EntreContos

Detox Literário.

Drama (Glen&Glenda)

O cuidador – que era japonês e cego – empurrava a cadeira de rodas do baixinho que o contratara há muitos anos. A dupla passava pela frente de um muro longo em que havia diversos pôsteres de filmes, todos eles meio rasgados ou exemplarmente mal colados. Foi quando o pequeno chefe da cadeira de rodas puxou do bolso o folheto da programação e foi ditando ao outro.

– Está aqui. A sessão é às 17h00!

– Que maravilha! – disse o oriental.

– Sim, e pelo que consta aqui, vão exibir em película.

– Em 35mm? Que sorte!

–  Sim. Vamos rápido, não podemos nos atrasar!

Em passo mais apertado, aos trancos pelas calçadas, ainda lendo a programação, o pequeno era levado pelo cego e desviava os olhos do livreto somente para indicar – ele era como um GPS para o outro – os obstáculos e a direção onde virar. Eram fãs árduos de cinema e queriam chegar pelo menos uma hora antes.

No caminho, o oriental cantava o tema de abertura do filme – nããã, nã nã nanãmmm, nã nã nããammmm, nã nã nããmmmm – enquanto o amigo o acompanhava estalando os dedos. A empolgação era grande, há muitos anos não havia uma retrospectiva do famoso diretor italiano.

Logo que iam adentrar o cinema, o baixinho freou as rodas da cadeira com um tranco, quase machucando as mãos.

– O que é isso, ora? Vamos lá! – disse o japonês.

– Isso está muito estranho, acho que erramos de cinema.

– Ah, sim. Achei que você não ia perceber, ouvi no rádio que o cinema passou por uma reforma…

– Como é que eu não ia perceber? Isso aqui tá parecendo um shopping.

– Achei que não estivesse tão mudado.

– Sim! E que cheiro de pipoca! Parece que estou com um balde de pipoca enfiado na cabeça.

– Vamos nos acalmar… Onde fica a fila?

– A fila eu não sei, mas os banheiros devem ficar um horror, imagina essas privadas depois dessas toneladas de gordura – disse o baixinho e, relutante, guiou o japonês, passando na frente de todo o resto da fila da bilheteria, que era grande.

Com ingressos em mãos, o japonês percebeu que o amigo ficou mais calmo, então rodou com ele a esmo para lá e pra cá, quando algo chamou a atenção do pequenino.

– Pare aqui, camarada. Que ótimo! Eles colocaram cartazes de filmes antigos ao redor do saguão. Quero dar uma olhada.

– Puxa, e de que filmes estamos falando?

– Mais à esquerda, “Sublime Obsessão” e, ali, “Audazes e Malditos”!

O japonês, extasiado, passava os dedos pelos pôsteres.

– E este aqui, qual é? – perguntou.

– Ah, sim! “Amor na Tarde”. Mas o melhor está ali pra frente, vamos!

Havia um cartaz com o rosto de uma mulher em close.

– Eis aí, “O Beijo Amargo”! Assisti esse filme há muitos anos.

Foi então que reparou em outro pôster, bastante conhecido de tempos remotos, aquilo tinha ficado quase onipresente em sua cabeça e vê-lo ali não lhe fez nada bem. Fez com que respirasse fundo, travando as rodas da cadeira subitamente mais uma vez.

– O que foi agora? – disse o japonês.

– Aquele cartaz…

– Que cartaz?

– Ah, deixa pra lá.

– Agora desembucha!

– Naquele tempo eu namorava com a Claudete, e acabamos terminando por causa desse filme.

– Por causa de um filme?

– Sim, sim… – disse o baixinho.

– Mas quem é que termina namoro por causa de filme?

– Eu e a Claudete. Na verdade, o problema não foi o filme, o problema foi que eu NÃO CONSEGUI ver esse filme.

– Como é?

– Sim, foi naquele dia. Era um dia quente de 1986, estávamos meio sem dinheiro e eu tinha ganhado os ingressos nestas promoções de rádio, era um programa de rádio noturno que tocava trilhas sonoras e, como somente eu e uns cinco gatos pingados ouviam, não era difícil ganhar um ingresso ou coisa que valha de vez em quando. Entramos no cinema, frequentávamos muito os cinemas de rua, sempre vazios, e agora quase extintos… Enfim! Como sempre, nós pegávamos os assentos do meio para ter a melhor visão. Mas, naquele dia, eu não sei… A Claudete, ela… Não sei o que deu, me arrastou lá pro fundo, parecia possuída dentro da sala. O filme começou, e ela começou a me beijar feito uma louca. Me agarrava, mordia, puxava meus cabelos e, não fosse por mim, tínhamos transado ali mesmo.

– Mas isso não é normal entre os casais?

– Não entre eu e a Claudete. Nós gostávamos de ver o filme do começo ao fim. Éramos sempre os últimos a sair da sala, depois do último crédito final.

– Isso foi redundante, mas continua…

– O problema foi um só: ela trapaceou, e você vai entender o porquê. Depois da sessão, na cafeteria, eu não poderia discutir com ela, não tinha entendido nada sobre o filme, mas ela passou a comentar como uma grande expert. A garçonete, que também tinha visto, endossava as impressões dela e juntas discutiam, como se eu não existisse.

– Mas qual o problema disso?

– O problema é que sempre discutíamos de igual pra igual, brigávamos por causa de visões antagônicas sobre certa cena, diálogo ou detalhe, era saudável. Mas, daquela vez, não! Eu fiquei completamente rendido, o que era odioso para um cara como eu naquela época.

– Ah, só NAQUELA época? Entendo…

– Mas o pior foi depois! Possesso que estava e, lidando com as indagações da Claudete e as risadinhas da garçonete sobre a minha falta de argumentos – pois, na verdade, meu erro foi tentar entabular discussão, mesmo sem ter visto uma cena sequer do filme. Eu passei vergonha! Fui sumariamente humilhado pelas duas, e então….

– Então o quê?

– Eu surtei!

– Ah…

– A Claudete fez a mesma pergunta pela vigésima vez – sobre uma frase que era repetida por um dos personagens secundários o tempo todo, e só um imbecil completo teria visto o filme sem perceber aquilo. Mas ela sabia da minha situação e estava me testando, então eu gritei, “SE VOCÊ TIVESSE ME DEIXADO VER A MERDA DO FILME, EU SABERIA DIZER!”.

– Minha nossa!

– Foi então que ela engasgou feio e espirrou um jato de café na minha cara. Todos olharam pra gente e ela, endiabrada, me xingou inteiro e me deixou sozinho lá na cafeteria, e tamanha foi a cena que a garçonete não quis mais me servir. Fiquei ali, cabisbaixo. Foi um dia terrível, todos me olhavam como se eu fosse um assassino.

– Mas você foi muito grosso, mesmo. E então terminaram?

– Não aí. Mas depois ela ficou reticente. No cinema, não sentava mais do meu lado, deixava um acento entre nós vazio, e sabe o que ela punha nele?

– O quê?

– Um balde de pipocas tamanho família. Como se dissesse, “já que te atrapalho tanto, coma pipoca”.

– É por isso que odeia pipocas?

– Talvez… Era uma afronta, ela sabia. Mas só de raiva, eu até comia, e depois em outras sessões eu também quis dar o troco e sentava dois acentos para o lado, longe dela, e ela pra retrucar sentava três, então, eu, quatro, e então, ela, cinco, e a gente só se via na hora de voltar pra pegar a pipoca no meio da fileira.

– Puxa, isso é até meio romântico.

– Até que um dia sentamos longe, longe demais.

– E pararam de se ver?

– É, o caso tinha terminado ali.

O japonês e o baixinho entregaram os ingressos ao bilheteiro e desceram a rampa escura. Ajeitaram-se na primeira fileira, única com lugar especial para o pequeno. Um grupo passou por eles, gargalhadas estridentes misturavam-se às vozes de todos os outros na sala, falavam pelos cotovelos. Latinhas de refrigerante espirravam, papéis de lanches grunhiam e luzes de celulares voavam para todos os lados. Um grupo posicionou-se atrás da dupla, apoiando sapatos e botas nas costas das poltronas.

– Ninguém mais está interessado na experiência fílmica – disse o baixinho, extremamente irritado. – Veja esse bando aí atrás!

– Cheiro de fast-food… – disse o oriental.

– Está aí. Consumo rápido! Consumo rrrrrápido!

– Já estamos nos trailers, e não calam a boca. E ainda têm esses pés fedidos. Queijo…

– Cinema é apreciação, não consumo rápido.

– Que tipos! Devem ir ao banheiro a todo o momento.

– É verdade, os banheiristas. Os banheiristas são inconvenientes, mas e os explicadores-compulsivos, então?

– Ah, sim! Esse são impossíveis. Não contentes de já terem assistido, não conseguem ficar de bico calado. Quando chega uma cena importante, ficam nos cutucando, como se estivessem alertando: “algo vai acontecer aí, preste atenção, não perca, vai, vai!”.

– Fora quando querem nos contextualizar a respeito das coisas. Dizem, “está vendo essa cena aí, guarde bem ela, guarde bem. Está observando aquela árvore na floresta? Guarde bem isso, preste atenção!”. Que situação! Esses aí deviam frequentar grupos de ajuda.

– Hoje inventaram um nome bonitinho pra essa amolação: spoiler…

– É, foi esse negócio de séries que estragou tudo.

– E quem dá pause, então?

DAR PAUSE??? Ah, isso não, tudo menos alguém que DÁ PAUSE! Se tem uma coisa que eu não suporto mesmo é uma pessoa que…

– Fala mais baixo…

– É que isso me lembra a dita cuja.

– O quê? A Claudete também dava pause?

– Pois é, a maravilhosa Claudete dava pause. E não só isso. Se você quer mesmo saber, vou contar. Você sabe que depois de algum tempo, para minha surpresa, eu soube que ela já tinha visto aquele filme?

– Sério?

– Ela tinha visto no cinema antes de mim, antes daquela nossa briga na cafeteria, e foi por isso que sabia tudo, mesmo tendo passado a sessão toda sugando o meu pescoço.

– Só falta dizer que ela viu o filme com outra pessoa.

– Não, viu sozinha, o que é pior… Entende o tamanho da traição?

A dupla parecia tão entretida na discussão que sequer dava atenção ao filme. Agora, os próprios reclamões, julgadores da ética e da moral dos atos cometidos em sofás e salas de cinema, agora eram eles o motivo do tormento alheio. Pessoas já começavam a reclamar da conversa, alguns faziam “xxxxiiiuuuu”. Mas o pior aconteceu quando respirações ofegantes e gritinhos de prazer chamaram a atenção dos dois.

– Ai, ai… É o começo da cena famigerada – disse o baixinho, apontando para a tela.

– Mas já? – disse o oriental.

– Sim, já se passa quase metade do filme.

– E nós perdemos quase tudo…

– Claro, justo porque você me atrapalhou com o seu falatório!

– EU?

– Sim, você! Ora, acho que você, por não enxergar nada, fala como louco!

– Pois sabe o que eu acho, seu pigmeu?! Acho que você está me confundindo com a sua Claudete!

– Miserável! Quebro sua cara!

– Quer saber? Que se dane essa porcaria de filme! Vou embora antes que eu mesmo te arrebente!

O baixinho deu de ombros, mostrando que não se importava. Então o oriental saiu num solavanco do assento e, escorando-se no que podia, subiu a rampa para fora da sala. Sentou-se no saguão e respirou fundo. Depois de alguns minutos, ouviu o barulho das rodas do amigo se aproximarem.

– Ué, não fez o diabo por causa do filme, por que saiu? – disse o japonês.

– Nada em especial…

– Ah, sim. Nunca dá o braço a torcer. Você está é arrependido!

– Pois saiba que eu nunca me arrependo de nada! Olha, eu nunca abandonei uma sessão na minha vida inteira, mas eu não queria ver aquela cena novo!

– E por que não?!

– Eu fugi antes que ele enfiasse a mão na manteiga.

– Essa é mesmo uma cena estúpida!

– É… Manteiga, manteiga… Lembra pipoca, pipoca, pipoca… – disse o baixinho mirando um ponto fixo, com olhar de peixe morto.

O japonês silenciou, viu que o resmungão estava catatônico na cadeira de rodas e o levou para fora. Aquele caso com a Claudete tinha um tom cômico, mas vendo agora o homem naquele estado, o cuidador mudou de opinião. Pediu ao pequeno as direções do caminho de volta, mas não obteve resposta. Então parou na rua e entoou – nããã, nã nã nanãmmm, nã nã nããammmm, nã nã nããmmmm. Ficou aguardando no escuro enquanto todos iam, assim como aquele casal excêntrico, que só saía do cinema após o último crédito final.

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Informação

Publicado em 17 de fevereiro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 1, Série A.