EntreContos

Detox Literário.

O Trabalho Mais Difícil de Kalil (Gabriel)

O estrondo interrompeu a conversa da galera.

– Tá com a mão furada? Toma cuidado Narciso! – ralhou um dos colegas.

O conteúdo da caixa se espalhou pelo chão e este se adiantou para ajudar o desastrado.

Os dois homens estavam agachados recolhendo os objetos antigos. Era a última caixa de doação para a associação que consertava as tralhas e depois vendia para a população por preços muito baixos.

Tratava-se de uma parceria da igreja com a associação. Narciso não queria estar ali, porém tinha faltado nos cultos pelo último mês inteiro. Queria compensar. O colega se levantou deixando Narciso terminar de recolher os objetos sozinho e comentou batendo as mãos para limpá-las:

– O Lucas disse que vai nos pagar pela ajuda. Ninguém aceite um centavo. – exigiu ele. – Estamos fazendo uma boa ação, não um trabalho.

– Eu quero pagamento. – declarou o novato.

Narciso não se recordava do nome do loirinho, mas concordou com a opinião dele. Se Lucas queria pagar, por que não podiam aceitar? Era tão simples.

Ele ia devolver a lâmpada para a caixa, mas hesitou. Era um pouco menor que uma lâmpada comum, com certeza era só para enfeite. Se perguntou quem teria aquele tipo de item para decoração.

Com a barra da camisa ele limpou a superfície de vidro. Os colegas deixaram a sala indo procurar o tal Lucas e avisar que tinham acabado. O próprio Narciso se levantou para segui-los e colocou o objeto no bolso.

Nem passou pela cabeça dele estar roubando, afinal o objeto não tinha dono ainda.

De repente a sala escureceu, ele sentiu uma rajada de ar passando por ele e um arrepio incômodo.

Os pelos da nuca se arrepiaram e ele ficou alerta, daquele jeito quando tem um cachorro bravo a espreita pronto pra morder a sua perna.

 – Marhabaan! Digo, olá! Eu sou Kalil, o gênio e estou aqui para te realizar três desejos. – disse a criatura com sotaque carregado e o tom forçado de vendedor.

Narciso estava paralisado. Os grandes olhos castanhos fixos no gênio que flutuava na frente dele. Como podia flutuar se não tinha asas? Essa era a pergunta que ecoava na mente do homem. Depois ele se perguntou porque ficou tudo escuro quando aquela coisa surgiu.

Analisou o corpo do gênio, era do tamanho de uma criança pequena. Usava um turbante azul escuro na cabeça, tinha barba castanha com alguns pelos ruivos, o nariz era achatado, exibia um sorriso simpático e ficava piscando os olhos vermelhos. Ou eram pretos?

O homem não ouviu as vozes dos colegas que retornavam à sala conversando com Lucas. Não percebeu que estava parado de boca aberta olhando para o gênio, nem sequer entendeu o sentido das palavras que escutou.

Então com um estalo ele compreendeu: O coração acelerou e ele sentiu as pernas amolecerem, ia desmaiar. Tudo aquilo só podia significar uma coisa.

– É o demônio! Jesus, me protege! Perdão por ter  faltado na igreja. Perdão ter gastado o dinheiro que ia contribuir na viagem missionária! A moto é tão rápida. Posso levar o Diego pra escola rapidinho!

Ele gritou dando passos para trás. Trombou em uma pilha de caixas e se desequilibrou. Quase caiu em cima dos pobres objetos frágeis, que seriam esmagados sob o peso do marmanjo de quarenta anos.

– Eu sou um gênio que realiza desejos,. Muito prazer. – tentou a criatura flutuando para perto de Narciso.

– Não me toque! Pai nosso que estás no céu! Santificado seja!

– Narciso, o que foi? – perguntou um dos colegas vindo socorrer o desorientado homem.

– Você está passando mau? – perguntou Lucas, coordenador do projeto.

– O demônio… vai embora Satanás! O nome de Jesus é mais forte!

– Eu mereço? – resmungou o gênio  sumindo com um estalo.

– Ouviram? – perguntou Lucas olhando em volta.

– Sim, foi ele. Não suportou ouvir o nome do Senhor! E eu vou dar o fora. Obrigado pela grana, Lucas. – ele disse pegando o dinheiro da mão do jovem a seu lado e caindo fora.

Narciso foi pra casa. Era fim de tarde e ele só queria que a esposa lhe preparasse a janta e o deixasse ver o futebol, Palmeiras contra Corinthians.

Contou o dinheiro que Lucas tinha dado de bom grado, era cem reais. Sorriu de alegria ao imaginar que poderia comprar a camisa que estava namorando na loja chique no caminho para o trabalho.

Esqueceu que o filho precisava de um fone de ouvido novo, ignorou o pedido da mulher sobre ajudar com uma das contas da casa.

Ele estava no ônibus calorento. Pensou em como seria ótimo ser rico, ter um carro com ar-condicionado, buzinando para os carros feios e baratos saírem da frente.

A janela estava empoeirada e ao passar a mão para limpar, ele pensou no episódio terrível na associação. Levou a mão ao bolso e resgatou a lampadinha de lá. Ficou olhando para ela como se quisesse desvendar um segredo.

Não tinha feito ainda a conexão entre esfregar a lâmpada e a aparição do “coisa ruim”. Nunca assistiu Aladin na vida. Achava que era filme de meninas.

Ia limpar o cantinho do vidro da lâmpada quando o ônibus freou e o objeto escapou dos dedos dele. Se repreendeu por ser tão desastrado e guardou-a no bolso.

Ao chegar em casa, deu com Camily na cozinha. A mulher e Diego, o filho de sete anos estavam terminando um bolo de chocolate.

Ambos sorriram para Narciso quando ele entrou.

– Oi amor, quer bolo?

– Vocês estão comendo o meu bolo? Eu comprei ele para o fim de semana! – esbravejou ele aceitando o pedaço que a mulher estendeu em um pratinho.

– É que eu ganhei um prêmio na escola – explicou Diego todo orgulhoso.

– Hummm. – fez ele com os olhos fixos na primeira página do jornal onde mostrava o casamento de uma atriz muito gata.

Diego mostrou seu troféu ao pai. Ele desviou o olhar e contemplou o objeto fazendo pouco caso.

– Isso justifica abrirem o meu bolo antes da hora?

– Estamos comemorando. Não é óbvio? – retrucou Camily chateada.

Diego guardou o troféu que era tão pequeno quanto o interesse do pai dele pelo acontecimento. Levantou da mesa lembrando das palavras da mãe, para nunca chorar na frente de quem te magoou e foi para o quarto.

Camily recolheu o prato do filho e jogou na pia com mais força que o necessário.

– O que foi? – perguntou Narciso sem compreender o motivo do clima ter mudado tão depressa.

Ele olhou para a mulher e pensou em contar a ela o que aconteceu na associação.

– Cami, hoje eu vi uma coisa horrível.

– Eu acabei de ver uma agorinha. – ela respondeu de costas para ele.

– O que foi que eu fiz?

– Pensa, vai acabar descobrindo. – garantiu ela terminando de lavar os pratos e enxugando as mãos no pano.

Narciso suspirou e foi para a sala assistir o jogo de futebol. Sentou no sofá esticando as pernas todo largado e aumentou o volume.

Alguns minutos depois Camily passou por ele e foi para o quarto de Diego.

Ao retornar, ela sentou ao lado dele e pegou a mão do marido.

– Seu filho está magoado. – ela contou tentando não ser grosseira como ele merecia.

– Esse moleque é muito sentimental. – irritou-se ele perdendo um lance incrível.

– Não fala assim do nosso filho! Você podia ser um pai melhor.

As palavras de Camily deixaram Narciso chateado. Não porque ele achasse que ela tinha razão, mas porque ela falava e tirava a concentração dele no jogo. Era melhor dar ouvidos à esposa.

– O que eu faço então? – ele perguntou olhando nos olhos verdes tão magníficos.

– Tem um filme que ele quer ver. Chama ele pra sala e assiste junto. – sugeriu ela com um sorriso.

– Tenho que me desculpar por não dar atenção ao prêmio?

– E por dar bronca sobre o bolo. – acrescentou ela inclinando-se para beijá-lo.

Em seguida ela saiu para ver a madrinha do filho.

Narciso foi até o quarto do menino e o encontrou deitado na cama.

– Filhão? Me desculpe te dar bronca. É que eu pretendia comer aquele bolo no sábado enquanto assistimos o programa de culinária que sua mãe adora. – explicou ele enquanto o menino ouvia sem responder.

Diego se virou para ele ainda em silêncio.

– Desculpe não te dar atenção. Seu prêmio foi pelo quê mesmo?

– Copa do mundo. Falei sobre as vezes que o Brasil venceu. Você me ajudou, por isso eu ganhei um dez.

Ele ficou orgulhoso do filho.

– Parabéns! E para me desculpar completamente, vamos assistir Maldições e Ambições?

– O mais assustador remake de Aladin? Já tô indo! – gritou o menino animado levantando da cama de um salto.

– Crianças. – resmungou Narciso indo atrás.

Mais tarde naquela noite, Narciso teve um pesadelo provocado pelo filme. Uma versão macabra onde Aladim fugia do gênio que queria matá-lo, da princesa que queria envenená-lo e só podia contar com o camelo e um tapete voador que eram quase inúteis.

Uma cena em particular o perturbou. Por conta dela Narciso acordou e foi no banheiro.

Caminhando nas pontas dos pés para que qualquer mal não pudesse ouvir, ele se aproximava da porta ao final do corredor.

– Olá, sou Kalil e estou pronto para realizar seus três desejos! – disse a voz do gênio que ainda não tinha conseguido cumprir seu trabalho.

Narciso porém ouviu apenas o “olá” e com o susto, acabou se aliviando nas calças no meio do corredor.

– Camily! O gênio veio me matar! – gritou ele aterrorizado.Ele

tirou as calças e quase escorregou no chão molhado.

– Faça seus desejos! Não aguento mais! – desabafou o gênio flutuando para perto dele.

– Socorro, Camily! – ele gritou enquanto a mulher veio em seu auxílio.

– Pai? – chamou Diego com olhos cheios de sono.

Ele acendeu a luz e viu o pai com as calças molhadas na mão, só de cueca, perto da porta do banheiro, tremendo de medo.

Narciso começou a bater em um ser imaginário mandando-o ir embora.

– Eu sabia que não era uma boa ideia ver filme de terror. Por que eu fui sugerir isso? – lamentou Camily vendo o marido continuar insultando e tentando acertar o nada com as calças.

– Era eu quem devia fazer pipi na cama. – ria Diego voltando para o quarto e fechando a porta.

Algumas semanas depois, Narciso ainda não conseguia esquecer os acontecimentos. Camily era da opinião que ele devia ir ao psicólogo.

Quando ele soube que podia ir e pegar um atestado para faltar as últimas duas horas do trabalho, aceitou a sugestão.

Já no consultório, achou estranho não ter uma recepcionista e ficou sentado na sala de espera.

O psicólogo se chamava  John Lalik e seguia cinco diferentes correntes da psicologia.

– Senhor Narciso? Entre por favor. – pediu a voz imponente.

Imediatamente Narciso obedeceu, aquela voz tinha uma coisa engraçada, era como o tom de autoridade de Camily.

Ele entrou no consultório vendo que o psicólogo estava sozinho.

– E seu paciente?

– Saiu pela outra porta. Não deixo entrarem e saírem pelos mesmos lugares, isso deixa as pessoas desconfortáveis. – explicou o homem levantando-se para cumprimentar o desconfiado Narciso.

Da janela entreaberta soprou uma rajada de vento que fechou a porta e narciso ficou incomodado.

– Boa tarde, venha, sente-se, vamos começar. Meu nome é John Lalik. Fiz graduação e pós em Massachusetts.

Narciso se sentou e olhou atentamente para o homem à frente dele.

Ele tinha pelo menos dois metros de altura, era magro, possuía traços orientais, um nariz pequeno, o charme devia ser aquela barba rala que em Narciso ficava um desastre. Ele já tinha tentado.

– Eu não queria estar aqui. – declarou ele.

– Essa é a primeira frase que escuto. Então por que veio?

– Por que minha mulher disse que eu preciso falar com alguém sobre meus pesadelos e alucinações.

– Que tipo de alucinações? Você usa alguma droga?

– Não! Eu só ando vendo o coisa ruim.

– Um político?

– Não! O diabo.

– Entendo. Me conte como foram essas aparições.

– Nos pesadelos ele surge do nada e me pergunta quais os meus três desejos.

– E você nunca diz.

– O pesadelo acaba nessa parte. Eu não entendo porque tenho que falar.

– Talvez você não saiba o que quer. Vamos fazer uma simulação? Vou fingir que sou a criatura terrível… – ele riu com sarcasmo. – E você me conta os três desejos.

– Isso vai ajudar?

– Confie em mim. Então, senhor Narciso, eu sou um gênio inofensivo. Só quero fazer meu trabalho e ir dormir por oitocentos anos. Pode me falar o que mais quer?

Narciso respirou fundo e olhou para o psicólogo. Aquela barba era mesmo charmosa. As mulheres deviam adorar. Ele notou alguns pelos avermelhados despontando aqui e ali.

– Eu… eu sei quem você é! Seu maldito! – disse Narciso se levantando e correndo para a porta.

– Está trancada. Me diga os seus desejos e você pode ir! – declarou o homem que na verdade era Kalil.

– Vou ligar pra polícia! – ameaçou Narciso pegando o celular.

O gênio transformou o celular dele em um marshmallow e o comeu.

– Hum, bom esse doce do século XXI. – ele viu Narciso correndo para a outra porta.

Vendo que não teria chance, ele foi para a janela.

– Qual é o problema! Qualquer pessoa adoraria encontrar um gênio que fizesse ela ser rica, famosa, bonita, inteligente…

Narciso parou de tentar ir embora.

– Posso pedir isso?

– Pode pedir qualquer coisa, gênio. Ah, não, o gênio sou eu! – ele riu da própria piada. – Eu não posso ir embora até executar meu trabalho.

Kalil leu a mente de narciso.

“Nada de Camily mandando em mim? Nada de levar Diego pra escola na minha moto nova? Nada de família comendo meu bolo do fim de semana?”.

Ele sorriu.

– Desejo que você não me persiga, que eu esqueça de você e que eu fique rico, morando no Havaí, com cinco esposas e um iate luxuoso.

– Concedido. – disse o gênio estalando os dedos e Narciso foi mandado para o Havaí.

Viu-se sobre o convés de um iate tão grande quanto um shopping. Ele olhou para o deque inferior e viu uma piscina e três lindas mulheres. Outras duas vinham na direção dele pelo convés usando biquinis ousados.

O gênio retornou para a lâmpada que estava na cabeceira de Narciso em casa.

Dias e dias se passaram e nada do homem voltar da consulta ao psicólogo.

Camily deu queixa do desaparecimento e tinha perguntado pelo marido pela vizinhança duas vezes. Diego sofria muito também. O pai podia não ser amável, gentil, ou interessado de fato na vida dele, mas ainda era seu pai. Diego preferia ele por perto sendo um mala do que não ter ninguém.

narciso por sua vez, guardou a família em uma caixinha no fundo da mente.

Não sabia como tinha de repente ido parar no iate, mas imaginou que havia ganhado na loteria.

Em casa, Diego acordou na cama dos pais. A mãe já estava fazendo café e ele se espreguiçou. Viu a lampadinha que o pai sempre carregava. Pegou-a e passou a mãozinha pelo objeto.

– Ola, me lhamo… digo, oi! Sou Kalil, o gênio e estou aqui para realizar três desejos.

– Desejo que meu pai volte pra casa!

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Informação

Publicado em 17 de fevereiro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 1, Série C3.