EntreContos

Detox Literário.

Coração Negro (Gustavo Araujo)

bacall

Você pode me chamar de Fortuce. Não espero que goste. Honestamente, não dou a mínima. Nunca fui alguém de trato fácil, mas, por precaução, peço que não se afeiçoe a mim. Existe uma tendência de se gostar dos canalhas, especialmente quando os vemos à beira do abismo. Um erro imperdoável.

۩۩۩

A primeira vez que entrei na mansão Carter foi em novembro de 1946. Ficava em Santa Mônica. Na época, destacava-se por seus pilares dóricos e por sua enorme porta de entrada, por onde poderia passar uma manada de elefantes indianos. Fora construída com a renda do comércio ilegal de bebidas, diziam, mas isso não era da minha conta.

Eu tinha sido chamado pelo proprietário, o Sr. Carter, um homem na casa dos setenta anos. Ele me esperava em seu escritório particular, uma sala repleta de livros, retratos e pinturas, tudo organizado em um espaço maior que o apartamento em que eu vivia a quilômetros dali, no centro de Los Angeles.

Em meio às estantes que alcançavam o teto, o Sr. Carter estava sentado em uma poltrona de couro. Tinha as pernas cruzadas, as costas retas e as mãos entrelaçadas em frente ao queixo, a imagem de um negociante sagaz.

“Sei que você é discreto, Fortuce” – disse ele, em um tom mais baixo do que o normal, querendo me adular. Seu rosto era comprido, ornamentado por rugas e por um bigode fino. O nariz era pequeno e a cicatriz próxima à boca fazia pressupor uma história interessante.

“O que quer de mim, Sr. Carter?”, perguntei secamente.

Ele me ofereceu uma dose de brandy e pediu que eu relaxasse.

“Também não gosto de conversa fiada”, disse ele.

Era viúvo. Havia se casado novamente há pouco tempo com uma mulher quarenta anos mais nova. Não era segredo. A notícia saíra em todos os jornais, um desses escândalos sociais inaceitáveis cujos detalhes todo mundo quer saber.

“Meu filho Thomas foi raptado”, disse, enfim, a expressão dura como um manequim de cera.

O rapaz era fruto do primeiro casamento. Estava com quinze anos. Desaparecera há duas semanas.

Não havia emoção na voz do Sr. Carter à medida que me passava os detalhes. Seus olhos estavam embaciados, seguramente em outro lugar, mas o relato mais parecia uma história de rádio narrada com tédio. Ou porque ele já a havia repetido várias vezes, ou porque se tratava de um discurso ensaiado.

Deixei-o falar, sorvendo a bebida. Observei-o por um instante pelo fundo do copo. O desenho distorcido de sua expressão lembrava um quadro de El Greco.

“Alguém fez contato?”, perguntei, seguindo o roteiro do manual os detetives. Naturalmente esperando a pergunta, o Sr. Carter esticou a mão ossuda na minha direção, oferecendo-me um envelope escuro. Abri e olhei rapidamente o conteúdo. Mensagens escritas com letras recortadas de jornais diziam que o jovem Thomas estava bem e que em breve seria feito contato. Em todo caso, a polícia tinha que ficar de fora, sob pena de execução sumária do garoto.

Enquanto eu analisava o material, o Sr. Carter me disse que de todo modo jamais chamaria a polícia. “Não posso confiar em quem aceita subornos tão baixos”, sentenciou, com a entonação amargurada de quem sabe o que está falando.

Esmaguei o cigarro num cinzeiro de prata e apanhei meu chapéu. Toquei a aba à guisa de um cumprimento e disse que era tudo o que eu precisava saber por ora. Ele não se preocupou em levantar ou mesmo em dizer até logo.

Quando me encaminhava para a saída da casa, deparei com a Sra. Carter. Era uma mulher de trinta e poucos anos. Mais ou menos como eu, na época. Tinha a expressão típica de quem está acostumada a ser obedecida. Seu rosto era redondo e os olhos castanhos eram levemente amendoados. O cabelo era comprido, ondulado, e refletia as luzes do corredor. A boca entreaberta, com o lábio inferior cheio e carnudo, lhe emprestava um ar de suposta fragilidade. Alta, esguia e forte, mas com uma carência latente, era uma mulher por quem valeria a pena entrar numa briga de bar.

“Espero que possa nos ajudar”, disse ela, mordendo a ponta do polegar. A voz rouca e os olhos faiscantes traduziam uma aura enigmática e dúbia, tornando impossível distinguir se realmente estava preocupada, se flertava comigo ou se exercitava uma natural habilidade de manipulação.

“Meus negócios são com o Sr. Carter. Espero que entenda”, disse eu. No mesmo instante me vi recebendo uma medalha de escoteiro. Quis engolir o que disse.

“Você não é muito educado”, observou ela arqueando uma das sobrancelhas. “Tenho muita afeição por Thomas. Espero que não se esqueça disso.”

“Não esquecerei” respondi, encarando-a. “Quanto aos meus modos, peço desculpas. Má educação sempre foi minha matéria favorita na escola.”

۩۩۩

Não foi difícil rastrear a autoria das mensagens. A técnica das letras recortadas pode ser muito eficiente nas mãos certas, mas amadores acabam sempre se denunciando. Foi esse o caso. Levei as folhas até a inspetoria de polícia em La Brea Crescent. Lá trabalhava um rapaz chamado David Evans, ex-ladrão, ex-bêbado, ex-viciado e ex-jogador que se convertera na pessoa mais religiosa e insuportável da Costa Leste. Ele me devia alguns favores desde a época em que eu o ajudei a se livrar de uma condenação certa por porte ilegal de arma. Pedi a ele que examinasse os papeis em busca de digitais.

Dois dias depois ele me telefonou e pediu que o encontrasse em uma igreja franciscana em Montecito Heights por volta das 11h30. Entre os bancos vazios do lugar, ele me disse que havia mais impressões no papel do que “Estrelas no Céu do Senhor”. Todas correspondiam a um sujeito chamado John Dugard. Dizendo isso, me passou a ficha do sujeito. Pela foto, poderia se tratar de um praticante de luta livre: o rosto era cheio, encimado por cabelos claros, e, fazendo jus à aparência robusta, tinha a cabeça grudada ao tronco, tornando o pescoço invisível. Satisfeito, disse a David que lhe pagaria uma bebida, mas ele recusou fazendo o sinal da cruz.

۩۩۩

John Dugard era um tanto descuidado para um sequestrador. Seu endereço constava da lista telefônica como o de qualquer pessoa comum. Não foi difícil localizar o apartamento em que ele vivia na Wilshire Blvd. Esperei discretamente do lado de fora, fingindo ler um jornal. Quando duas senhoras saíram, deixando a porta de entrada aberta, eu aproveitei a chance. O prédio era desses antigos, de quatro andares, sem elevador, construído na década de 20. Os corredores eram frios, úmidos e iluminados por solitárias lâmpadas fluorescentes que piscavam a todo instante. Subi as escadas até encontrar o nº 23. Bati com o nó dos dedos na porta e esperei. Eu já tinha preparada a velha história do vendedor de enciclopédias, caso necessário. No entanto, ninguém respondeu. Tentei mais uma vez e o resultado foi o mesmo.

Com uma chave mestra, forcei a entrada. O silêncio do apartamento me envolveu instantaneamente. Havia um sofá de couro no meio da sala, tão velho que Abraham Lincoln poderia ter se sentado ali. Em frente, o rádio servia de suporte para um aquário onde um peixe alaranjado nadava sozinho. Um balcão escuro completava o cenário, encostado na parede. Abri cada uma das três portas. Nada diferente do imaginado: pratos, toalhas, talheres. Na parede, um quadro mal pintado de cena bucólica assustava os incautos. Provavelmente, obra de algum parente.

Na cozinha, uma mesa quadrada exibia os restos do café da manhã: uma xícara manchada, pães pela metade e um tablete de manteiga que já se derretia.

No único quarto do apartamento via-se uma cama desfeita e um pijama de flanela jogado de qualquer jeito. Um odor de perfume conhecido entorpecia o ar. No canto do cômodo, uma escrivaninha reinava solitária. Sobre ela jazia uma máquina de escrever. Uma pilha de papéis datilografados repousava ao lado, tudo meticulosamente organizado, contrastando com o resto do apartamento. Passei os olhos rapidamente nas linhas e percebi que se tratava de um rascunho de um livro. Talvez um romance. O título dizia: “Mar da Índia”. No canto da folha, uma dedicatória se destacava: “para V.”

Satisfeito, tratei de ir embora.

Eu precisava ficar de olho em John Dugard. Ele me levaria ao garoto, eu tinha certeza. Estacionei meu Buick próximo do edifício e voltei ao jornal. Vi quando ele chegou por volta das 20h35. Além da compleição de um aríete, como eu já desconfiava, ele era alto também. Lembrava um rinoceronte vestido de terno. Entrou no edifício tranquilamente, carregando uma pasta e alguns livros. Estava desacompanhado.

A luz do apartamento permaneceu acesa durante a maior parte da noite. Malditos escritores notívagos. Às 4h20 o rádio tocava Anita O’Day e Gene Krupa enquanto eu fazia espirais com a fumaça do cigarro. Foi quando eu a vi se aproximando do prédio, confirmando minhas suspeitas.

A Sra. Carter vestia um capote pesado. O toc toc dos sapatos, porém, chamava a atenção ao martelar a calçada. Ela entrou no edifício sem cerimônias. Tinha a chave.

O sono que me inebriava desapareceu no mesmo instante. Embora eu já desconfiasse dela desde o primeiro instante, vê-la de fato me deixou um tanto perturbado.

۩۩۩

Durante duas semanas segui os passos de John Dugard. De seu apartamento para a biblioteca. Da biblioteca ao banco. Do banco à telefônica. Da telefônica aos restaurantes que ele frequentava. Todos os dias. Nada nessa rotina, porém, indicava o possível cativeiro do rapaz raptado. Para minha decepção, tampouco vi sinal da Sra. Carter depois da primeira noite de vigília.

A essa altura, o pedido de resgate havia chegado às mãos do Sr. Carter. A mensagem exigia duzentos mil dólares pelo garoto.

Resolvi que era hora de conversar com Dugard. No dia seguinte ele tomou um ônibus e desceu em Hollywood. Seguiu até um bar e devorou um cheeseburguer. Em seguida, foi até o Gruman’s. Estava em exibição a nova película de Rita Hayworth, um filme que já era conhecido antes mesmo da estreia. Dugard comprou um ingresso e entrou. Ótimo, pensei. Nada melhor do que um cinema para manter a discrição de nosso bate papo.

Sentei à retaguarda, com a sala já escura, e esperei que ele se acomodasse. Intuitivamente, resolvi aguardar. Pelo menos até a cena em que a Srta. Hayworth insinuasse seu famoso stripteatease. Foi quando notei alguém se sentando ao lado de Dugard. Mesmo com um lenço amarrado à cabeça, reconheci a silhueta da Sra. Carter.

Logo ele passou o braço sobre os ombros dela. Assim, entre sussurros e beijos contidos, assistiram aos dilemas de Glenn Ford. Tive vontade de ir embora. Senti uma ponta de inveja, para ser honesto. Mais do que isso, percebi que estava atraído pela Sra. Carter, não só por sua beleza, mas por vê-la arriscando tudo o que tinha para viver um romance ao lado daquele escritor fracassado.

Antes dos créditos ela se retirou, a cabeça baixa, sem olhar para os lados.

Decidi que não poderia prosseguir com aquele caso. Além da natural dificuldade de qualquer investigação, eu acabaria me apaixonando pela principal suspeita. Era hora de apresentar minhas desculpas ao Sr. Carter e partir para outra. Quem sabe me alistar na Legião Estrangeira ou coisa assim.

۩۩۩

Era uma manhã de segunda feira quando estacionei em frente à mansão Carter em Santa Mônica.

Aguardei o Sr. Carter no escritório por longos minutos. Reparei nos porta retratos que enfeitavam as estantes. Muitas das fotos mostravam a Sra. Carter, ora sorrindo, ora séria. Senti-me hipnotizado. Decididamente, eu precisava dar o fora.

Por fim, o Sr. Carter apareceu. Tinha uma nota de preocupação na voz. “Prenderam um suspeito”, disse. “Uma denúncia anônima levou a polícia até o apartamento de um tal Dugard. Acabei de receber a notícia. Foi isso que você veio me dizer?”

“Não… Eu…” balbuciei como um recém-nascido, totalmente surpreso.

O velho pareceu decepcionado.

“De qualquer maneira, é uma boa notícia…” disse ele, evidentemente para preencher o vazio de minha falta de palavras.

“Prenderam mais alguém?” indaguei por fim, receando que já tivessem levado a Sra. Carter para a inspetoria também.

“Não. Ninguém”, respondeu ele. “Você tem alguma outra suspeita?”

“Não…. Na verdade, não…” disse eu, balançando a cabeça.

“Tenho fé que encontraremos Thomas com vida”, disse ele, esfregando as mãos.

“O senhor pagou o resgate?” perguntei, tentando adivinhar até onde Dugard e a Sra. Carter tinham chegado.

Antes que o velho respondesse, ela entrou no escritório.

Senti a boca seca. Uma camisola de cetim prateada marcava suas curvas com discrição. Os cabelos estavam presos no alto da cabeça, com pontas soltas realçando os olhos escuros. Exalava o mesmo perfume que eu identificara no apartamento de Dugard semanas antes.

Disse que estava aliviada pelo suspeito ter sido preso, mas preocupada com a segurança do garoto que, afinal, permanecia desaparecido. Ao seu lado, o Sr. Carter apenas balançava a cabeça. Senti meu estômago revirar. Sabia que deveria desmascará-la e que aquele era o momento certo. Fui incapaz, porém. A covardia recobriu tudo o que eu tinha de dignidade. Incapaz de pronunciar qualquer coisa, balancei a cabeça como o Sr. Carter. Dois imbecis completos, com a agravante, no meu caso, da consciência a esse respeito.

۩۩۩

Três dias depois, Dugard foi encontrado morto em sua cela. Tinha se enforcado com o próprio cinto. Não revelara qualquer detalhe sobre o paradeiro de Thomas Carter. Duas semanas mais tarde, um telefonema anônimo indicou o local do cativeiro. Os homens da polícia encontraram o corpo em avançado estado de decomposição. Segundo a perícia, o jovem fora envenenado.

Jamais acompanhei esses desdobramentos pessoalmente. Segui o desfecho pelos jornais, remoendo minha omissão, deixando até mesmo de responder aos raros telefonemas que recebia.

Não tive coragem de cobrar o Sr. Carter pelos meus serviços. Mesmo assim chegou até as minhas mãos, cerca de um mês depois do caso encerrado, um cheque no valor de quinhentos dólares. Rasguei-o na mesma hora, embora precisasse de um chapéu melhor.

Acabei me fechando em meu mundo de casos banais. Queria esquecer aqueles dias. Esquecer a Sra. Carter. Esquecer John Dugard. Esquecer aquele crime terrível e, enfim, a minha própria falta de coragem, embora soubesse que isso seria impossível. Ela tentou falar comigo logo depois, mas eu preferi ignorá-la.

۩۩۩

Em 1949 o Sr. Carter morreu. Intoxicação alimentar, pelo que disseram. Sofria de depressão desde que soube da morte do filho. Não poderia durar muito de qualquer forma. Foi enterrado em Evergreen numa cerimônia discreta, aberta apenas para familiares. Acompanhei o funeral de longe, sob uma chuva fina que gelava até os ossos.

Os anos seguintes demonstraram o sucesso do plano da Sra. Carter. Ela naturalmente herdou sozinha a fortuna do marido, já que não havia qualquer outro descendente em seu caminho. Soube administrar bem os negócios, aproximando-se de gente influente e estabelecendo alianças com as pessoas certas. Juízes, advogados, funcionários públicos… Sua roda de amigos – e possivelmente amantes – era bem diversificada.

Os jornais a retratavam como exemplo de sucesso e superação. Com o passar das décadas, tornou-se conhecida também pelas feiras beneficentes e pelas obras de caridade que patrocinava em South Central. O tempo foi generoso com ela. Continuava uma mulher magnífica mesmo quando a juventude já havia se evaporado.

Como eu disse, acompanhei tudo de longe. Ano a ano, fui testemunha da construção do mito da Sra. Carter. A cada notícia que lia a seu respeito, eu me sentia tão desprezível quanto uma ameba, por compactuar, ainda que indiretamente, com aquele circo todo, incapaz de um ato sequer de hombridade para expiar minha culpa.

۩۩۩

Em 1982, recebi a notícia de que minha hora estava chegando. Câncer de pulmão. Eu sabia o fim que me aguardava. Não tinha ilusões. Essa proximidade com a morte pode ser interessante, pois às vezes tem o efeito de um elixir de coragem.

Juntando meus cacos, dirigi até Santa Mônica, parando em frente à antiga mansão dos Carter. Achei-a demasiado decrépita, refletindo minha própria decadência.

A Sra. Carter veio atender a porta pessoalmente. Sorriu ao me ver. Não pude evitar um arrepio na nuca. Naturalmente, o tempo cobrava seu preço em relação a ela também. Os cabelos estavam tingidos de prata e a pele já sucumbia à flacidez. As mãos continham manchas de senilidade que ela tentava disfarçar. O pescoço possuía duas linhas acentuadas próximas à garganta, como fios tensionados, e a boca exibia rugas de expressão. Mas os olhos… Os olhos continuavam ardendo com a mesma intensidade de quase quatro décadas antes.

Convidou-me para entrar.

Chegamos ao escritório em que eu vira o Sr. Carter pela primeira vez. Lá estavam os livros e as estantes. Só os porta retratos é que haviam mudado.

Ela abriu uma portinhola e apanhou uma garrafa.

“Aceita uma dose de brandy?”, perguntou, servindo dois copos. A voz ainda retinha o tom rouco e intimidador.

“Não bebo em serviço, mas acho que vou abrir uma exceção”, respondi, imediatamente me arrependendo da piada sem graça.

“Sabe que tentei entrar em contato com o Senhor diversas vezes?”, disse ela mexendo o copo.

“Eu queria ter vindo antes, Sra. Carter, mas foi impossível…”

“Pode me chamar de Vivian”, disse ela, encarando-me enquanto um sorriso se insinuava no canto da boca. “Creio que podemos dispensar as formalidades depois de tanto tempo.”

Acendi um cigarro e concordei com a cabeça, ciente de que ela já tentava me manipular.

“O que posso fazer por você, Sr. Fortuce?”

“James… Já que estamos deixando tudo às claras.”

“Sim, James… Algum motivo especial para a sua visita? Ou você estava somente com saudades?”

Apaguei o cigarro no cinzeiro de prata. Se era para acertar as contas com o passado, eu precisava agir rapidamente.

“Eu li um livro interessante em 1946, Sra Carter. Chamava-se Mar da Índia.”

Foi a vez dela acender um cigarro. Diante do silêncio, prossegui.

“Era sobre uma moça, casada com um velho milionário, e que se apaixonava por um escritor medíocre. Juntos eles tramavam um crime para conseguir dinheiro e fugir para Acapulco. A vítima seria o filho do nosso simpático velhinho. Porém, depois do rapto – foi um rapto, esqueci de dizer – a moça percebia que não gostava tanto assim do escritor. Seu verdadeiro amor era o dinheiro. Em resumo, ela fritou seu comparsa. Mais do que isso, acabou com a concorrência na herança do marido e, por fim, com o próprio marido.”

Ela deu uma tragada, olhando-me por entre a fumaça.

“Conhece essa versão, Sra. Carter?”

“É familiar” disse ela. “É verdade que a jovem esposa se apaixonou pelo escritor. Mas o que não está escrito nessa versão é que foi o velho milionário quem mandou raptar o garoto. Ao descobrir que a esposa o traía, ele armou um esquema para incriminá-la junto com o amante. Assim se livraria dos dois. Para manter as aparências, chamou um detetive para investigar o caso. Tudo funcionou perfeitamente, até que o filho se suicidou no cativeiro ingerindo veneno para ratos e pôs tudo a perder. O nosso simpático velhinho não era tão simpático assim, Sr. Fortuce. No final das contas, ele se livrou do amante da esposa e só não a matou por conta de um dossiê que ela dizia possuir. No fim, eles viveram infelizes para sempre.”

“Espera que eu acredite nisso?”, perguntei em meio a uma crise de tosse. “Que tipo de pai usa o filho para incriminar a esposa infiel?”

“Você não conhecia meu marido, Sr. Fortuce. Era um homem capaz de tudo.”

Olhei para o líquido em meu copo.

“Quer dizer, então, que a culpa pertence unicamente ao milionário, ao Sr. Carter?”

“É claro. Eu jamais maltrataria uma mosca. Naqueles dias, eu era jovem e apaixonada. Só isso. Foi o amor, Sr. Fortuce. Nunca se apaixonou na vida?”

Engoli seco. Eu a amava, com todos os seus pecados. Com todos os meus pecados.

“Sua história quase me convenceu, Sra. Carter.”, consegui dizer.

“Por favor…”

“Como a senhora explica as digitais do Sr. Dugard nas mensagens do sequestro?”

A pergunta a deixou confusa.

“Não sei… Meu marido pode tê-las conseguido de outra forma que…”

“Por favor, não minta. Eu pesquisei as fontes. Tanto o jovem Thomas como o Sr. Dugard e até o Sr. Carter foram envenenados. Mesmo o chefe de polícia que atuou no caso. Cianureto. Todos os quatro. A senhora nunca deu chance. Sempre que alguém desconfiou, ou se aproximou demais, a senhora deu um jeito de se livrar. Eu só escapei porque… Bem…”

“O senhor é patético”, disse ela. De certa forma, tinha razão.

Cansado daquele jogo, decidi que a hora havia chegado. Apanhei o telefone e disquei um número de memória.

“Alô? Inspetoria? Por gentileza, avise ao Capitão Evans que houve um homicídio no número 14526 da Santa Monica Blvd. A vítima é um homem branco, cerca de 70 anos, com aparência de mais velho. Bem mais velho.”

Ela esperou que eu desligasse.

“O que está fazendo?”

Eu jamais poderia vê-la atrás das grades. Mas também não seria capaz de morrer com uma tonelada de culpa nas minhas costas.

Sem pensar, tomei o brandy de um só gole. Sabia que o cianureto era insípido. Só o que senti foi o sabor amargo da redenção.

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22 comentários em “Coração Negro (Gustavo Araujo)

  1. Bia Machado
    4 de dezembro de 2013

    Achei um bom conto, certamente tem todos os elementos de um noir. Mas não sei, alguma coisa não me soou bem, talvez as personagens precisassem de um pouco mais de profundidade, só que precisamos levar em conta a questão do espaço para o desenvolvimento de uma trama policial, em minha opinião. E sei que detetives de noir costumam ter esse arquétipo, mas ainda assim o achei muito frio… O final compensou, gostei.

  2. Leandro B.
    4 de dezembro de 2013

    Dugard não se suicidou?

    Conto bem escrito, sem dúvidas. Só fiquei um pouco confuso pela morte do escritor. Achei a paixão também um pouco… bem… infundada, talvez. Mas me parece muito claro que faltou espaço para construir isso um pouco melhor. Ou não. Não da para entender o coração, né. hehe

    Também fiquei incomodado com o detetive. Mas parece que foi essa a intenção do autor.

    Enfim, um texto muito bem escrito. Parabens.

  3. Andrey Coutinho
    3 de dezembro de 2013

    Nesse desafio, resolvi adotar um novo estilo de feedback para os autores. Estou usando uma estrutura padronizada para todos os comentários (“PONTO FORTE” / “SUGESTÕES” / “TRECHO FAVORITO”). Escolhi usar esse estilo para deixar cada comentário o mais útil possível para o próprio autor, que é quem tem maior interesse no feedback em relação à sua obra. Levo em mente que o propósito do desafio é propriamente o aprendizado e o crescimento dos autores, e é isso que busco potencializar com os comentários.

    Além disso, coloquei como regra pessoal não ler nenhum comentário antes de tecer os meus, pra tentar dar uma opinião sincera e imediata da minha leitura em si, sem me deixar influenciar pelas demais perspectivas.

    Dito isso, vamos aos comentários.

    PONTO FORTE

    Um Noir arquetipicamente impecável. Muito, MUITO bom.

    SUGESTÕES

    Eu queria poder fazer uma sugestão útil, mas tô sinceramente achando que “se mexer estraga”. É meu favorito até agora.

    TRECHO FAVORITO

    “Sem pensar, tomei o brandy de um só gole. Sabia que o cianureto era insípido. Só o que senti foi o sabor amargo da redenção.”

  4. Felipe Falconeri
    3 de dezembro de 2013

    Terminei a leitura desse conto com uma sensação estranha…

    O texto é inegavelmente bem escrito. Praticamente livre de erros, descrições muito boas, ambientação bem construída. O único senão é a repetição excessiva dos nomes. “Sr Carter” e “Sra Carter” aparecem inúmeras vezes durante o conto.

    Mas, apesar da boa escrita, o enredo não me cativou. Não consegui comprar a ideia da paixão do narrador por Vivian, que é a força motriz do conto. Além disso, as soluções da trama me pareceram sempre muito fáceis e um tanto forçadas. Dugard não parece do tipo que teria ficha na polícia – de outra forma não seria possível rastreá-lo pelas digitais – e, mesmo se tivesse, não seria assim tão simples e rápido conseguir encontrá-lo usando esse recurso na década de 40. Seria muito difícil Vivian envenenar as quatro vítimas e disfarçar as mortes – enforcamento, intoxicação alimentar – sem que a polícia descobrisse. Se Fortuce ficou afastado do caso, apenas acompanhando pelos jornais, como ele descobriu que Vivian havia envenenado as vítimas? Por fim, Fortuce avisou Vivian que iria visitá-la? Durante a leitura, me pareceu uma visita surpresa. Mas se assim fosse, não faria sentido ela ter uma garrafa com bebida envenenada. Ela guardava uma sempre ali pronta, pro caso de precisar matar alguém?

    Entendo que a limitação de palavras acabe impedindo que o autor entre em muitos pormenores. Uma trama intricada como essa certamente precisaria de mais espaço para se desenvolver de maneira mais eficiente.

    De qualquer forma, é um bom conto. A trama precisa de um melhor desenvolvimento, mas o autor demonstra bastante habilidade com a escrita. Eu certamente leria uma versão 2.0 desse texto, sem a limitação de palavras imposta pelo desafio.

  5. Alexandre Santangelo
    2 de dezembro de 2013

    Noir até a raiz. Excelente conto. Parabéns ao autor.

  6. Alana das Fadas
    2 de dezembro de 2013

    Adorei, de verdade. Está entre meus favoritos desse desafio! Tudo redondo: bem escrito, história envolvente! Abraço.

  7. Agenor Batista Jr.
    1 de dezembro de 2013

    Um bom conto que, certamente, estará entre o “meus dez mais”. O clima “noir”, ainda que de maneira tímida, se imiscui entre as palavras escritas com uma certa precisão e objetividade. Personagens bem caracterizados e com personalidades definidas com exceção do filho morto que entrou na história como objeto de sustentação da narrativa. Me proporcionou uma leitura agradável e sem sobressaltos. No entanto, um detetive com tanta experiência não deveria ser tão temeroso. Enfim, coisas da cabeça do autor que escreveu com dignidade. Boa sorte!

  8. Thata Pereira
    29 de novembro de 2013

    Adorei o conto e também estou com uma raiva desse detetive que não cabe em mim! Mas o final compensou esse sentimento. Gostei muito! Parabéns!

  9. fernandoabreude88
    27 de novembro de 2013

    Gostei muito desse conto. Está bem escrito e não tive a necessidade de voltar a ler trechos em momento algum. Acho que foi uma das descrições de mulher mais bem colocadas e sexys que já li, dá realmente uma vontade de agarrar a dona, hehe. Há passagens espetaculares, um clima de cigarro velho e móveis desgastados, terminando da forma mais desgraçada possível. Parabéns ao autor!

  10. rubemcabral
    27 de novembro de 2013

    O conto tem muitos elementos de um noir clássico: boa parte da história se passa num passado mais chic e blasé, há uma femme fatale, investigação, traição, etc. A trama é interessante, o texto é bem escrito e o final é muito bom. Aliás, gostei também da frase da abertura; pareceu-me inspirada em Moby Dick (“Chama-me Ismael”).

    No entanto, alguns aspectos me incomodaram (cito somente com o intuito de ajudar):

    – a identificação do escritor através das digitais soou meio forçada, o texto não diz, mas ele teria que ter passagem na polícia local para ser “pego” assim;
    – os personagens não cativam, em especial a Sra. Carter;
    – o conto não é muito “visual”, talvez investir em algumas descrições desse mais “cor” ao texto;
    – “Costa Leste” ou “Costa Oeste”?
    – o sucesso da Sra. Lucrécia, digo, Vivian, como envenenadora é estranho, alguém morto por cianureto é bem diferente de alguém morto por “intoxicação alimentar”;
    – Dugard morreu enforcado ou envenenado? Vivian teria um caso com alguém da polícia que a ajudou a simular o suicídio do comparsa?;
    – no diálogo final entre James e Vivian eles se dão permissão para se tratarem pelos prenomes, mas continuam a se tratar pelos sobrenomes imediatamente a seguir (não é um erro, mas achei engraçado).

    Como diria o Falconeri, no frigir dos ovos, o conto é bastante bom. Merece inclusive entrar na minha lista de “10 mais”.

    • rubemcabral
      27 de novembro de 2013

      Ah, e acho que sei quem é o autor.

  11. Masaki
    24 de novembro de 2013

    Excelente conto! O autor diz, logo no começo, para não gostar dos “canalhas”, mas creio que não tem como não se identificar com o protagonista. A trama é sólida, concisa e flui de uma maneira agradável e constante. Os locais, com seus nomes detalhados, são outros destaques na história. Mesmo com pouco diálogo, o autor consegue prender a atenção do leitor para que este continue a leitura até o final. A única coisa previsível foi o personagem responsável pelos crimes. Mesmo assim… parabéns pela história! Está entre as minhas favoritas.

  12. Marcellus
    22 de novembro de 2013

    Gostei do conto, mais do final que do começo. O garoto me pareceu jovem demais e o ex-delinquente, muito caricato.

    Mas daí para frente o texto melhorou muito e agradou. Parabéns ao autor!

  13. mportonet
    21 de novembro de 2013

    Que grande história!

    Uma saga comprimida num conto. Terminei com a sensação de ter lido um livro de 500 páginas, não pelo volume, pela intensidade.

    Parabéns ao autor, já está entre os meus preferidos.

  14. charlesdias
    21 de novembro de 2013

    Quando comecei a ler esse conto pensei … “putz, mais uma história lugar comum” … tudo por conta de algumas inconsistências e contradições. Mas daí o conto começou a melhorar e terminou muito bem. Sinceramente, até agora é o meu preferido … e olha que já li 80% dos contos inscritos. Uma boa revisão e resolução dos probleminhas do começo o deixarão muito bom. Belo trabalho. Noir total.

  15. Gustavo Araujo
    20 de novembro de 2013

    Noir clássico. Evidente a inspiração em Raymond Chandler: detetive cheio de dilemas, mulher fatal, mistério, assassinatos. O autor parece ter seguido à risca a cartilha. Também fiquei com a sensação de que Vivian poderia ter sido melhor explorada (em termos literários, claro), mas sei como é difícil aprofundar as características de todos os personagens quando há um limite de palavras a se observar. Concordo com o Rick em relação à imagem escolhida: provavelmente é a mais impactante dentre todas do desafio. Sou suspeito para falar, já que adoro a Lauren Bacall, mas, realmente, a foto é de arrebentar.

  16. Jefferson Lemos
    20 de novembro de 2013

    Achei o conto bom.
    Durante a leitura, teve algumas partes que não gostei, mas o final foi excelente.
    Parabéns.

  17. Ricardo Gnecco Falco
    20 de novembro de 2013

    Sedução, covardia, envenenamentos… Trama rica em elementos do tema e escrita contrita. Contudo, mais do que as palavras, a imagem falou mais alto em meu subconsciente. Devo confessar que a figura escolhida para ilustrar a presente obra surtiu em mim talvez o mesmo efeito descrito pelo protagonista quando da primeira vez que olhou para a Sra. Carter. Que olhar é aquele, mérmão!? (rs!)
    Tô até pensando em me alistar na Legião Estrangeira também! 😀

    Parabéns pelo conto. E pela sábia escolha da ilustração de sua obra!

  18. Jefferson Reis
    20 de novembro de 2013

    Ao contrário do Sr. Monney, gostei mais de Vivian do que do detetive. O protagonista me deixou com raiva por ser tão covarde, mas é isso o que espero da literatura: uma perturbação. A trama é muito interessante, e as reviravoltas funcionaram. O autor está de parabéns. Acho que se pudesse se alongar mais, a narrativa seria ainda melhor.

  19. Claudia Roberta Angst - C.R.Angst
    20 de novembro de 2013

    Gostei, principalmente do final. Embora eu tenha tido uma faísca de intuição a respeito, me surpreendi. Boa narrativa, elementos noir espalhados pelo enredo, leitor cativado. Boa caracterização dos personagens e cenário. Vale a leitura. Boa sorte.

  20. Leonardo Stockler M. Monney
    20 de novembro de 2013

    Olha, o conto é bom. Gostei de um personagem covarde que tem dificuldades em lidar com a própria culpa, com a própria omissão. Gostei também das referências aos lugares, às datas, às personagens históricas. Gostei da ambientação: do personagem do escritor, e do Sr. Carter. Confesso que não gostei da Vivian. Ela tinha tudo pra ser um personagem cativante, sexy, mas tudo que inspira é antipatia. Aliás, acho até que você poderia ter explorado mais o personagem do escritor, que é, junto com o detetive, o mais interessante da trama. E também o filho, por que não? O sequestro dele é o elemento que une a trama toda e você não deu nenhuma informação sobre ele. Incomodou-me um pouco a facilidade das coisas. Digitais? Não é pelo fato de ser um clichê comum recorrente nos C.S.I da vida, mas é que, se até hoje já é difícil conduzir uma investigação a partir das digitais, imagina em 1940, quando nem existiam computadores e bancos de dados? Ademais, é isso. 🙂

  21. Pedro Luna Coelho Façanha
    20 de novembro de 2013

    Não tenho muito a dizer. Um bom conto. O detetive realmente agiu como um covarde, e coisas assim amaldiçoam a alma de um homem..rs. E o final tem uma reviravolta bacana. Leitura bem agradável. Parabéns.

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Publicado às 20 de novembro de 2013 por em Noir e marcado .