EntreContos

Detox Literário.

Retrato de Afrodite enquanto jovem (Stanley)

A coisa mais colorida nesse apartamento é a pintura que Simone fez de minha avó. Eu gosto de ficar em frente a ele, olhando para o “Retrato de Afrodite Enquanto Jovem”, esse é o nome do quadro que fica em uma parede da sala. Eu sei dessa história em todos os detalhes, de tanto o meu pai contá-la e outros mais que vez em quando passam por aqui e ao olharem para a pintura só se lembram de coisas boas, daquelas que eu daria todas as minhas coisas preciosas para ter vivido também.

Minha avó ainda era jovem quando Simone a encontrou vivendo nas ruas. Levou-a para casa, cuidou dela. Por um tempo a mulher tentou achar os responsáveis, mas sem sucesso. Depois de algumas semanas, na verdade, já não queria mais encontrar. 

Levou-a para consultas. E assim conheceu Rafa, o responsável por tratar vovó, e se apaixonou por ele. O Rafa é um cara muito legal. Com certeza a Simone se apaixonaria perdidamente. Todo mundo se apaixona, e são diversos os motivos. É um humano bonito demais, em nossos passeios nunca encontrei outro tão bonito. A Simone deve ter sido bonita, também, mas infelizmente não a conheci. 

Meu pai contava, enquanto o Rafa era razão, a Simone era pura emoção. Era ilustradora de livros infantis. Vivia com a roupa manchada de tinta, o quarto hoje usado como escritório pelo Rafa era o ateliê da jovem durante o tempo vivido por ela no apartamento. As telas e desenhos da pintora estão até hoje lá, ocupando as paredes, além dos livros ilustrados por ela guardados na estante, e muitas vezes eu vejo meu humano com um olhar vago na direção daquilo tudo, perdido nas lembranças deixadas pela esposa.

É a verdade, infelizmente a Simone morreu, dizem que foram pouco mais de dez anos de casamento com o Rafael e filhos só os de quatro patas mesmo: minha avó, Afrodite e meu pai, Sam. Segundo meu pai foi tudo muito rápido, em um tempo quando muitos humanos morreram por uma doença desconhecida, em poucas semanas o Rafa ficou só naquele apartamento, sem querer saber mais de nada. Chorando sem parar.

Quando o Rafa aceitou viajar para fazer um tal de doutorado e precisaria ficar fora por uns dois anos, meu pai ficou com a Eliete, a humana que limpa o apartamento, cozinha e cuida da organização de tudo pra ele até hoje. Ela também mora aqui no prédio. Foi no apartamento dela que eu nasci, porque meu pai também se apaixonou à primeira vista pela minha mãe, que morava lá. 

Eu nem tinha desmamado quando mamãe faleceu, por isso não me lembro muito bem dela. Quando o Rafa voltou, eu e papai fomos para o apartamento dele, por sugestão de Eliete. Ela disse que faria bem a ele, também porque na época ela visitaria os netos, depois de um longo tempo sem poder vê-los por precaução, foi mais de um ano de espera até terem certeza que a terrível doença já não significava perigo algum.

Eu achei o Rafa bem do jeito como meu pai o descreveu: bonito, mas além disso também muito carinhoso, gostava de conversar com a gente, gostava de cantar quando ouvia algumas músicas, embora chorasse às vezes e precisasse parar. Mas eu e o meu pai estávamos lá e a gente lambia muito o pé dele tentando ajudar.

Com toda a tristeza sentida pelo Rafa, eu me pergunto até hoje como ele foi capaz de me consolar quando meu pai se foi. Faz uns dois anos, por aí, se eu calculei bem o tempo à maneira humana. Na verdade, isso não importa muito. O tempo todo vivido por mim, e eu acredito não será muito para um humano, mas para mim será o suficiente, eu vou me lembrar de tudo o que meu pai me contou, do que vi, ouvi e, mais ainda, senti.

Segundo o Rafa, ele vai fazer o possível para eu viver além do que o meu pai e até minha avó Afrodite viveram. Outro dia perguntaram a ele o motivo e ele respondeu que era por querer que eu fosse seu último animal de estimação. Não queria mais sofrer quando outro se fosse.

Hoje a Eliete veio cedo limpar o apartamento. Foi a primeira a dar os parabéns ao Rafa pelos cinquenta anos que está completando. Eu nem consigo imaginar quanto de tempo é cinquenta anos, claro que nunca saberei, então só tenho comigo que é muito, muito, muito tempo. Trouxe a ele um presente, um embrulho bonito. O Rafa ficou olhando pra ela, disse que só a Eliete pra pensar em dar presente a um velho de cinquenta anos como ele. Ela disse que ele parecia ter parado no tempo e ainda estava como o cara trintão recém-casado que se mudara pra lá com a linda esposa e a cachorra a tiracolo.

“Eu adotei vocês, depois de vinte anos você não entendeu ainda?” ela perguntou ao Rafa, enquanto o esperava desembrulhar o presente e via-o abrir um sorriso daqueles dados só de vez em quando, quando se esquecia um pouco da Simone. A essa hora, eu já subira no sofá e estava ao lado dele, só esperando.

Era um álbum montado com fotos dele, da Simone, da minha avó, do meu pai, da minha mãe e de mim também. Vinte anos de recordações.

“Mas espere, cadê você aqui, Eliete?”, ele perguntou. “Como assim?”, a mulher ficou sem jeito. “Você não pode ficar de fora desse álbum, pelo amor de Deus!”, disse o Rafa, fazendo uma expressão zangada, perguntando a ela: “Então você vem aqui, diz que me adotou faz vinte anos e não coloca uma foto sequer sua aqui? Nem o Stan entendeu essa!”

Aquela mania de dizer coisas sobre mim que não eram verdade me irritava às vezes, mas era mania do Rafael, ele sempre vivia dizendo que eu tinha dito, feito, sentido algo que às vezes era coisa dele, na verdade. Transformara a coisa em uma mania e eu deveria desistir de me irritar, o que decidi fazer a partir daquele momento.

“A gente vai dar um jeito nisso e é agora!” declarou o Rafa, levantando e indo atrás do celular dele. Voltou para a sala e levou a Eliete pra frente da pintura da minha avó, se posicionando ao lado da Eliete. “Vem, Stan!” e, claro, ele não precisava me chamar duas vezes!

Enquanto a Eliete arrumava a pouca bagunça da semana, eu acompanhava meu humano na tarefa de imprimir a foto e colocá-la no meio das outras do álbum. Lá estávamos os três, sorrindo diante do quadro da avó Afrodite. Um dia, depois de ter bebido um pouco além da conta, o Rafa desembestou a contar o motivo dos nomes dados aos animais de estimação deles. 

O meu nome era por causa do Stan Lee. O Sam era por causa do filme Ghost, a Simone chorava toda vez que assistia àquele filme, mas via sempre a reprise, por causa do Patrick Swayze. E o nome Afrodite tinha sido dado por Simone dias antes de conhecer seu marido e ela disse que talvez por ter dado o nome da deusa do amor é que a cachorra tinha sido a responsável pelo encontro deles e o amor à primeira vista. O meu humano confidenciou: enquanto ela viveu, concordara inteiramente com ela, apesar de saber ser tudo uma fantasia, mas claro, uma grande e linda coincidência. Depois da partida de Simone, ele finalmente se convenceu, Simone tinha toda a razão.

“Já faz oito anos. É muito tempo”, disse Rafael, olhando novamente as fotos do álbum. Encostei meu focinho no pé dele, um sinal cujo significado era “Quero meu passeio no calçadão da praia agora”.

“Está bem, vamos”. Eliete disse que quando ele voltasse o almoço já estaria pronto.

Eu sinceramente não sei quanto tempo ainda tenho de vida, mas espero morrer bem velhinho. Eu também quero que o Rafa fique bem, bem, bem velhinho antes de ir embora. Mas também não quero que ele fique sozinho até o final. A Eliete não vai durar muito tempo, eu acho, ela já se tornou bisavó esses dias. E eu sei que ela não enxerga nada se tirar aqueles óculos que ela usa. Nesse dia eu decidi que ia dar uma mãozinha, ou uma patinha, na verdade, pra tentar fazer com que o Rafael conhecesse uma humana que fosse tão maravilhosa como me disseram que a Simone era.

Depois de algum tempo, uma mulher muito bonita disse “Oi, Rafael, que bom te ver”, se aproximando da gente no calçadão. “Oi, Teresa! Há quanto tempo! Bom, isso é bom, não é? A gente só se vê quando a Milly fica doentinha e você precisa levá-la ao consultório. Sinal de que ela não teve nada nesses meses.”

“É, vendo por esse lado, não ver você por um bom tempo é ótimo”, disse a humana, rindo. “A Milly está ótima, e agora que notei, ela parece muito com o seu cachorrinho.” Aquilo me deixou de orelhas em pé. Seria verdade aquilo ou era só algo dito para terem o que conversar?

“É mesmo, agora que reparei nisso”, concordou Rafa. “E como você consegue ter a rotina que tem e ainda passear no calçadão?” ele perguntou.

“Uma juíza precisa tomar sol e fazer exercícios regularmente também, não é mesmo?”

“É claro, com certeza. Todos precisam. O Stan me lembra disso sempre.”

“Vamos combinar de levar os dois para passear juntos? Assim eu não preciso ficar esperando o dia da consulta da Milly pra gente se encontrar”. Ei, de cara eu estava gostando daquela humana. Além de bonita e parecer inteligente, ainda tinha uma cachorrinha parecida comigo? Quando o Rafa concordou com a ideia, eu dei uns pulos pra ver se ele percebia que eu apoiava totalmente aquilo.

“Ei, parece que o Stan gostou da ideia. Valeu pelo apoio, Stan”, agradeceu a Teresa, me dando um afago.

Os dois se despediram, eu ganhei mais um afago da Teresa e quando voltamos para o apartamento, como a Eliete disse o almoço já estava pronto, embora não fossem ainda nem onze horas, mas como tinha um almoço marcado na casa da filha, ela precisava sair mais cedo.

Enquanto o Rafa beliscava um pouco da comida, parecia perdido em pensamentos e vez em quando sorria. Eu esperava que fosse por causa da Teresa. Quem sabe eu não seria o último animal de estimação dele, afinal? Talvez eu tivesse saído à minha avó Afrodite, afinal. Logo eu teria certeza disso.

O Rafa me deu o bife que ele não quis comer e, do nada, me perguntou: “A Teresa é bonita, não é, Stan?”

Lati duas vezes e abanei o rabo. Eu faço isso sempre que quero dizer “sim, concordo plenamente, Rafa”.

E Então? O que achou?

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Informação

Publicado em 22 de março de 2020 por em Envelhecer, Envelhecer - Grupo 1.