EntreContos

Detox Literário.

O Homem de Preto (An Johann)

 

Aos dezoito anos Thomas estava sentado em uma estreita cadeira de madeira fixada no chão, preso por correntes com argolas de ferro que envolviam seus tornozelos e punhos. Seus olhos inquietos procuram por algo. Um após o outro os três ferrolhos da pequena sala deslizam arranhando nas trancas do lado de fora da porta reforçada, que se abre lentamente. Entram o delegado e o promotor, que se acomodam do lado oposto do preso, o escrivão, que se senta diante da escrivaninha junto da parede e um policial que permanece de pé empunhando a sua arma perto da porta. Não era quem Thomas procurava e continuou movendo os olhos de um canto para o outro. 

O delegado colocou uma pilha de pastas sobre a mesa e deu início ao interrogatório lendo em voz alta alguns laudos periciais.

“Com a utilização das técnicas atualmente disponíveis neste laboratório, foi realizada a pesquisa toxicológica acima especificada, tendo sido detectada a presença da espécie AS (3+) inorgânica de arsênio em todos os corpos. Os exames nos levam a concluir que as mortes ocorreram em decorrência de insuficiências metabólicas e falências múltiplas de órgãos.”

Thomas nada disse e os ignorou. Em seguida o delegado retirou de uma pasta algumas fotografias e colocou-as diante dele, que sem mover a cabeça apenas direcionou o seu olhar para as imagens. Eram cadáveres contorcidos rodeados por sangue no chão de uma taberna em desordem indescritível.

Thomas passara a ser o principal suspeito de crimes similares. Barris de cerveja e vinho envenenados em tabernas baratas. O assassino não possuía pressa. Esperava os clientes se embriagarem, quebrarem os copos, brigarem entre si e deitarem em um canto ao ponto de não conseguirem levantar a cabeça de tão bêbados. Parecia ser esse o momento de agir e introduzir quantidades letais de arsênio nas bebidas. Aos poucos o mal estar transformava-se em gritos e desespero, deixando todo o lugar tomado pelo pânico. As vítimas vomitavam primeiro o que tinham bebido e comido. Rapidamente os tecidos e vasos internos do corpo se rompiam e o sangue surgia depois através de fluxos incontroláveis. Os mais embriagados eram os mais vulneráveis, imersos na confusão do álcool, na falência da respiração, do coração, dos órgãos, aprisionados no próprio corpo, sem saber que direção tomar, a quem recorrer. Alguns eram levados com vida para o hospital e viviam dias sanguinolentos de verdadeiro horror.

– Foram seis mortes no local – prosseguiu o delegado ajustando os óculos – e três hospitalizados em estado grave. Concluiu.

Uma fotografia prendeu a atenção de Thomas e por mais que tentou não conseguiu desviar os olhos dela. Os pelos de seu corpo se arrepiaram. Naquele instante sentiu pousar sobre seu ombro as mãos negras de quem ele estava a procurar na sala. As autoridades não podiam vê-lo, mas sentiram a atmosfera ficar pesada. Thomas voltou-se para a fotografia. Na imagem uma das vítimas que fez, o corpo rígido de uma mulher que deixou marcado em sua face o sofrimento nos instantes finais da vida, como o rosto de sua mãe.

Era uma tarde de terça-feira quando Thomas, aos doze anos de idade, saiu de casa em direção de um lago da região para onde costumava fugir. Entrou em uma canoa velha esquecida na margem, como fez inúmeras vezes. Carregava dessa vez uma pedra pesada e um cordão. Chorava muito porque ao mesmo tempo em que desejava desaparecer, ele queria viver e que tudo fosse diferente. Amarrou uma ponta do cordão no tornozelo e a outra na pedra. Depois a segurou sobre o ponto mais profundo das águas escuras do lago para se jogar. Thomas, apenas um garoto, como nunca chorou, soluçou e gritou, porque não teve coragem de se matar e sabia que isso implicaria em mais sofrimento.

Quando retornou, a poucos metros de casa, ouviu um choro fúnebre. Era de seu pai. Thomas nunca o tinha visto chorar e sentiu muito medo. Seu pai amaldiçoava tudo e agredia a todos, mas não chorava. Quando entrou em casa deparou-se com a mãe no chão, os olhos já sem vida, opacos, os cabelos bagunçados, as mãos tortas. Percebeu que ela havia sofrido bastante, porque não estava como se estivesse dormindo. É a única coisa no mundo que o comovia, lembrar-se da mãe morta, porque todas às vezes sentia pena do estado em que a encontrou, depois de tudo que sofreu. Ela havia ingerido veneno. Thomas sentiu-se só, sem chão, sem mundo mais uma vez.

Seu pai estava bêbado, chorando a perda do objeto pelo qual possuía verdadeira obsessão destrutiva.

As autoridades notaram na pequena sala o assassino ser tomado totalmente pelas memórias em algum tipo de transe. 

Thomas não foi uma criança normal. Não teria como ser depois do que sofreu, recluso em sua dor, se perguntando por que aquelas coisas aconteciam com ele. A tormenta era diária e os dias lentos. Depois de tantos anos sem dormir as olheiras se transformaram em covas escuras. Thomas não dormia enquanto sua mãe não parava de chorar, depois de ser espancada pelo pai bêbado. A criança seria espancada também se interferisse. Não havia nada que um animalzinho pequeno e indefeso pudesse fazer. Thomas se encolhia no chão de seu quarto e tentava em vão abafar o som, não ouvir os soluços intermináveis de sua mãe enquanto apanhava. Ouvia também quando seu pai a estuprava e a violentava sexualmente de todas as formas. Depois a sua mãe voltava a chorar com mais dor. Tudo o atravessava como faca, dilacerando-o por dentro. Uma tortura que não parecia ter fim. Sofrimento é só o que havia naquela casa. Às vezes quando se cansava da mãe o seu pai o procurava de noite. O silêncio era pavoroso. A porta se abria devagar. A criança tapava os ouvidos, em um movimento instintivo de proteção, de medo. Mas logo o seu pai se deitava atrás dela. O cheiro forte de álcool lhe embrulhava o estômago. Certa vez teve de engolir o próprio vômito se não quisesse ser espancado outra vez. Seu pai o abraçava e dizia, com palavras tortas e maliciosas, que precisava de um abraço. Somente um abraço. Thomas chorava todas às vezes. As lágrimas desciam silenciosas, porque tinha medo de levar outro soco, de ser asfixiado, ou que seu pai o deixasse de lado para voltar a maltratar a sua mãe. Aguentava tudo sob a ameaça de que se contasse para alguém sua mãe morreria. Foi estuprado durante dois anos. Nada daquilo poderia terminar em final feliz. 

No dia em que viu a mãe morta algo de estranho aconteceu. Deixou de ser um animalzinho indefeso para se tornar uma besta funesta. Adquiriu uma consciência diferente do mundo. Foi naquele exato instante que se transformou no que estava diante das autoridades naquela sala, seis anos depois.

Thomas caminhou até a cozinha e voltou com uma faca na mão. Deu uma estocada certeira no pescoço do pai debruçado sobre a mesa. O sangue jorrou por toda parte enquanto ele agonizava. Depois Thomas pegou a garrafa de bebida do pai e derramou-a sobre ele, foi até a cozinha e voltou com uma caixa de fósforos. Em poucos minutos a casa estaria tomada pelas chamas, transformando em cinzas o seu passado. Em seu ombro o garoto sente pousar uma mão. É negra, como o resto do corpo. Thomas olha para ele sem medo. O homem usa uma capa preta com capuz que esconde totalmente o seu rosto negro. Consegue ver apenas os brancos dos olhos e dos dentes, quando sorri.

– Não tenha medo meu garoto, eu estou aqui para protegê-lo – diz o homem sem mover a boca, mostrando um sorriso.

Desde então o homem de preto o acompanha e diz o que deve fazer.

Na pequena sala, os olhos de Thomas reviram, espuma a boca e sofre uma convulsão. O interrogatório é suspenso. As provas são irrefutáveis dos crimes que cometeu e em seu julgamento é condenado à prisão perpétua. 

Tempos depois Thomas se encontra em sua cela. Pela pequena abertura da porta reforçada empurraram para dentro a refeição em uma bandeja de plástico. Praticamente dois dias sem se alimentar ele come tudo rapidamente. Sentado em sua cama ele sente um mal estar imediato e vomita. Suas entranhas se contraem. Os batimentos cardíacos  aceleram, falta-lhe o ar, a cabeça parece que vai explodir. Sente o sangue escorrer pelo nariz e pela boca. Vê se aproximando lentamente o homem de preto, que se ajoelha em sua frente, retira o capuz e lhe estende a mão. Thomas consegue ver o rosto dessa vez. Era seu pai, que o levanta.

Thomas percebe que também usa uma capa preta com capuz. Sua pele também é negra, vê que suas unhas são grandes e afiadas e as enfia no peito de seu pai, esmagando o seu coração. O sangue escuro escorre em seus braços. Seu pai agoniza, sente fúria, mas desfalece, transforma-se em cinzas. Thomas esconde o rosto negro sob o capuz e deixa sua cela atrás de alguém para proteger.

Anúncios

Sobre Fabio Baptista

E Então? O que achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Informação

Publicado em 1 de maio de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 2, Série C2.