EntreContos

Detox Literário.

Fim, Nomes e Descobertas (Sem Nome)

 

Apoiou os cotovelos sobre a cerca, contemplando aquela imensidão colorida. Apenas seus suspiros ritmavam o silêncio, enquanto o dourado do sol finalizava sua trajetória, escondendo-se às costas do Pico da Serpente. Enquanto acompanhava a trajetória do astro, lamentava nunca ter visitado o local. Apenas mais um dos muitos que jamais conheceria.

Enquanto digeria a terrível constatação, fruto da descoberta recente, passou os olhos pela cerca-viva do vizinho. Minúsculos animais, mistos de vagalume e pequenas mulheres rechonchudas, dançavam entrelaçando-se pelas gramíneas impecáveis, alheios à realidade implacável que o consumia.

Tomado de uma súbita ironia, riu-se da inocência daquele local. Milhares de inusitados seres conviviam harmonicamente, num ambiente enjoativamente colorido e convidativo. Gostaria de lembrar como fora parar ali. Ora, havia algum dia ido parar ali? Não conseguia lembrar-se. Simplesmente sempre fora parte daquele cenário mágico.

A lua já brilhava alta no céu noturno. Afinal, quanto tempo passara contemplando aquelas criaturinhas, que agora roncavam aninhadas nos galhos de uma frondosa árvore? Percebia, apenas agora, que o tempo era realmente incompreensível naquelas terras. Os dias passavam num ritmo insondável, e mesmo com grande esforço mal conseguia determinar se ainda viviam o hoje, o amanhã, ou mesmo o ontem.

Abanou a cabeça, afastando tais pensamentos. O instável passar do tempo jamais o incomodara. A vida, afinal, era como um sonho dentro de um sonho. Ainda assim, a insensibilidade do efêmero jamais o abalara como naquele momento. Tocava cada superfície com prazer mórbido, sentindo a vida que pulsava. O ar, tocando-lhe o rosto, a grama do jardim que dava acesso ao lar acariciando agradavelmente os pés descalços, o cantarolar dos pássaros, mensageiros de histórias imemoráveis, atingindo-lhe os ouvidos, e os raios do sol nascente a queimar carinhosamente sua pele. A vida era agora.

Despertou de chofre das divagações. Olhando nos olhos do enorme corvo que o observara imóvel durante todo esse período, aninhado sobre os galhos de uma velha árvore, bradou, com a convicção que conseguiu instar à voz.

“Desejo ver o rei”.

“Achei que nunca fosse pedir”, gracejou a ave, sua rouquidão arrepiando a todos. “Fiz de lar essa velha árvore, cravando minhas garras no casco quebradiço e alimentando-me por tempo demais da seiva suculenta. Agora, devo partir de minha posição e retornar a meu senhor, levando seu recado e o aviso do término de uma era”.

Ao fim da misteriosa sentença, alçou voo, batendo suas asas negras e deixando um fétido rastro rumo ao castelo ao fim do reino, onde jamais qualquer ser pisara. À partida da agourenta criatura, a velha árvore, em movimentos lentos como a rotação de um enorme planeta, emitiu sons que pareciam emergir da própria terra.

“Desde a aurora dos tempos, jamais aves como essa trouxeram bons agouros. Prepare-se, pois esteve o corvo sentado desde outrora sobre mim, jamais movendo algo além dos sagazes olhos, e agora parte para o término de tudo”. O homem, incerto de ter ouvido realmente alguma voz, percebeu mais do que escutou a mensagem. Com um arrepio, viu contorcer-se a velha criatura, transformando-se, num assomo de tristeza que remetia ao suspiro final de um enfermo, em um casco vazio e retorcido, apenas resto da outrora Árvore da Existência.

Um silêncio claustrofóbico, daquele que precede o desastre, sucedeu a morte pressagiosa do ancião. No período que se passou, o homem limitou-se a observar o horizonte, apertando os olhos a qualquer novidade.

De repente, como se um filtro de sépia envolvesse o firmamento, toda a cor abandonou o mundo, deixando-o mergulhado em trevas jamais vistas por lá. Num revoar fantasmagórico, uma imensa nuvem de corvos percorreu rapidamente a distância entre o castelo e a alameda que agora abrigava os restos da árvore.

Numa espécie de dança infame, as centenas de aves negras retorceram-se, formando um único e enorme corpo. Suas feições eram obscurecidas por uma sombra que ignorava o efeito do sol, emolduradas por espessos cabelos desgrenhados. Podia-se identificar apenas os olhos, de um negror mais intenso que a própria escuridão, destacando-se em meio ao vazio. Era impossível fitá-los por mais de um instante. O restante do corpo era coberto por um sobretudo preto fechado, dando poucas pistas sobre sua composição, braços ou pernas.

Enquanto tentava recuperar-se do estupor causado pela aparição, o homem ouviu um som, uma voz que parecia emergir da própria escuridão, um som tão antigo quanto os velhos deuses.

“Diga-me teu nome, e direi o meu”.

Tomado por repentina coragem, o homem respondeu. “Não tenho nome. Sou apenas um homem”. Falou a verdade, afinal. Jamais precisara de nome. “Desejo saber o motivo de tudo isso, do fim de tudo que conhecemos”.

“Todo ser possui um nome. Se queres perceber teu destino, primeiro deverás conhecer a si próprio”. A sentença soava como ordem incontestável. A voz manifestava uma vontade capaz de criar e destruir sistemas e mundos. “Existe um modo. Uma tarefa. Se cumpri-la, descobrirás meu nome. Assim, saberás também teu próprio, e entenderás tudo o que há para entender. É o máximo que já concedi a alguém”.

Incapaz de responder ao estranho discurso, o homem indagou mentalmente que tipo de tarefa o ser teria para ele. Carente de habilidade especial, não via que papel teria naquilo, e como poderia impedir o fim.

Como se lesse seus pensamentos, a entidade prosseguiu. “Todo ser tem seu papel nessa insondável teia que é o destino. Para cumprir teu propósito, siga pelo Caminho das Sombras, e encontrarás o que procuras na Clareira do Amanhecer”.

O retumbar poderoso cessou abruptamente, deixando apenas um silêncio perturbador, enquanto a misteriosa criatura retomava sua forma original e retornava ao castelo. Inerte, o homem tentava digerir as informações que recebera.

Outra característica desse mundo onde vivia é que os acontecimentos sucediam de forma estranha, sem obedecer a qualquer sequência lógica. Desse modo, quando deu conta, o homem caminhava por uma trilha de vegetação tão fechada que mal se via o céu ou a luz do sol entre os ramos e folhas. Não sabia como chegara ali.

Enxergando poucos centímetros à frente, caminhava trôpego entre galhos e raízes, guiado unicamente pela luz na claridade adiante. A toda volta, sons indistintos e a sensação de ser observado o seguiam.

Aliviado, aproximou-se finalmente do destino, apertando os olhos para receber a bem-vinda claridade. Precisou piscar várias vezes para ter certeza do que via. Não podia ser real.

Ao centro da clareira, dois seres protagonizavam uma cena nauseante. Acorrentada pelo pescoço, uma garotinha de uns 12 anos, de pele clara e cabelos castanhos, lutava para libertar-se de uma criatura que assombraria os pensamentos do homem por anos.

Um enorme corpo negro, marcado por cicatrizes e queimaduras vermelho-escuras que aparentavam – o que era facilmente comprovado pelo odor que dominava o local – um estado avançado de putrefação, agarrava o corpo da garota. De diversas partes do tórax, barriga e costas saíam longos braços finos e arqueados. De maneira desordenada, como se respondessem a vontades individuais, apertavam e retorciam a fina pele da criança, deixando marcas cinzentas que maculavam sua alvura original.

O corpo do demônio movia-se irregularmente sem sair do local, sustentando-se, precariamente, em duas pernas curtas e grossas, que terminavam em pés que pareciam fundir-se ao solo, espalhando-se como raízes de uma antiga mangueira.

Para completar, um imperceptível pescoço sustentava uma pequena cabeçorra, cujo único olho era vermelho como chamas, e derramava incessantemente um líquido purulento, sem piscar. Apenas uma espécie de fenda pequena, emitindo um angustiante som de matraca, fazia o papel de boca. A criatura era careca, e o couro da cabeça, onde não se via orelhas ou nariz, remetia ao solo rachado do semiárido.

Uma das mãos, que emergia de uma fenda no centro do tórax, agarrava os cabelos da garota, puxando-os com violência. Estarrecido e incapaz de mover-se, o homem assistia enquanto o monstro arrancava os cabelos, que saíam do couro cabeludo como se metros habitassem o interior do crânio.

Então, em meio a uma profusão de sangue escuro e gritos de horror e dor, a criatura enrolava os cabelos nos dois corpos, envolvendo-os numa única massa de carne e sangue. Ao fim do processo, os corpos voltavam a separar-se, e tudo recomeçava.  

Paralisado de terror, o homem percebeu que tremia e chorava. Conhecia aquele olho. Foi ele que deu início a todo seu sofrimento. Lembrava-se perfeitamente. Como mancha indelével nos tecidos da memória, a lembrança de quando o vira pela primeira vez ainda queimava sua mente.

Naquela ocasião, o olho aparecera em meio à escuridão de uma noite outonal, quando caminhava pelo bosque. Primeiro, veio esse barulho de matraca, que agora preenchia a clareira. Depois, aquele terrível som de sucção, tão próximo de seus ouvidos que podia sentir a presença roçando sua nuca. Por fim, ele apareceu, flutuando no vazio à sua frente. Sugando toda vitalidade do ambiente, aquela voz, portadora de maus agouros, professou.

“É o fim. A extinção da esperança. Em breve, todo esse mundo será consumido, e a existência dará lugar ao vazio. A destruição abre seu véu, projetando suas sombras vorazes sobre tudo”.

E acabou tão abruptamente quando começara. A luz e o calor voltaram ao mundo, e ninguém parecia ter notado qualquer coisa. Por muito tempo, tentou convencer-se de que tudo não passara de um delírio ou alucinação. No fundo, porém, sabia a verdade.

Desde então, passou a viver num estado de desesperança e incerteza, incapaz de compreender o sentido desses acontecimentos. Agora, porém, precisava agir, e ajudar aquela pobre criança.

Num esforço quase homérico, lutando contra a inação dos músculos, reuniu a coragem necessária para a caminhada derradeira até seu destino. Ao primeiro movimento, porém, tudo estancou. Por instantes, a criatura imobilizou-se, farejando o ar. Então, de súbito, o homem sentiu um corpo levantar-se às costas, quando uma réplica perfeita do demônio, parecendo emergir da própria relva, suspirou em seu ouvido.

“Finalmente veio ao meu encontro”, ironizou, a centímetros de distância.

Sentindo uma onda gélida de pavor perpassar seu corpo, como se caísse num riacho congelado, tentou correr, afastar-se do terrível ser, esforço que se mostraria inútil. Assim como os pés da criatura denunciavam, ela parecia ser parte pulsante da própria clareira, movendo-se rapidamente por ela, ou simplesmente fazendo emergir novas versões de si quando e onde quisesse.

Por puro prazer, passou um bom tempo perseguindo o homem desesperado, uma risada horripilante preenchendo o vazio, ecoando insolitamente pela floresta. Durante todo o tempo, porém, o demônio original não interrompera por um único instante a tortura à garotinha.

Talvez essa visão tenha despertado o homem da tentativa desesperada de fuga. Parou, finalmente, e encarou seu algoz com olhar vívido.

“Não pode me apavorar. Lembro-me agora de meu propósito, e exijo que liberte a garota”.

O riso parou. Por alguns instantes, mesmo o bizarro ritual que envolvia monstro e menina pareceu hesitar. E novamente a voz, instantes depois, levantou-se da própria terra, envolvendo tudo como onipresença.

“Como ousa me desafiar em meu próprio lar?”

O ódio daquela voz causou um ocaso sangrento no mundo. Como se um balde de sangue fosse derramado sobre o fino cristal que recobre o firmamento, todo o céu se tingiu de rubro. “Não percebe que posso mantê-lo aqui, prisioneiro como essa garota? Acha que ela ainda tem alguma chance? Seu fim já chegou, só devo decidir por quanto tempo ainda a torturarei antes de deixar que morra”.

A verdade pairava incontestável sobre a agourenta sentença. Agora entendia o fim.

“Ainda assim, deixe-me levá-la, para que termine sua jornada em paz. Não partirei sem ela”.

Em resposta à provocação, mãos surgiram do solo, segurando suas pernas. Outras tantas as seguiram, envolvendo todo seu corpo num aperto impiedoso. Sentindo a dor espalhar-se, o homem testemunhou enquanto o corpo negro crescia diante de si, até que a terrível boca, abrindo ao tamanho de sua cabeça, aproximou-se, ameaçando engoli-lo.

“Diga meu nome, e deixarei que ambos partam. Erre, e devorarei seu corpo e alma, condenando-o à eterna danação. Só tem uma chance”.

E o homem sorriu, finalmente entendendo. Agora via o começo e o fim. Percebia quem era, e entendia seu papel na história. Não mais temia o final.

“Convoco meu pai, Morpheus, monarca do Reino dos Sonhos”.

À menção daquele nome, o crocitar de infinitos corvos prenunciou a revoada das aves, que pousaram à margem da clareira. Assim como antes, o misterioso rei tomou forma numa composição dos inúmeros pássaros. Abrindo o sobretudo, exibiu um tronco branco, com braços abertos para o alto. A visão de seu corpo nu causava uma espécie de transe hipnótica, como se dele pulsasse o onírico.

“Vejo que entendeste, meu filho. Acredito que já saibas teu nome”.

“Sim, meu pai, criador e regente de todo esse reino. E entendo também meu papel. Não temo mais a morte, nem o fim de tudo que conheço. Sou sua criação, e responsável por livrar dos sofrimentos aqueles que permanecem em eterno pesadelo. Me chamo Dífaro, aquele que encontrou seu propósito”.

Estremecendo o mundo com sua ira, o demônio abandonou a garota e projetou-se sobre Dífaro, praguejando seu ódio e ameaçando devorá-lo.

“E você, criatura desprezível, é Pária, o torturador. Liberte essa criança e fuja para os recantos escuros de onde jamais deveria ter saído”.

À menção de seu nome, a criatura irrompeu num insuportável grito agudo, que ficaria terrivelmente gravado na lembrança de cada criatura viva. Rompendo-se em rancor, soltou a menina, e dissolveu-se em densa névoa negra, que logo dissipou-se.

Caindo delicadamente, a menina sorriu, fechou os olhos, e um brilho claro voltou a iluminar o horizonte.

 

*

 

Num quarto fortemente iluminado, uma cama branca abrigava uma frágil menina inconsciente. Ao lado, a mãe segurava sua mão, sentada numa precária cadeira, há muito feita de lar. O único som era da respiração vacilante da menina, e do monitor cardíaco ao lado. Com o alvo corpo tomado por manchas cinzas da doença, a menina mantinha uma expressão de dor ou medo no rosto.

Então, depois de anos, a mãe viu a sombra de um sorriso perpassar o rosto da filha. Após um longo pesadelo, a menina finalmente estava livre, e o leve suspiro que se seguiu foi o último som que sua mãe ouviria antes do bip contínuo do monitor. Antes de cair no choro, aquela senhora sorriu levemente e deu um beijo na testa da criança, cuja pele retomava aos poucos a alvura original.

 

*

 

Por instantes, a garota piscou os olhos, tentando identificar algo em meio à escuridão. Então, sentiu uma mão segurar a sua, e olhou para o lado. Sorrindo, Dífaro meneou a cabeça, apontando para o outro lado do mundo. Juntos, começaram a caminhada até a outra margem, onde novos sonhos e um novo despertar aguardavam a pequena criança.

“E os sonhos, terra fértil onde a vida se prolifera, também encerram-se para dar início a novos despertares, nesse ciclo infinito que é a eternidade da existência.” A voz de Morpheus preenchia seus corações.

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Informação

Publicado em 17 de fevereiro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 1, Série B.