EntreContos

Literatura que desafia.

A Dona do Ouro (Celina Sucupira)

O entardecer já se anunciava com suas nuvens enferrujadas e os homens ainda insistiam na labuta. Ora por medo de não encontrar coisa melhor, ora por uma ambição sem sossego que os levava por caminhos estranhos. O patrão, um sujeito taciturno e de poucos modos, ordenava presteza, mas deixava a direção por conta dos instintos daqueles homens sem chão.

− Esses cabras sabem que rumo tomar. Melhor que cão de caça é um homem movido a ambição. – Disse Abílio Antunes para a mulher que mantinha uma postura mais humana diante da realidade sofrida daquele povo.

− Não carece explorar esse bando de coitados, meu marido. Um dia a fonte pode secar…

Abílio sacudiu os ombros como quem desdenha de qualquer aviso. Podia ver da janela do seu quarto, o volume distante de terra que era de sua propriedade. Sabia que mais riquezas seriam encontradas por ali. A fonte ainda não secara e, se dependesse dele, haveria lucro até o último grão de terra.

Os veios aumentavam em tamanho e profundidade. Alargavam o perigo sob o solo frágil para onde as pegadas seguiam e, aos poucos, ausentavam-se do mundo. Os homens, indiferentes aos avisos de segurança, caminhavam enfileirados em direção à luz que se refletia precariamente pelas paredes da mina.

Aquela jazida ficava bem próxima de uma outra, já bastante antiga, que abrigava mais lendas do que riquezas. Escavada pelo tempo e pela ambição, aquele filão já havia revelado um rastro generoso de ouro e pedras preciosas. Com o passar dos anos e exaurida a força de trabalho, o local havia sido abandonado por falta de interesse dos atuais administradores.

Algumas histórias remontavam ao século de colonização do Brasil. Ali não era lugar de diversão, diziam os mais velhos. Naquela gruta brotava a maldição do ouro, o que nunca impedira o garimpo no riacho logo na nascente. A extração dava-se de forma contínua, como a deterioração causada por uma lagarta devoradora, no insaciável jogo do poder. Era assim, desde o começo dos tempos, de pai para filho. De grama em grama, o ouro escolhia os seus escravos.

Carlos ainda aguardava os amigos do lado de fora. Era o mais alto dos homens por ali, chegando a se curvar para conversar com os demais. A estatura imponente em nada lhe facilitava o trabalho. Preferia passar por todos sem ser notado, mas isso era algo totalmente impossível. Manteve-se imóvel e impaciente, apoiado na imensa pá que sempre lhe acompanhava. O pé direito sobre a picareta tombada no chão delimitava o espaço que lhe cabia.

Perdeu a noção do tempo enquanto olhava com interesse indisfarçável para o outro lado do terreno. Aquela mina desativada permanecia seca como o ventre de uma velha solteirona, dizia o povo. No entanto, era ali que ele conseguia  enxergar algo de promissor naquele momento. Como se o céu anunciasse uma novidade bem-vinda, esperada durante todos aqueles anos de trabalho árduo. Uma luz o impelia para lá. Uma luz que não vinha da lua, nem da iluminação esmaecida da cidade.

O homem largou a pá no chão e coçou os olhos. Deveria estar delirando de tanto sono e cansaço. Uma pequena bola de fogo ricocheteava na altura dos olhos. Aos poucos, a esfera ganhava maiores dimensões, iluminando tudo em volta. O brilho derramava-se como uma cortina de diminutas estrelas, salpicando o céu com uma aura de fantasia.

Uma bela aparição, tão impressionante quanto os antigos mineiros haviam cantado nas rodas de viola. Impossível definir o que Carlos via, pois nem mesmo acreditava no que seus olhos lhe revelam. Não era a primeira vez que isso acontecia. Mesmo assim, ele duvidava o quanto podia, resistindo àquilo que julgava ser encantamento. Esfregou os olhos novamente e se fixou na linda mulher que lhe sorria. Para ele. Somente para ele.

Olhou em volta, espantado com o som laborioso dos demais a sua volta. Todos pareciam ignorar aquela presença luminosa, cada qual seguindo seu caminho sem estardalhaço. Estavam cegos? Como não a enxergavam? Como não se incomodavam com a claridade crescente que invadia a noite? Ali estava o rastro de uma riqueza sem fim, Carlos teve certeza disso. Podia ver brotar um belo futuro no local indicado pela aparição.

Ela continuava a sorrir, flutuando, envolta por um halo de luz, com o seu longo vestido branco esvoaçante. Uma tênue presença de esperança, a mulher despia-se de todos os pudores e carregava no sorriso o mistério de séculos de sedução. Os cabelos luziam como ouro, emoldurando um rosto de proporções helênicas, esparramavam-se sobre os ombros e costas em uma cascata que parecia misturar metal e seda.

Carlos já não sentia os pés no chão. Elevava-se à outra dimensão, ausentando-se do próprio corpo. Seus sentidos derretiam-se em direção ao fundo da mina, mesclando-se ao carvão e aos pedregulhos que forravam o caminho árido de todo dia.

De repente, sentiu um tremor, um toque bruto da realidade. Valter e Agenor haviam se aproximado e se puseram ao seu lado, um à sua esquerda, outro à sua direita. Em uníssono silêncio, sacudiram os ombros do colega. Aquele gesto já havia se tornado um hábito, algo repetido nos últimos dias, sempre que necessário.

− De novo, não, cara. – Soltou Agenor palavra e cuspida. − A fadinha?

O trabalhador esticou-se como quem se espreguiça, evitando começar uma discussão. Sacudiu o corpanzil e desdenhou da preocupação dos companheiros de trevas. Era assim que se chamavam – companheiros de trevas – já que dividiam o mesmo ar rarefeito, impregnado de partículas de carvão e outros materiais, na escuridão que lhes pertencia.

− Bora trabalhar, seus manés. – Encerrou a questão, Carlos.

Valter afastou-se assobiando uma canção que lembrava uma marchinha de carnaval. Desviou a atenção para o lado esquerdo, seguindo o caminho marcado pelas botinas dos mineiros, adentrando na lida.

Agenor ainda fixou o olhar na entrada da mina abandonada, imaginando o que o colega tinha visto. Desenhou as possibilidades de felicidade em linhas riscadas por diamantes. Sua mãe já o havia alertado várias vezes sobre essas visões, muito comuns entre os homens que penetram na escuridão em busca de riquezas.

− O solo não nega riqueza, mas cobra o seu preço, meu filho.

Carlos, assim que entrou na mina, tratou de se concentrar no trabalho pesado, empunhando a picareta com a força de mil homens. Seus pensamentos embaralhavam-se, causando o atrito que produzia faíscas em suas íris.

Pensou em Lurdinha que devia estar em casa, preparando o almoço do dia seguinte, para rechear a marmita já amassada. Lembrou-se do seu pescoço longo, do riso contido, reprimido pelos frequentes soluços. Pensou na curvatura dos seios, nos arroxeados sinais que permaneciam por dias, mesmo quando ele fingia não os enxergar. Maria de Lurdes não merecia nada daquilo. Não fora o que ele havia lhe prometido quando trocaram confidências e alianças. Agora era tarde demais para arrumar toda aquela confusão.

Carlos suspirou e resolveu ser conivente consigo mesmo. Os homens, pelo menos aqueles que conhecia, eram assim como ele. Pai, irmãos, amigos, todos ali tinham aquele mesmo destino torto, desviado do bem querer de uma mulher. Ele não era mau, sabia que não era, mas o cansaço do dia a dia entorpecia seu bom senso e quando via, já estava pesando a mão de novo em que lhe queria bem. Não, Lurdinha não merecia isso, mas tampouco ele merecia pagar por um instinto que não conseguia controlar.

Os trabalhadores, aos poucos, foram abandonando as ferramentas de trabalho no vão que antecedia a saída da mina. Carlos foi um dos primeiros a sair, apressado por uma força que lhe revolvia as entranhas. Queria ver a dança do ouro novamente, o local onde pousaria a mulher de formas tão perfeitas quanto um sonho.

Despediu-se de cada um dos companheiros de trabalho com um aceno, um toque ligeiro nas costas, um xingamento sem intenção de dolo. Precisava fazer aquilo sozinho, encontraria seu ouro quando a noite cedesse lugar às estrelas.

− Bora tomar umazinha lá no bar do Tonho?

− Hoje não, prometi à patroa que chegava mais cedo em casa. – Recusou o convite sem mentir. Havia mesmo dito à Lurdinha que voltaria cedo, mas não pretendia cumprir a promessa.

− Tá certo, então. Mande lembranças à comadre.

Agenor afastou-se, seguindo Valter que já alcançava o caminho da bebedeira. Não era uma vida fácil aquela. Afogar os sonhos na mina escura e funda, para depois mergulhar a decepção em goles de pinga barata. Noite e dia misturavam-se em uma desesperança sem igual. Opostos fazendo troça dos planos de um e outro.

Carlos seguiu para o outro lado, obedecendo a seu instinto e à luz que quase lhe cegava. Era ali onde devia estar enterrado todo o tesouro com que tanto sonhara. Ela havia lhe apontado o local, decerto seria ali. Sem ser observado, pisou nas tábuas apodrecidas que ainda serviam de tapete na abertura da mina.

As vozes dos companheiros, já no caminho de casa ou da bebedeira, tornavam-se cada vez mais distantes, escoando pela pequena trilha que separava as minas e os limites da cidade. Carlos focou sua atenção no corredor afunilado da mina.

A cada passo que dava no interior da caverna, Carlos percebia o silêncio ganhar mais espaço. Vozes e risadas pareciam ondas do mar derramando-se pelo ralo da memória. Ele precisou piscar várias vezes seguidas para enxergar melhor o cenário sombrio. As luzes que só ele conseguiria enxergar alternavam a intensidade de estrelas longínquas e de pequenos vagalumes.

Sabia que precisava ser rápido, pegar o que lhe pertencia e sair dali o quanto antes. Temia que as paredes da mina, deterioradas pelo tempo, se tornassem montanhas de poeira.

− Carlos… – Escutou alguém chamando o seu nome, mas não identificou de onde vinha aquela voz.

Virou-se à procura de quem lhe chamava. Era uma mulher. Seria a dama de branco? Sim, ela viera até ele. Seus cabelos dourados giravam formando uma espiral cintilante. Carlos sentiu-se afogar, dominado pelo cansaço e encantado pela melodia que invadia sua mente.

− Estou indo… – Ouviu a si mesmo dizendo.

Depois, um tremor sacudiu a terra. A água começou a escorrer de fendas cada vez mais largas, produzindo barreiras de lama, afogando qualquer tentativa de fuga. Ainda pôde ver alguém lhe acenando de longe, chamando-o para a saída ainda visível, embora muito mais estreita agora.  Carlos apenas sorriu. Então, ela o abraçou.

Existia ali o mesmo túnel, a mesma luz a se espalhar por uma abertura distante. Talvez fosse o mesmo local, mas havia algo diferente. O ar era agora terra. A água tornou-se fogo em seus pulmões.

O ritmo dos batimentos desacelerou-se sem qualquer sinal de resistência. O batuque foi silenciando como uma enorme onda quebrando lentamente sobre a areia. Em menos de um minuto, a linha esticou-se sem ondulações. Um som estridente como um apito anunciou o fim. O moço de branco aproximou-se e, com um simples toque, sem a menor cerimonia ou constrangimento, desligou o monitor.

Lurdinha beijou novamente as mãos de Carlos. Pareciam-lhe tão estranhas agora. Brancas e gentis como nunca haviam sido. Inertes em uma paz desconhecida. Lágrimas salgaram a pele curtida, umedecendo o sentido do momento.

O médico pousou a mão no ombro de Lurdinha e murmurou um tímido sinto muito. Por um instante, os olhares se cruzaram, em silencioso consentimento. Ela percebeu que aquele era um homem bom, gentil e bonito até demais. Ele, por sua vez, desviou o olhar, constrangido por estar cometendo uma indelicadeza.

− Obrigada, doutor. – Ela agradeceu, desfazendo qualquer mal estar que havia entre eles.

No alto daquele quarto, na quina do teto branco, pedaços de seda acenavam com um novo futuro. Um brilho dourado, que se confundia com os primeiros raios solares, invadiu o local, coroando mais uma missão cumprida.

Estava tudo acertado. Não havia mais o que fazer por ali. Era hora de partir e recomeçar a jornada. Ainda restava um noivo, sujeito ciumento, dado a ataques violentos, no fundo daquela mesma mina.

O ouro não sabia esperar.

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Informação

Publicado em 10 de março de 2017 por em Folclore Brasileiro.