EntreContos

Detox Literário.

Sob a Luz do Neon Roxo (Saorsa)

1.

Naquele quartinho de motel, localizado numa esquina suja e esquecida, os dois podiam se amar.

Sem julgamento.

Sob o pisca-pisca ritmado da placa de neon roxo do estabelecimento vizinho, trocavam confidências, sorrisos e dores.

No último encontro, uma pergunta o desconcertou.

— Por que atirou nela?

— Foi uma ordem. E eu sou um soldado. O que poderia fazer? — foi incisivo.

— Se fosse uma ordem, você atiraria em mim?

Não soube responder.

2.

As árvores-mulheres eram colossais.

Com raízes-pernas duplas, os troncos-corpos expressavam diversos sentimentos: em linha reta, com os galhos-braços erguidos, numa espécie de louvor ao céu;  simulando emoções — riso, choro, grito — e movimentos — ballet, teatro. Secas, imitando a morte, sem folhagens. Como o restante do mundo. E, no lugar da cabeça, uma fruta vermelha, que pulsava compulsoriamente. Parecia um coração gigante.

— O famoso Arvoredo das Mulheres Desfolhadas. Impressionante, não é? — comentou Gaspar.

— Nunca vi lugar igual — o tom de Yohan era de ironia.

— Caramba, parceiro. São mulheres gigantes. G-I-G-A-N-T-E-S.

— São árvores.

Gaspar sorriu maliciosamente.

— Esse é o Yohan que conheço! Não gosta de mulher, apenas de armas — provocou.

Não respondeu.

Ao redor, o pelotão inteiro vibrava. Entre risadas e palavrões, os homens corriam pra lá e pra cá, abraçando os troncos e insinuando indecências. Porém, Yohan sentia-se íntimo daquele ambiente por outro motivo. A terra seca e sem vida, as árvores espaçadas, as nuvens negras infindáveis, o vento constante, o assobio fúnebre. Isolado do mundo.

Lembrava aquele quartinho de motel.

— Muito bem, rapazes. Acabou a festa! — a voz do comandante soava como um trovão. — Os desgraçados estão entocados nesta maldita floresta. Lembrem-se: quero eles vivos. Sem perna? Tolerável. Braço estourado? Sem problema. Mas respirando. Uma premiação por cabeça. Entenderam?

— Sim, senhor! — gritaram em uníssono.

— Organizem as tríades. E boa caçada — concluiu e, num gesto, dispersou o pelotão.

Rastreador, atirador e lutador. Não era permitido caçar sem o trio completo.

Lei da Milícia.

— Odeio essa parte… — reclamou Gaspar, analisando os homens ao redor com atenção. — Precisamos encontrar alguém para substituir o Nilo.

Yohan concordou. E suspirou. Não queria pensar no Nilo.

Numa caminhada preguiçosa e arrastada, um homem de dois metros e braços colossais se aproximou, mostrando seu sorriso esburacado.

— Quem diria, quem diria… Um buraco no time das estrelas, yahaha — sua voz gutural irritava Yohan. Profundamente.

— O que você quer, Kabir?

— Também estou feliz em te ver, Yohan — e completou virando-se para Gaspar. — Eu gostava do Nilo. Era um ótimo lutador. Um dos melhores, com certeza. Mas, ainda assim, ele está morto. E eu estou vivo. Isso quer dizer algo, não acha? Quero fazer parte do time. Vocês são os melhores.

Aquele homem era perigoso. Perito em espingardas, quase sempre retornava sozinho das caçadas. Extremamente forte, não era um completo boçal, o que não era reconfortante.

— Oferta tentadora… — sorriu Gaspar.

Olhou para Yohan.

— Não gostei da ideia — respondeu incisivamente.

— Por quê?

— Não gosto dele.

— Uma pergunta, parceiro. Quem é o soldado mais antigo?

— Você.

— E qual é a lei da Milícia sobre isso? — Gaspar continuava sorrindo.

— Os veteranos mandam.

— Acertou! — ele bateu palmas.

Kabir gargalhou com gosto. O sangue de Yohan ferveu com a humilhação, mas manteve a postura, impassível.

— Você que manda, Gaspar.

— Isso mesmo, parceiro — deu alguns tapinhas no ombro dele. — Precisamos participar desta caçada. Sairemos em dez minutos.

Fez a checagem dos equipamentos: cartucheira no peito, rifle no ombro e corda com gancho na cintura. Depois da contagem dos pitões, otimizou as botas propulsoras para saltos e corridas. Como atirador, costumava se posicionar antes de qualquer confronto, em segurança, mas precisava estar pronto para qualquer situação.

Gaspar se encarregava do rastreamento e dos suprimentos. Mochilão pesado nas costas, mas sem negligenciar o revólver, sempre ao alcance de suas mãos rápidas. Kabir, em contrapartida, não carregava nada além da espingarda de repetição, que era do tamanho do seu braço. Ele estava sentado no chão, calibrando a arma e falando sozinho.

— Terminaram?

Yohan confirmou com a cabeça.

— Estou sempre pronto! — exclamou Kabir.

A caçada havia começado.

3.

Fila indiana.

Gaspar na frente, olhos atentos no chão, atrás de algum indício dos alvos. Kabir no meio, espingarda empunhada, pronto para a ação. E Yohan atrás, apagando os rastros para evitar perseguidores.

Não era incomum os combates entre as tríades pelo prêmio da caçada, principalmente por causa da competitividade alimentada pelo comandante da Milícia.

A lei do mais forte.

— O que esses traficantes fizeram? — Kabir chutou algumas pedras para longe.

— Trapacearam numa venda de armas — respondeu Gaspar, sem perder a concentração.

— Estão fodidos, YAHAHA!

A risada do gigante ecoou pelo arvoredo.

— Quieto — pediu Yohan, visivelmente irritado.

Kabir resmungou algo.

Em silêncio, continuaram caminhando por entre as árvores-mulheres.

Horas e horas.

4.

Num dado momento, atravessaram um riacho avermelhado, cuja nascente era uma das árvores-mulheres. Inclinada para trás, quase encostando no chão e com as raízes-pernas abertas, ela simulava um parto.

E, um pouco adiante, Gaspar estacou, ordenando a parada da marcha.

— Achei um rastro.

Agachou-se. Analisou o solo, tocando e cheirando, e fez uma careta.

— Estranho… — disse ele, levantando-se e batendo as mãos. — Nunca vi um rastro como esse. É um humanóide, tenho certeza disso, mas não parece ser uma pessoa.

— Sério? Vamos atrás! — o brutamontes se animou.

— Estou curioso também.

— Temos uma missão. Esqueceram? — Yohan tentou argumentar.

— Você é idiota? — insultou Kabir, usando o tom prepotente de sempre. — Sabe quanto uma criatura desconhecida vale no Mercado Negro? Ainda mais humanóide.

Yohan pegou o rifle. Com firmeza. E controlou a respiração.

— Ele está certo, parceiro — concordou Gaspar. Botou a mão sobre a arma do atirador, abaixando-a, e completou. — Pense nisso como uma oportunidade. Imagina o prêmio que podemos ganhar. Preciso de uma folga.

Estava quase anoitecendo quando, por fim, determinaram o novo objetivo.

5.

A dança sinistra das árvores-mulheres.

O crepitar da fogueira.

E a penumbra confortável.

Um pouco afastado do fogo, limpando o rifle, Yohan sentia o peso do cansaço sobre os ombros. Não dormia direito há dias.

O semblante reflexivo do Gaspar, iluminado parcialmente pela vermelhidão das chamas, era uma imagem quase íntima. Quantas noites dividiram uma fogueira em absoluto silêncio?

Levantou-se e sentou perto do fogo.

— Pega… — Gaspar jogou uma tira de carne-seca para o recém-chegado.

Não estava com fome. Talvez mais tarde, pensou enquanto guardava a proteína no bolso. Manteve-se cabisbaixo. Yohan gostava do fogo: queimava ininterruptamente, e, contanto que mantivesse o controle, era útil. Como a raiva.

— Então, Yohan, qual é o seu crime? — perguntou Kabir, quebrando o silêncio.

Levantou a cabeça.

— Por que se tornou um apátrida?

Qual era o pecado que havia cometido? Tão terrível, tão abominável, que merecia o exílio naquelas terras infernais.

Amar?

— Assassinato — mentiu sem pestanejar.

— YAHAHA! Aposto que o desgraçado mereceu. Ainda sonho com as muralhas. E o mar negro. Era horrível — lembrou ele. — Eu queria ter queimado aquele lugar puritano.

— Você realmente acha que a vida aqui fora é melhor? — Gaspar parecia chocado. — Eu sinto falta. Mesmo com aquele papo religioso, no fundo, todas as mulheres da Cidadela são meretrizes. Todas. Foi a melhor época da minha vida. Deveria ter tomado cuidado com quem dormia, apenas.

— Vai mexer com mulher de figurão, dá nisso — debochou Kabir. — E, sim, a vida aqui fora é melhor. Sou livre. Eu faço o que quero. E quando quero. É simples. Se uma mulher me encanta, mesmo que não queira ficar comigo, pego à força. E se alguém me irrita… — agarrou a arma e simulou uma execução.

— Vou deitar — avisou Yohan, levantando-se. Foi um erro se aproximar da fogueira.

Kabir sorriu e meneou a cabeça. Gaspar permaneceu em silêncio, imerso nas chamas. Afastou-se. E deitou no chão. Com a cabeça apoiada num dos braços, segurando o rifle com cuidado, observou o vaivém dos galhos-braços até os olhos pesarem.

6.

O mar negro.

— Afogue-o! — a multidão clamava.

Ele era magro. Fracote. Não foi difícil dominá-lo. Quando segurou a cabeça dele embaixo d’água, fechou os olhos. Não queria matá-lo, mas queria viver.

Afogamento para o fraco. Banimento para o forte.

Essa era a punição do pecado da lascívia, como descrevia as Escrituras Sagradas.

— Exílio! — o povo abria caminho até os portões das muralhas.

O corredor da vergonha. Humilhado, aceitou as pedras, açoites e cuspes.

Lágrimas. E muita dor.

O que ele fez de tão errado?

Foi apenas um beijo.

Depois que os portões da Cidadela se fecharam, sentiu-se completamente abandonado. Ele caminhou até encontrar as ruínas de um povoado.

Ali, entre os escombros, jurou que nunca mais choraria.

7.

Yohan havia acordado assustado.

E, mesmo depois do amanhecer, do retorno ao ofício e do passar das horas, não conseguia pensar em outra coisa.

Não gostava de sonhar com a Cidadela.

Era doloroso demais.

Perto do meio-dia, sentada no meio do caminho, inocentemente, e contemplando uma árvore-mulher em pose arabesque, acharam a criatura humanóide que caçavam.

— Capture-a — ordenou Gaspar.

Yohan acionou as botas propulsoras. Duas batidinhas na lateral. Saltou na direção do tronco-corpo mais próximo. Alcançou um dos pitões e fincou na madeira. Apoio. Mais dois toques. Em segundos, capturou o alvo.

Veloz.

— Caramba! — exclamou Kabir.

— Quando se trata de saltos, ele é o melhor da Milícia — comentou o rastreador.

Yohan estava hipnotizado.

Em seus braços, uma menina sorria para ele. Pequena e frágil. De pele esverdeada. Com ramos de folhas crescendo pelo corpo inteiro. E cabelos de samambaia.

Nunca vira tamanha beleza.

8.

Naquela noite, Gaspar e Kabir festejaram.

A menina-planta foi acorrentada perto do acampamento. Ela não demonstrou medo. Em nenhum momento. Inocente demais. Pura.

Era isso que valia dinheiro naquelas terras.

Mesmo depois da comemoração, Yohan não conseguiu dormir. Continuou pensando.

Na vida.

No Nilo.

Na menina.

No que poderia ter sido.

E no que era.

Era estranho. Sempre que refletia sobre o passado, mesmo sendo raro, via-se diante do mar negro. Uma criança sozinha num mundo monocromático. Na divisa entre o certo e o errado. Amou pela primeira vez quando completou quinze anos. Era amor. Tinha certeza disso. Um amigo de infância. Diferente como ele. Aconteceu naturalmente.

Era tão errado amar outro rapaz?

Depois da punição e do exílio, Yohan decidiu trancar o coração. Até Nilo aparecer. Agora, ele estava morto. Igual seu primeiro amor.

Estava cansado daquilo tudo.

Levantou-se num suspiro pesaroso. E, automaticamente, caminhou até a menina-planta. Estava acordada, sentadinha, olhando para o céu nublado. Procurando estrelas, talvez.

Ela sorriu com a aproximação dele.

— Trouxe isso para você — lembrou-se da carne-seca que guardara na noite anterior.

Aceitou sem hesitar. Era delicada até quando comia. Pensou no futuro dela. E sentiu uma agonia intensa. Injusto.

Assim que terminou, a menina-planta estendeu a mão.

— Vai me dar algo? — sorriu Yohan.

Uma flor brotou da palma dela. Pequenina. Sete pétalas. Brilhando num tom dourado.

Preciosidade.

E, pela primeira vez em anos, ele chorou.

— Chorando? Isso é novidade pra mim.

Era a voz de Gaspar.

— Isso é incrível, né? Ela vale muito.

Yohan limpou o rosto, rapidamente. E tentou retornar para o acampamento.

— Ei… Faz um bom tempo que quero te perguntar uma coisa, parceiro — Gaspar parou na frente dele.

— Fale.

— Você gosta de homem?

Congelou.

— Do que você está falando? — precisou se controlar para não gaguejar.

— Se eu ficar pelado, agorinha, você vai ficar excitado? — e, após falar isso, sorriu maliciosamente. — Nilo também gostava? Eram namorados?

Não respondeu.

— Sempre achei estranho… Os dois sumindo durante a noite. Juntos. As risadinhas entre vocês. A forma como se olhavam.

— Cala a boca — Yohan agarrou o rifle, ameaçadoramente. Estava ofegante.

— Eu fiquei aliviado quando o Nilo morreu, sabia? Quando aquela besta o abocanhou, na última caçada, pensei que tudo retornaria ao normal.

Apertou a arma com tanta força que machucou as mãos.

— Éramos uma boa dupla, não importava o lutador. Eu encontrava o alvo. E você matava. Sem questionar. Uma mina de ouro. Mas, quando hesitou na hora de matar aquela protistuta, percebi que estava mudando.

Em silêncio, encararam-se por alguns segundos.

— Tô brincando, parceiro! — riu ele, levantando os braços em sinal de paz.

Precisava se afastar. Mas, quando cruzou com Gaspar, recebeu uma cuspida na cara.

— Você e eu, Yohan, acabou — sussurrou em seus ouvidos. — Essa é nossa última caçada juntos.

9.

Não sentiu nada quando conheceu Nilo.

Era um homem estranho. Não era agressivo. Ria suavemente. E tinha um olhar profundo. Com a convivência, começaram a trocar olhares, e, antes que percebesse, escondiam-se sob a luz do neon roxo.

Refúgio.

O mundo, que finalmente havia ganhado cores, fora inundado por tons de cinza depois da morte dele.

Vazio profundo.

Naquela marcha cruel e injusta, ele sustentava as grossas correntes da menina-planta. Era o homem que a condenava. E o que ganhava em retorno?

Aquele sorriso sincero.

O vento ininterrupto, a dança sombria e a terra devastada. Naquele instante, Yohan percebeu porque era íntimo do Arvoredo das Mulheres Desfolhadas.

Até quando permaneceria preso naquele quartinho de motel?

Parou de caminhar.

— Aconteceu alguma coisa? — perguntou Kabir, olhando por cima dos ombros.

“Se fosse uma ordem, você atiraria em mim?”

— Não…

Ambos se viraram.

— O que você disse? — Gaspar estava confuso.

— Eu não sou mais um soldado.

Yohan deslizou o rifle pelo ombro até as mãos e, num tiro perfeito, acertou o abdômen do rastreador, incapacitando-o.

Jogou a menina-planta para longe assim que ouviu o engatilhar da espingarda.

E saltou bem alto.

Chegou a sentir os projéteis do cartucho passarem raspando pelas pernas. Ainda no ar, recarregou o rifle. Mira precisa. Fez um buraco no meio da testa do Kabir. Para aliviar a queda, lançou a corda com gancho no galho-braço mais próximo.

De volta ao chão, começou a recarregar a arma mais uma vez.

— Espera, parceiro… — Gaspar cuspia sangue.

Nem piscou: estourou a cabeça do desgraçado.

Conseguira.

Ajeitou o rifle no ombro e caminhou até a menina-planta, que, um pouco confusa, permanecia caída perto do corpo do brutamontes.

Retirou as correntes.

— Ninguém vai te machucar, agora.

Sentou-se e respirou aliviado. Todo o peso do ombro sumira.

Liberdade.

Lembrou-se das noites perfeitas no motel. Nilo. Era amor. Terno e verdadeiro. E, diante de si, tão perto que podia sentir o calor dela, estava uma menina que inspirava o mesmo sentimento.

Queria protegê-la.

Não sabia o que encontraria pela frente. Nem como viveria. Era tudo muito incerto. Mas Yohan gostava daquela nova sensação.

5 comentários em “Sob a Luz do Neon Roxo (Saorsa)

  1. Júlio Alves
    17 de setembro de 2021

    Histórias com temática lgbt pra mim são sempre muito bem vindas, e o seu texto me deixou com certo incômodo: embora a parte de ficção científica seja impecável (New weird A F!!!! ♡), a relação me pareceu um pouco desconexa. Não que tenha desgastado da sexualidade da personagem, mas não achei bem introduzida e, que deize me perdoe se não for, de um ponto de vista heteronormativo.

    Outro ponto que me questionei foi a escolha dos nomes das personagens. Pensei que seriam desenvolvidas, mas não aconteceu. O diálogo, em vários momentos, parece meio didático (como se fosse uma tradução ou algo voltado para um público mais interessado no imagético, não na linguagem (o que não teria problemas se não atrapalhasse o ritmo e a suspensão de descrença do texto), com frases-feitas e lugares-comum.

    Além disso, cuidado com palavras que caíram em desuso por serem consideradas de mau tom. Não se usa mais mercado negro, e sim mercado clandestino.

    No mais, as personagens cumpriram suas funções, embora muita das vezes tenham sido nebulosas.

    Parabéns pelo conto

  2. Angelo Rodrigues
    16 de setembro de 2021

    11 – Sob a Lu do Neon Roxo

    Conto um tanto extramundo, extratempo, ou algo assim.
    Confesso o meu olhar primário sobre o tema: não tenho hábito ou gosto para a leitura que, de certa forma, não tenha raízes no mundo telúrico.
    O conto presente, que embora aborde algo de extramundo, põe-se a discutir uma questão objetiva do mundo contemporâneo: a homossexualidade.
    Se há uma mensagem subliminar no texto, diria que ela está centrada no fato de que a sexualidade, seja ela qual for, parece estar sempre dissociada da normalidade quotidiana, ligada a pudores (não esquecer que, em dado momento, o autor diz que “… abraçando os troncos e insinuando indecências…”). Aqui, o sexo como indecência.
    Não foi normal entre Nilo e seu parceiro, não parecerá ser entre Maria e Joana, seja qual for o mundo onde esse amor ocorra. Seria um carma humano? Nossa!!
    O conto parece navegar sobre os conceitos que aborda. Paira sobre palavras, transforma-se em ideias e não toca o chão. Interessante quando tudo é subjetivado, nada é explicitado, salvo na questão do amor entre iguais.
    Tem nisso algo de poético, quase parnasiano.
    Diria que a ambientação incomum mostrou-se apenas um cenário para a discussão telúrica do mundo, onde as questões sociológicas que envolvem o amor, a violência e o abandono estavam presente.
    Está no jogo. Boa sorte no desafio.

  3. thiagocastrosouza
    15 de setembro de 2021

    Esse conto tem muita coisa que considero bacana em contos de Ficção Científica. Não perde tempo tecendo explicações demasiadas sobre o mundo que estamos acompanhando, mas insere o essencial dentro da trama dos personagens. Sendo assim, equipamentos, leis, tecnologias, criaturas fantásticas surgem em trechos que desenvolvem a história. Ao invés de falar que relações homosexuais são proibidas num futuro distópico e teocrático, temos fragmentos do protagonista sendo expulso, trazidos pelo narrador, assim como sugestões nas falas dos personagens. Isso mostra inteligência por parte do autor ao contar sua história. Além disso, o texto tem um estilo muito característico e bastante poético na forma de descrever sentimentos e realizar determinadas passagens. Há trechos que se assemelham a versos em um poema que dão uma sensação de transição muito forte nas motivações de Yohan.

    Enfim, já no campo do simbólico, essa floresta das mulheres, assim como a menina humanoide sequestrada podem representar uma série de coisas: renascimento, dor de parto, liberdade, recomeço, mas tudo fica para a interpretação do leitor. Já o final, creio que você arquitetou o conto para que acontecesse desta maneira. Não é tão sensível ou bonito quanto o restante do conto, mantendo-se um pouco no lugar comum, mas não deixa de fechar de forma positiva o bom trabalho que fez aqui.

    Parabéns!

  4. Emanuel Maurin
    14 de setembro de 2021

    O conto é bem escrito e não apresenta erros ortográficos, de sintaxe ou desenvolvimento. Os diálogos lembram um pouco a escrita do Michael Ende. O texto é duro, pesado e quase selvagem, como o cenário no qual a história se desenvolve.
    A primeira parte é muito diferente das demais, mas não vejo problema. Tudo parece-me bem construído. Algumas cenas são confusas (de leve), mas tornam-se compreensíveis no decorrer da leitura. Um texto repleto de diálogos perfeitos, de humanidade, de sentimento. O cenário é incomum, e faz lembrar uma selva, talvez mística, talvez em outro tempo ou outra dimensão. Percebo imenso potencial para alongar o conto e seus cenários, os personagens e suas vidas. Há um teor filosófico imenso, mas que pode passar despercebido aos leitores menos atentos. Não mexeria nisso, de todo modo; a filosofia está lá para quem a compreende, como uma joia oculta que vai para além da leitura comum. Da forma como está, me parece satisfatório e apresenta boa qualidade literária.
    Os personagens são bem construídos, e a mistura de bicho e planta, de animal e vegetal, torna o conto bastante original e dá-lhe uma premissa ímpar.
    O autor tem talento incomum para descrever sentimentos e pensamentos, sobretudo dualidades: amor e arrependimento, ganância e simplicidade, felicidade e tristeza, luz e sombra, passado e futuro. Há cenas muito cinzas, tristes mesmo; mas cada cena tem sua beleza. Mais para o fim do conto, compreende-se a razão de tantos tormentos na vida do protagonista; uma conscientizada social sempre cai bem e torna o texto mais interessante e capaz de despertar emoções e identificação com quem está a ler.
    Por fim, e pode ser uma impressão muito particular, tive a sensação de que toda a história se passa na cabeça do personagem, talvez depois de uma relação cheia de amor. Como que um devaneio, uma ilusão, um pequeno sentimento perpassando seus momentos de prazer e êxtase. AMEI.

  5. Antonio Stegues Batista
    14 de setembro de 2021

    1 – Num quarto de motel, duas pessoas se amam. – Por que atirou nela? – Foi uma ordem. Essa introdução do conto teria que, obrigatoriamente, dar uma explicação mais adiante, que não consegui identificar. Só é revelado que as duas pessoas eram homens.
    2-Aqui é mencionado as árvores-mulheres. Seriam elas de outro planeta, ou uma mutação genética pós apocalíptica? Não consegui localizar o lugar no tempo e espaço geográfico. Suponho que é em outro planeta. Um grupo de milicianos caçam traficantes que trapacearam numa venda de armas.
    4- Aparece um humanoide, uma menina-planta que, a meu ver, aparece e desaparece sem dar grande significado ao conto, se houver, não entendi. É como as mulheres-árvores que são apenas parte do ambiente. É mencionado que os integrantes do grupo são criminosos, apátridas.
    6- Um flashback sobre o passado do protagonista. Foi expulso da cidadela por ter beijado outro homem. Aqui, uma sociedade com costumes e regras medievais.
    Achei uma mistura bem estranha, sem muita explicação. Vislumbro uma metáfora sobre costumes, mas tudo é nebuloso.

E Então? O que achou?

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Informação

Publicado em 12 de setembro de 2021 por em Foras da Lei.