EntreContos

Detox Literário.

Imagine (Christopher H. D. Wilson)

Como foi que cheguei até aqui? A esse matagal. Costumavam dizer que eu era um sonhador. Quem me visse hoje acharia estranho o adjetivo. As coisas parecem ter saído do controle. Calma. Vai passar. É o efeito platô. O maldito efeito platô. Um sonhador: esta talvez seja minha segunda característica mais marcante. A primeira… bem, a primeira não será difícil perceber em breve. Para isso, é preciso começar pelo início, e, como em todos os inícios, falar da minha família.

O mais correto é dizer que eu nasci num lar quase invejável. Não se pode dizer que éramos ricos, mas de forma alguma pobres. Tive praticamente de tudo. Morávamos numa cidade pequena quando criança, mas sempre estudei nos melhores colégios. A casa vivia cheia de livros. E discos. Não lembro de um dia em que meu pai não estivesse lendo algo e, minha mãe, ouvindo. Ele, quase sempre poesia; ela, quase sempre os Beatles. Nasci no dia 9 de dezembro de 1980. Ao sair do hospital, minha mãe estarreceu diante da banca, daquela manchete. Depois, convenceu meu pai a trocarem o nome já acordado. No dia seguinte, batizaram-me John.

Minha infância foi boa. Apesar da rigidez excessiva do meu pai, consegui conquistar o direito à sua biblioteca. Contanto que devolvesse os livros aos devidos lugares no fim do dia, eu poderia passar umas quatro ou cinco horas lá embaixo. Praticamente não tive amigos naquela época. Mas nunca senti falta. Perdi-me nos livros e, sozinho, passei a imaginar, a sonhar… É incrível que digam que as crianças não sabem de nada. Ora, foi justamente nessa época que, antes que me desse conta, eu já cultivava convicções das quais nunca me desgarrei.

Costumavam dizer que eu era um sonhador. Uma vez por mês, meu pai me levava para caminhar à margem da cidade, de onde se avistavam algumas colinas. Eu sempre quis subir a uma delas e olhar o que havia do outro lado. Meu pai jamais permitiu. Passou a olhar torto sempre que eu dirigia o olhar para lá. Eu voltava para casa e corria para a biblioteca, criava meus próprios mundos, para além das colinas. Lá, meu pai não ditava as regras. Lá, ele sequer estava. Do lado de cá das colinas, quem não estava mais era minha mãe. Morreu pouco antes dos meus catorze anos, num acidente de carro.

E é óbvio, é óbvio que o dia de hoje encontra suas raízes naquele ano. Se a vista de Borges se torna opaca aos cinquenta e cinco, e meu pai é quem sobrevive àquele acidente, eu seria para sempre incapaz de refutar a aleatoriedade da vida. Foi assim que, ainda criança, a realidade se tornou um desencanto. Cada dia mais agudo. Estranho, mas é a única lembrança de algum sofrimento que tive.

No final do ano da morte de minha mãe, a casa estava insuportavelmente cheia. Meus avós paternos e primos comemoravam sempre o Natal conosco. À mesa, as palavras eram poucas e, inevitavelmente, o assunto acabava naquela “fatalidade”, como diziam. E do caso particular partiram para o tema geral da morte até que meus avós passaram a falar de vida eterna. Eu quis sair da sala de jantar, quando fui surpreendido pela inconveniência de minha avó:

— E você, John? Tem certeza de que vai para o paraíso com sua mãe?

Eu sempre falei pouco. Comecei a escrever bem cedo para lidar com essa dificuldade. Punha nos papeis algumas ideias que não ousava compartilhar. Até que minha avó deu ensejo à aparição de uma delas:

— Isso não existe, vó.

Meu pai me olhava fixo. Desconcertada, minha avó não conseguia expressar palavra, a cabeça meneando, como quem busca explicação.

— A senhora nunca parou para pensar nessa possibilidade?

A sala continuava muda.

— Imagine, vó. Só imagine. É fácil se você tentar.

Naquela madrugada, levei a última das tantas surras da infância. Antes de fechar a porta do quarto, meu pai disse, num tom soberbo e quase profético:

— Tome cuidado com as consequências do que pensa.

E é óbvio, é óbvio que o dia de hoje, essa arma engatilhada, tudo isso encontra suas raízes naquele ano, naquele Natal, naquela profecia.

Ocorre que, desde muito cedo, eu entendi que a resposta daquelas questões mais profundas era bem simples. Não que eu fosse muito mais inteligente que os demais. Mas algo me impedia de ser trapaceado. De ser ludibriado pela conversa fiada dos que fingem consolo falando de coisas que não sabem, que nunca viram, de lugares onde nunca estiveram. Sincero foi aquele homem! Sim, por que o lado de lá deveria ser algo enorme? Por que “forçosamente enorme”? Ele estava certo, certíssimo! É tão provável que minha mãe esteja em paz, cercada de anjos, quanto que esteja num “quartinho de banhos de aldeia, enegrecido pela fuligem, com aranhas espalhadas por todos os cantos”.

E se ninguém sabe, se ninguém na verdade tem a mínima ideia, o meio do caminho, essa estrada entre o começo e o fim definitivo importa muito pouco. E a única forma de sobreviver com alguma dignidade, como se isso importasse, é criando nossos próprios mundos, erguendo Jerusalém, mas nossa própria Jerusalém, nosso castelo além das colinas, onde não há países, nem religião, ou lei, ou posses. Sim, nós é que construímos o que há para além das colinas. Eu me pergunto se alguém consegue… Sim, eu sei, eu sei que não sou o único, o único a sonhar… A sonhar…

E enquanto relembro convicções tão precoces, aqui nesse matagal, à luz de pouquíssimas estrelas, enquanto me pergunto como as coisas chegaram até aqui, aquela noite no supermercado reaparece.  Reaparece como um momento decisivo, um marco, o dia em que as ideias mostraram a força dos homens de verdade, dos homens de convicção, e não dos hipócritas. E ainda que eu o lembre com apreço, ele sempre me soa simples demais.

Entramos num supermercado, no início da noite. Meus “amigos” riam de tudo. Como crianças. Eu não os considerava, senão por inércia e preguiça. Naquela noite estavam especialmente irritantes. Um deles sugeriu quase às gargalhadas que levássemos às escondidas um pote de sorvete. Roubar, dirão. Outro enfiou o pote debaixo da blusa por um segundo. O mais velho disse que tinha dinheiro. Foi acusado de covarde. Pegou, então, uma colher na prateleira e perguntou:

— Mas com que vamos tomar? Não precisamos de colher?

Colocou-a no bolso, com aparente firmeza. Mas uns passos adiante, parou. O riso de todos diminuiu. Emudeceram. Não sabiam o que fazer. Eu via aquilo aturdido.

— Deixa quieto, cara, deixa quieto – disse um dos rapazes.

Enquanto mexia no bolso para livrar-se da colher, um funcionário virou a esquina do corredor e ficou nos observando por alguns segundos. A mão do “amigo” permaneceu no bolso, segurando a colher. O funcionário fez que vinha, pegou algo na prateleira e foi para o corredor seguinte. Todos se entreolharam. O mais velho tirou a colher do bolso, olhando para os lados, e a devolveu. Dez segundos se passaram e ele explodiu num riso que todos seguiram.

— Vocês estão de brincadeira? – indignado, peguei a colher e pus no bolso.

Ninguém riu. Me olhavam como se nunca tivessem me visto. Pagaram o sorvete e fomos saindo. Quando o funcionário de minutos atrás gritou:

— Ei, vocês.

— O quê? – eu disse.

— Vocês estão levando alguma coisa além do sorvete?

Os rapazes estavam de costas. Devem ter entendido que isso os acusava e viraram, sem reação.

— O que o senhor quer dizer? – perguntei.

— Você sabe o que eu estou perguntando.

— Está acusando a gente?

— Eu só fiz uma pergunta.

O caixa que nos atendera e outros clientes, todos estavam fixos na cena.

— Não, não foi só uma pergunta. O senhor está nos acusando. De roubo. É isso, não é? Fale de uma vez. Vamos, fale!

Alguém balbuciou algo atrás de mim. O funcionário olhou para os clientes e cedeu.

— Não. Está tudo bem. Era só uma pergunta. Eu devo ter me enganado.

Eu ainda o encarei por uns cinco segundos. Saímos dali e ninguém me disse palavra. Dei-lhes a colher e voltei sozinho para casa.

Eu sei bem que ninguém perderá o sono com essa história inocente. O que talvez perturbe é entender que não havia em mim, naquela noite, qualquer afetação. Não havia ninguém ali a quem eu quisesse provar algo. Talvez a mim mesmo. Mas só. Porque, e esse é justamente o ponto, o único disparate naquela ocasião era a covardia daqueles rapazes. Eis a coisa mais assombrosa para mim: a fraqueza da maioria das pessoas. Pessoas ou piolhos? Muitos concordam que o fim de tudo pode ser o quartinho de banhos, ou mesmo uma escuridão sem fim, mas ainda assim encontram motivo para andar de determinada forma, seguir determinado padrão. Mas por quê? Quem explicará? Eis o motivo de gente tão fraca ao longo dos anos, de sociedades insignificantes. Senão por aqueles que decidiram abrir suas próprias portas e construir o que haveria para além das colinas! Senão por Napoleão, Robespierre!

Ninguém estranhará também o corolário dessas minhas histórias, dessas minhas ideias. Saí cedo de casa. Antes dos dezoito. Um ano depois, meu pai morreu. As arbitrariedades da vida; no dia do velório, eu experimentava, por poucos dias, o gosto inédito de uma cela. O motivo? Nada que mereça o relato. Eu certamente não iria ao velório. E, com aquela morte, eu me sentia, por detrás das grades, completamente livre. Sim, é fácil adivinhar: eu fiz de tudo. Me transformei, em poucos anos, nisso que a sociedade rotula aberração. Eu fiz de tudo. Quase tudo. Dirão palavras como quebrar, infringir a lei. Crie o vocabulário e você ganhou a guerra! Lei. Palavra engraçada e desprezível. O camponês de Kafka morreu sem conhecê-la. As pessoas dizem “lei”, dizem “bem”, “mal” com uma rigidez admirável. Não percebem a fluidez dos conceitos! Quebrar a lei é abrir portas. São poucos os dotados da coragem e ânimo para abri-las. O mundo, tal como conhecemos, é totalmente deserto, ávido por ser conquistado, por ser descoberto pelos que não têm medo de tomar suas próprias decisões, de ser livres, de decidir o que é bem e mal, certo e errado.

E agora todos já terão uma imagem formada de quem eu sou. E pensar que alguns se compadecem por achar que o menino sonhador se perdeu! Ninguém ouse! Eu poderia dizer que sou tudo o que gostaria de ser. Mas há muito ainda pelo caminho. Há esse último obstáculo, esse último teste… Ocorre que nos últimos dias tudo tem me parecido um tanto opaco, e eu me sinto um pouco desorientado. Os resvalos, pequenos resvalos na estrada! Como foi que cheguei até aqui? A esse matagal, a essa arma engatilhada! A essas dúvidas! Tantos séculos desenhando-se um mundo sob determinados padrões que estes reverberam por todos os lados… as filas e modos e preços e a rotina inquebrável da vida de todos… Tudo completamente frágil, vil, ilusório, e, ainda assim, sempre de pé, sempre se impondo! Peixe guerreando contra a água. O poema ressoando: “Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso tenho em mim todos os sonhos do mundo”! Do mundo! Mas “o mundo é para quem nasce para o conquistar” ou “para quem sonha que pode conquistá-lo”?

Ah! Essas fraquezas temporárias, efêmeras! Às quais todos os que se propõem o caminho mais árduo estão sujeitos. Ao menos, ao menos eu poderia dizer, como talvez alguns prefiram: eu sou o que eu deveria ser. O que estava destinado a ser. Quem foi que disse? O homem “tende a abrir para si mesmo um caminho, eterna e incessantemente, para onde quer que seja”? Para onde estou indo? Esse homem, esse homem à minha frente será minha salvação, meu Cristo! Conheci-o há dois anos, quando me ofereceu emprego. Marido de uma mulher arrebatadora. Ao menos antes de ser espancada, no dia em que ele nos descobriu. Eu consegui fugir. Com a certeza de que um dia voltaria.Nesta madrugada, eu o arrastei do bar onde bebia desacompanhado e o trouxe para esse matagal.

Eu fiz de tudo. Quase tudo. Nunca havia matado alguém. Era o último obstáculo a ser vencido. E eu tinha plena consciência de que diante de mim havia nem sequer um verme. Não o digo por ódio ou ciúme. Fosse quem fosse, um estranho ou meu próprio pai, a questão que se erguia diante de mim era a mesma, a mesma que eu já havia lido nos livros, e que agora eu experimentava. “Eu precisava saber, e saber o mais depressa possível, se eu também era um piolho, ou um homem extraordinário. Era eu uma criatura trêmula (como meus ‘amigos’ no supermercado) ou tinha o direito”? Eu me sentia fraco, desprezível. Aqui, agora, as coisas parecem ter saído do controle! Sinto que “no desespero dos iconoclastas quebrei a imagem dos meus próprios sonhos”! Vandalizei a mim mesmo. Fui fraco como meus “amigos”.

“Meu coração tem catedrais imensas. Como os velhos templários medievais, entrei um dia nessas catedrais e nesses templos claros e risonhos”. Entrei quase todos os dias da minha vida na biblioteca de meu pai. E mesmo quando saí de casa, e mesmo quando meu pai se foi, e mesmo preso, eu sempre estive lá! Onde eu quis estar. Enclausurado em mim mesmo. Criando meu próprio mundo, minhas próprias regras, leis, meus sonhos. No meu subsolo. E hoje… um deslize, um pequeno deslize, mas eu não hei de falhar! Não desonrarei os sonhos da infância. Ainda há a arma engatilhada. Ainda há um fio de noite. Ainda há esse verme diante de mim para provar-me as convicções de menino, para me abrir a porta, o caminho até lá longe, lá em cima! Visito novamente a biblioteca, as catedrais daqui de dentro. Me vejo diante daquelas colinas nunca visitadas. Ninguém atrás de mim. Ninguém ouviu o disparo. Ninguém encontrou o corpo ainda. Há tempo para, enfim, realizar o sonho. Ver o que há, afinal, além daquelas colinas. Eu as subo correndo, em êxtase, certo de que não haverá paraíso ou inferno do outro lado. Alcanço o topo e, finalmente, avisto lá de cima. Para meu assombro. Para meu sofrimento. Embaixo, um deserto. Nenhuma cidade ou vegetação. Acima de nós, apenas o céu. E mais nada. Absolutamente nada.

7 comentários em “Imagine (Christopher H. D. Wilson)

  1. Angelo Rodrigues
    19 de setembro de 2021

    21 – Imagine

    Conto que tem mais jeito de solilóquio.
    Um jeito blasé de pensar e agir.
    Um garoto dos anos 1980, que vive aparentemente num lar agradável, de repente, através de sua própria compreensão, começa a ver em torno de si um lar esquisito, de pouco acolhimento.
    Achei essa passagem estranha. O que transformou a água em vinho? Isso parece não ter explicação, salvo a mudança de compreensão do protagonista, que, sem motivo aparente, também se transforma.
    Um conto que escolheu se alongar em tramas que não se justificam, que são banais na vida de um garoto. A questão do sorvete e da colher não parece ter a dimensão necessária a ser retratada no conto, não soma ao texto um movimento que se justifique. Está além do necessário.
    O menino John parece ter uma filosofia esquisita, desconectada e pouco enjambrada. Particularmente no momento em que ele diz que “agora todos já terão uma imagem formada de quem eu sou”. Sim, isso é verdade. John é raso, pouco razoável e blasé. Esse moleque John já me parecia merecer uma boa escovação nessa altura do texto. Se apruma moleque!! Esse John começou a me irritar e tive vontade de parar de ler.
    Bem, ele mata um cara. É um psicopata que mata num matagal. Aí melhorou, passando de blasé para assassino blasé, desfilando um perfil de moleque psicopata. Só falta mudar o nome para Mark Chapman e venerar John Lennon a ponto de dar um tiro nele.
    Creio que o autor tenha querido passar ao leitor a ideia de construção de um personagem psicopata, que vai da estabilidade da família ao crime sem sentido que pratica. Achei que esse foi o caminho, só não sei se a psicopatia se configura dessa forma, tão lentamente, sem eixos estruturais se manifestando precocemente. Acho que não. Há punções interiores não captadas em nosso pequeno John.
    Boa sorte no desafio.

  2. Wilson Barros
    17 de setembro de 2021

    Mais um conto sobre a trajetória do criminoso, e mais uma vez usando o flashback. A diferença fica por conta de que, dessa vez, a culpa não pode ser da sociedade. Aqui os motivos são mais profundos, psicológicos, filosóficos. Talvez o autor queira contrapor essa “origem criminológica” à causa “social”. É o segundo conto no desafio que usa a técnica do “fluxo de consciência”, e aqui é muito bem tramada. No meio do conto descobri o autor.

    “E erguendos os gládios e brandindo as hastas,
    No desespero dos iconoclastas,
    Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos!”
    Gostei muito, parabéns.

  3. Marcia Dias
    17 de setembro de 2021

    Narrativa em flashback, relatando os motivos que levaram o protagonista a chegar aonde está no momento; sua transformação de “pessoa de bem” em um criminoso. Achei o texto bem escrito, porém muito longo, com uma exploração excessiva da caracterização psicológica do personagem. Acredito que o texto ficaria mais atraente, se mais enxuto. Aumentaria sua qualidade.

  4. claudiaangst
    16 de setembro de 2021

    O conto aborda o tema proposto pelo desafio.
    A narrativa desliza fácil enquanto voltada à “autobiografia” do narrador. Talvez isso aconteça porque gosto muito de biografias, de conhecer gente. Ter recebido o nome em homenagem a John Lennon o fez se identificar como um sonhador ( referência à canção Imagine).
    No entanto, ao adentrar o campo filosófico, os parágrafos ganham um tom mais pesado e o ritmo ralenta consideravelmente. É como se o leitor passeasse à beira de um lago e de repente fosse sugado por um pântano. A densidade das reflexões trazidas pelo(a) autor(a) causa um efeito perturbador por um lado, e por outro, uma letargia diante de questões que não se destinam a qualquer conclusão racional.
    Sem dúvida, o talento para a escrita é evidenciado na construção da trama. Assim como o conhecimento transferido em forma de diversas referências. Talvez seja isso o que me incomdou: o excesso.
    O desfecho ficou ótimo e me fez pensar na música de Gilberto Gil – Se eu quiser falar com Deus – ” (…) pela estrada que ao findar vai dar em nada (…) do que eu esperava encontrar.” As expectativas do narrador foram frustradas pelo nada da existência, o nada após a morte (possibilidade que ele mesmo sugeriu à avó).
    Parabéns pela participação e boa sorte no desafio.

  5. thiagocastrosouza
    16 de setembro de 2021

    Caro colega, tudo bem? Tive sentimentos contraditórios em relação a este conto. Positivamente, ele é bem escrito e claramente trabalhado pelo autor. Por outro lado, a narrativa, o enredo e o próprio personagem trouxeram certo incômodo ao longo da leitura.

    Veja, como disse, percebo um esmero na construção desse personagem. O autor inseriu-o num tempo e espaço, trabalhou seu passado, seu traumas pessoais, as relações familiares, tentou fazer o autor refletir sobre a lei e a justiça, além de trabalhar com referências musicais que dialogam com o tema do conto: a obra de um compositor pacifista morto de forma violenta.

    Esses são os méritos que destaco.

    Por outro lado, o conto fica um tanto arrastado, apesar dos parágrafos compactos, muito pela maneira que o autor optou para desenrolar a história: o protagonista está num momento chave, empunhando uma arma, e a partir dele tece longas reflexões e é acometido por memórias, desde as mais tenras até as mais recentes. Toda essa volta, embora aparente ser necessária para encorpar psicologicamente o personagem, quando trazida pela perspectiva do narrador em primeira pessoa, ficam inverossímeis, e até um pouco pedantes, dado a personalidade de John, que, convenhamos, não é dotado de muita modéstia. Aliás, acho extremamente difícil criar um personagem tão cheio de referências e conhecimento, porque, muitas vezes, ao tentar passar essas características para o leitor, caímos no erro de citar referências, trechos de obras de autores consagrados, divagações que tem o propósito de tentar dar alguma originalidade para o olhar que o personagem tem diante do mundo, mas acabam não sendo tão profundas ou originais assim, fazendo com que esse mesmo personagem perca força diante do leitor, seja uma caricatura, alguém envernizado de palavras e frases prontas.

    Logo, o conto se perde num rememorar e didatizar que caminham para o desfecho, onde finalmente descobrimos para quem a arma está sendo apontada. Esse embate final, entretanto, é pouco desenvolvido, e o peso do assassinato acaba que por não ocupar um papel crucial na vida do protagonista: sendo ele tão certo e convicto de sua natureza, de seus ideais, o puxar do gatilho não gera nenhum espanto ou choque, não há dilemas, não há tensão, apenas a frustração.

    O final é interessante, sim, esse deparar-se com o nada após quebrar a última barreira, e esse ponto, de dividir os homens em piolhos ou extraordinários me lembrou muito, é claro, os conflitos apresentados em Crime e Castigo. Acontece que, aqui, entre o momento de apontar a arma e apertar o gatilho, o recheio acabou ficando um pouco empolado.

    Porém, é um conto bem escrito e que evidencia o trabalho do autor.

    Boa sorte no desafio!

  6. Andre Brizola
    15 de setembro de 2021

    Olá, Christopher!

    Um conto denso, de narrativa complexa, com afirmações e questionamentos entrelaçados, que traduz a vida de John, de sua infância privilegiada ao momento de “epifania”, em que descobriria tratar-se de um homem trêmulo, ou liberto.

    Como disse antes, a narrativa imprime um ritmo bastante lento, com parágrafos grandes e com muitas informações para o leitor assimilar. Não é um tipo de estrutura ruim, de modo algum, mas sentimos um “refresco” na leitura quando surgem os diálogos. Esses dois trechos, o do Natal com a família e o dos amigos no supermercado, acabaram me chamando mais a atenção do que os questionamentos que o narrador faz a todo instante.

    Achei que o texto está muito bem redigido, e o personagem faz algumas perguntas que se adequam totalmente ao perfil que está traçando. São perguntas retóricas, direcionadas tanto a si quanto ao leitor. É uma maneira interessante de narrar, quase que dialogando com o receptor. Entretanto, eu, no papel de leitor, achei que o personagem não quer e nem se importaria com outra opinião que não a dele próprio. Se a intenção era essa mesma, parabéns, funcionou muito bem.

    No geral, acho que o conto é adequado ao tema do desafio, tem boa técnica e atende ao seu propósito. Por outro lado, o enredo não foge muito do que outros contos do desafio também fizeram, com o garoto de infância privilegiada que se torna criminoso. Variam os motivos, mas com resultados semelhantes.

    É isso. Boa sorte no desafio!

  7. Priscila Pereira
    15 de setembro de 2021

    Olá, Christopher!

    Ambientação: O conto é todo voltado aos pensamentos, sentimentos e lembranças do protagonista. Tudo devidamente detalhado e claro.

    Enredo: um jovem psicopata que conta sua história logo antes de se matar, porque não conseguiu matar um homem. (É isso?) Não ficou muito claro esse final, imagino que seja isso. Confesso que não gosto de contos nesse estilo que visam mais reminiscências e filosofia do que a ação. Nesse tamanho é cansativo, ou se fosse mais entremeado de ação, pra dar uma dinâmica, seria melhor.

    Escrita: boa. Clara e firme. Imagino que o conto tenha mais força e sentido pra quem conhece as músicas dos Beatles. Eu não conheço e não pesquei nenhuma das frases em aspas. Então não sou sua leitora ideal.

    Considerações gerais: não amei nem odiei.

    Boa sorte!
    Até mais!

E Então? O que achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Informação

Publicado em 13 de setembro de 2021 por em Foras da Lei.