EntreContos

Detox Literário.

Passageiro 3J (Javaleu)

Naquela noite Ronaldo foi um dos primeiros passageiros a embarcar no Boeing 767-300, que estava prestes a deixar Detroit com destino a Guarulhos. Em seu ticket, recém-impresso, o assento 3J confirmava que ele finalmente seria um executivo na classe executiva.

Entrou no avião com passos ansiosos e a cabeça erguida. Antes de se sentar, conferiu o número de sua poltrona no bilhete, fingindo não saber de cor o lugar recém-conquistado. Guardou sua mala, com a ajuda da prestativa comissária, e se sentou na espaçosa poltrona de couro como se relaxasse no sofá de sua casa. Fingindo que nada daquilo era novidade, passou os olhos atentos pelos dois metros quadrados reservados a ele naquele voo. Logo notou uma necessaire encaixada ao lado do seu encosto de braço. Como criança em noite de Natal, abriu a pequena bolsa e vasculhou seu conteúdo. Entre meias, escova de dentes, tapa-ouvidos e tapa-olhos, havia alguns produtos em miniatura da marca francesa Loccitane. Imediatamente se lembrou de sua esposa Luciana e do fato de não ter comprado nada para ela naquela viagem. Deixou escapar um sorrisinho de contentamento.

Então, a comissária apareceu com uma bandeja de espumantes. Ronaldo guardou a necessaire e destravou rapidamente a mesinha de refeição, com medo de que ela imaginasse que ele recusaria uma taça de espumante. Coisa eu ele não faria, fosse francês ou não. Com a bebida borbulhante sobre a mesa, Ronaldo não conseguiu evitar. Sacou o celular do bolso e fez sua primeira fotografia. Para dar um ar mais cult ao cenário, selecionou um filme europeu na televisão individual e colocou a taça em uma posição estratégica, mostrando a tela ao fundo. Depois, partiu para a rodada de selfies, todas feitas com o cuidado de valorizar o tamanho e o conforto de sua poltrona. Vislumbrando os inúmeros likes invejosos que receberia assim que postasse aquelas imagens no Instagram, Ronaldo se deixou levar pela vaidade. Enquanto fazia poses para a câmera do celular, ele perdia a pose de executivo frequente perante seus colegas de cabine.

Os cliques só cessaram com a aproximação da comissária com o cardápio das refeições. Trocando o celular pelos óculos, Ronaldo se empenhou na tarefa de escolher a melhor opção entre as três oferecidas e combiná-las harmoniosamente com a carta de vinhos. Quando a comissária retornou para anotar seu pedido, Ronaldo já havia se decidido pela salada de camarões, carré de vitelo com aspargos e risoto com queijo brie. De sobremesa, creme brulée. Se sentiu em Paris.

Assim que Ronaldo começou a testar os botões que reclinavam sua poltrona, uma voz pediu que todos retornassem seus encostos para a aposição vertical. A sua diversão precisou ser adiada em alguns minutos. Mas, assim que o aviso de atar cintos foi desligado, Ronaldo começou a dedilhar o pequeno controle com setas e botões, colocando a poltrona em todas as posições possíveis. Quando a cadeira virou uma cama, ele ajeitou seu travesseiro branco, se cobriu com o cobertor de plumas e fez uma self com cara de sono.

Uma hora depois, a comissária entrou na cabine com toalhinhas quentes e úmidas para as mãos. Ronaldo retornou a poltrona para a posição vertical e destravou rapidamente sua mesinha. Seu estômago roncou de fome. “A comida vai vir quentinha, numa louça branca. Aposto. E os talheres vão ser de inox. Tenho certeza. Talvez tenha até toalha”, pensava enquanto passava a toalhinha nas mãos.

Mas seus pensamentos foram bruscamente interrompidos por um forte chacoalhão na aeronave. O sinal de atar cintos se acendeu e a chefe de cabine avisou que estavam entrando em uma área de turbulência. Deveriam permanecer todos sentados e com os cintos afivelados. Então, a turbulência veio com tudo. O avião desceu e subiu, balançando intensamente. Enquanto isso, Ronaldo apertava o macio e acolchoado encosto de braço com toda a força.

A louça não servida começou a sacolejar no carrinho atrás da cortina e Ronaldo se lembrou do vitelo quentinho na travessa branca. Sentiu receio pelas louças e temeu pelo jantar tardio requentado. Quando a turbulência aumentou ainda mais, ele temeu pela própria vida.

Quando os pensamentos mais mórbidos invadiram sua cabeça, ele se lembrou de um amigo que uma vez o havia alertado para o fato de que quanto mais ele voasse maior seria a probabilidade de que ele morresse em um acidente aéreo. “É questão de estatística”, disse o amigo, dando tapinhas em seus ombros.

Quando uma das sacolejadas abriu a cortina e Ronaldo viu a comissária com as mãos sobre o rosto, ele teve a certeza de que naquele dia ele entraria para as estatísticas. Depois de rezar um pai nosso e uma ave maria, se lembrou das imagens armazenadas em seu celular que provavelmente nunca seriam postadas no Instagram. Naquele instante, ele foi tomado por um novo desespero. Se virando para o passageiro da poltrona ao lado, perguntou:

— O senhor sabe se aqui na business tem wifi?

O homem franziu a testa e balançou a cabeça.

Ronaldo soltou um suspiro de descontentamento. Então, se lembrou dos produtos Loccitane que certamente não conseguiria entregar à sua esposa. Sentiu pena da futura viúva. Abriu a necessaire e se lambuzou de creme francês. Passou nas mãos, nos braços e no rosto. Depois, cobriu os lábios com o protetor labial. Então, olhou para o kit de higiene bucal e se lembrou novamente do vitelo que nunca chegaria a sujar seus dentes.

Mais alguns minutos de forte turbulência e a aeronave parou de chacoalhar. Os passageiros, business ou não, bateram até palmas.

Cerca de 40 minutos depois, foi servido o jantar, exatamente como Ronaldo previra. Em louças brancas, com talheres de inox e toalha branca. Requentada. Como se fosse sua primeira refeição na nova vida, ele lambeu os beiços lambuzados de vitelo e protetor labial. Após a sobremesa, colocou um filme de ação no seu televisor, um título bem diferente daquele europeu que ele havia fotografado como pano de fundo. Quando o sono chegou, reclinou novamente a poltrona e dormiu o sono dos justos e sobreviventes.

Quando o avião pousou, Ronaldo se despediu da classe executiva como um executivo se despede das tão aguardadas férias. Assim que encontrou a esposa no saguão do aeroporto de Cumbica, foi ao seu encontro e lhe deu um abraço com cheiro de creme Loccitane. Um pouco assustada, Luciana olhou para o esposo, passou as mãos sobre seu rosto macio e perguntou:

— Foi bom o voo, amor? Ouvi um senhor comentando que teve muita turbulência.

— Turbulência? Não senti. Vai ver que na business balança menos — respondeu, entregando a ela a necessaire vazia.

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Informação

Publicado em 17 de fevereiro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 1, Série C-Final, Série C3.