EntreContos

Detox Literário.

Uai, Hoje é Dia de Rock, Bebê! (Perna Curta)

─ Acho que eliminamos todas as provas do crime… do grande crime da minha existência. ─ diz antes de desabar sobre o sofá. ─ Faltou alguma coisa, Maria Bethânia?

Alex sabe que eu detesto quando me chamam assim, mas em momentos como este, eu prefiro ignorar a sua provocação para economizar tempo. Finjo que não percebo sua intenção de me torturar fazendo-me lembrar da minha origem. Não que meus pais sejam fãs ardorosos da cantora Maria Bethânia, longe disso. Só escolheram o nome por devoção religiosa. Portanto, só me resta lamentar esse fato e praguejar toda vez que leio meu nome na correspondência ou em documentos.

─ Só falta retirar o seu lindo corpinho daqui. ─ concluo, oferecendo o meu melhor sorriso.

Alex passa a mão na minha cabeça, alisando o pouco cabelo que ostento e mira seus olhos quase negros nos meus:

─ Não seria mais fácil me apresentar para eles e…

Balanço a cabeça, afastando-me um pouco do olhar perdido daquele que pouco sabe do desafio que tenho pela frente.

─ Você não conhece os meus pais.

Alex desiste de tentar me convencer de que a verdade é sempre o melhor caminho, de que não somos mais crianças e não devemos nada a ninguém. Cita como última chance de me retirar do mar de enganos, um ditado que sempre ouvi de minha mãe “mentira tem perna curta”.

─ Ainda acho que esqueci de pegar algum troço aí. Melhor você checar as paradas, novamente, tá?

Concordo com a cabeça, já cansada de tudo isso. Levo meu crime até a porta, trocamos beijos que se alongam mais do que o apropriado e volto à execução do meu plano de rastreamento de resquícios de um homem no meu lar. Ainda sinto o perfume amadeirado no ar, mas digo a mim mesma que é implicância de um olfato burguês.

Enfio os últimos indícios da minha coabitação com Alex, no armarinho debaixo da pia da cozinha. Alguns livros e revistas com títulos inapropriados para uma filha do casal Barros de Almeida.

Resolvo descer e falar novamente com o porteiro sobre a importância da sua discrição.

─ Entendeu, Zé?

─ Claro, Dona Bethânia ─ pelo menos ele eliminou o Maria ─ Por mim, ninguém vai saber que o Seu Alexandre mora aqui. ─ dá uma pausa, uma fungada no ar e continua ─ Ele tá envolvido nessa coisa da lava-jato?

─ Não é nada disso, Zé. Coisas de família, você entende, né?

─ Claro, claro… ─ confirma sacudindo a cabeça, como se dissesse o contrário.

Entro no elevador com a impressão de que o porteiro já consegue imaginar Alex participando de uma delação premiada.

Abro a porta para o casal de genitores: Pedro Isaías e Rute Raquel. Minha família não possui muitas posses, mas sem dúvida tem um talento extraordinário para criar nomes bíblicos compostos.

─ Que bom que chegaram. Fizeram uma boa viagem?

Mió impossível, filhinha. ─ esclarece minha mãe com a sua energia positiva sempre tão desperta e irritante.

Meu pai me olha de esguelha estranhando o meu modo de falar, recriminando o meu esforço de anos para me livrar de todo e qualquer resquício de sotaque mineiro. Já Dona Rute quase me engole em um abraço de meses mergulhados na salmoura da saudade.

Ocê tá de encher os zóio, nuemez, Pedro Isaías? Mermo com esse cabelim curtinho, de oveia tosada, ocê tá linda purdimais da conta.

Pedro Isaías, que também atende por Papai, apenas balança a cabeça, parecendo estar pensando em outra coisa como se pressentisse algo no ar. Será que ele sentiu o perfume do Alex? Não, não, isso já é paranoia minha.

 ─ E então, filhinha, quais as novidades? Já arranjou um namoradinho novo?

Sempre me surpreendo com a rapidez da senhora que me pôs no mundo em obter as informações que mais lhe interessam. Como um ser tão pequeno, de uma esbeltez quase preocupante, pode me nocautear em um primeiro round, sem direito a descanso no banquinho?

─ Capaz! ─ deixo escapar um fiapo da minha raiz mineira e me adianto à investigação de minha mãe, evitando o olhar inquisidor de meu pai.  ─ Nada sério desde o rompimento com o João Antônio.

─ Uma pena ‘ocês terem terminado. João Antônio é um rapaz tão bom, respeitador, de boa família. Sabia que o tio dele é até pastor? Pois sim, minha filhinha, aquele lá era uma mosca branca e você pôs tudo a perder.

Peço que deixem as malas ali mesmo no corredor. Para que tanta bagagem? Não era só uma semana ou duas por aqui? Ofereço o sofá para que se acomodem um pouco antes de ajeitarmos as coisas deles no quarto.

─ Antes, preciso me refrescar um ‘cadinho. ─ diz minha mãe já à procura do banheiro.

Eu aponto a porta do lavabo logo ao lado e me abaixo para pegar um dos meus brincos que havia caído.

─ Mas o que é isso, Maria Bethânia?!

Levo um susto tão grande com a voz alterada de minha mãe que mal consigo m levantar a cabeça. Sinto-me uma criança de cinco anos perdida depois de ter aprontado alguma peraltice. Enquanto me ergo, vou processando as possibilidades do tom de terror de Dona Rute Raquel. O banheiro não está limpo de forma adequada? Alex deixou a tampa do vaso levantada? Encontrou alguma camisinha perdida em um lugar que nem Sherlock Holmes seria capaz de desvendar?

─ Posso saber o que é isso no seu pescoço?

A tatuagem! Na nuca e não no pescoço, mas uma tatuagem que eu inadvertidamente esqueci de ocultar o que antes o cabelo comprido camuflava. Uma pequena guitarra em chamas com os dizeres Seja Som e Fúria. Discreta, sério, nem cores tem. As linhas são bem finas e … Bom, deixa pra lá, minha mãe viu, tá visto.

─ Pedro Isaías, vem cá ver esse trem, meu filho!

Não precisou chamar duas vezes, meu pai já estava ao meu lado, ou melhor, nas minhas costas, tocando minha nuca como se aquele gesto fosse mesmo queimar seus dedos.

─ Tem cabimento isso, não. Profanar a pele, o templo de seu espírito com esse tipo de … Sei lá, parece até coisa do …

Meu pai, que de repente revela-se um doutrinador verborrágico, para de falar antes de pronunciar o nome do mal, diabo, coisa ruim, satanás, o que seja.

─ Tem jeito de tirar isso daí?

Explico que isso até seria possível, mas demandaria tempo e muito gasto. Falo em desperdício de dinheiro, meu pai se retrai e resolve encerrar a questão.

─ O que tá feito, tá feito, melhor deixar pra lá. ─ diz voltando a se sentar no sofá.

Minha mãe volta ao banheiro para enfim lavar as mãos e o rosto em seu ritual pós-viagem. Escuto ruídos metálicos e outros como vidro raspado e percebo que Dona Rute está inspecionando a área. Outro dos seus rituais maternais.

─ E esse barbeador, Maria Bethânia, é seu? ─ ela grita lá de dentro sem pegar fôlego entre as sílabas.

Engulo em seco e vou ver do que se trata. Será que era isso que Alex achava que tinha esquecido de levar embora? Minha mãe pisca para mim à espera de uma resposta esclarecedora que sacie tanto a sua curiosidade quanto o desconforto visível de meu pai que se remexe no sofá como quem se descobre sentado em um formigueiro.

─ Claro que é meu, mãe. Para depilar minhas pernas, oras.

Antes que o assunto se alongue sobre a intimidade do meu banheiro, resolvo servir o café na mesa de jantar, já coberta por uma linda toalha branca bordada, herança de minha avó Maria Eulália. Minto, com a cara mais inocente do mundo, dizendo que assei o bolo de fubá um pouco antes do almoço e que deve estar ainda fresquinho.

Depois nos sentamos os três no sofá, pois pelo relógio de pulso de Dona Rute, está na hora da novela. Minha mãe é uma verdadeira aficionada por novelas e meu pai a acompanha, fingindo-se contrariado. Se bobear, ele sabe mais dos capítulos do que minha mãezinha.

─ Essa novela é das boas, queridinha.

Durante o intervalo, continuamos ali, falando trivialidades, como quem vai ficar com quem na história das seis. Até que anunciam as atrações do Show Rei do Rock e eu tento em vão mudar de canal. Deixo pra lá, já que eles não devem saber quem é o Alex e muito menos que partilhamos a mesma cama.

─ Não sei causdiquê, mas esse estovado aí não me desce. Tem cara de bicudo.

─ Quem, papai?

─ Esse xexelento do Alex Mars. Isso lá é nome de brasileiro? Deve ser aquele trem de nome artístico…

Ói paissu, deve ser um desses invertidos viciados, creinDeuspai ! ─  agora era mamãe que discursava contra o meu namorado. ─ Deus te livre de um estorvo assim, minha lindinha.

─ Vamos ataiá essa conversa. ─ diz meu pai querendo fugir do assunto.

─ É mió, mermo. ─ Dona Rute Raquel concorda com o marido ─ Maria Bethânia, quer que eu te passe a minha receitinha de pão de queijo? Porque bão, mar bão mermo é meu pão de queijo, num é, mermo?

Depois de anotar com letra caprichada a receita famosa de minha mãe, sugiro uma viagem pelas fotos que juntei nos últimos anos. Eles parecem se animar com a chance de conhecerem um pouco mais sobre a vida da sua única filha.

Trago para eles dois ou três álbuns já completos. É um dos meus hobbies preferidos, montar uma espécie de diários com fotos. Por um momento me pergunto se aquilo é um procedimento seguro, concluo que sim, já que eram fotos aleatórias, sem qualquer menção a Alex.

Ao abrir o segundo álbum, cai uma folha que julgo precipitadamente ser um simples papel, mas é uma foto. De tamanho razoável, na qual se pode ver uma linda morena de perfil, sorrindo, abraçada a alguém de quem só dá pra ver o cabelão descendo em ondas douradas pelas costas. A morena sou eu, certamente, e a outra pessoa só pode ser Alex.

Ocê e sua amiguinha tavam em alguma festa?

Logo, percebo que minha mãe confundiu Alex com uma moça. O que não faz uma cabeleira bem cuidada? Olho de novo para a foto e constato que não há mesmo nada ali, pelo ângulo e pose, que revele que se trata de um homem ou de uma mulher. Resolvo não desfazer o engano e prossigo com o jogo armado.

─ Ih, isso faz tanto tempo, mamãe, que nem lembro mais …

A campainha toca neste instante e minha mãe reclama algo sobre a segurança do prédio. Onde já se viu deixar alguém subir sem avisar antes?

─ Dona Bethânia, desculpa incomodar, mas aquela pessoa… ─ Zé dá ênfase à expressão aquela pessoa ─ está lá embaixo. Disse que esqueceu de …

Não deixo o porteiro terminar a frase e já vou logo despachando o pobre com uma desculpa qualquer.

─ Quem tá lá embaixo, filhinha?

─ Uma moça lá da academia.

Causdiquê?

─ Cismou que sou a personal trainer dela.

Voltamos às fotos por mais alguns minutos e logo me levanto para acompanha-los até o quarto de hóspedes. Já me virando para o corredor, escuto a voz de minha mãe, mais estridente do que nunca.

─ Que trem é esse aqui?

Quando olho para o lado, vejo minha mãe segurando com as pontas dos dedos uma calcinha vermelha, que eu já julgava perdida para sempre. A lingerie mínima não se encaixa em qualquer justificativa que me venha à cabeça.  

─ Uai, nem sei. Onde achou isso?

─ Tava enfiado no seu sofá…

─ Então, deve ser da antiga dona do sofá, só pode. Que absurdo vender o trem assim sem coisar direito… ─ quanto mais eu mergulho no mineirês, mais meu pai tem certeza de que alguma coisa está errada, totalmente fora do lugar.

Sem saber o que fazer, pego a calcinha da mão de Dona Rute Raquel e trato de sumir com ela. Resolvo escondê-la em uma gaveta da cozinha. Meu pai que me observa como bom mineiro desconfiado, só olha para mim e sorri desconcertado.

─ Vai que a dona resolve aparecer, né, pai?

Ele não diz nada e volta comigo para a sala. Nesta altura, eu estou certa de que meu pai sabe de tudo: de quem é a dona da calcinha, de Alex, do valor do aluguel que pagamos juntos e até da nossa vida sexual que agora parece mais tórrida do que realmente é.

Acomodo os dois no quarto, ajudo a desfazerem as malas e digo onde estão as toalhas limpas. Tudo parece estar em paz e somos nós novamente: pais orgulhosos da filhinha que foi para São Paulo estudar música.

─ Bom, acho que tá na hora de tomar um belo banho e dormir.

Minha mãe fala alguma coisa do quadro em cima da cama que, segundo ela, parece estar um ‘cadinho torto. Sim, minha mãe tem TOC e meu pai está sempre a postos para solucionar eventuais problemas e acalmá-la.

─ Ah, é o prego que tá torto. ─ Certifica-se meu pai, examinando quadro e parede. ─ É só dar uma ajeitada com um alicate… coisa pouca.

Pergunta onde guardo as ferramentas da casa e eu, sem pestanejar, digo que está tudo na caixa embaixo da pia, lá na cozinha.

Em menos de dois minutos, minha mãe e eu ouvimos o som de algo caindo e o grito agoniado de Seu Pedro Isaías. Corremos até a cozinha, crentes que ele está tendo um ataque do coração ou algo assim.

Meu pai, vermelho como nunca tinha visto, lança-me um olhar acusador. Parece estar prestes a ter um troço qualquer ali mesmo.

Minha mãe fica ainda mais perplexa diante do que vê nas mãos do marido: um livro e uma revista.  Na capa do livro, em letras vermelhas sobre um fundo caótico, destaca-se o título: Como conquistar a mulher da sua vida. Na mão esquerda, meu pai sacode a revista que exibe na capa uma roqueira famosa, linda e seminua.

Êita ferro, minha filha, mas o que tá acontecendo com ‘ocê?

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Informação

Publicado em 17 de fevereiro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 1, Série A.