EntreContos

Literatura que desafia.

Meu homem, não! (Engajado)

Cresceu em meio a mitos e lendas, e acreditava em tudo: Boitatá, Boto encantador de moças, Curupira, Lobisomem, Saci-Pererê, Mula-sem-cabeça… De todos os seres o que mais chamava a atenção dela, era a dita “sereia da água doce”, Iara, a pedra no seu sapato. Virava e mexia alguém vinha falar sobre o ser dotado de irresistível beleza que hipnotizava e levava os homens que ouviam o seu canto. Terezinha torcia o nariz sempre que escutava uma história sobre a Iara, pois, uma vez que estava lutando, fazendo todo tipo de mandinga para conseguir um companheiro, aquela gulosa queria todos os homens só para ela.

— Ta na mão de Deus, né?— Repetia, já sem ânimo, todas as vezes que as vizinhas e amigas de missa a encontravam.

Foram tantas promessas e simpatias… E com a idade avançando ela pensou que seria melhor desistir, precisava se conformar com seu destino, já que iria ficar pra titia. – Enquanto caminhava, para a casa de uma amiga que a convidou para uma caldeirada de tambaqui, Terezinha matutava…

Certa vez amarrou uma fita vermelha na imagem de Santo Antonio e colocou-o de cabeça para baixo, ele continuava lá, “plantando bananeira”, já que não lhe deu um namorado. Arrancou três fios do seu cabelo e colocou sob o véu de noiva da sua amiga, isso sem que ela percebesse, e só ganhou dor na cabeça.

Tinha seguido a risca com todos os rituais que conhecia e com os que as amigas contaram: sufocando o medo que sentia em andar sozinha no escuro, enfiou uma faca, sem uso, em uma bananeira, a meia-noite de 23 de junho. E o medo de assombração? Foi com o coração aos pulos que se trancou em um quarto e pingou a cera de uma vela virgem em uma bacia com água, isso também a meia-noite, em um ano posterior, na noite de São João. Os dois rituais tinham a finalidade de lhe dar a primeira letra do nome de seu amado: a bananeira com seu leite derramado e a vela com sua cera na água. Só viu borrões.

— Se num tem amor nenhum, num pode formá letra nenhuma mermo! – Aborrecida, constatou em voz alta.

Terezinha só não contava que sua amiga estava dando uma de cupido! Ela, a amiga, havia convidado também, Juvenal, o primo seringueiro de seu marido, solteiro e já quarentão. Não deu outra! Namoraram, noivaram e em pouco tempo o casório foi realizado.

“É… Tudo que Deus dá, dá cuzido…”

Agora Terezinha sorria. Nunca pensou em um seringueiro para marido, era uma vida dura, dois dias na semana andando a noite na imponente floresta amazônica, a procura de uma seringueira boa para extrair seu látex, e durante a estação chuvosa eles tinham que colher suas castanhas, de onde era extraída a matéria prima para a fabricação de tintas e vernizes, e assim poderem sobreviver com a venda das mesmas. Munida de paneiro às costas, ela entrava no mato com ele e o ajudava. Carregava baldes, cordas e ferramentas próprias para aquele meio de sobrevivência. Nada disso cansava muito, estava ao lado de seu homem, tinha conseguido!

Juvenal andava um pouco mais a frente. Empunhando um facão desbravava o mato cerrado sob a luz da poronga. Ouvia músicas em um aparelho Discman pendurado no pescoço, presente de casamento do seu irmão que vivia em São Paulo. Sua mulher também havia ganhado um presente desse mesmo irmão: um par de óculos escuros. Terezinha gostou tanto que não adiantava nada ele dizer que eram próprios para o sol, pois ela o usava sempre, mesmo agora, em plena noite. Falava que se sentia importante.

A madrugada avançava quando eles passaram próximos a um rio. Terezinha escutou primeiro, talvez por causa da música alta Juvenal não ouviu o belo canto que fazia todos os outros seres da floresta se calar. Naquele momento a mulher sentiu como se houvesse sido atingida por um raio, e todos os medos e raivas se misturaram. Pensou rápido, a ira tomando conta de si. Jogou tudo que carregava no chão, pegou um balde e uma corda e correu. Enfiou o balde na cabeça de Juvenal, este ficou sem ação com a surpresa e derrubou o facão. Ela aproveitou empurrando-o para uma árvore, passou os braços dele em volta e amarrou, tudo numa ligeireza trazida pela adrenalina. Juvenal ficou imobilizado, cego e surdo, já que o balde fazia eco para as músicas que continuavam a tocar. Não adiantava nada ele gritar para saber o que acontecia, ela não dava a menor atenção.

Terezinha rasgou duas tiras de sua saia e enfiou nos ouvidos. Munindo-se do facão foi para beira do rio enfrentar a bela Iara.

— Tu é leza, quenga? Vá catá homi soltero! Tive um trabaião danado pra conseguir esse daqui. Má num tô dizendo!

Sem parar de cantar a Iara olhava para ela com estranheza, seu canto não fazia efeito nenhum naquela humana, e nem seus olhos a hipnotizavam, isso por conta do bendito óculos.

— Era só o que mi fartava mermo! Depois de tudo, essa abestada qué robá meu homi. — E Terezinha bateu com o facão em uma pedra e faíscas brilharam. — Aqui pra ti, bicha!

A mulher andava de um lado para outro, sem tirar os olhos da Iara, que continuava na água, cantando e passando as mãos pelos longos cabelos negros.

— Tu vai ficá aí esfregando tua formosura na minha cara? Num vô dexá levá meu homi mermo! Nem se atreva a sair d’água, senão eu te passo o facão! Daí vamu vê se tu morre duas vez!

A Iara nem se abalou, agia como se estivesse sozinha e o que aquela doida falava não despertou em nada o seu interesse. Ciente do ser supremo que era, nadou até uma pedra e se sentou expondo sua bela cauda de peixe. Com um pente de ouro, passou a alisar os cabelos enquanto cantava e ignorava a desvairada.

— Tu ta querendo me aporrinhá mermo. Vai dançá bunito viu! Eu to atenta.

Terezinha bufou e tomou para si o desafio de ficar ali pelo tempo que fosse, defendendo o seu homem. Se aquela diaba pensava que ia ganhar pelo cansaço, estava muito enganada. Continuou andando de um lado para outro como uma onça enjaulada, e de vez em quando soltava um palavrão. Nem viu que o amanhecer não tardaria quando provocou a Iara novamente.

— Já deu o que tinha de dá. Chega! To até o tucupi com tu!

Para sua surpresa, a Iara mergulhou e sumiu de uma hora para outra, sem nem mesmo olhar para ela. Os raios de sol despontando ao longe e Terezinha, faceira, achando que quem tinha afugentado a bicha tinha sido ela. Ainda ficou parada por alguns segundos, depois tirou os panos que tampavam seus ouvidos. Nada, nenhum canto mavioso se ouvia, só um som distorcido vindo lá detrás.

Juvenal!

Correu para soltar o marido, este tinha desistido de gritar e lutar, até pensou que tinha sido abandonado por ela, ali, indefeso, a mercê de alguma fera faminta. Assim que se viu livre das cordas, Juvenal arrancou o balde da cabeça, o Discman foi parar longe. Ele estava tonto e balançava a cabeça como se quisesse se livrar de marimbondos. Aos poucos foi voltando ao normal, tomando consciência de onde estava, e foi tomar satisfação.

— Tá doida mulé? Que brincadera foi essa?

— Ora, brincadera… Capaz mermo.— E o mediu com os olhos de alto a baixo. — Tinha uma Iara querendo te levar.

— Uma Iara? – Ele perguntou entre surpresa e enternecimento.

— Isso mermo! Mas onde que eu ia dexá uma mulé pexe levá marido meu? Botei pra correr!

Juvenal sorriu, foi mais para perto, acariciou o rosto redondo de Terezinha e falou:

— Leva não… Olha! — E segurou os ombros de Terezinha. — Eu fiz foi promessa, mandinga e simpatia. Fiz mermo! Rezei pra tanto santo que até deu medo… E taí tu, minha esposa. Dez vez melhor que qualquer Iara. Tenha cuidado não, minha flor, aqui é teu.

Terezinha quase explodiu de tanto que seu ego inchou. O amor ficou registrado com toda sua simplicidade. Porém, ela tratou de se acalmar com o pensamento, “é muito bom di ouvi, mas é melhor ficá prevenida”. Sorrindo recolheu o balde e as cordas, e foi buscar o Discman. Juvenal fez cara feia ao ver novamente o aparelho, mas notando a expressão no rosto de sua amada o aceitou, colocou-o pendurado no pescoço, depois a abraçou e falou ao seu ouvido.

Má num tô dizendo, faço tudo pra ti vê feliz! Se tu quisé eu ando nesse matão di Deus com o barde na cabeça.

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Informação

Publicado em 10 de março de 2017 por em Folclore Brasileiro.