EntreContos

Detox Literário.

Dia de sorte (Oscar)

Passada a adrenalina, suas mãos tremiam segurando a faca que ainda pingava sangue no chão.

Sentado no sofá, na semi escuridão, Oscar tentava processar o que havia feito. Fechou os olhos. Encostou a cabeça no sofá. Estava exausto, precisava dormir.

Sentiu como se flutuasse.

Lembrou em detalhes como havia chegado até aquele momento.

***

Acordou com o alarme berrando. Saiu da cama sem acordar a mulher, que roncava como uma porca, o corpanzil embrulhado numa camisola que tinha a intenção de ser sexy, mas acabou ficando grotesco. Enquanto vestia as calças lembrava das atividades que fizera sob o efeito do azulzinho. Seu estômago ainda revirava.

Pegou o dinheiro que ela sempre deixava na mesinha de cabeceira. Contou as notas e como prometido, havia um adicional pelo serviço extra. Detestava essa cliente, mas precisava desesperadamente do dinheiro.

Guardou o envelope na carteira e saiu sem fazer qualquer barulho. Chegou em casa e foi direto para o chuveiro. A água fervente limpava sua pele, mas nada podia limpar sua alma.

Foi até o quarto do pai. O velho ainda dormia. A fralda vazando urina na cama toda. Abriu a janela para que o ar saturado se renovasse. Foi até a cozinha e fez  mingau de aveia com banana e uma garrafa de café bem forte.

Acordou o pai, o levou até o banheiro, deu meio banho e colocou uma fralda limpa. Depois colocou o velho na cadeira de rodas e levou até a mesa.

Tomaram café da manhã em silêncio. O pai não falava mais há dois anos, desde o derrame. Nos dias bons ele falava como se o pai pudesse responder, mas naquele dia não.

O aluguel estava atrasado, os remédios do pai só dariam para mais alguns dias e as clientes estavam rareando. O serviço de auxiliar de pedreiro era pesado e pagava pouco, então ele havia, por indicação de um colega, começado a satisfazer mulheres de meia idade, que ninguém queria, em troca de uma renda extra.

Foi para o trabalho, passou o dia virando cimento e imaginando como conseguiria mais dinheiro. Ou como poderia viver sem precisar dele.

Uma ideia rondava sua mente há meses, mas ele não tinha coragem suficiente para executá-la. Era fraco da cabeça.

 Sempre foi meio abobado. Não ia bem na escola. Mal aprendeu a ler e  a escrever. Fazia o que mandavam, sempre. Não tinha iniciativa própria. Quando fez dezoito anos a mãe foi embora dizendo que havia cuidado dele e do pai a vida toda, e agora que ele já era adulto, podia cuidar de si mesmo.

O pai era alcoólatra, nunca havia trabalhado de carteira assinada, sustentava os dois com bicos ocasionais, então  acabou virando cimento por alguns trocados.

O tempo passou. Sua juventude escorreu pelos dedos calejados. Seu pai bebia cada vez mais, até que ele sozinho passou a sustentar a casa. Mal dava conta. Depois do derrame do pai, ficou completamente sozinho. Sem ninguém que o orientasse.

— Sonhando acordado de novo, Oscar? O cimento vai endurecer  e você  aí viajando.

Precisava dar um jeito na vida. Parar de ralar tanto para conseguir sobreviver. Pensou até o cérebro fritar e encontrou uma saída que lhe garantiria um lugar para morar  e três refeições por dia. De graça. Só precisava ter coragem.

Decidiu que seria naquele dia.

Saiu do trabalho quando o sol começou a baixar.  Foi até a cozinha, pegou a faca mais afiada que encontrou. Apertou  o cabo. Respirou fundo. O coração descontrolado, o suor fazendo a camisa grudar.

Abriu a porta do quarto. O velho estava lá, deitado na cama, com os olhos abertos, babando. O cheiro denunciava que a fralda estava cheia novamente e não só de urina.

Andou até a cama.

— Não posso mais cuidar do senhor. Faz tempo que tô esperando o senhor morrer, mas isso nunca acontece. Vou te libertar dessa vida de sofrimento e depois vou poder descansar.

Fechou os olhos do velho, colocou a faca no pescoço e foi afundando aos poucos, até sentir a carne cortando e o sangue fluindo. Fez um talho de um lado até o outro. O sangue vinha em jatos agora, sujando tudo.

Então, coberto de sangue, Oscar foi até a sala e sentou no sofá. Fechou os olhos por alguns minutos.

***

Antes que adormecesse, tirou o celular do bolso e discou 190.

— Alô, acabei de matar o meu pai e quero me entregar.

Agora era só esperar a polícia chegar. Seria enfim, sustentado pelo governo por um bom tempo… O resto da vida, se tivesse sorte.

17 comentários em “Dia de sorte (Oscar)

  1. Emanuel Maurin
    19 de setembro de 2021

    O conto é rápido e certeiro. Bem expressivo, cheio de imagens e fluido. Gostei da forma que a autora fez o flashback e tal. Isso é difícil de fazer, muita gente faz a volta no tempo, mas no desfecho se perde. Isso não aconteceu nesse enredo. Gostei.

    • Oscar
      20 de setembro de 2021

      E aí, Emanuel! Valeu demais. cara! Só me tira uma dívida, dá onde vc tirou que eu sou mulher? Tá me estranhando, é?

      • Emanuel Maurin
        20 de setembro de 2021

        Desculpa Oscar é que estava com a Prudência na cabeça. Depois que eu mandei que vi, mas reafirmo, gostei do seu conto.

  2. Fabio D'Oliveira
    19 de setembro de 2021

    Buenas, Oscar!

    Nesse desafio, irei avaliar três fatores: aparência, essência e considerações pessoais.

    O que ele veste, o que ele comunica e o que eu vejo.

    É uma visão particular, claro, mas procuro ser sincero e objetivo. E o intuito é tentar entender o texto em sua totalidade, mesmo falhando miseravelmente, hahaha.

    Vamos lá!

    APARÊNCIA

    Visceral.

    Acho que essa palavra resume essa parte do conto.

    É uma escrita violenta.

    A narrativa procura sustentar a miséria do protagonista do início ao fim. E, mesmo abordando uma temática naturalmente densa, a leitura é fácil e ágil. Considero isso uma grande virtude, Oscar. Para completar, a abertura do conto é sensacional, criando uma interessante ligação entre a paz e o sangue. Esse tipo de coisa instiga o leitor.

    Como sugestão, preste um pouco mais de atenção na revisão, como apontaram em outros comentários. Mas isso não desabona o conto. É coisa boba. Também consideraria avaliar as escolhas de algumas palavras, como “água fervente” e “abobalhado”. Acredito que “água quente” caiba melhor, para evitar o uso de fervente, que lembra a água borbulhante e que fere. E “abobalhado” não combina muito com o clima do conto. Eu cometo o mesmo tipo de erro. É normal.

    ESSÊNCIA

    Gosto de harmonia.

    Então, quando a narrativa se transforma para acompanhar a história, acabo me encantando. É coerente. E belo.

    O enredo é essencialmente brutal. Com a escrita auxiliando na construção do personagem, temos algumas nuances inseridas no decorrer do texto. Por exemplo, quando o protagonista vai tomar banho, temos um interessante jogo de palavras, que revela o quanto ele se sente sujo interiormente por causa da prostituição. Esses detalhes enriquecem a trama. E deixa tudo mais crível e sólido.

    No final, apesar da situação realmente levantar algumas reflexões sobre nosso sistema penitenciário, a sua intenção, ao meu ver, foi revelar o nível de desespero do protagonista. Ele se sentia tão perdido e abandonado que, no seu ponto de vista, era melhor desistir de tudo. Cuidando do pai por obrigação, sem cuidar de si, “sujando-se” para ganhar dinheiro. Isso tudo levou o personagem ao limite. E, obviamente, o maior empecilho para ele viver sua vida, naquele momento, era o pai. Uma tragédia inevitável. E muito bem construída.

    O conto choca em alguns momentos, quando a senhora carente é chamada de porca, por exemplo. Mas dá para entender o porquê desta informação ter sido inserida. É para chocar, mesmo.

    CONSIDERAÇÕES PESSOAIS

    Na minha primeira leitura, admito que não tinha capturado todas as nuances, e, um pouco chocado, acabei não gostando tanto do conto. Agora, porém, depois de uma leitura mais aprofundada, ficou um pouco difícil não gostar do conto.

    Ele está bem trabalhado. É coeso. E ainda é estranhamente leve.

    Diferente de alguns, eu gostei da inserção da prostituição, pois, afinal, ajudou a criar o clima visceral do conto.

    Continue com o bom trabalho, Oscar. Parabéns!

    • Oscar
      20 de setembro de 2021

      Fala, Fábio, meu querido! Sabe parça, vc deu mais valor do que o meu conto realmente tem e isso só faz eu gostar mais de vc, irmão! Tamo junto!

  3. Wilson Barros
    17 de setembro de 2021

    Pelo visto está na moda o flashback, é o terceiro conto do desafio que usa essa técnica literária. No princípio eu pensei que se tratasse de eutanásia, mas depois entendi que ele matou pra ser preso. Igual a história da moça que se apaixona pelo rapaz no velório da mãe, esquece de pedir o número do zapp dele e termina matando a própria irmã, pra que o boy vá ao velório e ela o veja novamente.
    Conto muito bem escrito, cheio de frases requintadas como por exemplo “o corpanzil embrulhado numa camisola que tinha a intenção de ser sexy, mas acabou ficando grotesco” ou o quase realismo fantástico de “Seria enfim, sustentado pelo governo por um bom tempo… O resto da vida, se tivesse sorte.” Aliás, o conto tem meio que um toque mágico, de tão inusitada que é a ideia do criminoso. Muito interessante.

    • Oscar
      20 de setembro de 2021

      E aí, Wilson! Cara, cê sabe que sou meio lesado né, então, não entendi se tu tá me elogiando ou mangando com a minha cara… mas mesmo assim, valeu por ler e comentar!

  4. Angelo Rodrigues
    16 de setembro de 2021

    10 – Dia de Sorte

    Conto rápido de ler, o que é bom.
    Não creio que precisasse de mais: a ideia é simples, e não precisa de rodeios para contá-la.
    Senti um pouco de desconforto na contação da história. Tanta desgraça como a que viveu Oscar, acho até que ele merecia o Oscar do Sofrimento. Ainda há tempo.
    A ideia do conto é legal, embora não seja nova.
    Haveria muitos meios para falar da desistência da vida, do crime, do desamparo, mas o autor optou por justificar tudo pela desgraça em que vivia Oscar. Não sei se esta foi a melhor opção, particularmente quando é dito como abobado.
    Não tenho muito a acrescentar ou dizer algo que possa ajudar ao autor a melhorar a sua escrita, mas, se posso ousar, diria que as relações diretas de causa e efeito, quando muito rápidas (algo como a pobreza sendo ligada diretamente ao crime), não se deve traduzir em bons roteiros, dado que a elas falta a sutileza construtiva.
    Da maneira como o conto foi construído, passou-me a ideia de que havia um sujeito com um porrete nas mãos, e ele estava levantado. Por óbvio, saberíamos todos que ele arriaria este porrete na cabeça de alguém. No caso foi a de seu pai, que deu a ele anos de vida gratuita.
    Seria melhor investir na carreira de pedreiro-de-programa e traçar as velhas em alcovas perfumadas com leite de rosas.
    Mas tá valendo. Boa sorte no desafio.

    • Oscar
      17 de setembro de 2021

      Fala, Angelo! Obrigado pelo comentário, não sei se entendi direito, mas tá valendo!

  5. claudiaangst
    15 de setembro de 2021

    O conto abordou o tema proposto pelo desafio.
    Por ser curta, a narrativa desliza mais facilmente aos olhos do leitor. As frases enxutas também emprestam maior agilidade ao texto. Bom ritmo.
    Pequenas falhas de revisão:
    (…) camisola que tinha a intenção de ser sexy, mas acabou ficando grotesco > (…) camisola que tinha a intenção de ser sexy, mas acabou ficando grotescA OU acabou compondo um quadro grotesco.
    (…) rondava sua mente há meses > (…) rondava sua mente HAVIA meses.
    Há também repetição de palavras, o que desvaloriza algumas passagens.
    Não sei se o emprego do termo “abobado” justifica o comportamento do protagonista. Eu o considero mais deprimido e desgostoso com a vida do que com deficiência cognitiva. A ideia de perder a liberdade em troca de comida (ruim) e alojamento (precário e de risco) soou meio forçada.
    Boas descrições que culminam em um desfecho esperado, anunciado logo no início do conto.
    Parabéns pela participação e boa sorte no desafio.

    • Oscar
      17 de setembro de 2021

      Claudinha, meu amor! sou seu fã! Obrigado pela correção, não terminei a escola… Sobre a ideia de matar meu pai, na hora pareceu a única solução, agora já não sei mais…
      Um beijo, linda!

  6. thiagocastrosouza
    15 de setembro de 2021

    Caro Oscar, não consegui deixar de pensar, ao chegar no final deste conto, na primeira história do filme Relatos Selvagens, onde uma funcionária mata um criminoso para voltar à cadeia, desgostosa de sua vida atual. O personagem é um homem bronco, que trabalha na construção civil e de vez em quando presta serviços de gigolô. Tem um pai doente e uma série de traumas de infância que empacam sua vida. Senti que a escrita não perde tempo em desenvolver a trama, pois logo de cara somos apresentados ao protagonista e a seus problemas, principalmente a dificuldade nos cuidados com o pai e a dureza do trabalho. Felizmente você declarou que Oscar não era muito bom da cabeça, pois a ideia de matar o genitor para ir para uma cadeia no Brasil é, no mínimo, descabida, pensando em como é a situação dos presídios em nosso país.

    Enfim, há agilidade no contar, o conflito é claro e o desfecho planejado. É um conto que sabe o que quer e vai direto ao ponto, sem gorduras. Só achei que o fato de Oscar ser um gigolô de ocasião não contribui muito para a trama, sendo que o trabalho duro na construção civil mais os traumas de infância já seriam suficientes para construir a personalidade do protagonista.

    Acho que é isso.

    Boa sorte!

    • Oscar
      17 de setembro de 2021

      Fala, Mano!
      Então, ser gigolô de ocasião surgiu na minha vida sem planejamento, foi só uma coisa que acabou acontecendo… e sim, achei que seria bom frisar que só alguém com a mente bem frágil teria essa ideia absurda… valeu pelo comentário. Tamo junto!

  7. Andre Brizola
    15 de setembro de 2021

    Olá, Oscar!

    Não sei como dizer isso de outra maneira, mas achei que seu texto é mais ou menos um veículo panfletário. Me pareceu que a ideia de usar o tema coincidiu com a vontade de criticar o sistema em que, hoje, o presidiário (veja bem, não o bandido, ou o criminoso, e sim o presidiário) acaba vivendo encarcerado, tendo lugar e comida garantidos pelo estado. Ok, nada de errado nisso, a literatura é mesmo um veículo apropriado para tal e serve como um registro de época. Mas achei que a crítica foi feita de forma vaga e um tanto quanto vazia.

    Dito isso, vamos ao conteúdo pertinente ao desafio. Há um enredo montado em três momentos. Primeiro há uma reflexão do personagem. Em segundo lugar vem a argumentação de fato, onde o narrador heterodiegético nos apresenta Oscar, sua realidade e seu conflito. A terceira, no final, a arrematação em forma de crítica, continuando de onde a primeira parte terminou. Tecnicamente a divisão é interessante, e abrir o texto com seu ápice, para vir remontando as causas e efeitos é uma sacada legal e que surte um efeito chamativo para o conto. Achei, entretanto, que a primeira e a terceira parte mereciam mais atenção e mais espaço. Da forma como ficou, inclusive, a terceira parte poderia surgir como sequência da segunda, sem interrupção.

    A parte gramatical está OK, sem deslizes que comprometessem a experiência da leitura, mas o texto poderia estar melhor aparado (logo no começo temos a palavra sofá repetida no mesmo parágrafo, por exemplo). Mas gostei como você usou frases curtas para montar seus parágrafos, pois elas dão uma noção de pressa, de velocidade, e que combinaram com a urgência sentida pelo personagem.

    É um conto que atende ao tema do desafio, e tem seus méritos. O final, entretanto, para o meu gosto, foi insatisfatório.

    Bom, é isso. Boa sorte no desafio!

    • Oscar
      15 de setembro de 2021

      E aí, Parça!
      Vc pode não acreditar, mas nem me passou pela cabeça criticar o sistema penitenciário… e sim a ironia de uma pessoa querendo entrar e não sair da cadeia, mas pelo seu comentário, deu ruim né… pena.

  8. Cilas Medi
    12 de setembro de 2021

    Tenebroso, incrivelmente detalhado no sofrimento e, apesar de já saber o final logo no início do conto, pelo modo de narrar nos faz sentir o drama e querer “sofrer” juntos até a decisão final e reconfortante, apesar da brutalidade. Parabéns!!!

    • Oscar
      15 de setembro de 2021

      Valeu demais pelo comentário, irmão! Show!
      ahh, faz tempo que não leio um conto seu por aqui… o que tá acontecendo, companheiro?

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Informação

Publicado em 11 de setembro de 2021 por em Foras da Lei.