EntreContos

Detox Literário.

Pequenos Grandes Segredos (Roberto Bluechevy)

Ora, dirá você, vivemos na era moderna, do cinismo científico e, apesar de terraplanistas, criacionistas e antivaxxes, não há mais espaço para o sobrenatural, para as crendices tolas da infância da humanidade. Não precisamos mais de Thor para explicar o trovão, ou de Prometeu, para justificar o fogo. A realidade se resume a átomos, colisões energéticas, reações químicas, DNA e tudo mais…

Bem, eu gostaria que as coisas fossem tão simples. Contudo, fatos são fatos, e um segundo de evidência vale por eras de teorias elaboradas dentre quatro paredes.

 

***

 

Por exemplo, há – ainda hoje – um carvalho antiquíssimo perdido nos meandros caprichosos da Floresta Negra. Apesar da aparência comum, por alguma razão misteriosa há cerca de trezentos anos ele se tornou senciente. De início, ainda inocente como um plátano produtor de maple, encheu-se de doçura pelo mundo que observava ao redor; animais gentis, riachos cristalinos e o vai e vem das estações. Enfim, toda essa beleza veio quase literalmente abaixo quando o jovem aldeão Günther Schmied, que ganhara do pai um machado de metal polido, resolveu num passeio pelos ermos do bosque experimentar a lâmina contra o tronco do carvalho ermitão. A árvore sentiu a aguda dor dos cortes e encheu-se de medo e incompreensão, pois nada fizera, senão amar… O rapagão saiu dali cantarolando como se nada houvesse feito, deixando o carvalho a experimentar sentimentos que lhe eram completamente estranhos. Sentimentos esses que, como afluentes, logo desembocaram num curso único de águas turvas: um Amazonas de ódio. Profundo e imenso ódio por Günther, e em extensão à sua família, e em extensão aos seus conterrâneos, e em extensão à toda aquela maldita espécie de sapos brancos cantantes portadores de instrumentos afiados.

Naquele dia o carvalho planejou a morte do rapaz, e anotou o plano estendendo um rizoma ramificado à sua direita. Cada nó, uma decisão; um fluxograma vegetal…

Considerou o primeiro plano ruim, e pensou noutro muito mais elaborado e estendeu outro rizoma à esquerda, com inúmeros nós. E esses planos, cheios de falhas, típicos de quem pensou com a cabeça quente, foram posteriormente descartados, enquanto a árvore se espalhava no subsolo, mais e mais. Uma criação maquiavélica, logo substituída por algo que faria Lúcifer empalidecer de inveja, substituída por algo muito, muito pior… Era preciso cobrir todas as possibilidades!

Günther há muito morreu, de causas naturais – não pôde esperar por sua execução exemplar -, mas diz-se que hoje em dia as raízes do carvalho estão sob toda Baviera e parte da França, e que ele ainda não está satisfeito, que ainda não alcançou a concepção do plano perfeito para nos exterminar como bem merecemos…

Ainda não.

 

***

 

Outro exemplo: numa fazenda decadente, próxima a Tiradentes-MG, há um poço em meio ao campo cheio de ervas daninhas. Ninguém sabe quem o construiu, pois mesmo os primeiros colonos já o encontraram como ele está ainda hoje: um círculo perfeito de pedras duríssimas e coberto de inscrições numa língua desconhecida sob a camada de musgo e avencas. Diriam os índios que habitaram a região antes dos colonos que ele já estava lá quando Tupã era curumim. Sempre com água muito límpida e fria, mesmo durante as secas mais severas, mesmo durante os dias mais ferventes. O poço era um bastião imutável da abundância e da frescura de suas águas. Uma dádiva, certamente.

Bem, quase… Salvo por uma criança desaparecida a cada cem anos exatos.

O que fazer? Crianças são imprudentes por natureza, o poço é inconcebivelmente profundo, o musgo e o limo deixam tudo escorregadio e suas águas são tão… Frígidas! Ora, acidentes acontecem! Poços são apenas objetos inanimados e jamais se encontrou corpo algum!

Talvez, afinal… Talvez fosse um preço até pequeno a pagar por tal apetite tão modesto, tão frugal…

 

***

 

Tudo até aqui foi apenas preâmbulo, para chegarmos ao exemplo-cerne do meu argumento contra o cientificismo simplificante. Poderia ainda contar sobre o coelho imortal que está sendo atropelado (ou amalgamado ao asfalto) pelo fluxo incessante de veículos duma auto estrada mexicana desde o ano passado, refletindo tardiamente das desvantagens da imortalidade, mas precisamos falar sobre Clara.

 

***

 

Os armários de sua cozinha estavam cheios de potes de vidro com tampa de rosca metálica. Dentro de cada frasco, sementes do tamanho de feijões, porém vermelhas e arredondadas, até o gargalo dos potes. Não havia nada além: nem chá, nem biscoitos ou cereais. Apenas a fila de dezenas de lindos recipientes com tampas douradas, cheios de bolinhas rubras. Havia mais sob a pia, dentro do closet, e no sótão.

Uma coleção de DVDs jazia bem arrumada junto da tevê da sala: A vida é bela, O menino do pijama listrado, O campeão, A escolha de Sofia, A lista de Schindler, Mar adentro, Sempre ao seu lado… Alguém ali gostava de bom cinema.

Eram sete da manhã e Clara acordou com fome, embora estivesse faminta há pelo menos trezentos dias. Dirigiu-se à cozinha e bebeu dois copos d’água. Até pensou em tentar se alimentar novamente, porém sabia que de nada valia. Choraria de frustração, se pudesse.

A moça de cabelos compridos e platinados era pálida e tinha olhos de um azul invernal, descolorido, que ninguém conseguia encarar por muito tempo. “Clara dos Santos” era a alcunha que usava há quarenta anos, e que em breve teria que trocar.

Tomada então por surpresa, ela escutou um som de sineta e checou o celular. E sorriu. O aplicativo TwinSoulsMatch finalmente encontrou um candidato que satisfizesse seu perfil exigente: “Luna Selene”, há um “match” para você! – a mensagem dizia.

Tal “nickname” – que o aplicativo exigira quando do cadastro – fora fácil de escolher. Afinal, ela era a última Mulher da Lua. Selene da Face Oculta, Lady Argentum,  Monarca das Menarcas, Senhora das Marés de Gondwana… Eram muitos os seus títulos, era única a sua dor.

Dizer que ela era antiga seria um desafio à imaginação. Os continentes tinham arranjos diferentes e haviam mares em Marte quando ela fora menina. Ela conhecera a primeira Atlântida (a verdadeira), e vivera nas muitas metrópoles antes do domínio dos grandes répteis. Fora cortejada  e invejada. E um dia, amaldiçoada por sua ousadia.

E, naquela casa modesta, alugada numa vila na Zona Norte do Rio de Janeiro, Clara dos Santos, abriu a mensagem do aplicativo: Simplesmente Ricardo – 43 anos – 1,75m, 70kg, heterossexual, divorciado, cabelos castanhos, paisagista, enólogo amador, romântico, um cavalheiro moderno. A foto mostrava um rosto comum, porém honesto – milhões de anos deram-na a capacidade de ler bem as pessoas -, e ela sorriu novamente. “Sim, ele parece que vai servir”.

Ela aceitou a sugestão de “match” e iniciou a troca de mensagens com Simplesmente Ricardo. Uma semana depois, marcaram um encontro num pub. Na véspera do encontro, Clara assistiu, precisamente pela centésima quinta vez, O Campeão. A criança loura, que adorava o pai que era seu herói e que lutava para ganhar dinheiro e manter sua custódia, chorava inconsolável.

 

***

 

– É um belo lugar – ela disse, e era verdade: o Tired Donkey parecia ter sido escolhido a dedo. Os alvos com dardos, a serpentina dourada correndo ao redor de blocos de gelo, garantindo “pints” de cerveja inglesa e irlandesa em temperaturas preferidas pelos brasileiros. Nem informal em demasia, nem “empolado” e cheio de talheres e frufrus.

– Que bom que você gostou! Quer beber alguma coisa? E pra comer?

– Hã, eu aceito água com gás. Não posso beber álcool e sou um pesadelo de alergias alimentares; só posso comer em casa. Oh, Deus, você não tem ideia! – uma boa mentira, do tipo que a salvaria de problemas por algum tempo.

Ele – surpreendentemente – não insistiu.  Ela o estudou: era naturalmente calmo e educado, não estava nervoso ou “representando” feito um pavão. E logo engrenaram em conversas agradáveis; ele era culto, mas não impunha sua opinião e era um bom ouvinte, parecia deleitar-se realmente com o que ela contava e não deixava de – timidamente – mirá-la de soslaio, admirando talvez seu rosto, ou sua blusa de seda perolada, ou seus olhos.

– Gosta de cinema? – ele puxou conversa. – Há uma nova mostra do Kubrick no Cine Estação, começa amanhã.

– Adoro cinema, principalmente dramas.

– Vão abrir a mostra com “De olhos bem fechados”, o último filme dele. Já viu? É um drama, com certeza!

A cena do rosto decepcionado, a alma quebrada em mil pedaços, do Dr. Harford, ao escutar o relato “chapado” de Alice, sua esposa, descrevendo em detalhes como ela largaria tudo; casamento, família, estabilidade financeira. Tudo para viver uma aventura com um belo marinheiro desconhecido. A dor do jovem médico vivido por Tom Cruise a fez então chorar.

– Não vi. Adoraria ver, ouvi falar muito bem! – ela contou uma mentirinha piedosa.

– Vamos então? Topa?

– Claro! Vai ser ótimo!

Apesar da conversa fluindo bem, era um tanto constrangedor continuar num pub onde uma das pessoas só bebe água e não come. Saíram, ele deu uma carona em seu carro. Ao passarem por um cruzamento escuro, algo passou à frente do veículo e ganiu.

Ela tinha experiência e sabia que a maioria dos homens ignoraria o acontecido, ou pararia apenas para checar se houve algum dano ao precioso automóvel, mas Ricardo não. Ele ligou o pisca-alerta, encostou e saiu. Voltou ao carro com um cão ferido.

– Acho que quebrei a perna do coitadinho. Você se incomoda se eu levar a um veterinário?

E então, na antessala de uma clínica veterinária, ao observar o seu rosto preocupado, ela descobriu que poderia amá-lo, de verdade. Que não precisaria mais de reservas, que podia entregar seu coração. Para uma apreciadora da sétima arte era um enorme clichê, mas assim ela o fez: realizou seu salto de fé.

 

***

 

Três meses voaram. Ligavam-se todos os dias, saíam sempre que podiam. Ela passou a acordar com um sorriso inédito, a dor de sua mera existência não havia desaparecido, porém com certeza amainara. Às vezes ela se pegava cantando músicas em línguas que ninguém mais falava e, sem perceber, dançava alguns passos, imitando a corte de pássaros há muito extintos.

Certa noite ela sonhou, o que não era em absoluto comum. Ricardo era Ulisses, não tão belo e viril quanto o homem que Clara conhecera, mas o era em essência. Estavam todos novamente na velha ilha de Eana e a feiticeira Circe estava apaixonada por Ricardo-Ulisses, tendo transformado os outros homens de sua tripulação em porcos. Contudo, não fora Hermes quem dera a planta mágica que neutralizaria a mágica de Circe, fora Clara, já que Ulisses pedira a ajuda da lua com fervor, e ela se compadecera de seu infortúnio. Sim, ela era uma grande tola à altura.

Na vida real, Clara e Ricardo pareciam seguir uma espécie de roteiro de filme: a primeira transa (tensa e suave), conhecer a filha dele, apresentar Ricardo aos seus alunos de Latim e de Grego da Federal, uma briga boba quando ele insistiu que ela provasse os cookies que a filha tinha feito (que seriam hipoalergênicos, ela garantia)…

 

***

 

Clara despertou com a boca seca e amarga. Observou a paisagem através da janela do quarto e o dia amanhecera choroso, um mosaico de tons de cinza. Fazia frio, mas a lembrança de Ricardo lhe trazia algum calor.

Levantou-se mecanicamente e foi até a cozinha. Pegou um bowl bem fundo e o encheu com sementes vermelhas. Sentou-se no sofá, junto do telefone. Inspirou, como que para tomar coragem, e ligou para Ricardo.

– Oi, Rick. Pode falar? Precisamos conversar.

– Hã, claro. Aconteceu alguma coisa, Clarinha?

– Sim – ela respirou fundo e concentrou-se. – Pensei muito hoje, analisei meus sentimentos a fundo e, sinceramente, eu não te amo, Ricardo, e não vejo futuro em nossa relação. Não quero mais continuar esse nosso teatrinho de casalzinho feliz.

Ricardo, do outro lado da linha, devia ter expressão incrédula no rosto. Um misto de apreensão, medo e tristeza antecipada.

– Meu, meu bem, como assim? Estava tudo bem! Vo-você estava tão feliz anteontem. Rimos tanto! O que aconteceu? O que foi que eu fiz?

– O que eu te disse: acho que nunca realmente gostei de você. Você é pegajoso, sei lá. Meio burro e se achando o máximo com essa coisa de vinhos e filmes cults. Tem uma conversa desagradável e um tom de voz, francamente, afeminado. Juro, Ricardo, em nossa primeira conversa por telefone pensei em desistir.

Ricardo soluçava do outro lado da linha.

– Não, não, não… Eu não entendo! Eu-eu te amo, droga! Você sabe disso! Não faz isso comigo, Clara. A gente ia morar junto, porra. Eu ia aprender a cozinhar pratos que você poderia comer…

Uma lágrima traidora desceu pelo rosto de Clara e pingou dentro do bowl. Ela continuou com a voz quase firme: – Estamos alongando o desnecessário. Eu mereço coisa melhor. Terminamos aqui, ok? Sem mágoas, sem neuras. Não me procure mais, a gente se esbarra por aí… Tchau!

Ela desligou sem deixar que ele falasse mais. Sua voz saiu meio desafinada de seus lábios, como se não quisessem vomitar tal fluxo de mentiras.

As lágrimas desceram então abundantes, e ela gemeu e curvou-se. As sementes, regadas por “águas da dor verdadeira”, começaram a brotar – cresceram impossivelmente rápidas, estenderam gavinhas e folhas e abriram flores cor de rubi que logo se converteram em frutos carnudos e cheios de novas sementes.

Clara destacou um dos frutos e o mordeu. Sumo doce e avermelhado manchou seus lábios sem cor, e a dor da fome constante, finalmente, começou a evanescer.

Correu à cozinha, seus olhos embaçados mal vislumbravam o caminho, e ela esbarrava na mobília. Retornou com outros vasilhames cheios de sementes, e uivou, e se desesperou, enquanto um pomar rubro crescia.

Quando Circe a amaldiçoou, a viver como humana e somente podendo se alimentar daqueles frutos encantados, o castigo não parecera tão mau. Ao menos, as primeiras centenas de anos, quando apenas sua situação vexatória já fora suficiente para fazê-la chorar. O tempo, contudo, o tempo fora implacável, e seu coração já não se impressionava mais tão facilmente. Teve que tomar providências: assistiu execuções, pagou a mães para contarem as tristes histórias de seus anjinhos falecidos, foi enfermeira de doentes desenganados e contava em desenvolver amizade sincera com esses antes do inevitável. Trabalhou em orfanatos, procurava por guerras e conflitos como um abutre fareja carniça no ar. Porém, tudo gastava, tudo perdia o verniz de novidade, e as velhas fórmulas começaram a falhar. Todas!

Voltou-se à literatura. “Romeu e Julieta” ajudou-a um dia, como “Édipo Rei” já o fizera também. Mais recentemente descobriu os filmes, e colecionara aqueles que lhe garantiram muitas refeições.

Comeu outro fruto e sentiu-se saciada. Os frutos nunca estragavam, pelo menos. Separou as sementes e colocou-as para secar sobre uma folha de jornal, para guardar nos frascos depois.

Chorou mais, até que as lágrimas enfim secaram, ao menos por enquanto. Pensou em Ricardo e no mal que acabara de lhe causar e sentiu uma dor aguda e um aperto na garganta. Perguntou-se então, profundamente infeliz e envergonhada pelo próprio cinismo: quanto tempo ele ainda lhe renderia?

E o que ela teria que fazer depois?

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Informação

Publicado em 17 de fevereiro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 1, Série A.