas sobre o verde do fundo, a palavra São Paulo, com sua flecha reta, e a palavra Vinhedo, com sua flecha torta. E minha mão insinua o gesto maquinal de dar seta para a direita quando eu penso que talvez não queira ir a Vinhedo, que talvez não valha a pena, que talvez tudo esteja perdido para sempre. Ou senão tudo, porque tudo é muito, que ele esteja perdido. E durante um instante, que parece durar uma eternidade, a bifurcação se aproxima, minha mão está no ar e não se decide a dar a seta ou voltar para debaixo das cobertas.
Ontem adormeci cedo. Ele, quando dei por mim, e isso já faz muito tempo, já não era eu. Ora, a realidade, cedo ou tarde, suplanta a imaginação. E, se penso no que vi, a realidade supera a imaginação. Pois faz alguns meses que minha mania infantil de inventar jogadas desapareceu. Ontem adormeci cedo por conta própria, porque meu plano era fazer essa viagem, que agora hesito em concluir. Ajustei no celular o alarme para as 06:30. Depois escolhi um alarme bem suave, uma mistura de som de rio com melodia medieval, na harpa. E o que veio, na cama, no escuro, ao cinema dos meus olhos, foi a mesma sequência que me persegue há meses, desde que a vi, como uma charada, como um enigma em forma de futebol: ele, recebendo no grande círculo, no estádio lotado, dando um chapéu no volante com um levíssimo totó na bola, fazendo a volta no adversário, um pouco desequilibrado, e passando para o meia, que amaciou a redonda enquanto ele ia partindo em velocidade em direção à linha lateral, e depois o lançamento, a enfiada no limite do alcance, o drible no lateral, o segundo drible no zagueiro, o terceiro drible no outro zagueiro, o olhar para o goleiro levemente adiantado, a bola que repica na meia lua, os marcadores que vêm fechando em carrinho, a câmera lenta, a perna que dobra, e desdobra, lento, lentíssimo – e o chute.
Capítulo 2
Quando o Bina apareceu na minha vida eu já tinha desistido de ser jogador de futebol.
Difícil dizer em que momento isso se deu. Todo menino sonha em ser jogador – ou pelo menos alguém sonha por ele. No meu caso, meu pai não nutriu grandes expectativas quanto a meu namoro com a bola. Também, sejamos justos, não me desencorajou. Aos sábados de manhã, lembro-me bem, eu ia no banco de trás da Parati, contemplando no meu corpo o uniformezinho comprado na loja da Primeiros Passes, que ficava junto à recepção da escolinha. Era por ali, minutos depois, que eu entrava correndo com a mochila a tiracolo, tão feliz quanto medroso, e via meu pai indo embora, acenando pelo vidro aberto do carro.
Da primeira vez é provável que eu tenha me perguntado por que é que ele, como os outros pais, não ficava para me assistir. Nas outras vezes, sujo, suado, eu já aprendera algo dos princípios de vestiário: entrava de volta na Parati com a cabeça mais nos chutes a melhorar do que na aprovação da torcida.
Desconfiaria das aulas, meu pai? Talvez. Um dia antes de me matricularem, na hora do jantar, minha mãe trouxe o assunto à roda: e a escolinha, Laerte? Fiquei quieto, com os olhos arregalados e a colher de canja em suspenso, aguardando o parecer do dono do jogo. E a opinião não foi lá muito animadora. Lugar pra aprender futebol, disse ele, não é na escolinha. É no mundo.
No mundo, claro. E citou Sócrates e Zenons, Casagrandes e Biro-Biros, todos formados craques na faculdade dos terrões e das peladas nas ruas. Difícil discordar. Acontece que esse mundo andava longe do décimo quarto andar, onde pairava o apartamento para o qual a gente tinha se mudado. E no prédio nem quadra havia.
Minha mãe argumentava: o menino quer aprender a jogar. Mal sabia ela que assim, pretensa aliada, me fazia implícito um perninha-de-pau. Pois quem disse que eu precisava aprender a jogar? Futebol, no fundo eu sabia, não era bem uma coisa que se ensinasse – fato que, aliás, deixaria-me em apuros se alguém me perguntasse para que, afinal, eu tanto queria ir à escolinha.
Mas ninguém perguntou. E papai, com um pouco de sono, um pouco de contrariedade, acabou acatando.
A escolinha não durou muito. Não nego que a descrença do meu pai na Primeiros Passes tenha exercido algum influxo em mim. Um completo inimigo da pelota eu não era. Mas, passado uns meses, comecei a pensar que sua desconfiança tinha lá seus fundamentos. Eu me via jogando igual ou pior que antes. Não me ocorria que, à medida que eu me aprimorava no passe, no chute, no drible, também os outros melhoravam. Era como se eu olhasse pela janela, na estrada, e, vendo os outros veículos simulando inércia, não pudesse avaliar quaisquer velocidades. Restava-me, pela fresta da porta, comparar minhas habilidades medianas com o que ouvia do rádio do meu pai, cada vez que ele se debruçava sobre o aparelho para acompanhar os jogos do Corinthians: que fulaninho tinha “o dom da bola”, que beltraninho era “um talento nato”. E seja lá o que significasse nato ou dom, não parecia que esses craques tivessem frequentado escolinha de futebol.
Sem drama, sem choro. Desisti dessa incipiente carreira aos poucos, levado por um caminho arcaico de sabedoria, que é a resignação. No fim desse caminho, divisei um contorno confuso, vagamente promissor. Achei que fosse a felicidade. Era a adolescência.
Na primeira aula de educação física do primeiro ano do Ensino Médio, o professor concedeu um futebolzinho, cortesia de começo de bimestre. Meu nome eu já esperava ouvir na zona média da escalação, que, como de praxe, era feita na base do um pra lá um pra cá, conforme o gosto dos capitães de ocasião: André aqui, Ricardo ali, Thiago pra cá, Leandro pra lá, depois Henrique, Alberto, Josué, Pepê, e Johnny, e Cabeça, e Miguel e… E você, quem é? Como se chama?
O menino novo estava ali, meio sentado nas mãos, sério, de óculos – à parte. Parecia achar qualquer coisa de extraordinário nas instalações da escola, porque olhava por aí, avaliando, ressabiado, sei lá. Tanto é que tiveram que repetir: qual é o seu nome, mano?
Aí ele atinou – mas baixinho: é Bina. Como era? Que falasse mais alto. Bina, ele dizia. Mina? Tina? E meio entre risos, meio entre broncas, queriam saber o nome de verdade. Então ele meteu um sério a mais na seriedade anterior: o nome é Bina mesmo, falou?
Complicado. Fiquei pensando que o tal do Bina não punha na mesa sua melhor carta de intenções. Indispor-se assim na pré-pelada, não sei… Podia também ter inventado um apelido melhor para si, se o caso era de reinventar-se numa escola nova. Mas não. Trouxe aquele Bina sem precaução, jogado assim aos leões. Era feminino demais. Alguém lembrou também que Bina era o nome de um pega-trote. E o Bina, no esquenta para o jogo, foi logo para o centro da roda, de bobinho.
Não dá para dizer sequer que ele fosse ruim. Bina meramente não jogava. Ficava parado, no meio, operando inesperada dignidade. Talvez imaginasse esquivar o papel de bobo ao não tentar pegar a bola. Só que os moleques se adiantavam a isso e iam com a bola até ele, chutando-a de leve para rebater nas suas canelas inertes. E o Bina nada. Em seguida alguém pôs um grau a mais no pontapé. Chutavam nos joelhos, nas coxas, miravam no saco. E a coisa foi escalando num pacto tácito entre a turma. Ninguém falava, só se ouvia o raspar dos tênis no cimento e o baque seco de bola no pé, bola no Bina, bola no pé, bola no Bina. Até que alguém meteu uma bicuda que ia direto para a cara dele, se ele não tivesse rebatido com as mãos.
Não é vôlei não, protestaram. Ele não sabia jogar, o Bina? A molecada ria, ria que só. Depois, o professor dispersou o bobinho. E o André, autor da pernada, veio abraçar o novato, apertando os mamilos com súbita camaradagem: não liga não, Bina, é zueira nossa, beleza?
Durante a partida a chacota afrouxou. Bina perambulou na quadra, desentendido do jogo. É verdade que cuidou para não atrapalhar. O professor até que o estimulou. Achasse, quem sabe, que o recém-chegado perdia apetite de bola por puro acanhamento. Mas era outra coisa. Uma coisa mais solene, mais remota. Seu andar expressava menos timidez do que desprezo – por nós, pelo jogo, pela escola, por tudo. Vá entender. No fim, os derrotados só reclamaram terem jogado com um homem a menos.
Na hora da saída, no portão, vi que o Bina batia papo com o pipoqueiro. Mas sua figura não quadrava com a dos que compravam. A conversa era de outra ordem. Chegavam carros das mais diversas marcas importadas: Mercedes, BMW, Subaru, Land Rover, alguns com motoristas detrás do vidros fumê. Uma renca de pivetes ia embora na perua do tio. Quando já sobravam poucos, eu vi a figura do Bina se afastando sozinha. Ia mais malandro, mais gingado, como se a cada metro longe da escola ficasse mais dono do mundo e largasse a aura de cu de ferro que o cingia. E de repente, ao dobrar a esquina, sumiu.
Vam’bora, ouvi a voz da minha mãe, saindo de dentro da escola. E fomos embora.
Quando me vem a recordação dos regressos para casa na Parati da minha mãe, tenho a impressão de que é uma colagem de mil fragmentos, cada qual pertencente a um dos incontáveis dias letivos em que frequentei o Colégio Tiradentes. O semáforo vermelho na esquina da Ernesto Almeida Filho com a Barão de Cajati deve ser imagem de uma tarde de agosto de 2004. Minha mãe, protocolar e amorosa, perguntando como tinha sido a aula de matemática, é talvez lembrança de uma certa quinta-feira do verão de 2000. E o fim do trajeto, com o portão xadrez do prédio abrindo lentamente enquanto os pedestres passam em frente ao carro enfiado na calçada, é na certa a estampa de um atardecer específico e caloroso do ano 2001.
A essa reunião de memórias eu dou o nome precário de recordação. Foi assim, eu digo a mim mesmo, talvez porque não tolere o fato de que, no fim das contas, não tenho como reconstituir sequer uma dessas viagens em sua inteireza. À distância dos anos, resta-me proclamar a unidade de um mosaico – e só.
De vez em quando, porém, penso que na verdade terei apagado da memória todas as vezes em que voltei da escola com minha mãe, exceto uma, que é a que recordo com afinco e à qual atribuo ares de reiteração. Eu pego então esse único dia lembrado, o multiplico e o dissemino ao longo da adolescência. Era assim, eu declaro, como se um único dia pudesse dar conta do que é um hábito, uma época, uma vida.
E o que eu posso fazer se, no fim, a vida é mesmo feita de momentos? Naquele primeiro dia de aula de 2003, quando o semáforo da Barão ficou verde, minha mãe me perguntou se a volta à escola tinha sido boa. Na certa me rodeei de generalidades. Grunhi, menti, depois silenciei. Mas, mais adiante, alguma coisa me incitou à prosa com mamãe. Falei – e, na puberdade, qualquer fala equivale a confissão.
Entrou um moleque novo, eu disse. Não sei por que eu disse isso. Falei por falar. Não havia nada que pudesse contar. Eu tinha tomado parte no bobinho, sim, mas sem ênfase, e com gozo diluído na coletividade. Talvez, da boca pra fora, eu só quisesse tornar a coisa mais trivial. Só que, no que eu mencionei o moleque novo, também veio à tona um interesse pela novidade. Não da minha parte, é claro, mas da minha mãe. E esse moleque novo, disse ela, parece legal?
Não sabia. Pergunta odiosa, de resto. Ele tinha uma coisa muito cheia de si, muito metida. Era disso que eu lembrava, junto com a cena das boladas rebatendo no seu corpo. E isso não correspondia com a minha ideia de simpatia.
Sei lá se ele é legal, mãe, eu falei. Ela disse que eu não precisava ficar bravo. Ora, eu não estava bravo. Só não tinha como saber se ele era gente boa ou não. Mas eu não perguntei se ele era legal, ela disse depois, perguntei se ele parecia legal. Eu não conheço o Bina, eu disse, não sei o que ele parece. E tem vontade de conhecer?, ela disse.
Evidentemente minha mãe não entendia muito de amizades. Ou pelo menos tinha uma ideia delas muito, sei lá, a céu aberto. Se eu queria conhecer o Bina? Não era bem assim que funcionava. A gente simplesmente conhecia, depois pensava a respeito. Ou não pensava. Ou não conhecia. E o que me surpreendeu é que quem parecia conhecer algo dele era a mulher ao meu lado, no volante da Parati. Bina… Bina… Bina…, rastreava ela a memória, esse não é o filho da Dona Ana?
Talvez fosse – se eu soubesse quem era Dona Ana. O carro foi reduzindo a velocidade até subir a guia rebaixada e parar, em frente ao portão xadrez do prédio. Não quis dar corda para as conversas da minha mãe. Ana, Bina, moleque, bolada – besteira. Tudo besteira.
Depois o portão foi se abrindo, deslizando devagar, como se a vida preparasse alguma coisa secreta detrás do escuro futuro.
Que nada. Depois do portão era apenas a mesma garagem de sempre.
No segundo dia de aula, eu entrei na sala e ele estava lá. Sozinho – não por solidão, mas porque ninguém tinha mesmo chegado. Até aquele dia esse momento era meu exclusivo. Eu chegava mais cedo que todo mundo porque minha mãe tinha que entrar no Tiradentes antes dos alunos. A gente se despedia no pátio de entrada e ela ia em direção à biblioteca, enquanto eu largava minhas coisas numa carteira encostada na parede da sala e ficava perambulando por meia hora, até que os colegas fossem chegando, um a um. Quando eu vi o Bina na sala, não sei bem como, eu soube que dali em diante isso seria diferente. Bina tinha se encostado ali na região onde eu costumava sentar. Quando entrei, não disse nada. Nem desdisse: ficou olhando, apenas, não sabia se para mim ou para o nada. Eu não podia, para mim mesmo, ir sentar do outro lado da sala. Então apenas fui. E quando cheguei perto dele, aquela presença ali, parada, me obrigou a um cumprimento. E aí, beleza?, eu falei, e ofereci a mão.
Nisso produziu-se uma grande confusão. Era costume entre a gente, na saudação, dar um tapa e depois um soco. Acho que ninguém tinha informado o Bina a respeito disso. Ele tentou apertar minha mão, como faziam os mais velhos, mas eu já tinha recuado o braço para dar o protocolar soco de arremate. Ficamos enganchados um ao outro, eu puxando o braço para trás e o Bina querendo balançar minha mão. Isso deve ter durado menos de dois segundos, mas se estendeu num mar de constrangimento, que só cabia transbordar no riso. Não sei quem riu primeiro. Ele, eu acho. Do rosto de Bina lembro de um sorriso com a metade esquerda da boca, sem mostrar dentes, contido, sincero. Parecia que ele, sem que eu pedisse, me oferecia alguma coisa, e eu aceitava. Mas não era coisa de se falar. Tanto é que em seguida eu fui embora da sala, fiquei vagando no pátio, e quando entrei de volta na sala já havia um monte de gente, com quem fiquei conversando até o começo da aula. E não nos olhamos mais aquele dia.
Durante os dias seguintes a cena se repetiu, com pequenas variações e uma progressão gradual daquilo que, com algum esforço, poderia chamar de intimidade. Achei que Bina logo incorporaria o cumprimento usual na escola. Nada disso: cada vez que eu entrava na sala de aula e lhe estendia o braço, ele continha minha mão com a força inesperada da sua, determinado a impedir o onipresente tapa-e-soquinho. Nos primeiros dias eu resisti. Tentei impor a saudação ao novato, sob a justificativa de que quem deveria se adaptar era ele. Depois, frente a sua tenacidade silenciosa, da qual ele talvez nem se desse conta, cedi.
Achei que isso seria um problema, por sinal bastante difícil de explicar, se acaso os demais nos vissem nos cumprimentando desse modo ultrapassado. Mas isso não tinha como acontecer. É que toda a primeira etapa da nossa amizade se restringiu a cerca de vinte minutos diários, entre minha entrada na sala e os primeiros indícios de que os demais colegas estariam chegando, durante os quais eu e Bina conversávamos, sentados quase sempre nas mesmas carteiras. Foi ali que eu lhe contei que chegava mais cedo porque vinha com minha mãe, que era bibliotecária no Tiradentes. Foi ali que o emprego da minha mãe explicou a minha condição de bolsista. Foi ali, por fim, que ele deu a entender não só que também era bolsista, mas também que me superava, invertendo a hierarquia invisível na qual, até então, eu me julgava o último colocado: era bolsista integral. Depois, quando o burburinho lá fora anunciava a turma, eu inventava uma sede, uma vontade de mijar, um calor qualquer, e saía da sala antes que me vissem de papo com o Bina.
Durante o dia eu agia como se não o conhecesse, transitando na massa média da sociabilidade escolar. Isso poderia ser algum tipo de crueldade da minha parte. Sim – caso o Bina não me tratasse exatamente da mesma maneira. É verdade que ele tratava todo mundo como se não conhecesse. Ou mais: como se sequer existissem. Mas eu, bem, eu sabia que ele considerava minha existência, e talvez até mesmo o fato de me ignorar durante o dia era prova disso. No fundo eu achava uma generosidade da sua parte não divulgar por aí que mantinha comigo uma espécie, ainda que particular, de amizade. E também, não posso negar, algum tipo de prazer eu obtinha em cultivar, no meio de uma turma tão ruidosa e eventualmente hostil, uma amizade secreta com o novato Bina.
De que, exatamente, eu me incriminaria se os Andrés, os Ricardos, as Júlias e as Janaínas ficassem sabendo que eu me tornava amigo do Bina? Talvez ninguém contestasse se logo de cara eu assumisse isso. Mas, passado um tempo, por sinal curtíssimo, justamente o aspecto sigiloso da coisa se tornou o problema. O único problema, na verdade – ou pelo menos o único com uma forma mais ou menos definida. Depois do acontecido na primeira aula de educação física, ninguém nunca mais destratou o Bina. O episódio, assim isolado, tomou ares de rito de passagem. É verdade que logo depois disso, e sem causalidade aparente, a coordenadora Marli, mulher de seus 45 anos, sempre elegante e dona das palavras, passou por cada uma das salas nos recordando do acolhedor programa de bolsas que o Tiradentes oferecia a estudantes de desempenho exemplar e familiares de funcionários. Na nossa sala, fez questão de pedir a todos uma boa recepção ao novo bolsista da classe, filho de uma querida colaboradora da área de organização e higiene predial. Algumas cabeças se viraram em direção ao Bina quando ela o apontou com um brevíssimo gesto de braço, com a palma voltada para cima, talvez nem mesmo lhe dirigindo o olhar, para não expor o menino em demasia. E, depois disso, ninguém mais mexeu com o Bina.
Seria preferível, contudo, que alguém mexesse um pouquinho? É verdade que o Bina não colaborava. Ao longo dos meses ficou claro que da parte dele não haveria nenhum esforço para se integrar de uma maneira mais amistosa. Sequer havia uma ignorância ostensiva por parte da turma, o que seria, talvez, uma justificativa maior para seu esnobismo. Se um lápis caía perto de sua carteira, ninguém se privava de pedir que ele o recolhesse, nem deixava de agradecer quando o devolvia. Quando éramos obrigados a formar grupos, alguma menina convidava o Bina para fazer parte. Ele aceitava sem qualquer entusiasmo, mas também sem resistência, como se não tivesse alternativa, um pouco dando a entender que, no fim, a menina fazia o convite por compromisso sei lá com o que: valores, moral, culpa, pena, cordialidade. E o pior é que talvez ele tivesse razão.
Não era de se espantar, nesse cenário, que o Bina não colocasse a perder a única chance de amizade que existia ali, mesmo que ela fosse restrita a vinte minutos diários. Um pouco de mim era tudo o que ele tinha. Por outro lado, se ele se importava tão pouco com a opinião e a companhia dos outros, poderia dispensar a minha presença sem nenhum prejuízo para si. Mas não dispensava. Isso significava algo. Cada manhã que eu chegava ele me dedicava um tanto de si que, por ser tão exíguo na oferta ao mundo, ainda que pouco se recobrava de grande valor. A intransigência no cumprimento de mão era quase um presente. O sorriso, meio sorriso que fosse, sem dentes à mostra, era quase uma dádiva, vindo de alguém tão seletivo. E o que ele dizia, bom, nem sempre eu entendia, mas dava na cara que ele era uma pessoa de inteligência acima da média. E ao sugerir que eu tinha condições de entendê-lo, simplesmente me dirigindo a palavra, elogiava-me também, de rebote.
O que ele dizia, eu lembro, era de uma inteligência raivosa. Há quem fique burro por conta do ódio. No caso do Bina era o contrário. O programa de bolsas do Tiradentes, por exemplo, só existia porque a Madame Marli tinha cagaço de que roubassem a bolsa dela. E bancar estudo de filho de faxineira era só pra ficar bem na fita antes de demitirem todo mundo e meterem uma terceirizada. Talvez fosse paranoia, ingratidão. Mas o Bina ia daí pra cima e pra baixo, costurando histórias da quebrada dele lá de Campinas, de onde tinha vindo, com a marca do tênis do Ricardo, o couro do Audi preto do pai do André, os deputados, os juízes, os F-14 da Força Aérea Americana e o escambau. O Bina, não sei por quais meios, parecia conhecer o mundo – e, do mundo, não sobrava pra ninguém.
Não deveria sobrar pra mim também. Talvez sobre mim ele fizesse vista grossa, não sei. Ou quem sabe, menos provável, se iludisse sobre minha condição. Sei que nisso eu o trazia para perto. Amenizava. Falava de futebol, videogame, mulher gostosa. E comecei a levá-lo pra casa.
Fiz a maior propaganda do Winning Eleven para o Bina. Batata: no primeiro dia em que ele foi pra minha casa a gente passou a tarde inteira vidrado na frente da televisão. Como eu não tinha irmãos, até então só jogava contra a máquina. Vez ou outra algum amigo tinha ido em casa para jogar, mas nunca houve continuidade na disputa. Já entre eu o Bina, em poucas semanas a jogatina se transformou numa religião.
Ele tinha vocação para a rivalidade, no melhor e no pior sentido. Sem nunca ter jogado antes, logo foi pegando a manha e se igualando a mim. Mas a verdade é que nunca chegou a me superar. Ganhava algumas partidas, mas minha supremacia se mantinha. Isso o irritava. Como o videogame era meu e ele sempre estava lá na condição de convidado, sua irritação nunca alcançava a ofensa declarada. Quando muito, dava bandeira em algumas falas. Cê é muito noia, ele dizia. Viciado pra caralho, hein, resmungava, com uma risada irônica, quase cínica, como se a compulsão atenuasse o mérito da minha vitória. Insinuava também que a sorte pendia para o meu lado. O mais longe que ele podia ir nessas alfinetadas era dando entender que eu só jogava melhor porque tinha o game em casa. Jogando o bagulho o dia inteiro, ele falava, até eu. Aludia a uns conluios impossíveis. Nas disputas de bola, parecia que o videogame facilitava pra mim, que era o dono. Vou pedir pra Dona Ana me arrumar um Playstation, ele falava, quero ver o sacode que ela me dá.
A gente também jogava no cooperativo, nós dois contra a máquina. Era Copa do Mundo, Champions League, Campeonato Brasileiro. Mais tarde, numa versão que o Bina arrumou na 25 de Março, a gente fazia uma mistureba desses campeonatos, cortesia utópica que só o bom e velho piratão concedia. Nessa versão, que era a que a gente mais jogava, o Bina teimava em que a gente jogasse com a Ponte Preta, que era o time dele lá em Campinas. Em São Paulo ele tinha inclinações naturais pelo Corinthians, mas o coração batia forte mesmo pela Ponte. Eu achava engraçado, mas tinha algo de emocionante ver o time de Campinas, que nunca ganhava campeonato algum, no alto da tabela sob o nosso comando compartilhado. Era nós contra os grandes, e nisso a bronca do Bina ficava amenizada e havia espaço para outras coisas.
O Winning Eleven era japonês. A gente achava a coisa mais realista do mundo. Muito perfeito esse jogo, era assim que a gente falava. Mas sentíamos falta da narração em português. Sem a voz que contava os lances, o jogo acontecia – mas acontecia menos. O que inventamos de fazer foi desativar a opção de narração e ficar só com o som da torcida. O som cru da massa virtual, sem o japonês narrador, me lembrou a primeira vez que eu vi um jogo no estádio. Era aí que eu entrava. Com o joystick na mão, eu e o Bina de parceiros, era Ponte Preta contra Real Madrid, Ponte Preta contra Milan, Ponte Preta contra Brasil de 70. E eu narrando. Narrava sem parar, horas a fio. E o Bina reforçava aquilo, que de repente se tornou um pré-requisito da diversão. Se eu parasse durante um minuto ele dava umas olhadinhas de lado, cobrando-me a palavra. Eu logo retomava, e nisso fui aprimorando as expressões. Citava bordões do Galvão, do Silvério, do Silvio Luiz. Aprendi a prolongar a vogal do gol e fazê-lo, assim, mais belo, mais gol. E às vezes, tanta era a atenção que eu dedicava ao relato que até me esquecia do principal, que era jogar.
Depois de um tempo, porém, alguma coisa já não satisfazia. Não do jogo, que ainda teria vida longa entre a gente, mas da minha técnica narrativa. Por mais que eu me aprimorasse na imitação dos timbres, na malandragem prosódica futebolística, algo se mantinha sempre diferente daquilo que eu encontrava nos narradores da televisão. Ao contrário da realidade, no nosso jogo tudo parecia estar sempre no topo da tensão, na iminência do gol. Minha narração tinha que responder a isso que o game nos impunha. Mas eu queria mesmo era que a narração fosse realista. Então tive a ideia de mudar a duração dos jogos. Em vez de cinco minutos cada tempo, como era o normal do joguinho, mudei para 45 minutos. Jogo real, eu queria.
Não vai dar certo, o Bina cantou a bola. E não deu outra. A primeira partida que fizemos nesses moldes, e provavelmente a única, ia já pelo placar de 14 x 9 quando percebi o problema. O Bina só achou graça. Mano, ele dizia, o videogame é muito mais rápido. Os caras fazem de um jeito para que saia tipo 2 x 1, 3 x 2, 2 x 0, tudo isso em dez minutos de jogo. E em dez minutos de jogo de verdade tá quase sempre 0 x 0, sacou?
Sim, eu sacava. Não sacava como, ainda assim, o jogo era tão perfeito. O que havia de diferente? O que era de fato mais rápido? De qualquer forma, nessa ida e vinda eu dei um passo a mais na narração. Voltamos ao jogo de cinco minutos cada tempo, e eu aprendi a enrolar. Aprendi a preencher o tempo com silêncios, volteios, anúncios de verniz automotivo e perguntas ao repórter de campo, que eu mesmo respondia com voz anasalada. E para isso tinha que ignorar lances dos mais perigosos. Que se dane. Deixava rolar. Narrar, no fundo, era menos contar lance por lance do que flutuar num presente cheio de vazios e oscilações. Só precisava estar sempre alerta para agarrar-me à sucessão vertiginosa do jogo quando ele se precipitasse em direção à pequena área.
Às vezes passava da hora e o Bina era obrigado a dormir lá em casa. Quer dizer, ele meio que me obrigava a recebê-lo. Isso, por sinal, fazia a alegria dos meus pais. Lembro que desde a primeira noite o adoraram. Minha mãe foi logo anunciando ao meu pai que ele era filho da Dona Ana, faxineira da escola. Lá em casa isso teve o efeito de anunciar uma ascendência principesca. Eu tive receio de que o Bina ficasse incomodado de ter sua origem assim devassada. Achei que ele pudesse agir com meus pais como agia com os colegas da escola. Mas esse temor não durou nem um minuto. Ele foi logo falando. Meus pais não cabiam em si de tanta indiscrição. Começaram aos poucos. Perguntaram como ele tinha conseguido a bolsa no Tiradentes. O Bina falou que tinha feito prova na escola por três anos, desde que a Dona Ana trabalhava lá, mas que só no último ano tinha passado. Meu pai já exibiu indignação, falando que o mínimo que a escola devia fazer era dar a bolsa logo de cara. Era integral?, ele quis saber. Sim, era integral. Pelo menos isso, falou meu pai. Depois foi avançando. Queria saber de onde ele era. Queria saber como era a favela em que ele tinha crescido. Queria saber se ele não achava ruim ser filho da faxineira no meio de tanta gente rica. E o Bina foi respondendo com a maior naturalidade. Parecia uma celebridade que respondia a uma entrevista pro Jô, pra Hebe Camargo. Parecia que tinha se preparado para aquilo durante toda a vida, sei lá. De onde vinha, naquele garoto até então discreto, quase invisível, essa fome por holofotes?
Durante uma noite a conversa tomou outros rumos. Mas talvez não fossem exatamente outros rumos, apenas uma derivação das conversas anteriores. O assunto deve ter começado com algum escândalo dos jornais. Depois se enveredou para as questões eleitorais. Meu pai começou a explicar como uma coisa tinha a ver com a outra, e que tudo tinha a ver com os banqueiros. Daí fomos parar na Revolução Francesa, nos jacobinos, nas cabeças dos reis rolando guilhotina abaixo. Meu pai se empolgou, pegou uma garrafa de uísque na cômoda da sala e foi percorrendo a História. Falou da Guerra Civil Espanhola. Falou de Maio de 68. Jogava um Zapata aqui, um Che Guevara ali, um Fidel Castro. Daqui a pouco passava por Lênin, Trotsky, Malcolm X, Panteras Negras, Marighella, e por aí vai.
Quando olhei para o Bina, que já tinha aceitado duas doses de uísque que meu pai ofereceu sob protestos da minha mãe, ele estava fascinado. O Bina nunca se deixava arrebatar pelas coisas. Mas naquela noite tinha uma expressão que nunca vi se repetir, e que na certa nunca mais verei estampar o seu rosto. Era o semblante de quem recebia uma revelação, uma designação espiritual. Parecia que toda aquela raiva que ele guardava contida em si encontrava um propósito no palavreado do meu pai. Mas aquilo não o deixava inabalável como sempre, pelo contrário: quanto mais ele se encantava pelo destino revolucionário daquelas figuras, mais alguma coisa de extremamente delicado e frágil se entrevia no aspecto do Bina. À medida que meu amigo se descobria, algo nele se encobria também, como se fosse um preço a pagar pelo conhecimento das coisas.
Acho que, como eu já conhecia a tagarelice do meu pai, não entendia como alguém podia ficar deslumbrado por aquilo. E ainda mais o Bina, que eu julgava tão inteligente. O problema era eu, incapaz de captar o valor da palestrinha? Não sei. Sei, sim, que de vez em quando eu queria perguntar pro meu pai por que é que ele não ia logo pegar nas armas, em vez de ficar papagueando socialismos. Mas não falei nada. Também não queria cortar o barato de ninguém. E, no fundo, o fato de servir de intermediário entre o Bina e algo que ele parecia julgar de enorme valor me enchia de orgulho. Por conta de mim ele tocava uma coisa que talvez permanecesse para sempre longe de suas mãos, e isso me restituía alguma barganha sobre meu amigo – no mais, amplamente autossuficiente.
Mas cá entre nós, disse meu pai, aterrisando: o maior de todos esses caras só podia estar onde? Onde, me fala!, e me cutucava com o cotovelo. Depois abriu os braços e deu um enorme sorriso: no Timão, é claro. É ou não é? No Curíntia, caralho. Tô falando do Doutor Sócrates. Esse cara era foda. Fo-da. A Democracia Corinthiana, puta que o pariu, hein? De tirar o chapéu.
Aí eu me levantei da mesa, deixei o Bina com meu pai e fui escovar os dentes. E quando fechei a porta do quarto para dormir, exausto, o papo já tinha chegado em Muhammad Ali.
Um dia a coisa se inverteu e eu finalmente fui para a casa do Bina. Ficamos esperando até o fim do expediente da Dona Ana e entramos na Kombi do Seu Osmar, o pipoqueiro que estava sempre na saída do Tiradentes. Aí eu fiquei sabendo que ele era compadre da Dona Ana. Tinha inclusive, pelo que entendi, arrumado o emprego para ela na escola, três anos antes. Ela e o Bina ainda moravam em Campinas nessa época, e o Osmar foi quem conseguiu casa para eles virem para São Paulo, lá na Zona Sul, perto dele. Fez uma arrumação para conseguir a mobília que faltava e tudo o mais. Fiquei ouvindo essa história da boca da Dona Ana, que ia com o pescoço virado para trás, no banco da frente, ao lado do Osmar, que ouvia o relato enfiado num silêncio orgulhoso.
Fiquei imaginando que espécie de compadrice tão dedicada era essa. Do pai do Bina nunca tinha ouvido um A. Nem um B, nem um C. Pelos meus cálculos ele devia ter se escafedido depois que deixou a Dona Ana grávida. E para falar a verdade, quando eu ouvia o título de Dona antes do nome da mãe do Bina, eu bem que imaginava uma senhorinha já entrada em anos, ou pelo menos uma mulher de seus quarenta e cinco ou cinquenta, que nem a minha mãe, que nem a coordenadora Marli. Como a escola era grande e tinha muitos funcionários, eu não tinha ligado o nome à pessoa. Mas a pessoa que ia no banco da frente da Kombi, com um sorriso bonito, uma blusa de alcinha que deixava os ombros à mostra, narrando com erres puxados as reviravoltas da vida na periferia de São Paulo, devia ter ficado grávida do Bina por volta dos dezesseis, dezessete. Quer dizer, tinha pelo menos quinze anos a menos que o Seu Osmar, que já ostentava um bigode pra lá de grisalho.
A mãe do Bina me pareceu tão simpática que eu almejei uma aliança com ela para provocar o meu amigo. Como é que você deixa, eu falei, um filho inteligente como o seu ser pontepretano?
O Bina só deu uma risadinha e olhou pela janela. Aí eu levei um chapéu. Ih, moleque, te orienta, ela falou. Ele aprendeu a gostar da Macaca foi comigo. Ô meu amor, largamos esse playboy aqui na marginal mesmo? Vivo ou morto? Encosta aí, Osmar, vamô ver se ele é grandão mesmo.
Grande eu não era. Mas naquela viagem na Kombi eu senti crescer um negócio aqui no peito, sei lá. Mistura de frio na barriga e euforia, velocidade e cagaço, tudo misturado no zigue-zague que o Seu Osmar ia fazendo com o carro, no lusco-fusco da cidade.
De repente o Bina falou: Osmar, põe aquele meu CD lá. Qual? Aquele novo lá, cê sabe. Disco dois, faixa quatro.
As palavras da música foram vindo, foram vindo. No começo nem música era, era mais um poema mesmo, só a voz. Depois entrou a base. Porra, vagabundo, vou te falar, dizia a música. E foi falando. Eu fui achando que era um papo de um cara meio com ele mesmo. Em seguida saquei que era uma conversa no telefone. A voz do lado de lá contava que não sei quem tinha falado mal do outro, e sei lá o que mais. Sei que falavam de uma coisa que eu não tinha muito por onde agarrar. Um negócio qualquer na música, na Kombi, naquele grupo improvável onde eu tinha me metido, parecia mais inteiro, mais verdade. Mas essa verdade não era minha. Era do mundo do Bina, e disso eu podia pegar só uma beiradinha, talvez.
E de repente a Dona Ana virou pro filho e falou, junto com a música: Bina, acorda, pensa no futuro, que isso é ilusão, os próprio preto não tá nem aí com isso não. O resto ela não lembrava, e ficou dando risada, até que o Bina emendou: Pô mãe não fala assim que eu nem durmo. E logo em seguida: Dinheiro é bom, quero sim, se essa é a pergunta, mas a Dona Ana fez de mim um homem e não uma puta!
Olha essa boca, menino!, ela brincava. Como é que vai falar assim no Colégio Tiradentes?, e fazia bico de dondoca.
Chegamos na casa já era de noite. O Osmar foi para a casa dele e ficamos os três zapeando qualquer coisa na tevê, enquanto ela esquentava um arroz com feijão. Comemos ao sabor da Grande Família, e antes de terminar o Bina tinha ido dormir. Fiquei ali com a mãe do meu amigo, até que o seriado acabou. Ela entrou no quarto e eu fiquei me perguntando onde é que eu ia dormir. De repente ouvi que ela me chamava para dentro do quarto.
Fui entrando na ponta dos pés. Ela estava de costas, na penumbra. Mexia em alguma coisa que eu não conseguia enxergar. De repente se virou e jogou pra cima de mim um lençol e uma mantinha, dobrados. Eu devo ter ficado parado, porque ela em seguida falou: dá aqui, deixa eu te ajudar.
Aí ela estendeu o lençol no sofá da sala e falou que eu podia deitar. Eu obedeci. Achei que já ia embora quando ela parou do meu lado e começou a contar uma história. Por um momento pensei que a Dona Ana estivesse me ninando, contando uma fábula para eu dormir. Ela começou a falar da Macaca. Você sabe por que a Ponte Preta nunca ganhou nenhum campeonato?, ela perguntou. E foi me contando que a Ponte Preta era o clube de futebol mais antigo do Brasil. Não sei se era verdade. Mas isso queria dizer que havia um sutil equilíbrio no mundo do futebol que dependia totalmente da Ponte Preta. E você sabe que o mundo inteiro depende do futebol, não sabe?, ela falou. A Ponte Preta era o time mais antigo, do país mais vitorioso do futebol. E era um time que nunca ganhava nada. Aí morava o segredo: no dia em que a Ponte for campeã, todo o futebol do mundo virá abaixo. E você sabe o que pode acontecer, se todo o futebol do mundo vier abaixo?
Depois ela me deu um beijinho na testa, desligou a luz e entrou no quarto. E eu dormi.
Você já sonhou em ser jogador?, eu perguntei um dia ao Bina. Ele não me respondeu. Ficou com a cara virada para a tela, a boca entreaberta, enquanto manipulava o joystick. Ser jogador de futebol, eu insisti, já sonhou?
O quê?, ele disse. Que sonhar o que, rapaz. Eu já sou jogador, já sou craque pra caralho. Jogo muita bola, você que não tá sabendo. Olha lá.
Eu olhei para a tela e o bonequinho do Winning Eleven tinha um nome nas costas da camiseta branca e preta: Bina. Camisa 10, é claro. E canhoto.
Não parecia nem um pouco com ele. Pra começar, o joguinho não deixava fazer jogador de óculos. Também, na escolha da pele, saltava do branquelo ao retinto sem passar pela graduação intermediária que coloria o Bina. Mas o que importava? O que valia lá era menos a semelhança do que a crença de que aquilo ali, geométrico, simplificado, era ele: Bina, camisa 10 da Ponte Preta.
Só mesmo no game. Na educação física ele permanecia igualzinho: inerte, desinteressado. Em nenhuma partida durante o recreio ele sequer fez menção de jogar. Não se envolvia. E não se envolveu com nada da festa junina que estava sendo organizada na escola. O meio do ano já tinha chegado. Durante a semana cada um tinha que participar de alguma coisa: montagem das barracas, ensaio de quadrilha, fogueira, bandeirinhas, prendas, comes e bebes, a coisa toda. A escola era enorme, ocupava o quarteirão inteiro. Dava um trabalho do cão. Nisso, até o Seu Osmar foi convocado para trabalhar, fazer uma grana extra. E foi aí que a coisa azedou.
O caso foi chegando a mim assim, devagar. Como o Bina dizia, no diz que me diz. No telefone sem fio. Primeiro ouvi falar de um celular que tinha sumido. Depois não era mais celular, mas um Game Boy novinho em folha, de um nerd do terceiro ano. Mais adiante era o Game Boy mais o celular, que daqui a pouco já tinha virado três ou quatro. Motorola, Nokia, Samsung, sei lá eu. Como é que some assim, do nada? Durante o recreio as salas ficavam trancadas, justamente para não ter problema. E os itens roubados eram todos da mesma sala. E quem é que tinha certeza de que tinha sido roubo? Vai ver essa molecada toda saiu com o celular para o recreio e perdeu as coisas. Vacilo. Vacilo grande. Mas como é que todo mundo perdia o celular junto, no mesmo dia, ninguém explicava.
Aí foram rastrear. Puxaram câmera, que a escola toda era vigiada. Mas não era toda todinha, porque pelo visto ali na sala do ocorrido tinha um ponto cego. Quem fez a rapa já devia saber disso. Então não era coisa de moleque. Até porque, diziam, os alunos do colégio eram todos de família. Que necessidade tinham de roubar celular? Devia ser coisa de gente entendida. Coisa de gente grande. E foram puxando quem é que era de fora. Naquela semana, um monte de gente de fora tinha entrado. Carregador, os caras com as ferragens das barracas, os caras do som, com um monte de cabo e alto-falante possante. Mas ninguém conhecia a escola, e não ficavam muito tempo. Tinha que ser alguém habituado com a zona.
Não lembro bem quando ouvi o nome do Seu Osmar pela primeira vez. Mas daqui a pouco o nome foi ficando mais frequente, mais pronunciado. Seu Osmar, o pipoqueiro? Pois é. Estava fazendo um extra na montagem da festa junina. Sempre achei que era para desconfiar dele, ouvi dizerem. E daqui a pouco disseram também que ele foi parar na sala do diretor, com a Marli e não sei mais quem. Que não era para gerar alarde, não iam chamar a polícia, causar o maior rebuliço. Mas se tinha sido ele, como é que tinha entrado na sala? Seu Osmar não tinha as chaves. Quem tinha acesso às chaves eram os professores, os bedéis, os seguranças. E as faxineiras.
Acho que foi na quinta-feira que eu fiquei sabendo que a Dona Ana tinha sido mandada embora. Juntaram os pontos. Ele tinha indicado ela para trabalhar lá. Sempre viam os dois indo embora juntos, na Kombi do bigodudo. Só podia ser. Mas não era, eu tinha certeza.
Mano, você acha que o Osmar ia meter o louco pra pegar meia dúzia de telefone de boy?, o Bina me falava. Cê é louco. Lá na quebrada ele conhece uma pá de ladrão de carro, uma pá de mano grande do movimento. Uma pá de polícia também, que ele é ligeiro. Os caras são muito cuzão, isso é que é. Escola do caralho, vai se fuder.
A gente saiu junto da aula na sexta-feira. Ele ia no caminho chutando tudo no caminho. Meio de relance, eu vi que ele estava com os olhos marejados. Mas vai ver foi só impressão, a deformação da luz pelas lentes dos óculos. Na quinta-feira ele não foi à escola. A Marli tinha chamado ele pra conversar. Explicou que a diretoria pensou muito no caso e decidiram que o melhor a fazer era manter o Bina na escola. Com bolsa e tudo.
Eu não falei? Eu falei, não falei?, o Bina dizia. Paga a escola pro filho da faxineira e depois manda ela embora. O bagulho é assim mesmo, ó. E a puta da Marli ainda vem de conversa fiada pra cima de mim, que meu futuro é diferente, que a faculdade é isso, que o cu dela é aquilo e o caralho.
Não sei como ele ainda teve pique para ir na festa junina. Falou pra mim que queria dar as caras lá e ver a cara de cagaço dos moleques. E foi. E eu fui junto.
Eu compartilhava a raiva do Bina. Achei aquilo uma injustiça enorme. Mas não sei bem porque o episódio me dava uma sensação de importância. Eu tinha andado no carro do Osmar, tinha dormido no sofá da Dona Ana. Talvez por isso perambulei pela festa sempre na companhia do meu amigo bolsista, vendo como olhavam ele de rabo de olho, estudando. A gente levou na mochila uma garrafa de Balalaika pela metade que fomos tomando na boínha, mocozado. O colégio era grande. O Bina foi chapando. Eu também. Eu tinha levado dinheiro e a gente jogou no tiro ao alvo, na pescaria, mandamos correio elegante pra deus e o mundo, com piroca desenhada. Eu entrei na dele. Não levamos nenhuma prenda. E uma hora, pra matar o goró, a gente foi se afastando pelo campo de futebol. Lá não tinha ninguém. Só uma luz bem fraquinha, meio avermelhada, tremeluzente, iluminava uma barraca diferente, isolada de todo o resto. A gente foi chegando perto e viu que era uma espécie de tenda. Não tinha ninguém por perto. Entramos.
Lá dentro a iluminação era ainda mais soturna, sustentada apenas por duas velas, uma sobre um painel com texto e outra, ao fundo, em cima de uma espécie de bacia de metal que fazia as vezes de poço. A bacia ficava isolada por uns arames que não deixavam que a gente chegasse muito perto. Eu me inclinei lentamente em direção ao painel para ler o texto. Acerte uma moeda dentro do poço, dizia o painel, e seu desejo será realizado.
Que viagem, eu falei, dando risada. Mas o Bina estava sério. Tem moeda aí?, ele me disse. Eu meti a mão no bolso direito e tateei um pedacinho redondo de metal. Abri a palma e era uma moeda de dez centavos. Só tem essa?, ele quis saber. Aí eu pus a mão no bolso esquerdo e tirei uma outra moeda de dez, igualzinha. Era só isso: uma chance para cada.
Bora?, ele falou. Bora. Quem vai primeiro? Fui eu. Não pensei duas vezes, achando a maior brisa louca naquele negócio: quero ser narrador, eu falei, e joguei a minha moeda.
A moeda foi rodopiando lento, lentíssimo, descrevendo um arco sublime no ar avermelhado da tenda, até começar a descer na direção perfeita do poço. Ou quase perfeita. Plim, fez a moedinha, bem na borda da bacia, repicando duas vezes antes de ir parar no chão, do lado de fora. Ainda rodopiou durante uns vinte segundos antes de se estatelar, que nem um corpo morto.
É… Já era o meu sonho, eu falei, e caí na gargalhada. Depois olhei pro Bina. Parecia que toda a bebida tinha evaporado dele. Ele tirou os óculos, fechou os olhos por uns cinco segundos. Depois abriu. Eu olhei a moedinha apoiada no indicador, com a unha do polegar pronta para dar o tiro certeiro.
Então ele falou: eu quero ser o maior do mundo.
O maior revolucionário do mundo.
E jogou a moeda.
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