EntreContos

Literatura que desafia.

Verdades Submersas (Moacir Peixoto)

Quando emergi das águas do rio, o Sol fazia um arco laranja no horizonte, como um gigantesco gomo de tangerina. Lembrei, ao olhar para aquilo, do que Bartolomeu contava em suas histórias com as meninas de época de festa. Ele sempre chegava ao lado delas carregando a fruta, jogando um gomo de um lado para o outro, e dizia sem um pingo de timidez “Oi, quer um bago?”.

O olhar matreiro e o jeito fácil faziam sucesso. Algumas, mais resistentes, o esbofeteavam, reprimindo o Desejo no fundo de sua alma. Outras, porém, sorriam com um grande sim nos lábios molhados. Mais tarde, a Castidade seria enforcada por seus dedos grossos pressionando a carne quente. Ele era dos bons, talvez o melhor de nós, mas isso não me importava mais. A Inveja não me fazia companhia a muito tempo.

Quando o Sol se escondeu, covarde, abaixo do horizonte e deixou uma marca vermelha no começo do céu, a Lua já havia rasgado algum pedaço do Infinito e mostrava sua face como uma ferida de pus aberta.

Saí na margem e olhei em volta. Somente o matagal me devolvia o olhar. Caminhei por uma trilha coberta com galhos secos. Ela atravessava um mangue completamente morto e se quebrava em diversas bifurcações que eu conhecia bem. Todas retornavam para a margem do rio, com exceção de uma que dava numa campina e, por fim, numa estrada.

Os galhos retorcidos do percurso se enroscavam entre si como um ninho de cobras transformadas em pedras e, caminhando sobre ele, lembrei de um jovem que corria em um labirinto de ervas daninhas que se erguiam até quase tocar o azul do céu. Ele era perseguido por criaturas com rostos que pareciam humanos, e patas que pareciam de gado. Vislumbrar essa imagem fez com que eu me perguntasse se aquilo era a lembrança de um passado perdido, mas o devaneio desapareceu quando cheguei ao descampado e peguei a estrada de terra.

Caminhei sobre o luar por alguns minutos. Pensei em tirar o chapéu para respirar um pouco, mas a Vergonha não permitiu que eu me mostrasse demais e o puxei para baixo, projetando sua sombra sobre meu rosto e só permitindo que meus lábios fossem apreciados.

Parti para a cabana, devagar. Havia tempo. O olho pútrido no céu ainda teria que atravessar toda a noite. Era a sétima vez que me permitiam sair. Sete vezes em que pude me divertir um pouco. Nunca, porém, havia me sentido tão eufórico como nesse dia. Só de pensar em Thereza. Ah… Thereza. O meu amor proibido. Diziam ser impossível para um ser como eu, amar. Inconcebível e impossível. E talvez por isso eu não tenha sido repreendido. Talvez, por esse motivo, tenham permitido que eu voltasse mais uma vez.

Para a surpresa deles, ao contrário do que acreditam, não há outra verdade senão a de que Thereza é minha alma gêmea, não há outro motivo para que meu desejo em a rever seja tão forte. Cinco anos. Exatos cinco anos da última vez que estive aqui. Tempo demais para ela, mas não para mim. Afinal, para seres como eu, cinco anos passam num piscar de olhos.

Combinamos, quando parti, que ela usaria um sinal para eu me aproximar quando voltasse. Ela deixaria uma lanterna pendurada na porta ao anoitecer. Essa seria minha mensagem de boas-vindas.

Avistei a casa e a fagulha de luz. Meus pensamentos ficaram confusos, acelerados e felizes. Era a sensação da Saudade sendo destruída pelo instante derradeiro e súbito do reencontro.

Apertei o passo, o sapato fincando marcas fortes na terra fofa. Já estava a pelo menos dez metros da cabana quando a luz apagou, desapareceu de forma misteriosa como se algum ser invisível a tivesse tocado e a tornado invisível como ele.

Parei ao ver aquilo. O medo subiu-me pela espinha e o pressentimento de que algo não estava certo me tomou completamente.

Da distância em que eu estava era impossível enxergar ou ouvir algo. Resolvi dar a volta por trás da casa. Entrei pelo mato alto e contornei a construção, parando logo atrás dela. Me abaixei e rastejei pelo gramado. A casa foi construída suspensa por vigas de madeira que a protegiam em dias de cheia. Fui devagar para baixo desse vão e parei entre dois sarrafos de assoalho.

Fiquei em silêncio até ouvir um som fraco, um gemido dolorido e o choro calado de uma mulher. Thereza.

Me preparei para voltar e perguntar, com toda a preocupação cega que o amor nos causa, o que a afligia. Então, ouvi sussurros que não eram os dela. Sussurros roucos e nervosos, o tilintar de esporas e o engatilhar de uma espingarda.

Me encolhi embaixo da cabana. O terno branco sujo de barro, o sapato submerso na lama e o chapéu com as abas amassadas e tortas.

Aproximei o rosto do tabuado para tentar escutar e ouvi a voz de um homem.

― Pare de choro ― ele dizia. ― Pare com esse choro agora, sua rapariga ou eu te furo aqui na frente da criança.

― Por favor, paizinho ― era a voz de Thereza. ― Sou sua filha.

Ouvi um baque seco e um gemido curto.

― Se você não calar essa boca, mato vocês duas antes da maldita criatura que fez tudo isso ― o homem levantou a voz e Thereza ainda gemia. ― Filha minha? Filha minha não ia se engraçar com demônio nenhum. Eu devia mandar você para o inferno.

Ouvi outro baque e o choro de uma criança. Meu corpo tremia, queria correr até lá, chegar por trás daquele homem, agarrar seu pescoço e apertá-lo até que sua cabeça soltasse do restante do corpo e eu pudesse puxá-la junto com a sua espinha.

― Cale essa criança, agora. Agora, Thereza! ― Gritou o homem. ― Cadê aquele ser dos infernos? Apareça ou atiro em todos aqui, seu verme filho da puta. Você amaldiçoou minha família. Tirou a pureza da minha filha e a enfeitiçou com esse amor demoníaco.

― Não, meu pai ― Thereza gritou. ― Por favor…

Todo o meu corpo berrava para que eu fizesse algo. Foi então que, parado embaixo daquela casa, tive uma nova visão: a cena de uma deusa que, um dia transformada em peixe, fugiu pelos mares para se esconder da morte. Observei-a sentada sobre uma rocha a beira-mar, com uma veste de seda, acariciando os cabelos negros de um jovem enquanto dizia: “Sê bravo com os tímidos, coragem para enfrentar os corajosos não é seguro”. Me mantive, após essa revelação, parado e a escutar os lamentos e as declarações de guerra e vingança do homem.

― Você destruiu tudo o que eu construí por causa de um coito com aquela cria do Satanás — continuou o homem para Thereza. — E mesmo depois de descobrir que era um boto, continuou com a insolência. Fez com ele um romance. Casou-se com o diabo. Bruxa ― gritou o homem. ― É isso que você é, desgraçada. Uma maldita bruxa.

Ele bateu nela novamente, mais forte dessa vez pelo grito de dor que ecoou na casa. A criança começou a gritar para que parassem.

― Não, meu pai ― a voz de Thereza era fraca, desesperada. ― Eu lhe peço, seja misericordioso. Me poupe da sua raiva. Sou sua filha, sua família. Helena, ela também… não…

Permaneci em silêncio mesmo com o estrondo ensurdecedor, mesmo com o som do corpo desfalecendo pelo assoalho de madeira e com os berros de uma criança clamando por socorro. Permaneci em silêncio diante da morte de alguém que me nutriu amor, que me esperou por cinco anos com a certeza de que eu voltaria para seus braços. Permaneci, sim, receoso pelo sinal que haviam me dado… o sinal dos deuses.

As botas do homem trovejaram sobre o piso acima de mim. Ele saiu pela porta da frente e gritou para a floresta.

― Maldito. Monstro. Demônio do rio. Onde está você? Por que não aparece? Covarde ― ele desceu pela escada e começou a dar a volta na casa. ― Me fez matar minha filha, minha única família. Carrasco do Satanás. Onde você está, boto maldito? Vou arrancar suas vísceras e comê-las com você ainda vivo… eu vou… vou…

Ouvi seus passos pela lateral da cabana. No céu, a Lua amarela iluminava a figura. A bota de cano alto, a barba grossa, o chapéu de palha e a espingarda ainda com o cano quente na mão esquerda.

Ao meu destino, reservei o silêncio e o homem parou de costas para mim. Ofegando, ele olhou para o céu, para o olho que tudo vê, que rasga o manto negro para espiar e se divertir com a crueldade da natureza humana e das criaturas que coexistem com ela.

― Era isso, então ― disse calmamente. ― Era isso que você queria, afinal? Que eu passasse o resto dos meus dias com esses olhos em mim, os olhos da minha filha morta ― ele ergueu a espingarda e gritou. ― Acha mesmo que vou viver com isso? Acha que sou homem de viver minha vida enterrado no sofrimento e na lamentação?

O homem que era pai de Thereza olhou para o horizonte negro da floresta.

— Pois você está muito enganada — disse e enfiou o cano da arma na boca.

Antes que eu pudesse entender o que aconteceria, a espingarda rugiu pela última vez e o estrondo ecoou pela escuridão. O homem caiu para trás, o sangue brotando dos cantos da sua boca e da sua nuca, vertendo pelo gramado. O luar o iluminou e eu vi seu rosto e seus olhos vidrados, amarelos como a própria Lua cheia que nos assistia. Pareciam ainda guardar a raiva que tinha dos deuses, embora sua alma em fúria não estivesse mais ali.

Fitei-o por um breve momento, compadecido pelo castigo a que fora acometido. O silêncio da morte só não me envolveu completamente devido ao soluço baixo que vinha de dentro da cabana de madeira. Dei a volta na casa e entrei pela porta da frente. Thereza estava caída de bruços, o buraco de bala na nuca mostrava parte do seu cérebro e o cabelo estava empapado de sangue e grudado sobre seu rosto. A criança estava deitada ao seu lado, com o braço em volta do seu pescoço e com a outra mão acariciando um tufo de cabelos que não estava ensanguentado. A menina olhava-a como se esperasse que a mãe acordasse de algum sono profundo que não a deixou chegar até a cama.

Parei em frente às duas. A menina levantou a cabeça e eu vi, naquele casarão esquecido no meio da infinita floresta, o verdadeiro encanto, a verdadeira perfeição, um rosto duro, arredio, mas belo como o de Thereza, uma beleza bruta, antiga, animal.

Então, vi seus olhos. Eram olhos de outro mundo, um mundo escuro, distante, escondido em profundezas mais antigas que o universo. Entendi, naquele momento, o que eu deveria fazer. Compreendi finalmente o significado da visão que tive.

Peguei-a no colo, aquela pequena e linda criança. Cinco anos agora e eu via a mim mesmo dentro daqueles olhos. Caminhei com ela nos braços pela estrada. A orbe amarelada terminando seu ciclo sombrio.

Entrei pelo labirinto de galhos retorcidos mais uma vez, pensando em meu passado esquecido, vendo a mim mesmo matando a fera das feras para depois abandonar meu verdadeiro amor à própria morte por luxúria e covardia.

Não me apeguei a esse vislumbre. Comigo seria diferente. Estava sendo diferente. Eu tinha a ela. Meu amor incondicional e verdadeiro, como nenhum outro poderia ser igual. Helena. Esse era seu nome, como eu ouvira da boca de sua mãe pouco antes de morrer.

Cheguei às margens do rio e caminhei para o seu leito. Tive que segurar forte Helena e tentar acalmá-la enquanto ela se debatia e gritava de medo. A criança parecia ainda não entender, mas não havia problema. Logo, tudo ficaria claro para ela. Afinal, para seres como nós, cinco anos passam num piscar de olhos.

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Informação

Publicado em 10 de março de 2017 por em Folclore Brasileiro.