EntreContos

Detox Literário.

Os Dois Lados da Penteadeira (Tesserática)

Diziam relatos que a penteadeira amaldiçoada estava abandonada no sótão da casa do Seu Damião, e o mais ressentido com isso era ele. Motivos para chamá-la assim não faltavam, sem dúvidas; afinal, o móvel era de sua falecida esposa.

Mas Maria nunca entendeu o motivo do temor de seu pai.

Damião era um homem corpulento e imponente. Sempre fora frio, inexpressivo, e quem o equilibrava era a esposa, a única que ainda conseguia tocar nas profundezas escondidas daquele coração. No entanto, depois da sua morte, mergulhara numa melancolia ainda maior e que Maria aprendeu a aceitar, mas nunca entendeu. Não sabia o nome da mãe, nem mesmo havia visto uma imagem dela.

As rotinas específicas, as ordens e o silêncio predominavam sempre que pai e filha estavam juntos. Perguntas e conversas serviam apenas para assuntos necessários e qualquer perda de tempo era inconveniente. Damião criava a filha a amadurecer e aprender a lidar desde cedo com as crueldades da vida. Ela sempre pensou demais.

 

***

 

A primeira vez que Maria adentrou a penteadeira foi em um momento de obstinada coragem; num lapso de euforia e mágoa com tanta frieza. Tudo havia sumido ao sentar em frente ao espelho velho.

O local lembrava um céu noturno, e frequentemente enxergava pontos luminosos piscando em um sinal de cumprimento à visitante. Maria caminhava sob uma ponte de miúdas pedrinhas brilhantes que se formavam a cada passo que ela dava. Caso parasse no caminho, elas seguiam tanto em frente quanto em curvas, acima ou abaixo em horizontes infinitos. Contavam à menina sobre as diversas opções a seguir.

Não havia notado isso, no entanto.

Seus olhos voltavam-se às inúmeras paredes a cada lado que ousasse observar. Para uma criança, era uma percepção válida. Mas seria necessário ao leitor uma alteração da perspectiva, contrariando um conceito, por mais familiar que fosse à percepção. Apesar disso, a menina enxergava diversas cenas. Inúmeras telas de televisão ligadas uma a outra, como ela diria. Nelas, a figura de uma mulher de costas era apresentada, pintando os mais belos retratos.

Maria ousou aproximar-se de uma tela, sem tocá-la. Não ouvia a mulher, mas podia enxergar seus lábios se movimentando, como se cantasse ou conversasse divertidamente consigo. Movia o pincel agilmente, com destreza. Vez ou outra, virava o rosto em direção à Maria e sorria. A menina, assustada, se ajoelhava na tentativa de se esconder; mas a mulher apenas continuava a pintar. Depois de um tempo, notou que todas as cenas eram praticamente iguais. Não maior foi o susto com isso. Eram pinturas admiráveis.

Ali estavam escondidas todas as cenas mais belas que a menina tinha visto.

— É lindo, não é?

Essa voz ressoou, mas não soube ao certo quem a pronunciara. Havia um vulto humanoide vermelho brilhante caminhando energicamente ao seu lado. Seu rosto era indefinido, não havia qualquer referência que ajudasse Maria a identificar se estava falando com ela ou simplesmente com os meros ventos. Mas, por alguma razão alheia aos entendimentos do leitor, a menina considerou que era ela a principal ouvinte.

— Creio que você ainda não me apresentou seu coração. — ele curvou-se em uma reverência delicada. — Emo de São, muito prazer.

— Eu deveria… apresentar o meu coração? — perguntou, com cautela.

— Pessoalmente, eu estou nas melhores pessoas…

— Depois eu quem sou esnobe.

A figura que caminhava nobremente ao lado oposto de Maria tinha o tom de pele rosado, também sem rosto definido, mas sua cabeça era devidamente grotesca. Ao contrário de Emo, com a essência calorosa bastante perceptível, caminhava com discrição e lentamente, precavido, apenas para acompanhar os passos de Maria. Seguia a menina como se fosse sua sombra.

— Você é esnobe por natureza, Razio. — Emo retrucou. — Eu sou esnobe quando posso ser esnobe.

Aquele que se chamava Razio soltou uma risadinha debochada.

— Meu nome é Razio Nalidad, você está segura por me ter ao seu lado, menina. Felizmente, estamos bem unidos.

Maria observou o delicado fio dourado que seguia de seus cabelos até o tronco de Razio, onde estaria localizado seu coração. Emo ignorou a indireta com desdém e prosseguiu: — Está vendo essas imagens, Maria? — agitou os braços ao redor. — Sou o mediador de tudo isso. Nada mais belo do que a comoção humana.

—  Você conhece esses quadros?  

— Eu sou apenas o bônus. A mais pura evidência de sentimento presente em todos eles. O mérito todo é de Diana.

Por um segundo, contemplaram a cena em que a mulher se aproximava da tela. Ela tinha uma beleza oriental peculiar na qual Maria também se identificava, com seu rosto redondo, os olhos puxados e o nariz atarracado. Os cabelos eram bagunçados e presos às pressas em um coque surrado; suas rugas nos contavam o tanto que sorria. Parecia conversar com eles, ainda que não ouvissem voz alguma.  

— Ela é… bonita. — murmurou Maria.

— Essa mulher já morreu. — Razio comentou.

— Existem métodos melhores de dizer isso! — e Emo reclamou. — Sim, ela era bonita, Maria. Uma artista sensacional.

— Por que ela conversa tanto com a gente? — perguntou a menina, assustada. — Queria poder ouvi-la. Mas eu não sei onde estou.

Era capaz de sentir ainda mais forte a presença do cabeçudo ao seu lado, apenas esperando que ela dissesse o que ele gostaria de ouvir. Emo ficava distante, não mais determinante.

— Você pode sair daqui se quiser. — comentou Razio. — Eu conheço o caminho.

A menina concordou, confusa.

 

***

 

— Você é incrível, Diana.

A mulher desviava o olhar de seu quadro para encarar o marido, atrás de si, segurando a filha de dois meses no colo. Ele exibia um sorriso mínimo, e bem menos esboçava alguma sutileza de prazer ao ver a esposa naquele ateliê improvisado e bagunçado no último andar da casa. Mas Diana sempre conseguiu enxergar além daquela máscara, afinal não era com ela que o marido passava a maior parte do tempo aprendendo a desenhar. Ele só não sabia expressar o quanto era grato em estar ao lado dela.

— Melhor acreditar que você ainda é cego diante da arte. — ela largou o pincel e observou os rabiscos iniciais do quadro. — Ou então vou admitir que seu conhecimento da abstração está melhor do que o meu.

— Garanto que não.

Eles observaram alguns quadros mal pintados ao fundo, com tintas escorrendo pela tela além de uma distorcida visão da realidade. Damião suspirou:

— Bom… apenas disse o que considero certo.

Diana conseguiu rir da inexpressão do marido. O nível de sua racionalidade era tão grande que ela apenas refletia sobre aquela escassez de sentimentalismo. Com Maria no colo, inquieta e sorridente, conseguiam um contraste ainda maior.

— Hoje eu vou considerar esse seu “certo” como uma coisa boa, porque foi um elogio.

— Como quiser. — ele concordou. — Você vai desenhá-la novamente?

— Sim, tive uma outra visão. Estava linda, usava um vestido florido tão meigo. Ela me lembra você, um pouco, sabia?

— Bobagem. Você sonha demais com isso. Deve ser de algum comercial da televisão, coisas assim. Ou você está alucinando de tanto olhar aquele espelho. — ele indicou a penteadeira negra ao canto do quarto com um aceno de cabeça.

— Que seja. O papai é muito chato, não é, Maria? — a mulher fez cócegas na bebê, que gracejou e começou a morder seu dedo. — É sim, é sim… e ela está com fome, querido. Coloca ela no carrinho que já desço.

O marido concordou, pensativo do quanto um bebê era capaz de se alimentar por dia, e saiu com a filha para fora do quarto. Diana continuava a terminar os traços iniciais do rosto da garota misteriosa, para então largar os pincéis e conferir rapidamente sua aparência no espelho da penteadeira. Ajeitava os cabelos, sorria; mas também observava aqueles olhinhos castanhos que lhe encaravam, curiosos. Era o resquício de um rosto apagado, querendo sair do espelho de algum lugar que Diana não conseguia entender.

Então, quanto mais a mulher sorria, ela sumia. Talvez Damião estivesse certo e poderia estar alucinando com sua criatividade. Mas ela nunca viria a saber.

— Diana!

Era o começo do único incêndio que presenciaria na vida. E último.

 

***

 

Passados os dias, Maria venceu aquele susto inicial e continuou a se encontrar com Emo na penteadeira. A cada dia lhe mostrava mais cenas e imagens de Diana e, de modo peculiar, criava caminhos através daquela imensidão do infinito cujas ideias Maria não sabia formular com clareza.

— Pule comigo! — Emo pediu, depois do primeiro salto. — Vamos seguir um pouco mais adiante.

A cada salto ela flutuava entre as estrelas, entre os quadros de Diana. Seus caminhos não tinham rumo certo. Sempre que podiam, paravam para contemplar alguma pintura; muitas, a menina notou, eram retratos de seus parentes distantes. As figuras então costumavam acenar para ela. Retribuía com bom grado e um conforto gostoso no coração.

Mas seu susto foi maior ao enxergar seu rosto em uma parede distante. Sem esperar Emo, lançou-se a frente e contemplou a cena. Diana terminava o retrato de uma menina de cabelos castanhos claros, pele cor de oliva e negros olhos puxados. Ela sorria, mas parecia distante.

A modelo era exatamente igual à Maria.

— Ela consegue me enxergar. — murmurou, incrédula. Soou mais como uma pergunta.

— Ela está morta, Maria. — ouviu a voz de Razio, entoando uma sentença. A garota então suspirava, ainda mais confusa.

— Ela… conseguia. Mas…

— Conseguia bastante. — Emo comentou, então ela mudou o foco de visão à outra tela.

Cresciam-se as pinturas em que o rosto de Maria estava retratado. Diversos, de vários tamanhos e cores. O rosto mais bem conhecido daquelas telas era única e exclusivamente dela. Inclusive, as roupas eram iguais às que usava quando visitava o mundo da penteadeira.

No entanto, uma cena mudou seu foco completamente. Além de Diana, um homem de costas ocupava metade da tela. Ele entregava um bebê à mulher e ela abria um sorriso enorme, levantando a criança no ar, fazendo-a gargalhar. Havia uma semelhança de olhares entre elas: os olhos puxados. O homem então caminhava pelo local, observando as pinturas. E quando se virou, Maria perdeu um compasso da sua respiração.

O rosto era mais jovem, mas sem dúvida Damião aparecia em uma conversa com a mulher, que continuava a brincar distraidamente com o bebê. Mas, num lapso, se aquele era seu pai…

— Ela é a sua mãe, Maria. — Razio afirmou. — Damião nunca lhe contou, mas Diana era o nome dela. E essa é você.

A menina não conseguia entender aquela sensação que cortava seu peito, muito menos entendia as lágrimas ardentes escorrendo em suas bochechas. Seu sorriso comovido era a única reação capaz de achar algum argumento: a primeira vez que enxergava sua mãe.

— Você é muito mais bela sorrindo. — Emo elogiou, num instante de pausa. A menina também se surpreendeu com a sensação gostosa do elogio.

— Eu queria… que você tivesse rosto.

— Eu tenho um. — ele contou. — Na verdade, tenho vários. Inclusive estou sendo contemplado por um deles agora…

Maria não entendeu de imediato, mas foi interrompida ao ouvir um grunhido atrás de si. Era o modo com o qual Razio reclamava de alguma situação. Para ele, não havia trabalho de pronunciar palavras avulsas, sem propósito.

— Razio permanece em silêncio porque não vê explicações a esse mundo. Considera uma perda de tempo, um mero acaso de uma mente imaginativa.

— E por que isso não seria bom?

Tanto Emo quanto Maria encararam Razio.

— Isso foge do meu consentimento. — respondeu, no que Emo revirou os olhos.

— Ele não tem é sentimento. — murmurou em um cochicho.

— E você não pensa.

 

***

 

Saber que aquela era sua mãe fez Maria passar cada vez mais em frente àquela penteadeira. Ela não se recordava mais dos riscos do pai de encontrá-la dentro daquele sótão, sequer lembrava de qualquer situação que não fosse o fato de sentar em frente ao espelho para encontrar com sua mãe. Sempre que voltava da escola, lá estava a garota imersa no tesserato extradimensional, conversando com Emo e ignorando as reclamações e alardes de Razio. A cada dia, o fio que ligava os dois estava mais fraco, e ele ficava mais para trás naquelas caminhadas agitadas de Maria.

Onde quer que estivesse, gostava de estar perto da mãe. Queria estar perto dela. Mas até o leitor reconheceria o som de um estômago faminto quando alarmado.

— Alguém está com fome. — afirmou Razio, logo atrás, em um sussurro quase inaudível.

— Eu estou bem.

— Maria, me escute. Você tem passado tempo demais aqui. — a voz dele era séria, quase forçada, mas preocupante. — Tempo demais.

— Alguém está querendo atenção? — Emo gargalhou. — Você pode voltar a ser ranzinza depois, Razio.

O humanoide rosado precisou de alguns segundos para recuperar a voz.

— Eu sou sensato. E não estou falando com você. Maria… me… ouça.

A menina continuaria andando se ele não puxasse o fio umbilical que os ligava. E ao coçar sua cabeça, ela o imitou. Isso a fez parar de caminhar e olhar para trás.

Foi um desconforto que lhe percorreu ao contemplá-lo.

— Não… me solte. — pediu. — Escute a minha voz.

Não podia simplesmente ignorá-lo. Sentia nele uma fragilidade que nunca aparentara; e inclusive Emo, contrariado, se apiedava da situação. Para sua surpresa, ele suspirou.

— Razio está certo. Você precisa voltar…

— E… dessa vez, não venha. — completou o outro, conseguindo erguer sua força com a hesitação de Maria.

Um instante de silêncio se formou. As cenas ao redor dos três continuavam sua trajetória nos horizontes flutuantes. Diana sorria, conversava, brincava com a bebê Maria e ria ao lado do marido. Era a visão perfeita. Os sonhos mais gratificantes que Maria conseguia… sentir.

— Mas eu não quero ficar longe de você. — contou a Emo. — Não quero… ficar longe da mamãe.

— Você nunca estará longe. Todo esse poder vem de você. E eu estou aqui, sempre. — gentil, ele tocou-lhe o coração. — Só lhe faço um pedido: fale ao mundo que eu existo, me expresse das mais variadas formas.

Maria concordou, ainda pensativa. Não confiava bastante em si para assumir a tarefa sozinha. Seus sentimentos ficavam tão melhor ali; era tudo mais fácil com eles.

— Sinta.

Quando a menina piscou, enxergou tudo embaçado. A escuridão prevaleceu e, antes que pudesse gritar, voltava ao sótão. Estava novamente em frente ao seu reflexo, sentada à beira da penteadeira. O sol iluminava parte do piso de madeira empoeirado, mas uma presença a fez levantar.

— Você não podia entrar aqui.

Damião a encarava, imóvel. Não sabia ao certo o quão magoado estava com a situação, até porque significava rememorar lembranças que ele preferia enterrar do mesmo modo como escondia a penteadeira no sótão. Porém, ao mero leitor, ele mantinha a postura e o rosto quase inexpressivo.

Maria abaixou a cabeça, sem resposta.

— Cabeça erguida. — o pai pediu. Um silêncio pesou entre eles, mas antes que perdesse a pergunta:

— Eu lembro a mamãe?

Podia quase ver a mágoa do pai, mesclando na tristeza dos olhos vermelhos e na insistente frieza. Era aquela máscara: evitava qualquer demonstração de sofrimento que lhe ardia a alma.

— Espero que esteja feliz. Agora você sabe quem era sua mãe.   

Ela entendeu. Estava novamente prestes a desistir quando se viu falando:

— O senhor… quer desenhar?

Por fora, ele não sorriu. Mas, por fim, concordou.

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Informação

Publicado em 17 de fevereiro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 1, Série C-Final, Série C3.