EntreContos

Detox Literário.

Um Goblin Sonhador (Kobain)

Uma algazarra daquelas de acordar até princesa enfeitiçada tomava conta da taverna. Não era um cavaleiro recrutando guerreiros para uma aventura, nem uma jovem de cabelos esvoaçantes cantando por ajuda para realizar seu sonho. Até porque aquela taverna escondia-se no beco mais escuro do pior bairro da cidade e dificilmente belas jovens ou cavaleiros brilhantes chegariam vivos e inteiros ali. Aquele antro era frequentado apenas por criaturas que costumam povoar os pesadelos das crianças do reino.

A gritaria fora causada, na verdade, por um pequeno goblin.

— Não acredito, Kobain. — Um grande orc babão gritou. — Você, um cavaleiro?!

Todos no recinto riram e urraram muito, até mesmo aqueles bêbados demais para entender — um monstro esquisito com tentáculos na cabeça sacudia bastante, então vamos considerar que ele sorria também. Mas o pequenino, de pé sobre a mesa, mantinha-se em sua pose imponente, com a caneca de cerveja desproporcional ao seu corpo fazendo as vezes de espada mágica.

— Isso mesmo! Esse sempre foi o meu maior desejo: ser ordenado Cavaleiro do Rei.

— Sonhar não custa nada — um kobold engraçadinho latiu lá de trás. Muitos riram. Outros três fizeram a mesma piada, até que ficou sem graça.

— Vocês sabem — o pequeno continuou, ignorando-os —, eu nasci numa família de ladrões.

— Todos os goblins são ladrões! — o orc, berrou, cuspindo quase um litro de cerveja, banhando a pobre criatura verde que tentava iniciar sua história.

— Deixa ele falar, Hohg! — o taverneiro, um enorme ogro, reclamou com a voz extremamente fina.

— Obrigado, querido. Nós goblins somos, sim, muito ágeis e, por isso, roubar é um caminho comum. Mas aquela não era minha vocação.

***

Eu nasci para ser um cavaleiro. Sou o maior dos meus 36 irmãos. O fato de ser o mais velho pode até ter a ver com isso, mas tenho talento para combate, acreditem em mim.

Como vocês devem imaginar, porém, meu pai nunca me incentivou.

— Que cavaleiro o quê, rapá! Vai roubar que precisamos alimentar seus irmãos.

— Mas é meu sonho…

— Que mané, sonho? Onde ‘cê viu essa parada aí? Andou lendo de novo?

— Mas, pai, ler é a melh… — fui interrompido com um socão que me fez perder esse dente aqui, ó.

Por muito tempo, tive que fazer as vontades do meu pai e roubar moedas no Centro, desarmar armadilhas, arrombar baús e fechaduras e essas coisas chatas que ele me ensinou.

Mas, por coincidência — ou não — foi por causa do meu pai que minha vida mudou. Em seu leito de morte, ele me puxou para perto e, com a voz engasgada, disse:

— Ko-kobaia…

— Sou o Kobain, pai…

— Que seja! cof… aqui… cof cof… aquela parada de sonho…

— Sim, pai, diga.

— Sobre seu sonho de ser cavaleiro… cof cof cof

— Fala, pai.

— Seu s-sonho… cof cof

— Fala logo, pô!

— Olha o respeito, menino…

— Desculpa.

— Esquece!

— Esquece o quê?

— Esquece seu sonh… cof cof… Você tem que roubar pra sustentar seus irmãos… Promete?

Morreu nos meus braços. O melhor ladrão de todo o reino acabou envenenado ao tentar arrombar um baú. Uma armadilha simples, agulha com veneno, encerrou sua carreira de roubos. Coisas da idade.

Depois de limpar as lágrimas — e o amaldiçoar por toda sua pós-vida —, lembrei que estávamos roubando uma casa de um bairro nobre. Tinha que completar a missão. Removi a maldita agulha e destravei a fechadura do baú. Mas dentro, ao invés de ouro, encontrei apenas alguns pergaminhos. A ironia do momento só não era maior que minha satisfação. Guardei os papéis e arrastei o corpo do meu genitor até nossa casa para que pudéssemos fazer a despedida tradicional da família: um ensopado do luto. De barriga cheia e roendo um osso, comecei a ler os papéis.

Eram cartas. Cartas de amor.

***

— O que isso tem a ver com ser cavaleiro? — Hohg, sempre impaciente, perguntou. A maioria estava entretida e reclamou da interrupção. Exceto aqueles que jaziam de coma alcóolico.

— Toda boa história precisa de uma dose de paciência, meu amigo. Já vou chegar lá.

***

As correspondências eram escritas por uma donzela de bela caligrafia que gostava de desenhar coraçõezinhos e estava numa torre num local litorâneo — as ondas do mar e as gaivotas eram temas recorrentes. Ela se correspondia com seu amado sempre que ele precisava vir à cidade. Até aí nada demais. Mas fiquei tão encantado — e também, confesso, excitado — com aquela comunicação, que resolvi investigar para saber mais.

Na noite seguinte, escondi-me num local onde poderia observar a casa em que roubamos o baú. Era na Cidade Alta, bairro de comerciantes e nobres menores. A rua era calçada com pedras e possuía muros bem altos — conhecia cada canto dali, pois era onde operávamos nossos melhores roubos.

Assim que o dono do imóvel entrou, esgueirei-me até a janela do quarto — onde ficava o baú. Ele parecia feliz e radiante enquanto lia um pergaminho semelhante àqueles que roubei. Quando abriu o baú para guardá-lo, levou um susto:

— Oh, meus deuses… as cartas! Não, não, não, não, não! As cartas da princesa, NÃO!!! — gritou, levando as mãos à cabeça.

E foi aí que a história começou a ficar interessante.

— Então é você que tá pegando a princesa, hein?— eu disse, entrando pela janela.

— Q-quem és tu?

— Eu roubei as cartas. E li todas. — Fiz cara de malícia. — Danadinhos!

Ele puxou uma espada curta da cintura e apontou para mim. Foi quando percebi o brilho de um anel dourado com o rubi da cavalaria.

— Um Cavaleiro do Rei traindo a confiança de Sua Majestade. Acredito que a morte é pouco para esses casos.

— Entrega-me as cartas, seu ladrãozinho… ou, ou…

— Ou o quê, garanhão? Se eu não voltar, meus irmãos vão levar as cartas para o Rei. A única forma de sair bem dessa é cooperando comigo.

— Estás mentindo! — A troca de olhares durou alguns longos segundos. Eu mantive minha expressão confiante e, logo, ele começou a entrar em desespero. — Oh, cáspita! Digas, criatura. O que queres?

— O que mais, meu amigo? Quero a princesa, claro.

Dois dias de cavalgada e estávamos na torre à beira-mar, uma daquelas de observação de navios, mas que estava abandonada devido a mudança da rota marítima que passava ali. O cavaleiro — que descobrir chamar-se Sir Lance Grann — me levou até um aposento no alto da torre e bateu na porta numa melodia conhecida. Após alguns segundos, ouvimos a fechadura abrir por dentro.

— Meu amor! — a donzela gritou e correu para abraçar e beijar seu amado. Já estava com as pernas enlaçadas nas dele quando percebeu minha presença.

— Paixão, apresento-lhe o Kaboin.

— Kobain — eu corrigi —, ao seu dispor, princesa.

— O que ele tá fazendo aqui, chuchu?

— Então, coração. — Ele coçou a cabeça. — Ele sabe de tudo e está a nos chantagear.

— Deixa que eu falo, chuchu — interrompi. — Princesa, sendo bem direto: Preciso levar você para o seu pai.

— NÃO! Por favor! Não gosto do castelo. Não me leve pra lá.

— Por que não? Posso saber?

— Papai não me deixar fazer nada que eu quero… — disse, agarrando com força a mão do amado.

— Então… É pedir muito que confiem em mim?

***

Quando avistaram eu e a princesa caminhando em direção aos portões do castelo, os guardas baixaram a ponte. E assim, sem festa ou cerimônia, mas alvos de centenas de olhares e cochichos, fomos até uma sala que ficava ao lado do belíssimo trono. O Rei estava sentado atrás de uma mesa assinando e carimbando uns papéis. Ergueu os olhos e, tentando esconder a surpresa, disse:

— Filha! Posso saber onde esteve?

— Presa no covil de um terrível monstro, pai. Não está feliz em me ver?

— Claro que estou, meu amor. — Segurou a mão dela com carinho. — Me conta. Como conseguiu sair de lá?

— Fui salva, papai.

— E onde está esse fabuloso herói que a trouxe de volta?

— Aqui. — Apontou para mim.

O Rei precisou erguer-se de sua mesa para conseguir me ver.

— Seu herói é esse… esse…

— Goblin, papai. Ele é um goblin.

— Ah, sim, eu sei. — Limpou a garganta. — Caro goblin…

— Kobain — eu disse —, meu nome é Kobain.

— Certo. Kobain, acredito que deseja uma recompensa por ter resgatado minha filha.

— Longe de mim, majestade. Não o fiz com essas intenções.

— Então tá. Muito obrigado…

— PAI! — a princesa ralhou.

— Ah, claro. — Pai e filha trocaram olhares inquisidores. — Kobain, não existe algo que você queira? Você sabe. Sou o Rei e posso fazer qualquer coisa.

— Bem, já que perguntou — fiz uma pausa como se estivesse pensando —, quero que me ordene cavaleiro.

— Ordene… o quê?!

— Cavaleiro.

— Bem… er… não esperava por isso. Como dizer?… bem… Um goblin na cavalaria? — Ele coçou a barba de nervoso. — Não prefere ouro, rapaz? Você tem filhos? — perguntou.

— Só irmãos…

— Então… Posso te dar dinheiro suficiente para sustentar você e seus irmãos por toda a sua vida. Uma mesada… Isso!… Posso te dar uma mesada em ouro.

***

— Caramba, Kobain — Hohg exclamou bem alto. — E o quê ‘cê respondeu?

— O que vocês acham? — ele perguntou, levando a manga da blusa, revelando um anel dourado com o rubi da cavalaria vestido como um bracelete no seu braço fino. — Estão olhando para Sir Kobain, o primeiro e único goblin cavaleiro do reino!

A ovação foi geral. Todos aqueles que não dormiram durante a história gritaram e gargalharam em homenagem ao goblin cavaleiro — alguns acordaram naquela hora e comemoram mesmo sem saber o motivo. O ogro taberneiro ofereceu, em homenagem ao ilustre visitante, com sua voz muito fina, uma rodada grátis para todo mundo.

O sol raiou e os bêbados, aos poucos, começaram a abandonar a taverna. Kobain foi um dos últimos — talvez os demais estivessem em coma… ou mortos, nunca vamos saber. Ele caminhou lentamente até sua casa, enquanto admirava, de olhos marejados, o anel que apenas aqueles ordenados pelo Rei recebiam.

— Demorou, hein — uma voz feminina o tirou do transe, assim que chegou.

— Sim, princesa. Todos amam a minha história.

Sir Lance Grann desceu as escadas arrumando os cabelos molhados e deu um beijo apaixonado na princesa. Dezenas de pequenos goblins riram e zombaram do casal enamorado.

— Tenho que ir — Sir Lance disse. — Obrigado, Kobain, uma vez mais, pela hospitalidade.

— Não precisa agradecer, chuchu. Até a próxima.

— Ah, Kobain — o cavaleiro se conteve antes de sair pela porta —, por acaso, pegaste emprestado algo que me pertence?

O goblin sorriu sem graça, retirou o anel do pulso e o entregou para seu amigo. Sir Lance agradeceu, pôs o elo dourado com rubi no dedo, cobriu a cabeça com um capuz e, escondido, voltou à sua vida normal de cavaleiro. A princesa, também muito grata, despediu-se dando um beijinho em cada goblinzinho e saiu alguns minutos depois.

Kobain, que já não precisava mais roubar para sustentar seus muitos irmãos, pegou um livro na estante e, antes de começar a ler, lembrou-se do pai.

— ‘Cê deve tá feliz, né, seu velho safado? — pensou em voz alta.

Provavelmente foi alguma alucinação alcoólica, mas ele jura que ouviu em resposta:

— Olha o respeito, moleque!

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Informação

Publicado em 17 de fevereiro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 1, Série A.