EntreContos

Detox Literário.

Amanhã vou ao cinema (Velhinha)

Primeiro dia. 

É meu aniversário. Não ligo, nunca me importei. Amo a vida, mas sempre detestei essa coisa de autocelebração. Ainda assim, a Dirlene fez um bolinho de cenoura com a calda de chocolate à parte, a Pequenina tem intolerância à lactose. Não queremos causar incômodos à coitadinha. Não mesmo. 

Besteira, bem sei eu que eles não vêm. Nunca aparecem. Andam ocupados com suas vidas, e estão certos, eu assim os ensinei: lutem, corram atrás de seus sonhos, trabalhos, seus filhos. Agarrem suas vidas com as duas mãos. A Dirlene, no entanto, é persistente. Ligou para todos, convidou-os para o café, fez pão de queijo, colocou refrigerante na geladeira. 

Insisti que desistisse das velinhas, que parasse com essa bobagem, mas não, ela é teimosa, signo de touro. Na falta de números, voltou da rua com caixinhas de velas finas, dessas que se veem em filmes. A pequena gosta de apagar as chamas, foi o que disse em sua defesa. Não importa. Já passou do tempo em que eu perdia o meu, tentando colocar tudo ao meu gosto. Noventa e quatro anos. Se as crianças aparecerem, teremos um incêndio em casa só para agradar à minha bisneta e à Dirlene, claro. 

 

Segundo dia. 

Amanhã vou ao cinema. Foi sempre o meu programa preferido. Um drama leve, pipocas, alguns doces e você como companhia. Naquela época, os doces eram outros, lembra-se? Uns homenzinhos coloridos imitando a estatueta do Oscar. Acho que era isso, o Oscar. Na época eu nem pensava na questão, no que eram aquelas figuras, apenas devorava aqueles homenzinhos nus. Hoje, certamente seriam considerados imorais e ganhariam roupas. Os tempos mudaram. Sei lá. Esse aperto no peito deve ser nostalgia, ou, quem sabe, algo da idade. Quando for ao médico, verificarei. Noventa e quatro não é para qualquer uma, mas não mesmo.  

Amanhã vou ao cinema. Hoje não. Ficarei por aqui, comendo o bolo de cenoura empapado com a calda de chocolate. Eles não vieram. Telefonaram pela câmera do celular. Vídeo-chamada. Adivinhei a finalidade do aparelho quando nossa neta me veio com a novidade. Pior para eles. O bolo está uma delícia e, não fosse a Dirlene dando uma de fiscal, eu colocaria ainda mais calda.  

 

Terceiro dia.    

A Dirlene voltou da rua com notícias estranhas. Disse que temos que nos manter em casa. Que não é para velho sair às ruas. É o que somos, duas velhas. Disse que há um surto de gripe. Que é mortal. Assustador. Não para os jovens, mas, aos velhos. Mal sabe ela que já não me assusto com nada. Jamais fui assim. Imagine à essa altura. 

Infelizmente terei que ligar o som da TV na hora do jornal, coisa chata, há mais de ano tomei essa decisão de não acompanhar o noticiário. Só há tragédia. Só falam de desgraças, você sabe.  O pior é que sabe mesmo. Sempre me falou da tal gripe que viria à galope ceifando o mundo. Como a Espanhola, você dizia. Ou será que foi o meu avô? Já não sei. Coisa chata. O cinema vai ter que ficar para amanhã. 

 

Quarto dia.

Fui ao cinema. Sozinha. A Dirlene ficou da janela gritando que eu voltasse. Chamou-me de louca, perdeu até a voz, acredita? Não importa. A rua estava tranquila, o dia ameno. No caminho, fui entrevistada por uma repórter da televisão, você acredita? Perguntou se eu não tinha medo. Medo de morrer. Eu? De morrer? Medo? Repeti tudo que ela disse. Lá sou mulher para temer? Aos noventa e quatro? Será que essa gente não vê que, para mim, cada dia é como um novo e lindo ano? De mais a mais, se houvesse a certeza de lhe encontrar ali, parado do outro lado, com aquele seu cheiro de lavanda, mergulharia agora mesmo em uma banheira com o tal vírus. Isso não seria suicídio. Seria? Que bobagens estou a dizer. Não importa. Deve ser o cansaço. 

 

Sétimo dia. 

Estou famosa! Apareci no Jornal e até nossos filhos vieram me ver. Todos. Filhos, netos, a Pequenina e a Luana, grávida, um barrigão. Apareceu usando máscara. Um susto. Gravidez não é doença, falei me aproximando. Não deixou que a beijasse. Que segurasse a Pequenina nos braços. Estão todos loucos. Nunca aparecem, e, quando o fazem, é em comitiva me dando ordens de confinamento. Não sou criança, argumentei. Por isso mesmo, disseram aos gritos.  

Quarentena é o que disseram. Imagine o que são, para mim, quarenta dias… Quantas vezes terei de repetir a eles que já estou morta e que não há nada de mórbido nisso? Cumpro minhas horas-extras com alegria e é só. Mas, não aceitaram meus argumentos. Trouxeram compras, álcool em gel e papel higiênico como se fossem preciosos presentes. Aceitei. Não sei o que farei com tanto papel higiênico. Deixarei de herança para eles mesmos, é o que acho. 

 

Décimo dia.

Dispensaram a Dirlene, imagine. O que uma velha de sessenta anos vai fazer da vida agora? Não sei. Sorte a dela que os fiz assinar a carteira e terão de pagar tudo direitinho. Perdi minha companheira de novela. E o que é que eu farei agora? Não sei. Eu só quero ver é alguém aparecer aqui para me ver. Fizeram escala, vão se revezar em turnos, foi o que disseram me entupindo, mais uma vez, de papel higiênico e sabonetes. Acho que pensam que a idade causa diarreia, porque a gripe não causa. De mais a mais, estou saudável, como sempre.  

Não sei como darei conta desse apartamento sozinha. Ser velha é mais difícil do que você possa imaginar. Sorte a sua, ter partido tão cedo. Azar o meu, ter ficado aqui. Velho não manda mais em si, sabia? Pensam que sou surda, falam aos berros; me arranjam uma cuidadora e, depois, dispensam a coitada assim, histéricos com a tal gripe. Era uma boa amiga. Disseram que vai voltar, tomara que sim, foi o que respondi com lágrimas nos olhos. Não sei o que farei. Fosse antigamente, vá lá, eu limpava tudo com as mãos nas costas e ainda cantando, você se lembra? 

 

Décimo quinto dia. 

Não vieram. Eu não falei? Virei vidente há anos. Aliás, adquiri o dom desde que me vi com nosso primeiro filho nos braços. Sei de tudo. Cada lágrima, suspiro, cada pequeno olhar, até sem os ver, meu peito aperta, sinto tudo. 

A Luana teve o bebê. Você é bisavô mais uma vez, parabéns. Não poderei ir vê-la, só sei que é menina. Fui proibida. Dizem que ela pode me contaminar, que mandarão fotos, farão chamadas por vídeo. Imagine… 

Pelo jeito desistiram do revezamento que, verdade seja dita, jamais foi cumprido. 

 

Trigésimo dia. 

A rua está deserta, vejo tudo da janela. Vez em quando, passa um com seu cachorro, outro com sacolas. Todos de máscaras. Luvas. O mundo enlouqueceu e começo a me cansar da voz do repórter, e da minha própria. 

O porteiro se ofereceu para fazer minhas compras. Um amor. Pediu-me desculpas e disse que deixaria as coisas há dois metros de mim, do lado de fora. Precisei fazer várias viagens para levar tudo da porta à cozinha. Trinta dias sem caminhar já surtiram seu efeito em meus músculos, se é que ainda posso dizer que os tenho.     

 

Quadragésimo dia. 

Agora é todo dia. Oito em ponto, todos vão à janela. Batem panelas, gritam foras ao Presidente. Não pensei que viveria para ver isso. Olha que fala de velha… Dei para isso agora. O fato é que a primeira batida soa e meu coração acelera. Confesso até que aguardo ansiosamente pelo momento. Deixo minha cadeira na varanda, preparada com um cobertor, é minha diversão de cada dia. Vejo o pôr do sol, em seguida as panelas que ecoam, fazendo voar os pássaros que, outra diversão, deram agora para voltar e cantar. Quando tudo é silêncio, ouvir cada som transforma-se em algo mais que dádiva. A natureza está retomando a posse do que sempre foi seu. Quem sabe, o maior dos vírus sejamos nós, os humanos. 

 

Septuagésimo dia.

Estou considerando a possibilidade de não assistir mais ao Jornal, a cada notícia a dor aumenta. Ando sentindo esse desconforto no peito, no externo, deve ser tensão, você não acha? Solidão. Não temo por mim, sigo na alegria de minhas horas-extras. Temo, entretanto, pelos nossos, por seu futuro, pela falta de trabalho, de comida, de leitos nos hospitais. Quando tudo terminar o mundo haverá de ser outro, diverso daquele que hoje conhecemos. Eu, felizmente, pouco saberei dele…  

Chega de drama. Não posso reclamar, tenho minha aposentadoria, e agora, os nossos deram para fazer as tais vídeo-chamadas diariamente, até mais de uma vez por dia. Acostumei-me à tecnologia e até gosto. A nova Pequenina é uma graça. Hoje, já se nasce de olhos abertos e até interagindo com a câmera, acredita? É o milagre da vida.  

 

Centésimo dia. 

Hoje, acordei como que para um sonho. A música invadiu o apartamento e corri para a janela a fim de espiar. Cantavam. Não os pássaros que já em profusão têm me consolado, mas os humanos, artistas, anjos sem asas que, cada qual de sua janela, davam sua contribuição para criar beleza em meio ao caos. É incrível como se pode encontrar beleza mesmo nas situações mais desesperadoras.

 

Ducentésimo dia. 

Enlouqueci. Fui à janela e gritei com o resto de ar que ainda tenho. Todos sumiram. Filhos, netos, bisnetos e até o porteiro. Só os vizinhos permanecem lá. Cada um em sua toca. Cantam, gritam como eu, brigam, choram, rezam, silenciam.

A internet também se calou, está sem sinal. Sorte a minha ainda possuir aquelas antigas antenas, lembra-se? Quem guarda tem e, vez por outra, capto um canal entre chuviscos que chegam a dar nostalgia dos bons tempos de macarronadas aos domingos. 

Não importa. Meus companheiros têm sido os cachorros. Eles uivam todos os dias em uníssono, parecendo cantar ou chorar. Talvez orem por nós. Dizem que são anjos, não é? Quando tudo isso terminar, vou adotar um. Um velhinho, como eu. 

 

Trecentésimo dia. 

Sinto-me culpada. Fico aqui reclamando, olhando para o nada, e esqueço-me que, lá fora, há quem não tenha comida, sabonete, água, nada. Há quem não tenha nada. Por que fui escolhida para ter de tudo? No fim das contas, as tais compras exageradas serviram para suprir todas as minhas necessidades. 

Dia desses, vi uma mãe e dois filhos na rua, tinham um pedaço de pau e colheram abacates da árvore da praça. Tive a impressão de os ver caçando duas pombas. Certamente já não têm comida em casa. Não é certo. Penso em abrir o apartamento para essas pessoas. O que você acha? Não acha nada. Você é apenas um pedaço de papel em um porta-retrato. O você de verdade, há muito deixou de me responder. Não importa, quem manda em mim, é meu coração. 

 

Trecentésimo primeiro dia. 

Eu saí! Sou uma aventureira, sempre fui. Estou viva, realizada, fiz a minha parte. Deixei um bilhete grudado ao abacateiro, na praça. Destranquei a porta da frente. Quem o ler, que venha, será recebido com banho, comida, boa companhia e um pouco de álcool em gel. O que você acha? Não importa, quem cala, consente.   

 

Trecentésimo segundo dia.

Eles vieram! Muitos. Somos uma família e aos poucos estão chegando outros, mais e mais. 

 

Trecentésimo sexagésimo quinto dia.

A rua está em festa, dividindo o pouco que têm, muitos, ainda com medo, começam a deixar doações na praça, para a imensa família que formei.  Talvez agora o vírus se vá. Creio até que já se foi. Percebeu que somos infinitamente mais fortes quando unidos, quando estendemos as mãos aos que, até então, viviam invisíveis à nossa volta. Talvez tenha cumprido seu papel de vírus, ensinando-nos a voltar a ser humanos.   

Se fiz o certo? Não importa. Estou feliz.  Hoje é meu aniversário e, pela primeira vez, fico feliz em comemorar. Tenho noventa e cinco anos, e planto aqui minha semente para um futuro no qual dificilmente estarei presente.  

Amanhã sim, estarei. 

E quando tudo isso acabar, irei ao cinema.  

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Informação

Publicado em 22 de março de 2020 por em Envelhecer, Envelhecer - Grupo 1.