EntreContos

Detox Literário.

Dezembro (Hyzowda)

 

É difícil saber do que se trata quando alguém sorri ao longe, olhando, aparentemente, para ti. Decerto há um encontro nas feições de quem se admira, seja o recanto de saber aquilo que já sabe, ou um traço engraçado que se destaca em um rosto completamente desconhecido — e que agora não será mais esquecido. Ou, ainda, para o desespero do ego e a crença dos mais céticos, talvez não exista encontro nenhum, somente um olhar vago, sorrindo por um bobo devaneio. Bonifácio questionava-se qual desses motivos seria a causa da leve alegria da mulher no outro lado da rua da mesma forma que inquiria de sua língua quantas colheres de açúcar tinham mergulhado naquele café.

Decidiu crer que fosse apenas um devaneio da parte dela, provavelmente porque a vista de ninguém seria tão boa para distinguir um vulto em uma janela de uma casa mal iluminada. E o café tinha colheres demais. Pôs a xícara sobre a mesa de madeira e recostou-se na cadeira, fazendo um pequeno estralo que não soube dizer se vinha do encosto ou de sua própria coluna. Nesses momentos costumava suspirar e pensar “Nada na minha idade é fácil”. Refugiou sua vista no pedaço de céu ainda não coberto pelos prédios, mas não conseguiu parar de pensar em como as coisas não eram fáceis.

— O que farias se encontraste alguém que te cumprimentasse e tu sequer saberes de quem se trata, Jussara? — Indagou Bonifácio.

Jussara, a empregada doméstica do senhor Bonifácio, estava sentada logo atrás dele, no sofá. Ela tinha um pouco mais de quarenta, cabelos graciosos e loiros, corpulenta, com olhos frágeis e meigos. Era agradável olhar para ela, não pela beleza cravada na sua baixa estatura, porém, pelo ar que expirava que tornava tudo mais leve do que deveria ser. Poderia ter algumas rugas em seu rosto claro, ressaltadas quando estava cansada, mas que eram irrelevantes para todo o resto da composição. Até mesmo lembrava um pouco o jeito de ser da finada esposa de Bonifácio. Era uma mulher cuidadosa e que prestava atenção aos detalhes. E gostava de café doce.

— Apenas cumprimentaria e sorriria de volta, ora… — suspirou já sabendo que o seu patrão queria chegar a algum lugar. — Mas por que a perguntas, senhor?

Ambos haviam desenvolvido um hábito de tomar café juntos no final do expediente. Entretanto, hoje, Jussara estava apressada, pois tinha um compromisso com seu filho mais novo; o garoto insistiu muito para que sua mãe concordasse em ir a um encontro com seus colegas de escola, alegando, por meio de uma vaidade infantil que perdura até a vida adulta, que todos iriam e não queria ser o único a ficar de fora. De todo modo, não era muito longe de onde moravam, mas não sabia como estaria o transito naqueles dias de dezembro.

— Essa época do ano me incomoda, por tantos motivos quanto se possa imaginar. Um deles são as pessoas que me cumprimentam sem eu saber de quem se trata, parecem que zombam de mim por eu estar velho e minha memória não ser como antes.

Jussara virou seu rosto para Bonifácio. Ele não parecia tão velho quanto sempre resmungava que era. Seu cabelo era completamente grisalho, extremamente bem cuidado, barba sempre feita, sua barriga um pouco saliente e um rigor em relação a sua vestimenta. Quiçá os resmungos que ele proferia a cada instante o faziam se sentir mais velho.

— As pessoas se sentem mais solidárias nessa época do ano e acabam ficando mais comunicativas — retrucou Jussara.

— Solidárias?

— Sim, senhor.

— Não usaria essa palavra para descrevê-las. Passam o ano em rixas bobas com o nariz levantado e como num passe de mágica se tornam humildes por causa de um mês?

— Por causa de Cristo — corrigiu a mulher.

— Antes fosse.

Um breve e leve silêncio pairou sobre a sala. Jussara terminou seu café e ergueu-se, lembrando a seu patrão do compromisso com seu filho e que a roupa de Papai Noel estava sobre a cama.

— Jussara, obrigado por… — O aparelho celular de Bonifácio tocou e rapidamente ele atendeu. — Alô? Como assim? Em cima da hora? Vamos para o Central? Tudo bem… — ficou calado por dois minutos. — Certo.

Ao desligar o telefone, havia apenas ele na sala. Bem, o que viria em seguida, pensava, eram as pessoas estranhas e algumas crianças mal educadas. Todos animados em consumir coisas que vão durar menos que dois meses. Hipocrisia e consumismo exacerbado, ótima época do ano. Claro que havia alguns pequenos que desejavam algo mais altruísta ou inusitado, mas não eram dessas crianças que ele queria se queixar — ou agradecer. Bonifácio caminhou até seu quarto e olhou para seu uniforme de Papai Noel, que era exatamente igual e tão quente quanto ao de tantos outros Papais Noéis. Não demoraria em ficar pronto, gostava apenas de elaborar bem o encaixe da peruca e da barba falsa.

Esse era o primeiro ano em que Heitor passaria seu Natal com a família completa, então ele estava animado. Seus filhos não conheciam os avós nem os tios, ele havia mudado de estado há uma década e atualmente tinha esposa e crianças. Não conseguia ver a hora da troca de turno da portaria do condomínio para poder ir para casa e começar a fazer as malas. Por isso, quando ele viu aquela mulher baixa e tão receptiva, que, por algum motivo, o fazia lembrar-se da infância, não resistiu em contar tudo a ela.

— E tu, Jussara, o que vais fazer hoje? — questionou após receber as congratulações dela.

— Estou para indo casa, Heitor. Vou levar meu filho para ver o Papai Noel — respondeu animada. — Agora preciso ir, estou atrasada e boa sorte com a viagem — sorriu.

Bonifácio se olhava no espelho com toda aquela fantasia. Não conseguia se reconhecer, parecia realmente encarnar o velhinho do Polo Norte. Pelo menos, assim, sabia o porquê de ser cumprimentado na rua e eram poucos os que o reconheciam como o senhor Bonifácio — seus trejeitos deveriam ser bem distintos. De toda forma, ainda seria importunado.

Seu olhar escorregou vagarosamente até estagnar no retrato em cima da cômoda. Se Laura ainda estivesse viva, jamais permitiria que seu marido trabalhasse dessa maneira. Ela cuidava de tudo relacionado às festas de fim de ano e exigia que a família estivesse presente. Quero que sejamos mais felizes, dizia. Mas agora ele estava cansado de todas essas coisas; a forma como as pessoas se reuniam parecia tão individual que ninguém estava realmente unido. Sorrisos amarelos, acusações disfarçadas de gentileza, sussurros maldosos e olhares severos mascarados com os desejos de felicidades de boca para fora. Em que momento as pessoas se tornaram tão desprezíveis e mesquinhas? Ninguém era feliz mais. Laura jamais permitiria que… Bem, Laura já não estava mais aqui. Ele preferia se ocupar durante esses períodos de festa para não ter se encontrar com sua família. Talvez ele apenas sentisse muita a falta de sua esposa.

Na portaria, Heitor quis agradecer ao Papai Noel pelo presente de poder levar seus filhos para conhecer o lado paterno da família, alegando que tinha sido um bom garoto.

— Tu foste um menino mal, por isso vai se reunir com a família — retrucou Bonifácio, enquanto Heitor sorria pensando que aquilo havia sido uma piada.

Um pouco mais cedo, na ligação recebida, o contratante do senhor Bonifácio avisou que o local de apresentação tinha mudado. Agora ele iria para o shopping conhecido como Central por motivos indiferentes a ele. Na prática, isso somente alterava a distância que teria que percorrer até chegar ao seu trono de Papai Noel, lá seria a mesma coisa: quero brinquedos, brinquedos, brinquedos.

Teria sido realmente assim se uma criança não tivesse feito um pedido completamente diferente. Mas essa criança já tinha chamado a atenção de Bonifácio ainda na fila. A fila estava formidável, não era imensa, mas grande o bastante para que ele conseguisse ver perfeitamente uma mulher baixa de cabelos claros chegar com um garoto. Por um breve instante pensou ser Laura, entretanto, logo percebeu que se tratava de Jussara. E o garoto deveria ser o filho mais novo dela.

Bonifácio se deu conta que não sabia nada sobre ela. Não sabia o nome do menino, nem que ela morava perto do Central. Ou ela não morava? Nenhuma outra criança na fila parecia conhecer o filho dela e, pelo que ela havia dito, era um passeio com os colegas de escola.

Jussara olhou para o Papai Noel sorrindo. Bonifácio, na dúvida se ela estava realmente olhando para ele ou não, cumprimentou-a com um aceno de mão. Ela demorou um pouco, mas logo cumprimentou e sorriu de volta, sem parecer surpresa. Sabia que ele era o Papai Noel? Após isso, ela deixou o garoto sozinho na fila, sumindo na multidão.

O velho Noel ouviu uma dúzia de crianças antes de chegar a vez do filho de Jussara. Então ele perguntou qual era seu nome — hou hou hou.

— Meu nome é Otávio, Papai Noel — de perto, Otávio não parecia com sua mãe, tinha alguns traços que os assemelhavam, porém ele devia ser mais parecido com o pai. — Eu fui um bom menino esse ano! Tirei notas boas na escola e não deixei minha mãe chateada.

— Que bom, hou hou! Moras aqui perto, garotinho?

— Hmm, não sei. Acho que sim — crianças, pensou o velho.

— E o que queres ganhar de presente esse ano, hou hou?

— Eu quero que o patrão da minha mãe seja feliz! — disse sem hesitar.

Bonifácio ficou atônito. Seu coração de alguma forma parecia mais quente, batendo mais forte. Aquele desejo genuíno de uma criança que sequer o conhecia. Lembrou-se de Laura. Seus olhos pareciam marejados, mas não queria verificar e perder a compostura. Esses pequeninos possuíam um coração puro, afinal, cheio de altruísmo e solidariedade. A imagem de seus netos veio à mente. Talvez uma parte da família ainda pudesse ser salva de toda a hipocrisia dos adultos. Heitor tinha razão de estar contente. Demorou uns segundo para voltar a si e teve que fazer um pequeno esforço para não sair do personagem.

— Que coisa bonita de pedir, garotinho! Hou hou! Tenho certeza que nesse momento o patrão da sua mãe já está feliz.

— Sério? — questionou Otávio meio incrédulo.

— Sim, tenho certeza que sim!

— Ah, que bom! Minha mãe sempre diz que pessoas felizes se importam menos com dinheiro.

— Como assim? — Bonifácio dissipou um pouco a aura de Papai Noel.

— Se ele for feliz, vai dar um aumento para minha mãe, então ela vai poder comprar mais brinquedos para eu mostrar aos meus colegas! — Brinquedos.

O pedido não era tão altruísta quanto ele tinha suposto.  Já era tarde demais para qualquer um, todos estavam contaminados. E isso tinha sido uma farsa? Uma coincidência? Ela tinha reconhecido ele? Como Jussara saberia onde ele estava… O telefonema! Quando ele desligou, ela já não estava na sala, mas ele não viu quando ela saiu. Era quase surreal e tão confuso quanto.

Depois que ele dispensou Otávio, o menino sumiu na multidão também. Ele não conseguia parar de tentar compreender o que se sucedeu, hou hou. Decerto em uma coisa ele acreditava, apesar de tudo.

No dia seguinte, enquanto tomavam café no fim do expediente, Bonifácio contou para Jussara que era o Papai Noel do Central na noite anterior. Ela parecia um pouco surpresa e tentou balbuciar algo, porém foi interrompida.

— Teu filho, Otávio, pediu para o Papai Noel que eu fosse feliz — uma expressão radiante se esboçou no rosto de Jussara.

— E tu estás, senhor?

— Não.

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Informação

Publicado em 17 de fevereiro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 1, Série C-Final, Série C2.