EntreContos

Detox Literário.

O Maníaco do Celular (Andrey Morgado)

 

“Manda nudes?”, ela leu em letras pretas em fundo verde e pronto, lá se vão todas aquelas semanas flertando com ele. Por que tinha que ser assim? Por que os homens eram tão influenciados por essa masculinidade agressiva que precisavam desesperadamente pensar em sexo?

Ela não era do tipo puritano, que só transava em troca de um anel, mas pelo amor, não dava pra ser mais sutil?

O celular vibrou e ela leu a resposta.

“Assim eu me apaixono”, ele disse e em seguida enviou a foto de um membro enorme.

A primeira coisa que passou na sua cabeça foi, “esse não é o pinto dele”.

A segunda é que tinha algo errado. Revisou a conversa e descobriu que o pedido das fotos veio dela.

“Hackearam meu celular”, ela se desesperou.

Com o corpo tremendo, rolou a tela de conversas e encontrou uma série de bundas, pintos e peitorais masculinos em fotos que foram enviadas a seu pedido. Alguém estava se passando por ela.

Abriu uma conversa com o pai e encontrou suas últimas palavras: “manda foto do pinto”.

Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa…

Deixou o celular cair no chão, sentia o corpo mergulhar em desespero, o mundo começou a girar. Sua cabeça explodia em flashs do pai lendo a mensagem. Ele nervoso, tentava decidir se contava para a mãe.

Sentiu o estômago revirar. Sua musculatura abdominal se contraiu violentamente enquanto o conteúdo do seu estomago se encaminhava para a boca. Ela tremia como se estivesse em convulsão.

Não conseguiu ficar em pé, os joelhos caíram fazendo um som forte. O jorro bateu no chão do quarto e respingou em seu rosto.

Ela gritou outra vez, cuspindo vômito e lágrimas.

Se assustou com uma música horripilante.

Era seu celular tocando. Alguém tinha mudado seu toque. Não conseguiu enxergar quem ligava, tudo estava embaçado. E a voz que gritava a deixava enlouquecida, parecia um ganso sendo assassinado.

Antes de sair de casa, ela é toda diferente
Sentiu algo bater contra sua cabeça. A têmpora superior afundou.

A saia vai no joelho, tipo como? tipo crente
Um golpe forte atingiu seu nariz que entrou no rosto.

E quando chega no baile, dá aquela levantada
O sangue escorria enquanto os golpes se sucediam um após o outro, fazendo seu cérebro escorrer em uma massa cinza avermelhada parecida com gelatina.

Olha só como essa mina é

Seu corpo tremia a cada golpe dado a dilacerando completamente.

Que safada.. Que safada..

Parou.

Fazer hora extra na madrugada é uma merda. Não tem ninguém pra fazer café e o meu é horrível. Ou coloco pó demais ou água demais e o resultado é um líquido intragável.

O jeito é apelar pro redbull. Dizem que um ser humano só pode consumir 2,5 miligramas de cafeína por quilo de peso, se uma latinha de redbull tem 80 miligramas posso consumir no máximo três. Acabei de abrir a quarta.

A cafeína ajuda o sistema nervoso a liberar adrenalina e noradrenalina, dois sujeitinhos simpáticos que aumentam a frequência cardíaca e diminuem os vasos sanguíneos. Junta-se a isso o meu sedentarismo e me dou mais uns dez anos de vida. No máximo.

Dou mais um gole no redbull e olho a pilha de arquivos na mesa, tem outro monte no chão. Trabalhar em um órgão que só tem três peritos é foda. Ainda mais quando um deles está doente e o outro de férias. Aí sobra para o seu camaradinha aqui trabalhar feito um jumento. Que delícia.

Pego a pasta que o detetive Arnaldo me entregou. Um caso urgente, ele fez questão de dizer. Só que todos os casos são urgentes. Passo o olho na ficha. Garota de vinte anos brutalmente assassinada. Famosa. Nunca nem vi. A linha seguinte complementa ‘de instagram’. Ah tá.

O telefone está praticamente destruído. Ainda posso ver os vestígios do corpo grudado. Que nojo, ele trouxe o telefone direto pra cá, disse que a solução do caso dependia da minha perícia. Provavelmente o criminoso destruiu o aparelho para ocultar pistas, ou uma merda assim. Ele a matou com o celular, o que indica um possível crime passional.

O detetive Arnaldo não devia ter dito isso. Vai afetar o meu juízo de valor, influenciar minhas opiniões ou pensamentos sobre o caso e me levar a conclusões construídas a partir de análises sem fundamentos, prejudicando a busca pela verdade. Blábláblá.

Coloco a mão no rosto esfregando os olhos. Pequenas manchas púrpuras dançam para mim. Eu devia pedir demissão. Trabalhar em uma empresa particular como consultor, ganhar muito dinheiro e gastar tudo na praia, bebendo drinques refrescantes e admirando as gatinhas de biquíni.

Suspiro.

Meu telefone toca e dou um pulo. Atendo e uma voz chiada começa a gritar.

“Com toda essa interferência no laboratório só um milagre pra essa ligação funcionar”, falo tranquilamente antes de desligar.

O telefone toca outra vez. Provavelmente é o idiota do detetive Arnaldo cobrando a perícia.

“Liga pro telefone fixo”.

Agora é o telefone da vítima que vibra. Coloco as luvas e meu coração parece um bumbo leguero em sete de setembro. Tiro o aparelho com cuidado do saco plástico. Procuro o cabo lightning, se a garota não usava senha talvez…

Sou interrompido outra vez pelo meu celular. Puta que pariu detetive Arnaldo, meu coração vai explodir.

Levanto pra desligar e meu olho esquerdo escurece. Tontura, fraqueza, visão embaçada e coração acelerado, sinais clássicos de queda de pressão. Merda de redbull, preciso mudar minha qualidade de vida.

Dou um passo à frente, mas meu corpo falha, sinto que vou desmaiar. Só dormi quatro horas hoje e agora alcancei meu limite. Espero que não seja infarto.

Esfrego meu olho tentando fazê-lo funcionar, dói muito. A minha mão volta coberta de sangue.

Procuro meu reflexo na tela de um computador desligado. Encaro essa massa disforme, um tumor onde um dia já foi meu olho.

Começo a rir. Alucinações induzidas por cafeína. Minha cabeça continua a me golpear, meu corpo já não aguenta mais, preciso dormir.

Ao longe escuto meu celular tocar outra vez, vá se foder detetive Arnaldo, vou só dormir uns quinze minutos.

Melhor trinta.

O detetive Arnaldo olhou para o corpo do perito com mais certeza de estar certo. O assassino tinha deixado sua identidade no celular da garota. Claro, que outro motivo para ele ter se arriscado ali?

A segurança pública é uma piada. Como em um país decente ele conseguiria entrar numa instalação policial e assassinar um dos seus membros?

Ele zomba de nós, pensou agachado enquanto olhava triste o crânio esmigalhado do perito.

Já podia ver a imprensa batizá-lo de Maníaco do Celular ou alguma merda assim. Maníaco do Smartphone não soava bem.

O lugar estava estranhamente vazio, ainda mais para uma instalação que tinha acabado de ser violada e tido um de seus funcionários brutalmente assassinado. Recebeu a ligação pouco mais das quatro da manhã e correu, encontrou apenas o segurança e mais dois policiais por ali, mas estes já tinham ido embora.

Praguejou.

Seu telefone tocou, atendeu uma voz chiada, cheia de eco, parecia uma garota chamando pelo seu nome.

Desligou e engoliu a seco. O local era cabuloso. Lâmpadas florescentes, paredes descascadas, azulejos amarelados. Não havia nenhuma janela para ventilar e o ar condicionado parecia estar reciclando o mesmo ar desde mil novecentos e setenta.

Lembrou da garota assassinada e imaginou ouvir sua voz.

Deu um pulo com o celular tocando novamente. No visor leu número privado. Colocou no viva voz.

— Alô? — disse ressabiado e ouviu um barulho estranho, um som agudo, estridente, que aumentava e diminuía de tom rapidamente.

Desligou o celular, sentia algo de errado por ali.

Instintivamente colocou a mão na arma. Seu coração batia mais forte.

O celular tocou outra vez. Ele olhou para o visor e leu. Perito CPC. O sujeito que ele tinha acabado de pisar no cérebro.

No susto deixou o telefone cair. Puxou a arma e apontou para o corredor vazio. As luzes resolveram piscar para dar mais dramaticidade.

Avançar ou esperar reforço?

Era sua chance de por um fim naquilo, de pegar o assassino de vez.

Correu até a sala onde estava o corpo do perito, mas nada. Tudo estava na mesma. Se aproximou do corpo e olhou mais uma vez o telefone espatifado.

O assassino deve ter clonado. Provavelmente alguém com conhecimento de telefonia.

Voltou pelo corredor, guardando a arma no coldre. Levantou os olhos e viu no final do corredor. Ele estava parado, com um ar de desafio.

— Cecete alado — alguém tinha deixado seu telefone perfeitamente em pé no chão.

Permaneceu paralisado sem saber como prosseguir. Estavam brincando com ele, sabia que o assassino observava sua reação. Teria feito isso com todas as vítimas?

Se aproximou com a mão na arma, atenção para todos os lados. Juntou o celular e automaticamente a tela acendeu. Viu um homem com roupas laranja, ele usava um capuz na cabeça.

Alguém retirou o capuz revelando o rosto de um homem apático com o olhar de quem tinha abandonado a esperança e aceitado que tudo tinha acabado.

O detetive Arnaldo achou que o homem parecia muito com ele.

O facão atravessou o pescoço e o sangue jorrou na câmera. O grito saiu pelo buraco, um ganido abafado e melancólico.

— Puta queo pariu — o detetive sentiu os pelos da nuca se eriçarem e soltou o telefone. Virou-se pressionando insistentemente o gatilho, as balas atravessaram o corredor vazio e explodiram no azulejo da parede. O grito tinha se transformado em um cântico gutural, o ar saia pela traqueia exposta enquanto a cabeça estava presa por um pedaço de músculo.

Pegou o celular apertando o botão home, mas o aparelho não respondia, o corpo agora separado da cabeça dava seus últimos movimentos. Perturbado o atirou para longe.

Todos os telefones começaram a tocar ao mesmo tempo, o barulho o desorientou e por pouco não foi atingido, o golpe passou raspando o seu ouvido.

Ele se jogou no chão procurando um alvo. Os telefones pararam.

Agora o único som que ouvia era seu ouvindo zumbir. Levantou-se com a arma da mão, mas não viu ninguém.

“Aonde está?”, pensou e foi surpreendido. Ouviu uma voz mecânica, feminina, que falava pausadamente.

— De-te-tive Ar-nal-do. Vim-por-vo-cê.

O golpe lhe atingiu o peito. Por pouco não lhe quebrou a costela. Se enfiou embaixo de uma mesa e viu seu celular atingir o chão. Aquele desgraçado era bem resistente.

O celular se levantou, e se jogou sem força no braço de Arnaldo.

— Porra — ele agarrou o telefone que se agitava como um bicho feroz.

Ele lutava bravamente, seus braços se chocavam contra a mesa, conseguiu jogar o aparelho para longe. O celular vinha se arrastando rapidamente até ele. Arnaldo atirou e a bala espatifou o telefone.

— Caralho! Caralho! Caralho!!! — ele tremia copiosamente, seu corpo dolorido. Repensava se realmente não tinha quebrado nada.

O segurança apareceu desesperado de arma na mão.

— O que foi isso?

O segurança foi até Arnaldo e o ajudou a se levantar.

— Você não vai acreditar na merda em que…

— Só um minuto — interrompeu o segurança — tem alguém me ligando.

Arnaldo se virou a tempo de ver o telefone explodir. Um pedaço de plástico cortante atravessou seu olho, destruindo tudo até chegar no cérebro o matando em um instante.

O segurança não teve tanta sorte. Uma peça se ajolou no pescoço rompendo uma artéria, gritou até perder o suficiente de sangue para não conseguir fazer mais nada.

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Informação

Publicado em 1 de maio de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 2, Série C3.