EntreContos

Detox Literário.

Uma Canção Para Nara (Nicky)

O pequeno Marcos estava ansioso pelo nascimento da sua irmãzinha Nara. Seria bom ter alguém para brincar além do seu gatinho. Pensava em como os dois formariam uma dupla de grandes aventureiros. Sabia que sua irmã devia está chegando logo, pois a barriga da sua mãe já estava bem grande.

O menino tinha seis anos ainda e não entendia bem de onde os bebês vinham. Ele pensava que o princípio era semelhante ao que ocorria no parque de diversões. No local tinha uma barraquinha em que acertar qual bexiga iria estourar primeiro dava direito a ganhar um bichinho de pelúcia de brinde. Achava que pela barriga da mãe parecer cheia como um balão e como em algum momento do próximo mês ela chegaria em casa com o bebê que ganhou achou que as duas coisas deviam ter suas semelhanças, mesmo que não soubesse quais. Mas ele não pensava muito nisso, preferia passar o tempo pensando nas aventuras que teria com a pequena Nara.

Seus pais escolheram um belo papel de parede para o quarto do bebê, mas Marcos achou que sua irmã gostaria de ver desenhos feitos por suas mãos.  Achava que isso o faria saber o quanto era esperada por ele. O seu gatinho Sr. Miau fez alguns arranhões no papel de parede para que a sua marcar fosse registrada também.

Sua mãe ao ver a arte que tinham feito olhou com uma cara levemente irritada, porém depois sorriu um de seus sorrisos mais doces. Ela acariciou sua barriga e naquele momento ele soube que a mente dela formava as mesmas imagens que a dele. Ela devia imaginar com freqüência os dois filhos brincando. Naquele quarto era quase como se sua irmã já estivesse presente.

O grande dia chegou e enquanto sua mãe estava no lugar em que as mulheres ganhavam bebês o pequeno ficou na casa da vizinha brincando com sua amiga Nicole.

-Quer ouvir uma coisa legal?- perguntou Nicole enquanto eles brincavam no jardim da casa. Estavam construindo um pequeno forte de areia e folhas. Bonecos que representavam heróis estavam espalhados pelo gramado assim como restos de papéis de doces que recolheriam depois segundo o que prometeram para os pais da garota.

-Quero. – perguntou curioso enquanto organizava duas fileiras de bonecos. Seus olhos brilhavam de expectativa, mas a maior parte da sua mente estava ocupada pensando em Nara que logo estaria em casa.

A menina entrou em casa e quando voltou tinha na mão um pote de vidro. Marcos o encarou com atenção, porém não importava o ângulo que olhasse o objeto ainda parecia está vazio. Nicole agia de uma forma diferente, era como se ela carregasse algo muito precioso dentro daquele pequeno pote.

-O que é que tem de legal nesse pote vazio? Não consigo ver nada. – perguntou meio irritado, pois se sentiu meio enganado pela menina.

-O que tem aqui não é para ser visto, mas ouvido. –disse e estendeu o objeto para ele. O garoto levou o pote com cuidado até o ouvido. O movimento o fez se lembrar de quando ele foi a primeira vez até a praia e encontrou algumas conchas na areia. Sua mãe tinha lhe dito que se ele aproximasse a conchinha do ouvido poderia escutar o barulho das ondas do mar.

Com a concha ele realmente havia ouvido alguma coisa, mas com o pote não escutou som nenhum. Trocou de ouvido, porém o resultado foi parecido. Ficou ainda mais irritado achando que tinha sido enganado duas vezes.

-Não, você está fazendo errado. Você tem que ouvir com o olho.-disse Nicole tirando o pote de vidro da sua mão. Ela colocou o objeto na direção do seu olho enquanto falava- Assim. Tente de novo.

Marcos pegou o objeto meio sem acreditar, mas de alguma forma aquilo distraia um pouco a sua mente. No começo não conseguia ver e muito menos ouvir alguma coisa, porém depois de um tempo as coisas começaram a mudar. Era como se o seu olho estivesse captando algum tipo de som baixo que a medida que os segundos iam passando chegavam até os seus ouvidos também. O menino achou aquilo muito incrível. Queria levar aquele pote para mostrar para a sua irmã.

-Qual é o segredo?

-É uma longa história. –disse a menina animada e rapidamente pegando o objeto por qual ela tinha um grande apreço. –Não sei como contar.

Um silêncio se instalou entre eles, mas depois de um tempo a garotinha voltou a falar:

-Você nunca ouviu falar do reino em que as cores são ouvidas com os olhos e os sons são vistos com os ouvidos?

-Não. –disse ainda mais curioso. Muitas imagens se formaram na sua mente, porém mesmo com a sua imaginação tinha um pouco de dificuldades para imaginar um som enxergado pelos ouvidos.

-O que tem dentro desse pote é só uma amostra do que tem lá.

-Onde fica esse tal reino? Quero ver.

A menina ficou em silêncio por alguns minutos. Era como se decidisse se ele era digno ou não de conhecer o lugar.

-Vamos, Nicky. Quero muito ver.

-Tudo bem, mas terá que prometer não tocar em nada.

Marcos prometeu apesar de não ter entendido a exigência. Os dois seguiram em silencio até o quintal, em direção a um canteiro de flores que ficava perto dos balanços. A menina tinha um quintal muito amplo com vários tipos de plantas, porém de alguma forma era como se aquelas flores rosa tivessem algo de diferente das outras.

-Eles estão aí.- disse a menina afastando as flores delicadamente a apontando para o solo e para as pétalas das flores que tinham caído.

Apurou a visão e foi como se procurasse formigas. Quando a menina falou reino ele imaginou um lugar luxuoso e repleto de roupas deslumbrantes, como nos filmes e contos que lia. Mas o que viu foram pequenos seres meio diferentes.

Alguns tinham o tamanho do giz de cera que ele levava para a pré-escola enquanto outros eram um pouco maiores. Era possível notar que os maiores tinham pequenas asas aparentemente da textura das pétalas. Mas o que realmente chamou a sua atenção foi o fato de que alguns daqueles pequenos seres tinham pequenas flores no lugar dos olhos e outros no lugar dos ouvidos. Ele ficou sem palavras diante daquilo.

-Alguns nascem sem enxergar e outros sem ouvir.- disse Nicole explicando com voz calma- Mas como pode ver eles se entendem perfeitamente bem.

Marcos tinha percebido isso mesmo. Era como se os que não enxergassem ajudassem os que não ouvissem, apesar de não ter entendido como.

-Como?- perguntou sentindo que a menina sabia mais do que ele, principalmente porque aqueles pequenos seres viviam no quintal dela.

-Os que conseguem falar, mas não conseguem ver, escutam e enxergam as cores com os ouvidos. E de tempos em tempos eles cantam uma canção especial para que os que não conseguem ouvir possam escutar com os olhos.- disse ela apontando para os que tinham as delicadas flores nos olhos- Foi esse som que prendi no pote de vidro para ouvir quando quisesse.

Enquanto a menina falava de forma entusiasmada Marcos estendeu sua mão para pegar uma daquelas criaturas. Pensou que melhor do que mostrar o pote com o som seria mostrar um daqueles seres. Seria um bom presente para a sua irmã. Nicole lhe deu um leve tapa na mão antes que ele completasse o que planejava.

-Você prometeu que não ia tocar em nada!

Ele realmente havia prometido, mas achava que valia a pena ignorar o que prometeu. Eram tantos, não custava pegar somente um.

-Não é para mim, é para minha irmã. Você tem tantos!

-Você não entende! Eles moram aí. Você prometeu!

Com toda aquela gritaria os pequenos seres se esconderam dentro das flores ou em outros lugares, pois quando ele olhou novamente eles tinham sumido.

-Viu o que foi que você fez?

Marcos ia se desculpar, mas antes que fizesse isso a mãe de Nicole avisou sorridente que seu pai havia chegado. Ele iria lhe levar para conhecer a sua irmãzinha.

Quando estava no carro Marcos acenou para Nicole com um sorriso. A menina segurava o pote de vidro e deu somente um meio sorriso. Parecia meio zangada. O menino não ligou muito para isso devido a expectativa para ver Nara.

Assim que chegaram o menino entrou quase correndo no quarto em que a mãe e a irmã estavam.

-Diga “olá”para a pequena Nara.- disse sua mãe sorrindo e aproximando uma pequena bebê embrulhada em uma manta verde claro com detalhes rosa.

Marcos sorriu com os olhos e com os lábios e sentiu que de alguma forma a irmã sorriu de volta.

Os dias após o nascimento da irmã se seguiram normais e logo se tornaram meses. Devido ao fato de querer ficar todo o tempo com a sua irmã e a volta as aulas não tinha tanto tempo de brincar com Nicole. Até porque de alguma forma era como se aquelas criaturas tivessem sumido depois daquele episódio. A única coisa que via todas as vezes em foi até aquele quintal foram as flores. Nicole lhe olhava em silêncio como se esperasse isso.

-Você não merece ver eles.- disse a menina certa vez. Isso o fez pensar que talvez fosse somente dele que eles se escondessem.

Com o passar do tempo e as constantes decepções em enxergar os pequenos seres a curiosidade pelo local e por elas começou a ser substituída por outras coisas, principalmente preocupações com a irmã.

O garoto apesar de ainda ser novo sabia que havia alguma coisa de errado com a querida irmãzinha. A menina era a bebê mais quieta que ele havia visto. Conseguia dormir mesmo com barulhos altos. Achava isso meio estranho, pois o seu primo que nasceu quase na mesma época que ela acordava com o menor ruído. Ela quase não chorava de noite. Na verdade ela quase não chorava em nenhum momento do dia.

Mas ele teve certeza que tinha algo realmente de errado quando a menina ficou maiorzinha e mesmo que eles a chamassem ela parecia não ouvir. Isso o deixava triste, mas ele fazia o melhor para chamar a atenção da irmã.

Quando ela tinha quase dois anos e ainda não atendia pelo seu nome os pais a levaram no médico. No momento em que regressaram disseram que precisavam conversar com ele. Seus pais se sentaram no sofá perto dele. Nara estava no colo de seu pai.

-Sua irmã é diferente.- disse sua mãe- Ela não escuta como nós.

-Ela é surda, Marcos.-completou o seu pai.

O garoto não soube o que dizer naquele momento. A imagem daquelas criaturas com flores no lugar dos ouvidos que tinha visto voltou a sua mente. Teve uma ideia.

Marcos pediu para Nicole a chance de ver aqueles seres somente mais uma vez. Não por ele, mas por Nara. Nicole concordou, mas o fez prometer que dessa vez não tentaria as incomodar.

No caminho para o quintal de Nicole sua irmã continuava silenciosa como sempre, mas ele a entendia melhor do que qualquer pessoa. Por isso sentia que ela estava igualmente ansiosa pelo que encontraria. Seus olhos se sentiram atraídos pelo rosa das flores logo que a viram.

Sua mãe conversava com a mãe da Nicole enquanto tomavam chá em uma mesa perto dali. Sempre observando as crianças. Mas mesmo com seus olhares observadores Marcos achava que elas não poderiam ver as pequenas criaturas. Nos primeiros momentos nem ele viu, mas bastou Nicole falar algumas palavras que ele não entendeu direito para que os seres surgissem de forma tímida. Os que tinham as pequenas asas de pétalas foram os últimos a surgir.

-Eles vão cantar uma canção especialmente para a Nara.- disse Nicole fazendo um sinal para que ele tapasse os ouvidos.

Marcos e Nicole taparam os ouvidos e deixaram os olhos bem abertos. Sentiram quando a música começou, mas a reação principal veio da sua irmã. Nara olhou de um lado para o outro visivelmente surpresa. Aquela era a primeira coisa que ela ouvia e depois de um tempo começou a bateu palminhas no ritmo daquela canção. Em seus olhos Marcos conseguiu ler um doce agradecimento.

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Informação

Publicado em 17 de fevereiro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 1, Série C-Final, Série C3.