EntreContos

Literatura que desafia.

Solaris – Resenha (Gustavo Araujo)

Solaris

Um dos fatores que mais me motivam a participar dos desafios do Entre Contos é escrever sobre ramos da literatura que normalmente não me atrairiam como autor. Assuntos novos, áridos, são difíceis de resistir e fazem com que eu busque referências junto aos clássicos. Assim foi com o tema “noir”, quando escrevi “Coração Negro” após ter lido “À Beira do Abismo”, do Raymond Chandler, ou, mais recentemente, com “fobias”, ao conceber “Hissatsu” depois de um mergulho em “Kamikaze Diaries”, de Emiko Ohnuki-Tierney.

Com o tema “ficção científica” não poderia ser diferente. Embora eu seja um entusiasta da matéria, nunca escrevi a respeito. Li e assisti a algumas obras típicas – a biografia de Einstein, os livros do Carl Sagan, como “Contato”, “O Mundo Assombrado pelos Demônios” e “Bilhões e Bilhões”, para citar como exemplos – mas sempre na condição de espectador. Também acompanho as notícias relacionadas e alguns blogs sobre astronomia, mas com interesse pouco além do ordinário. Sendo inexperiente, então, deveria procurar inspiração nos medalhões. Quem é o melhor escritor de ficção científica em todos os tempos? Pelo que vi, a maior parte dos fãs não hesitaria em apontar Isaac Asimov e Arthur Clarke para o lugar mais alto do pódio. No entanto, depois de ler algumas resenhas, escolhi outro autor para me abrir as portas desse mundo: o polonês Stanislaw Lem.

Há mais ou menos um ano compartilhei um artigo do jornalista João Pereira Coutinho na Folha de S. Paulo em que se debatia a imortalidade e suas nefastas consequências. Para ilustrar seu pensamento, o autor português fazia alusão ao filme “Solaris”, de 1972, dirigido pelo soviético Andrei Tarkovsky, refilmado em 2002 por Steven Soderbergh.

Um comentário do amigo Diogo Bernadelli me esclareceu que o filme fora baseado no romance homônimo de Lem. Pesquisas no Google e em sites diversos me levaram a mais informações sobre a obra e sobre o próprio autor. Um dos mais prolíficos e premiados escritores de ficção científica, adorado no Leste Europeu, Lem tinha como diferencial, de acordo com os sites que pesquisei, as abordagens filosóficas e questionadoras sobre a natureza humana tendo como pano de fundo a ficção científica.

Foi o que bastou para eu comprar “Solaris”, o livro. No entanto, a procrastinação que atinge a todos nós, leitores ávidos, fez com que eu o deixasse de lado em detrimento de outras leituras. Até que chegou o desafio sobre ficção científica e, com ele, a razão mais do que suficiente para que eu decidisse abrir as páginas desse clássico.

Foi como encontrar terra depois de um naufrágio.

“Solaris” foi publicado em 1960. Tornou-se um sucesso estrondoso não só na Polônia, mas em outros países da Cortina de Ferro. Por conta da Guerra Fria, alguns anos se passariam até que surgisse uma edição no ocidente. A primeira, francesa, de 1964, serviu de base para a versão em inglês, de 1970, duramente criticada por Lem por não fazer jus às expressões criadas por ele.

Mas vamos à história.

Tudo se inicia com a chegada do protagonista-narrador, o psicólogo Kris Kelvin, à estação espacial que orbita o planeta Solaris. Lá, ele descobre que um dos tripulantes, seu mentor, Gibarian, se suicidou, e que os dois remanescentes, Snaut e Sartorius, estão passando por episódios de intensa perturbação mental. Logo Kris entende o motivo: todos ali estão recebendo visitas de pessoas que já haviam morrido. O próprio Kris, sem demora, vê-se diante de Harey, sua esposa, que se suicidara havia uma década, aos dezenove anos. Não, não se trata de fantasmas ou algo sobrenatural. Os visitantes estão vivos e interagem até mesmo com os demais tripulantes.

Ao debater a natureza das aparições com os cientistas a bordo, Kris tenta se aferrar à realidade, ao mesmo tempo em que luta contra a tentação de acreditar, contra o desejo torturante de ter a esposa novamente consigo.

Por meio de digressões que remontam à época da descoberta de Solaris – inclusive o histórico de cem anos da exploração – Kris revela ao leitor que o planeta é tomado por um vasto oceano que, de acordo com algumas teorias, é um ser dotado de inteligência. Kris aborda os livros já escritos sobre Solaris, cita os primeiros exploradores, narra os feitos de antigos tripulantes, critica e exalta cientistas e obras diversas, debate teorias jamais comprovadas e teses que se revelaram verdadeiras, enfim, tragando o leitor para o ramo da ciência que, no livro, chama-se “solarística”. Longe de ser enfadonho, esse contexto sustenta a ciência por trás do romance, conferindo-lhe uma verossimilhança assustadora.

Todavia, mesmo com tanto conhecimento, mesmo diante de um ceticismo auto-imposto, Kris tem dúvidas sobre o que fazer com a esposa. Embora saiba que Harey é provavelmente uma recriação, ele a tem como se verdadeira fosse. Tudo parece autêntico – os atos, os gestos, a maneira de falar. O perfume, o carinho, as manias. Contudo, ela – ou ao menos essa versão dela – sempre terá dezenove anos, alertou Snaut.

Exames detalhados demonstram que Harey, assim como os demais visitantes, é composta de neutrinos. Essa informação permite a elaboração de uma teoria por Sartorius: se o oceano de Solaris for bombardeado com raios-X, será possível fazer com que os visitantes desapareçam. Em pouco tempo, um aparelho é desenvolvido. Hora de pôr um fim às ilusões. O que fazer? O dilema de Kris, nesse ponto, é de torcer o coração e vale todo o livro. Até que ponto é correto acabar com uma miragem que nos traz felicidade?

A genialidade de Lem é revelada no momento em que desdobra com precisão arrebatadora o clássico dilema da astronomia: estamos sós? Seriam os “visitantes” a maneira pela qual o oceano de Solaris tenta se comunicar conosco? Por que, afinal, buscamos esse contato? Por que procuramos civilizações alienígenas, mundos idênticos à Terra?

Lem propõe, nas entrelinhas, que nós mesmos, seres humanos, possuímos em nosso interior um oceano tão ou mais vasto que o plasma de Solaris, tão ou mais assustador, tão ou mais desconhecido. Tão ou mais fascinante.

Ficção Científica? Sim, há de monte, mas são os questionamentos filosóficos que se abatem sobre Kris Kelvin que tornam o livro atemporal. Propostos há mais de cinquenta anos, permanecem instigantes, especialmente quando os imaginamos à luz dos dois sóis – um vermelho e outro azul – orbitados por Solaris.

O conto que escrevi para o desafio foi chamado “Gibarian”, em alusão ao personagem que menos aparece no livro de Lem, mas que mais influencia o protagonista. Na minha história, trata-se do nome do planeta que, à semelhança de Solaris, também joga com nossos anseios mais recônditos, especialmente aqueles que nos conectam a quem já partiu. Carl Sagan, aliás, fez isso em Contato, obviamente com muito mais competência do que eu, mas talvez não com a profundidade de Stanislaw Lem.

Deixo aqui a dica, então, para esse livro extraordinário, essa homenagem à nossa insignificância no universo, algo que, pelo prisma oferecido, vale cada segundo.

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24 comentários em “Solaris – Resenha (Gustavo Araujo)

  1. Ricardo Gnecco Falco
    17 de outubro de 2016

    Taí… Agora fiquei com vontade de ler o livro! 🙂 Assisti a versão cinematográfica (2002), apenas. Difícil vai ser arrumar tempo… Mas botei já na “listinha” (rs)! Valeu pela ‘instigada’! 😉
    Abrax!

  2. Olisomar Pires
    17 de outubro de 2016

    Obg pela dica, será meu próximo livro, assim que terminar ” O sol é para todos”.

  3. Marcel Nunes
    17 de outubro de 2016

    Não comentei no meu post – Parabéns ao Gustavo Araujo pela resenha que ficou excelente. Alem da critica, a sinopse do livro está muito boa, explica bastante mas não conta o livro, no spoilers…..rrssrsrrs. Não conhecia o site, mas ja virei fã.Um abraço !!!

  4. Marcel Nunes
    17 de outubro de 2016

    Muitas pessoas nos posts perguntando se assiste ao filme ou lê o livro antes de assistir aos filmes, ….. Minha dica – LEIA O LIVRO. Acabei de lê-lo e ja estou programado para ler de novo, quando sobrar mais um tempinho, quero pegar as informações que deixei passar. O Lem não é deste mundo….:) Criatividade e questionamentos em alta. É algo tipo 2001 (space odissey), ele nos deixa com mais questionamentos do que respostas, e esse é mais um segredo do seu sucesso. ,Pegue o livro, em vários formatos, em —> http://lelivros.me/categoria/ficcao-cientifica/

    • Gustavo Castro Araujo
      17 de outubro de 2016

      Obrigado pelo comentário, Marcel. Certamente Solaris é dessas obras que merecem ser revisitadas de tempos em tempos, até para nos recordar do quão pequenos somos. Um grande abraço!

  5. Davenir Viganon
    24 de junho de 2016

    Terminei de ler hoje esse livro e é muito bom. É para quem gosta mais de boas perguntas do que de boas respostas.

  6. Rodolfo Euflauzino
    19 de agosto de 2015

    Caro Gustavo, este livro é maravilhoso e sua resenha destrinchou tudinho. O que mais me chamou a atenção foi o oceano antropomorfizado de Solaris, com características sobre-humanas não consegue um contato real, é mais assustador que acolhedor. Porém, o livro de Lem que está em primeiro lugar em minha listinha é “Memórias encontradas numa banheira”, simplesmente cláááássico!

    • Gustavo Castro Araujo
      19 de agosto de 2015

      Cara, fico aqui boquiaberto com a criatividade do Lem. Quando ele começa a falar de tudo o que o oceano faz, do contato dos primeiros exploradores com esse ser tão… diferente; das formas que ele cria, das imagens, cidades, bebês gigantes… Dá para imaginar que tudo isso foi mesmo uma tentativa de comunicação. Pensando por esse lado, dá para ficar com pena do oceano, que fez de tudo para se comunicar com os tripulantes da estação, sem qualquer sucesso, porém. Genial, né?

      • Rodolfo Euflauzino
        19 de agosto de 2015

        é um romance irresistível. ele não ficou tão bem gravado em minha memória, mas o oceano ficou em mim como o negativo de uma foto, por isso ainda me emociono ao pensar sobre ele.

  7. Piscies
    19 de agosto de 2015

    Este é um dos livros que eu estou para ler há anos. Mas assisti o filme e ele já tinha me tocado. É realmente uma excelente história.

    • Gustavo Castro Araujo
      19 de agosto de 2015

      Não vou usar o chavão de dizer que o filme é inferior ao livro. Diria que é tão instigante quanto, quer falemos do filme do Soderbergh, quer do filme do Tarkovsky. O livro, por um lado, tem aquela vantagem de trazer explicações que fazem os entusiastas de ficção científica lerem os parágrafos com a boca aberta. Os filmes, de recriar de modo competente os aspectos mais profundos da narrativa de Lem.

  8. Brian Oliveira Lancaster
    19 de agosto de 2015

    Não podia deixar de passar aqui. Sempre via esse filme nas locadoras (sim, existiram, até de fitas de videogame), mas nunca o pegava. Talvez porque o George Clooney na capa não me passasse confiança. A curiosidade permaneceu, mas a vontade não. Lendo a resenha, ressurgiu aquele instinto adormecido. Lerei ou verei? Eis a questão. Talvez os dois… e Shakespeare se remexe no túmulo.

    • Piscies
      19 de agosto de 2015

      Eu assisti ao Solaris de 2002 e foi um dos filmes que mais me marcou, ao lado de Matrix e Gattaca. É inspirador.

    • Gustavo Castro Araujo
      19 de agosto de 2015

      Assista e leia, Victor. Não só o livro vale a pena, mas as duas versões para o cinema. São abordagens que se completam, mantendo a essência da história original mas apresentando nuances próprias.

  9. Rubem Cabral
    19 de agosto de 2015

    Já li “Solaris” e vi a versão americana do filme, que, embora bonita, não faz jus ao livro, talvez complexo demais para um filme. Acho que ele se encaixaria melhor numa minissérie: seria incrível ver aquelas cidades orgânicas e outros artefatos criados pelo oceano e descritos no livro.

    Uma coisa que aparece muitas vezes na obra de Lem e que me fascina é essa questão da estranheza/complexidade da inteligência alienígena. Será possível a comunicação quando o dia do primeiro contato enfim chegar? Ou será que “eles” serão tão distintos, tão evoluídos, que seríamos como formigas tentando conversar com humanos? Será que seríamos como civilizações humanas que rapidamente se extinguiram depois de abordadas por outras mais avançadas?

    A propósito, “Solaris” foi inspiração para meu conto “Ecos da Colônia” também. Assim como Solaris fazia uma órbita improvável ao redor de seus dois sóis, meu planeta Limo também manipulava sua órbita, se protegia de ameaças, feito um organismo vivo.

    • Gustavo Castro Araujo
      19 de agosto de 2015

      O filme do Tarkovsky tem fama de ser bem mais fiel ao livro. Mas creio que só hoje temos a tecnologia necessária para transformar em realidade cinematográfica toda a viagem de Lem — essas cidades orgânicas e outras criações protagonizadas pelo oceano, como você bem lembrou.

      Também fiquei com essa sensação de que talvez o contato seja prejudicado por sermos por demais insignificantes. A conferir.

      Bacana ver que a obra de Lem influenciou algumas pessoas no desafio. Além dos nossos contos, percebi um pouco de Solaris em mais dois ou três.

      A propósito, “Ecos…” é um contaço.

  10. Pedro Luna
    19 de agosto de 2015

    Fabio, esse da bomba no sol é Sunshine – Alerta Solar, eu acho.

    Curti a resenha. Fiquei curioso demais para ler e comparar com o filme. Quero saber o quanto de Tarkovsky e o quanto de Lem existem na projeção.

  11. Fabio Baptista
    19 de agosto de 2015

    Certa vez disseram que um dos meus contos (Titã) lembrava Stanislaw Lem.

    Desde então estou para conhecer esse escritor abusado que escreve parecido comigo! kkkkkkk

    Ótima resenha, Gustavo.

    PS: Eu pensei que Solaris fosse outro filme… um que os caras vão jogar uma bomba no Sol, pra tentar “ressuscitá-lo”. Esse aí eu não assisti não, vou procurar.

  12. mhs1971
    18 de agosto de 2015

    Gosto demais do Stanislaw Lem.

    • Gustavo Castro Araujo
      19 de agosto de 2015

      Preciso ler outras obras dele!

      • mhs1971
        19 de agosto de 2015

        Tem um outro livro dele que gostei, entitulado “memorias encontradas em uma banheira”. Muito bom.

      • Gustavo Castro Araujo
        19 de agosto de 2015

        Dica anotada! Valeu, Marcia!

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Publicado às 18 de agosto de 2015 por em Resenhas e marcado , , .