EntreContos

Detox Literário.

O Vaso Milenar (Hefesto)

Marcus fechou o livro e respirou fundo, navegando pela sensação que o assomava sempre que terminava uma leitura. Levou algum tempo até que se levantasse da poltrona e pusesse o livro de volta na estante, onde ficaria pela eternidade. Aos poucos voltava à realidade, lembrando-se de onde estava. Ao seu redor e acima, uma miríade incontável de livros seguia em um espiral que subia os trinta e cinco andares da torre. Uma pessoa levaria o tempo de uma vida para terminar de ler mesmo os livros de um só andar. Ainda assim, conforme caminhava pelas estantes, Marcus reconhecia-os quase todos, tendo lido um sim, um não. Passara tanto tempo naquele lugar que saberia responder onde estava qualquer escrito, perguntassem por título ou por autor.

Súbito, os pensamentos que tentava evitar voltaram a assaltar sua mente. A leitura o ajudava a fugir daquele tipo de reflexão, mas o efeito parecia durar apenas enquanto estava imerso nas páginas de um livro. Agora, a agonia que sentia voltava. Tentou desfazer os pensamentos que se formavam e a primeira coisa que lhe veio à mente foi uma boa refeição, algo que não fazia há dias. Pôs-se a caminhar até a despensa, sem pensar direito na rota que traçaria até lá.

O Vaso ficava no corredor que ligava a despensa e a cozinha com a biblioteca e a sala de estar.

Quando alcançou a interseção os olhos dançaram até ele e os pés interromperam a caminhada inconscientemente. Estava a poucos passos de distância. A luz do sol refletia pela torre inteira através de espelhos para encontrar aquela saleta e iluminar com toda a força a beleza de sua porcelana. O Vaso não era grande. Poderia abraçá-lo sem esforço. Tinha duas alças laterais e era de um tom creme que, sob a luz constante do sol, lembrava o ouro embaçado da coroa de um rei. Na superfície constavam desenhos em baixo relevo: histórias do tempo e do lugar em que foi manufaturado. Falavam de seu criador, e também de quem o levara até ali. Acima de tudo, porém, as gravuras falavam sobre o seu conteúdo.

Sem notar, Marcus deu um passo em sua direção.

O Vaso tinha uma tampa. Era simples e parecia fácil de abrir. Fora ele quem o tampou; disso ele lembrava. A tampa agora o convidava. Marcus queria sair dali; queria deixar o vaso livre novamente. 

Mas era ele, afinal, quem queria abrir O Vaso? Ou era o artefato quem o compelia com pensamentos de uma liberdade falsa?

Notou que estava a meio caminho de cometer um erro. Resolveu sair dali em um rompante.

A refeição funcionou. Dormir também funcionou. Ler mais livros, tomar um bom banho quente na cisterna; observar o exterior da torre através dos vitrais intransponíveis. Tudo isso funcionava por algum tempo. No fim, porém, seus pensamentos sempre voltavam aos mesmos lugares: à solidão de estar ali; à saudade de tudo o que o mundo poderia oferecer; às possibilidades que jamais conseguiu explorar.

Tudo se resumia ao maldito Vaso.

Levou mais três anos – o que eram três quando se tinha dois mil? – para tomar a derradeira decisão. Certo dia acordou e sequer calçou as sandálias. Andou em uma rota retilínea – quase robótica – até O Vaso e, antes que se arrependesse, abriu-o.

 

 

Perdida em memórias, Pâmela desfrutava de um jantar quase perfeito. O sabor tinha um tom divino, algo que não experimentava há eras. Seu quarto no hotel era uma cobertura diante da Avenida Atlântica; estadia que custava mais do que muitos não ganhariam em um ano. Estava sentada do lado de fora, aproveitando a carícia do vento e a visão privilegiada da baía. As vestes de seda caíam perfeitas sobre a pele, os pés estavam esticados sobre um escabelo tão aconchegante quanto a poltrona onde se sentava. De fato, se havia algo que a incomodava e que tornava a noite um pouco aquém da perfeição era o maldito calor.

Sentia falta do clima mais ameno da Macedônia, ou até mesmo da neve do Monte Olimpo, a qual gostava de sentir com os pés desnudos. Tinha saudades do som aconchegante do crepitar de uma lareira e do conforto das roupas grossas de pele animal. Mas aquela era outra época; uma em que ainda usava o seu primeiro nome e quando sua personalidade era tão diferente de hoje quanto o mundo inteiro havia mudado desde então. O aprendizado e a evolução de seu caráter foram tão drásticos que sequer sabia se o que sentia era saudade ou a simples admiração por uma pessoa que não ela mesma.

Apesar da dificuldade para adaptar-se ao clima, estava gostando de sua estadia na América Latina. O nome “Pâmela” soava bem, diferente de alguns que teve de assumir na Europa. Não sabia por que havia adiado uma viagem pelo mundo por tanto tempo. Enquanto levava mais uma garfada à boca e se deliciava com a comida impecável, perguntava-se para onde iria depois. Estava indecisa entre Argentina e Chile, mas havia uma constante que atrapalhava os seus planos.

Sete anos.

Tudo ficará melhor, ela travava uma conversa consigo mesma, queria que eles ainda estivessem vivos para presenciar o que tanto negaram que aconteceria. Queria que vissem com os próprios olhos a “que tudo tira” tornar-se a “que tudo presenteia”.

“A salvadora da humanidade.”

Pâmela sorriu com aquele título autoconferido. Apenas os deuses – eles mesmos duvidosos daquela empreitada – a veriam triunfar. A certeza de que Zeus se contorcia de raiva no Olimpo já era mais do que suficiente para fazer toda aquela espera valer a pena. 

Como de praxe, porém, com a sua incômoda tendência ao azar, ouviu duas batidas na porta de seu quarto enquanto ainda sorria com o vislumbre do próprio triunfo.

– Sim?

– Sou eu, Madame – era a voz grave de Cedálion, seu companheiro há eras, falando no grego antigo como sempre.

– Entre – ela respondeu na mesma língua.

A porta quase não fez som ao abrir. Pâmela ouviu os passos de Cedálion atravessando a sala de estar e alcançando o piso de madeira da ampla sacada.

– Está quente, Madame. Não gostaria de entrar para o ar-condicionado?

– Você quer mesmo que eu te lembre que odeio essa coisa?

Ela pôde sentir o sorriso do companheiro às suas costas mesmo sem fitá-lo.

– O que o traz aqui a esta hora, Cedálion?

– A senhora tem uma visita.

Pâmela precisou de um segundo para processar a informação. Ela não recebia visitas. Nunca.

– Não entendo…

– É Marcus, minha senhora.

Ela o encarou com olhos incrédulos.

– Você deve ter confundido com alguém.

– Tenho certeza de que é ele.

Cedálion mantinha seu costumeiro semblante impassível, o sorriso uma lembrança distante. Pâmela afundou o corpo na poltrona, sem querer acreditar no que ouvia, mas com a plena certeza de que Cedálion jamais mentiria sobre aquilo. Já não queria olhar para o companheiro; na verdade, não queria a companhia de ninguém.

Sete anos. Sete malditos anos.

– Sabe, Cedálion, às vezes eu esqueço que você está aqui não por mim, mas por eles.

– A madame sabe que isto não é verdade. Os deuses não precisam de olhos para vigiá-la.

Mas precisam de alguém ao meu lado para manter constante a humilhação, ela pensou. Como não recebia sua resposta Cedálion pigarreou, ao que ela suspirou.

– Mande-o entrar.

– Agora mesmo.

Poucos minutos depois surgia diante dela um Marcus confuso e de passos desconfiados. Cada metro conquistado era acompanhado por olhares para todas as direções. Ele pareceu demorar para entender que deveria se sentar; na verdade, demorou mesmo para reconhecê-la. Quando o fez, os olhos se abriram em certo espanto e começou a falar em latim – língua que ela não ouvia há séculos.

– Pandora?

Ela não pôde recebê-lo com a costumeira polidez. Se abrisse a boca, tinha medo de devorá-lo vivo. Fuzilava-o com olhos de fogo, algo que Marcus parecia ignorar, tão vislumbrado estava com os arredores. O homem continuou a tagarelar sem notar a situação na qual se encontrava.

– Dois mil anos fazem tudo mudar… não é? Estas luzes são… cegantes.

Pandora levou algum tempo para se recompor.

– Você se acostuma. O que esperava? Carroças, esterco e latrinas ao céu aberto?

Marcus finalmente entendeu que havia feito algo de muito errado quando notou o tom de voz de Pandora.

– Você mencionou que eu poderia sair após mil anos… – ele se apressou em lembrá-la.

– Sim, mencionei.

– Esperei que algo acontecesse após o primeiro milênio, mas nada aconteceu. Eu não queria mesmo sair. No início achei que aquele era o lugar perfeito para se viver para sempre, por isso fiquei mais tempo. Mas enfim, estou aqui.

O homem ainda desviava o olhar quando algo que não conhecia vinha ao campo de visão.

– Então… onde está a recompensa a mim prometida? – ele emendou.

– Não haverá recompensa, Marcus.

– Eu não entendo.

– Você passou novecentos e noventa e três anos lá.

– Isto é impossível! Com certeza passei mais de dois mil anos na torre…

– Como sabe disso?

– Eu contei… – mas a voz do homem já não era segura.

– Como? Não havia dia nem noite. Não haviam relógios.

– Eu dormi… – Marcus se perdia nas palavras.

– Você não precisava dormir. Dormia por quê assim desejava, mas não por que necessitava.

– Mas… a sensação…

– É algo arbitrário – ela o interrompeu – algo subjetivo. A mente é facilmente manipulável. Você falhou comigo, Marcus. Falhou com toda a humanidade. Faltaram-lhe sete anos.

Àquilo o homem não tinha resposta, então calou-se, mergulhando em um profundo silêncio. Pandora estapeou a mesa em um rompante, fazendo prato e talheres tilintarem.

– Sete anos! Sua cria de…

Ela queria estrangulá-lo mas conseguiu reunir forças para se conter. Voltou a sentar. Seguiu-se um silêncio pontuado apenas pelo vento que uivava pelas portas de vidro. Nenhum dos dois ousava olhar nos olhos de seu interlocutor. Por fim, após toda a informação ter afundado em seu entendimento, Marcus indagou:

– O que vai acontecer agora?

– Cedálion o acompanhará até a saída.

– Mas…

– Se eu ouvir mais uma palavra vinda de você, eu o jogarei daqui de cima. Agora saia!

Cedálion pôs uma mão sobre o ombro do romano. Marcus dirigiu um último olhar a Pandora, mas ela sequer se dignava a encará-lo novamente. A testa enrugada da mulher, porém, era sinal claro de que a ira se mantinha e sua última frase não era um blefe. Tentando manter consigo o resquício de honra que ainda havia nele, Marcus livrou-se da mão de Cedálion, levantou-se e foi ele mesmo até a saída.

Apenas quando ouviu o som da porta no batente foi que Cedálion puxou uma cadeira para se sentar ao lado de Pandora. Não olhou para ela; ao invés disso, aproveitou o peso do momento para refletir e, como sua senhora fazia anteriormente, aproveitar a brisa do mar e a vista da Cidade Maravilhosa.

– Ele não vai aguentar um mês aí fora – comentou o companheiro D’aquela que Tudo Tira.

– Não sei. Talvez ele dê a sorte de alguém que realmente saiba latim encontrá-lo tagarelando pelas ruas e revelá-lo como um grande fenômeno ou coisa parecida.

– Isto não vai acontecer.

– Da forma como eu carrego azar para tudo o que toco? Provavelmente não. É de supor ele morrerá nas ruas, um pedinte considerado louco e roubado de tudo o que um dia teve.

– Ele teve muito mais do que a maioria. Viveu o tempo de muitas vidas. Não creio que tenha do que reclamar.

Pandora não o respondeu, mergulhando em um novo silêncio perturbador. Amaldiçoava em pensamentos, vez após vez, o conhecimento de Zeus sobre a própria criação. Ainda lembrava de quando foi até Ele, aflita, pedindo uma chance para redimir o próprio erro. As memórias eram claras como as do dia anterior. Ela se ajoelhou, após dias com a mente tão atribulada que sequer desejava se alimentar. Exigiu justiça. Exigiu a oportunidade de desfazer o que fora senão uma tramoia do Deus Pai, usando como argumento o fato de ela ter sido apenas uma ferramenta de vingança, mas que toda a aflição do mundo agora pesava em seus ombros. Atena compadecia-se dela. Afrodite também. Exceto alguns casos específicos, as mulheres do Olimpo tinham o conveniente costume de unir-se, especialmente quando o objetivo em comum era desafiar o próprio pai.

A resposta que Pandora obteve foi rápida e veio junto a um sorriso do qual ela deveria ter desconfiado.

O vaso só pode ser aberto por uma mulher, e só pode ser fechado por um homem – Zeus esclareceu – Todos os males que dele saíram voltarão a ele após mil anos em que permanecer fechado. Na primeira hora do primeiro dia após o milésimo ano, todos os males do mundo serão revogados. Não haverá mais sofrimento, fome ou guerra. Sua sina, então, estará cumprida e você, por fim, estará livre.

Pandora lembrava de ter sorrido naquele momento. Estava feliz em simplesmente ter uma chance. Os detalhes que foram explicados a ela em seguida pareciam apenas aquilo: detalhes. Não sabia que tornariam a tarefa digna de um dos trabalhos de Hércules:

O homem que fechar o vaso deve permanecer dentro da torre, sozinho, até que os mil anos se passem;

Se o vaso for aberto antes do tempo determinado, todo o tempo em que permaneceu fechado será perdido;

O homem que permanecer dentro da torre não poderá saber da passagem do tempo de nenhuma forma; ele também não envelhecerá, nem sentirá a vontade de dormir ou de se alimentar;

Por fim, Pandora, você ficará condenada a viver até que a tarefa seja cumprida, preparando a torre para a estadia do escolhido como desejar antes de convidá-lo a entrar.

Na sacada, Cedálion partilhava com ela o silêncio.

– É a quinta vez que você senta ao meu lado após um momento como este – ela quebrou o silêncio em um súbito raciocínio – e nunca sequer disse “eu avisei”.

– A senhora não acredita quando digo que estou ao seu lado, não importa quantos séculos se passem – e, após uma longa pausa, emendou – creio que, como você, eu também acredito nos homens.

– Você não acha que os deuses estão caçoando de nós? Não acha que Zeus sabia muito bem da própria criação para deixar que eu sequer tentasse isso?

– Faltaram sete anos para Marcus, senhora. Enquanto a senhora tem a tendência de achar que eles estão festejando e rindo de nossa situação em algum lugar do Olimpo, eu gosto de pensar que Zeus acaba de sentar em seu trono e secar uma gota de suor que aos poucos se formava em sua testa há algumas dezenas de anos. Gosto de imaginar que, neste exato momento, ele teme por quanto tempo o próximo que a senhora escolher poderá permanecer na torre.

Pandora voltou a sorrir. Sim, imaginar o Deus Pai sentado em seu trono aliviado por ter ganho mais mil anos de espera era ruim mas, ao mesmo tempo, reconfortante. Quase cômico, ela diria. Se ainda vivesse em sua vida anterior ela gargalharia, mas a Pandora mais velha tinha prioridades claras diante de si. Tinha que começar a trabalhar para encontrar o seu próximo candidato.

Ainda havia esperança.

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Informação

Publicado em 17 de fevereiro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 1, Série A.