EntreContos

Detox Literário.

ER 1 – A Arte de Não Se Afogar (Kelly Hatanaka)

1

Estou a uma hora de casa.

Aqui em São Paulo medimos distâncias em horas, porque quilômetros e metros não significam nada, enquanto tempo… ah, tempo é tudo.

Então, imagine, morar longe é um crime nesta cidade que nunca para, que corre demais, atropela os minutos, passa rápido pela esquerda na escada rolante e aproveita os tropeços para avançar. Quem vê as pessoas andando sempre apressadas, ombros tensos, mandíbulas travadas, falando de negócios, pensa logo que o paulistano é obcecado por trabalho e dinheiro. Ledo engano. Nós somos obcecados por tempo.

Tempo para trabalhar e ganhar dinheiro.

E o tempo, bem como o dinheiro, escorre rápido, evapora como uma gota de água no asfalto quente nestes dias infernais de verão e quando olhamos, não para trás, mas ao redor, percebemos que algumas coisas foram ficando pelo caminho.

Infelizmente, nunca é a gordura abdominal.

Enfim, não moro longe, este pecado eu não carrego. São só trinta minutos de casa até o trabalho. Mesmo assim, acabei de sair do estacionamento ao lado do escritório e o aplicativo mostra que estou a uma hora de casa. Uma mosca pousou no lugar errado e pronto: o trânsito desta cidade travou. É assim.

Isso não é de admirar, especialmente considerando-se o dia de merda que eu tive. Um dia típico, na verdade. Cheguei atrasada, queimei a língua com o café quente, pulei de susto, derramei o café na roupa e no chão, fui limpar o chão e quebrei a unha e passei a manhã toda me sentindo um zumbi para só então perceber que o café era descafeinado.

Poderia parecer que foi tudo culpa do café, mas não. Por incrível que possa parecer, ele foi somente um coadjuvante nos acontecimentos deste interminável dia.

O importante é que cheguei ao fim do expediente com a sensação do dever cumprido: sofri bastante e, com isso, galguei degraus na minha evolução espiritual, rumo à iluminação. E posso dizer que hoje eu mereci meu salário.

Dentro do meu carro, ar-condicionado no nível Polo Norte, minha playlist de clássicos piegas das décadas de 70 e 80 gritando alto que once upon a time I was falling in love,
now I’m only falling apart
, me preparo para passar a próxima hora avançando lentamente em meio a este mar de luzinhas vermelhas, quando toca o telefone. Atendo, pausando a melodia nostálgica e revelando a voz de minha irmã.

— Oi, Tê. Pode falar?

Ao fundo, ouço o som de uma frigideira chiando, água correndo, a lâmina da faca batendo na tábua repetidamente.

— Sim, Sô, posso.

— Você sabe que odeio quando você me chama de Sô.

— E você sabe que odeio quando você me chama de Tê e aqui estamos.

— Ui, que azeda. Dia difícil?

— O de sempre.

— Puxa, sinto muito.

Alguma coisa cai no chão, ouço minha irmã praguejar. Após uma breve pausa, ela volta.

— Saco. A tigela com batatas cozidas caiu no chão. Felizmente ninguém viu. Mas enfim, Te-o-do-ra, prezada irmã, o que eu queria perguntar é se você tem falado com papai.

— Conversamos no final de semana, So-fi-a, estimada parente uterina. Por quê?

— Não sei, alguma coisa está errada. Liga pra ele depois, vê se descobre alguma coisa.

Eu já sei o que acontece. Meu pai não gosta de se explicar. Era assim jovem, imagine agora então, com a teimosia da velhice se juntando à teimosia da vida toda.

Minha irmã, por outro lado, está sentindo o ninho esvaziando. Meus sobrinhos estão cada vez menos adolescentes, cada vez mais independentes. Dá para ver que estão esticando as asas, se preparando para saltar. E no coração da minha irmã, bem ao lado do orgulho e do senso do dever cumprido, está a tristeza da antecipação e a saudade do presente. Nada melhor para deixar de lado esses sentimentos do que voltar suas atenções obsessivas para papai, que, por sua vez, deve ter desviado das muitas perguntas de Sofia por motivos da mais pura preguiça.

Como de nada adianta dizer a um exagerado que ele está exagerando, respondo de forma neutra.

— Tá bom.

— “Tá bom” o cacete. Liga para ele. Eu não estou exagerando. Preciso desligar agora, o molho está desandando.

Desliga o telefone e me lança de volta para o mar de luzinhas vermelhas, onde vou avançando muito lentamente, quase de forma imperceptível.

Se eu estivesse na praia e não neste trânsito horrível, e eu estivesse relaxando e não cada vez mais tensa, seria quase como estar boiando no mar, contemplando um céu de estrelas escarlate. Ou seja, totalmente outra coisa sem nenhuma comparação com o momento atual.

Nem sei o que estou dizendo aqui comigo mesma.

I don’t know what to do and I’m always in the dark.

Falo pouco, minhas irmãs dizem que sou fechada. Chegam a me acusar de não me importar com o que se passa ao meu redor. Não desdigo. Tenho preguiça. Talvez eu tenha puxado este aspecto de meu pai, esta falta de vontade de me explicar. Porém, penso muito.

Falo pouco e penso muito. Não é uma boa combinação. As palavras não saem de minha boca e ficam rodando infinitamente em minha cabeça, como um carrossel sem fim, e é assim que as coisas adquirem sentido para mim, nessa verborragia mental formada por pensamentos repetitivos e imagens estranhas.

Compreendo meu pai. Talvez nada haja a dizer, mas minha irmã pediu ajuda. Ajudarei, até porque não é nenhum problema para mim. É sempre sentada ao lado de meu pai, escutando seu silêncio, que mais facilmente me chega o entendimento das coisas.

O telefone toca novamente. Mal atendo e ouço a voz de minha irmã mais nova.

— Odeio seu marido.

— Oi Cat. Boa tarde. Tudo bem com você? Comigo está tudo bem.

Do outro lado vem o som de um suspiro alto, de uma trava metálica batendo com força, música ambiente, um rap.

— Para que passar dois dias de inferiores, hein? Leg press. Quem inventou isso? Só pode ter sido a igreja, na época da Inquisição. A finalidade era outra, mas o aparelho é idêntico, tenho certeza. E ainda tenho que fazer o horizontal num dia e o 45 graus em outro. Pode isso?

— Então pule o treino, ué.  — Para mim, a solução é muito simples.

— Tá louca? Pular o treino de perna? E ficar com dois gambitos patéticos equilibrando a grande gostosa em que estou me transformando? Estou em pleno projeto Cavala 3.3.

— Cavala? Catarina, você tem um metro e meio. O projeto devia se chamar Meu Querido Pônei 3.3.

— Eu xingaria você, mas escolho o desprezo. Escuta, a rainha da Inglaterra te ligou?

— Acabamos de falar. Ela me pediu para conversar com papai.

— Ah é? Pois para mim, pediu para não o incomodar. Veja a audácia. Como se eu incomodasse alguém. Como se eu fosse inconveniente. Como se eu não tivesse noção. Como se eu reclamasse sem parar. Como se eu…

— Que injustiça!

Ela ri do outro lado.

— Teo, seu marido sabe que você fica por aí aconselhando as pessoas a pularem o treino que ele passou?

— Cat, você me ligou só para ganhar mais tempo de descanso entre as séries, não é? Aposto que está aí no aparelho, ocupando espaço e usando o celular, enquanto ignora a fila de espera.

Ouço ao fundo alguns risinhos e sons de concordância, pouco antes de Catarina me xingar e desligar na minha cara. Nem deu tempo de pedir uma nova receita de ácido hialurônico. O meu está no finzinho. Ter uma irmã dermatologista tem suas vantagens.

Com duas irmãs como essas, que necessidade eu tenho de falar?

Elas falam por mim.

Quem vê Sofia tão séria em seus conjuntos de linho irrepreensíveis, o cabelo impecável, levando e buscando os filhos de lá para cá e de cá para lá, cuidando da casa e organizando as festas de aniversário mais perfeitas, e quem vê Catarina voltando de rolês malucos, de viagens malucas, em seus figurinos espantosos (e malucos) e quem vê a mim, bem, sendo eu, calada e um tanto reservada, pensa que somos as irmãs mais diferentes já produzidas neste planeta.

Engano.

Por baixo dessas superfícies dissonantes, sob essas peles, roupas e estilos conflitantes, por trás desses comportamentos opostos, corre um fluido que nos conecta. Por dentro, somos trigêmeas, tão semelhantes quanto três pessoas podem ser sem se tornarem uma só.

O aplicativo chama minha atenção: “Seu tempo estimado de chegada aumentou”.

Todas as ruas do meu trajeto estão em vermelho na tela. O aplicativo recalcula minha rota, sugere que eu saia na próxima direita. Seria um caminho mais longo, mas mais rápido. Cansada de ficar boiando no mar de luzinhas vermelhas, acato a sugestão.

E me arrependo em seguida. Vire à primeira direita, a segunda esquerda, terceira saída na rotatória, em 300 metros, mantenha a direita na bifurcação, segunda saída na rotatória.

Estou completamente perdida. Every now and then I fall apart.

E há algo de profundamente inquietante em estar perdida em um lugar desconhecido. O que não é um pleonasmo, estar perdida em um lugar desconhecido, pois é perfeitamente possível estar perdida em um lugar que você bem conhece. Quem não sabe disso não sabe o que é se perder.

Eu já estive perdida perto do bairro em que nasci e lá não tive medo. As ruas que me viram crescer, aquelas em que persistem partículas de meus joelhos ralados na infância, não são ameaçadoras. Mas estas ruas em que sou estrangeira me olham feio, questionam o meu direito de estar aqui. Penso que as ruas de um bairro ou de uma cidade têm uma alma própria que reconhece os seus. Aqui, cada esquina guarda uma ameaça que eu não entendo bem e sinto vontade de voltar. Mas voltar como, se nem sei como cheguei aqui?

Olho para o mapa no aplicativo e estou apenas no começo de um longo caminho, uma sucessão de primeira direita, segunda esquerda em ruas que parecem cada vez mais estreitas e escuras. O que antes era um caminho vira um labirinto e todo labirinto guarda um monstro.

Penso em voltar, manobro o carro. O carro que vem no sentido oposto buzina e me xinga e percebo que estou na contramão. Manobro novamente e paro junto à guia. Uma sombra se aproxima andando e penso que ficar parada em um lugar ameaçador não é uma boa ideia. Saio dirigindo devagar, decidindo o que fazer.

There’s nothing I can do, a total eclipse of the heart.

Enquanto espero pelo Minotauro, minhas mãos estão rígidas e geladas, o ar entra com dificuldade nos pulmões, minha cabeça lateja e um bolo se forma na minha garganta. E se eu desmaiar aqui? E se eu nunca conseguir sair deste emaranhado de ruas? E se eu nunca chegar em casa?

O telefone toca novamente.

— Tudo bem? — Ele pergunta antes que eu possa dizer “alô”.

Do outro lado, por trás da voz familiar, ouço o silêncio reconfortante de minha casa.

— Tudo.

Marcel tem um sexto sentido para minhas crises de ansiedade. Ele diz que viu minha localização, ou que viu que algo aconteceu no caminho e que sabe dessa minha sensação de claustrofobia, que nem é claustrofobia, uma vez que estou ao ar livre, só não estou conseguindo ver uma saída, só me sinto presa, ele sabe, ele entende.

— Vi sua localização, você não está tão longe. Vai seguindo o aplicativo.

— Estou perdida, isso é um labirinto, as ruas estão cada vez mais estreitas e escuras…

— Normal. Está anoitecendo mesmo e você está se afastando da avenida.

— Queria dar meia volta e retornar à avenida. Não devia ter saído.

— Teodora, lembre-se: se estiver atravessando o inferno…

— Siga sempre em frente.

— Isso. Segue o aplicativo que vai dar tudo certo.

Sigo. Uma primeira direita, uma terceira direita, uma primeira esquerda. A voz dele, me distraindo, tirando meu foco da ideia de estar presa, de labirinto sem saída, de Minotauro.

— Aposto que a Catarina ligou para você.

— Ligou. Reclamou dos dois dias de inferiores que você passou para ela.

— Da próxima vez passo três. E mais o búlgaro, que ela odeia. E a rainha da Inglaterra também te ligou, aposto.

— Até você está chamando Sofia por esse apelido?

— É perfeito.

— Nossa, o aplicativo atualizou de novo meu tempo estimado de chegada. Mais trinta minutos! Me fala que você está adiantando o jantar. Caramba, que fome!

Sentir fome é bom sinal. Sinal de que estou retornando ao meu corpo. Estou respirando, volto a sentir minhas mãos e pés.

— Não posso mentir para você, meu amor.

Ouço um barulho familiar ao fundo. Algo metálico raspando. As portas do elevador.

— Você está descendo para a portaria. Pediu pizza?

Ele sim, é perfeito.

— Pedi. Agora, presta atenção no caminho, segue o aplicativo e, ao fim, terá uma pizza à sua espera.

Together we can take it to the end of the line.

Nós nos conhecemos numa festa da faculdade. Só sabemos disso. Estávamos os dois bêbados demais para lembrar de qualquer detalhe. E olha que tentamos reconstituir os eventos daquela noite no dia seguinte, enquanto lutávamos contra a ressaca e tentávamos achar nossas roupas naquele quarto desconhecido para ambos. Foi um grande fracasso: não conseguimos lembrar de quase nada, perdemos feio para a ressaca e não encontramos a camiseta dele nem minha calcinha.

Saímos daquele lugar de fininho e cheios de vergonha, com planos de não nos vermos nunca mais. Porém, ele estava usando meu kimono favorito. O mínimo que eu poderia fazer após tudo o que houve entre nós, e de que não lembro, mas tenho certeza de que foi muita coisa, haja vista o estado em que acordamos, era emprestar-lhe meu kimono, ou ele seria barrado no ônibus no meio de uma ressaca feroz. Então, trocamos telefones, para que ele pudesse devolvê-lo.

Aproveitamos e nos apresentamos.

Lembro de ter olhado enquanto ele se afastava e ter pensado, diante da visão daquele rapaz usando um jeans muito surrado e kimono de flores de cerejeira em fundo preto que eu jamais o veria de novo.

Claro que, naquele momento, eu pensava no kimono.

Felizmente, estava enganada. Alguns dias depois, ele me ligou e combinamos de nos encontrar. E, num café pequeno, saboreando pães de queijo requentados e um cafezinho superfaturado, ele me devolveu o kimono, lavado, passado, dobrado e cheiroso. Eu me apaixonei.

Turn around bright eyes.

Sempre brincamos que um dia teríamos que combinar uma história menos vexatória para contar aos nossos filhos. Combinamos algo no estilo papai conheceu mamãe numa ação humanitária para construir casas na Guatemala, pouco depois de mamãe sair do convento e papai do colégio de padres. O primeiro beijo? Ah, foi depois de três meses de namoro, quando papai pediu a mão de mamãe ao vovô.

Essa história foi sendo incrementada com o passar dos anos, ganhando elementos cada vez mais épicos e românticos, envolvendo subtramas complicadas, uma gêmea maligna, duelos de espadas, realmente, nós não lidamos bem com limites.

Pena que essa história nunca foi usada.

 

 

2

Duas horas depois de sair do escritório, desconfiando de que teria chegado mais rápido se tivesse vindo a pé, chego em meu prédio. Como uma recompensa cármica por todos os perrengues nesse dia de merda, a garagem está quase vazia e minha vaga favorita, inteiramente à minha disposição. Sinto uma felicidade tão genuína que preciso me esforçar para não sucumbir ao impulso de estacionar na diagonal, ocupar três vagas sozinha e sair dançando.

Saio do carro, estico as pernas, tento relaxar a lombar. E ouço aquela voz áspera, vinda das profundezas do inferno.

— Está se preparando para fazer mais barulho e me impedir de dormir de novo?

Claro que meu carma não podia ser tão positivo assim. Eu teria que ter milhares de dias de merda para acumular o merecimento de me ver livre dessa jararaca da dona Matilde, ou, como eu a chamo, a Bruxa do 71.

É daquelas coincidências do universo. Ela é uma bruxa, no sentido figurado, claro, não tenho nada contra a religião Wicca, aliás, me identifico muito, mas ela é bem o estereótipo da bruxa pré-harry-potter, daquelas bruxas raiz, de conto de fadas. É bruxa no sentido de surucucu mesmo. De quebra, mora no 71. E ainda se chama Matilde, que rima com Clotilde, a eterna vizinha do seu Madruga.

Respiro fundo, vou manter a educação.

— Boa noite, dona Matilde. Encontrou vaga para sua vassoura?

Menti, não vou não.

Dona Matilde se empertiga, estufa o peito, a imagem da indignação justa.

— Costumava só ter gente de nível neste condomínio.

— É mesmo? Antes da senhora se mudar para cá, né?

Ela, é claro, me acompanha até o hall dos elevadores.

— Pois, no meu tempo, as pessoas tinham educação.

— De fato, muita coisa mudou desde a época de Matusalém.

Seguimos conversando, trocando amenidades.

— Eu sei que não adianta falar…

— E vai falar mesmo assim?

— … mas eu não aguento mais o barulho do seu apartamento.

— Dona Matilde, a senhora mora do meu lado. Quem poderia reclamar é a dona Araci, que mora no andar de baixo e, veja só, dona Araci não reclama de nada, diz que somos silenciosos, os melhores vizinhos de cima que ela já teve.

— A Araci é surda feito uma porta.

— Somos só eu e meu marido em casa, nem crianças temos, que barulho é esse que tanto a perturba?

— É o que quero saber. Eu não consigo dormir com a barulheira.

— A senhora já parou para pensar que pode ser a sua consciência pesada que a impede de dormir?

O elevador chega. Entramos e, quando ela ia responder, é interrompida pela entrada de dona Araci. Surda ou não, manter o silêncio no elevador é praxe, afinal, o resto do prédio não precisa saber do que se passa no nosso andar. Nós, do sétimo, lavamos a roupa suja em casa. Só depois de descermos, ela prossegue.

— Minha consciência está tranquila. Pelo menos eu não misturo o lixo orgânico com o reciclável. Como uns e outros.

— Agora a senhora virou fiscal de lixo também.

— Eu tenho senso comunitário.

— E eu tenho mais o que fazer.

— Malcriada.

Ela entra no 71 e fecha a porta atrás de si.

Mostro a língua.

Malcriada, pois sim.

 

 

3

Depois de muito esforço, consegui encaixar uma rotina de treinos nos meus dias. O fato de Marcel ser personal trainer ajuda muito, claro. É ele quem monta minha planilha de treinos, embora jamais possa me acompanhar. Afinal, só consigo ir à academia em seu horário mais requisitado.

Eu acho ótimo. Para mim, treinar é um ato solitário. Enfio meus fones no ouvido e interajo minimamente com os demais seres humanos.

Cheguei cedo hoje, ainda está meio escuro e a academia está totalmente vazia, o que é bem incomum. Pego minha planilha, que diz que hoje é dia de costas e bíceps. Odeio. Mas também, de qual treino eu gosto? Vou pegar os halteres, contrariada e, neste curto caminho, meu ódio embola no estômago e vai virando uma revolta muda, uma indignação inexplicável. Não quero fazer remadas, nem roscas. Só de pensar nisso, quero socar algo. Alguém.

Talvez seja a perspectiva do que me espera no trabalho hoje.

As coisas andam caóticas por lá. Só ontem recebi três avisos de licença maternidade. Desde o início do mês foram mais duas. E no mês passado haviam sido três. A empresa é pequena, trabalhamos com equipes enxutas, o que significa que precisamos de oito pessoas para cobrir as que estarão fora nos próximos meses.

Enquanto as solicitações estavam partindo de departamentos diversos, estava tudo sob controle, ao menos para mim. O problema do meu departamento é encontrar pessoal temporário e lidar com as queixas dos demais líderes, de que teriam que treinar os temporários em caráter urgente e, bem… temporário. Né?

Sem falar na queixa não dita em voz alta, mas que pode ser claramente lida nas expressões gerais. Essa é a pior, e penso que talvez seja ela a principal fonte de minha irritação hoje. “Isso que dá contratar tanta mulher”. Eles pensam isso. Não falam porque não são nem bestas. Mas as palavras estão na ponta da língua, prontas para cometer sincericídio. Sinto também a acusação muda. “Um homem na gerência do RH não teria caído na besteira de contratar tanta mulher”.

Talvez minha batata esteja assando.

Diante disso, o que eu faço? O que toda mulher faz: reconhece que está quase sempre pisando em território hostil, ignora e segue em frente. Porque se for parar para pensar, porque se minhas preces forem ouvidas e Deus me der força, ah, ele não faria isso, famoso que é por não dar asa a cobra.

Então eu ignoro, visto minha melhor máscara de gueixa, totalmente desprovida de emoções, e saio em busca de recursos. E tudo bem, porque buscar pessoas é a parte boa do meu trabalho e porque, quanto às reclamações, só posso mesmo emprestar meu ouvido, minha cara de sonsa e uma quantidade limitada de empatia, afinal, estou feliz pelas futuras mamães. Sim, estou feliz.

Até que chegaram, juntas, exatamente ao mesmo tempo, as três solicitações de ontem. As três do meu departamento. Agora, preciso encontrar substitutas para três excelentes funcionárias, que são 90% do meu departamento, a tempo de serem treinadas e nem tenho com quem reclamar.

Um rapaz entra na academia. Trocamos um bom dia e nos ignoramos mutuamente.

Sem falar no medo de que elas, todas ou algumas, decidam não voltar ao trabalho. E se elas resolverem ficar em casa, cuidando de seus bebês? Eu ficaria feliz por elas, claro. Desejaria o melhor a cada uma delas, que durante anos cumpriram suas atividades com competência e dedicação. E ficaria feliz. Sim, ficaria.

Agora, preciso reconhecer que estou meio magoada com as três.  Maria, Marina e Mariana. Nós quase sempre almoçamos juntas. Evitamos falar de trabalho no almoço, conversamos amenidades, falamos sobre filmes, séries, música. Nos últimos meses, notei que elas estavam mais cheinhas, mas, obviamente, não disse nada. E, então, depois de guardar segredo por seis meses, elas jogaram a bomba na minha cabeça. Três bombas. Fiquei feliz por elas, fiquei sim.

Porém, elas esperaram o fim do segundo trimestre para me avisar.

Penso no porquê de elas guardarem segredo de mim por tanto tempo. Elas vieram até minha mesa juntas, se sentaram e Maria disse as notícias. Depois, ficaram um tanto tensas esperando por minha reação. Mariana olhava para o chão, como se conferisse o piso falso. Marina parecia prender a respiração. Por que tanta tensão? O que acharam que eu fosse fazer?

Olhando em retrospecto, minha reação foi um tanto fria. Não lembro muito bem, ainda estava um tanto surpresa e, não vou negar, chocada, e acho que não as abracei. Eu dei a cada uma delas um aperto de mão, gesto estranho e desconfortável. Em seguida, fui ao banheiro. E não almocei com elas. O dia estava corrido.

O que há de errado comigo?

Para falar a verdade, não é algo assim tão estranho que alguém espere alguns meses para anunciar a gravidez. E se alguém deveria entender o porquê, esse alguém sou eu.

É que está tudo muito difícil. O mercado está ruim para contratações, ainda mais temporárias. Isso é um bom sinal, sinal de que a economia está bem. Mas e eu?

E eu?!

Que pergunta besta e sem sentido. E egoísta. Eu, eu, eu! Dane-se. Não tenho nada a ver com isso, com toda essa história de maternidade. Que sentido haveria em imaginar o que eu faria caso tivesse um filho?

Faria nada, é isso.

Minha vida continuaria igual, girando ao redor dos mesmos eixos. Voltaria da licença maternidade, meu filho ficaria com a babá ou em um bom berçário, eu passaria o dia inteiro trabalhando e me remoendo de culpa, compensaria essa culpa sendo permissiva com relação a doces e ao tempo de tela e depois viraria tema das sessões de terapia dele, quando fosse adulto.

Normal.

O rapaz deixa cair o halter no chão. Eu me assusto.

Ou, talvez, quem sabe, eu parasse de trabalhar por alguns anos e fosse mãe em tempo integral? Marcel aprovaria, tenho certeza. Nunca conversamos sobre isso. Mas, tenho certeza de que ele concordaria com a ideia, ou, mais precisamente, que ele concordaria com o que parecesse melhor para mim. Eu, então, passaria dias trocando fraldas, preparando papinhas, brincando com o bebê, cuidando da casa. Um cenário tão absurdo! Impossível de imaginar e de decidir se isso seria o paraíso ou o inferno, pois teria um pouco de cada.

Não fui feita para isso.

E, se eu parasse de trabalhar por alguns anos, como voltaria para o mercado de trabalho? O que eu colocaria no currículo nestes anos de vazio profissional? Este é o tipo de dúvida que eu, gerente de RH não deveria ter. Mas que, na verdade, tenho justamente por ser gerente de RH.

Se eu estivesse falando para outra pessoa, diria que isso não é um problema. Coloque no currículo que você estava vivenciando a maternidade em tempo integral, as empresas compreendem e, inclusive, veem com bons olhos, todos sabem que a maternidade desenvolve fortemente um importante grupo de soft skills, blábláblá.

Mas não estou falando para outra pessoa e sei quando estou mentindo. Na prática, é tudo menos bonito e muito diferente. Você teria ficado fora do mercado por uns sete anos, talvez mais. Até lá a tecnologia, as relações e o mercado teriam mudado tanto que as IAs já estariam no comando.

Boa sorte tomando de volta seu lugar nesse novo mundo, sendo que neste mundo velho aqui a vida já não é nenhum morango.

O fato é que nunca pensei muito sobre isso, se eu pararia de trabalhar, se continuaria. Nesse sentido, meu conselho sobre o assunto é tão inútil quanto o de um homem.

O rapaz deixa cair o halter novamente. Por que não pega um peso que aguente? Julgo mesmo, esses treinos com ênfase no ego. Irritante. Tudo me irrita.

Se eu parasse de trabalhar, pararia pensando em não voltar para minha área. Já me protegeria da desilusão. Estudaria alguma outra coisa, talvez empreendesse.

Empreendesse. Que piada. Logo eu?

E como ficariam nossas finanças? Marcel não se oporia, se eu quisesse parar de trabalhar. Acho. Não, tenho certeza. Ele não se oporia. Mas teríamos que dar uma boa apertada nos gastos e, por apertada, quero dizer, parar de gastar com qualquer coisa supérflua, como passeios, viagens, jantares, lazer.

Será que nosso casamento sobreviveria? Talvez as coisas sejam mais frágeis do que parecem.

O mais provável é que eu continuasse a trabalhar, do mesmo jeito que trabalho hoje. O fato é que essa é uma decisão pessoal, mas as variáveis a serem consideradas são tudo, menos pessoais. Ainda bem que não preciso me preocupar com isso. Ainda bem. É um alívio. Sim, é.

Pode ser que eu tenha pensado um pouco sobre este assunto, em algum momento. É o que parece.

Agora, oito gestantes em dois meses! É alguma coisa na água da empresa? E por que não funciona com todo mundo?

Uma pergunta sem resposta.

Percebo agora que a irritação e a raiva, aquela vontade de socar algo ou alguém, acabou me levando até a esteira. O treino que Marcel me passou era de costas e bíceps. Era. Pulei sem remorso. Já estou alternando corrida e caminhada em um treino intervalado há vinte minutos, minha panturrilha dói, meu quadríceps queima, mas não sinto mais vontade de perder meu réu primário e percebo as endorfininhas cintilando pela minha corrente sanguínea e levando embora parte da irritação.

Sem falar na satisfação de fazer algo só porque sim.

4

Chego do trabalho e descubro que o elevador está em manutenção. É a terceira vez esta semana. O síndico avisou no grupo do condomínio que a empresa de elevadores trocou uma peça danificada, daí a peça trocada também deu defeito, e agora devem estar trocando mais uma vez. Resignada, vou pelas escadas.

Depois do treino da manhã, uma hora de esteira intercalando corrida e caminhada, movida pela força do ódio, minhas pernas ainda estão bambas. E a raiva passou, devo dizer. Vou subindo lentamente.

Na altura do terceiro andar, encontro a Bruxa do 71, agarrada aos corrimãos e avançando degrau a degrau, com longas pausas entre um e o próximo.

Ela olha para trás e me vê.

— Sabia. Até para subir as escadas você faz barulho. Dá para bufar mais baixo?

— E a senhora, não poderia manter a esquerda livre?

— Aqui não é a escada rolante do metrô. Tenho o direito de ocupar a escada inteira e vou ocupar.

— Oi, boa noite, dona Teodora. Boa noite, dona Matilde.

Atrás de mim estão agora o seu Luis do oitavo andar, Lucas, filho da Lucinda, do decimo, e dona Marta, que se mudou há pouco para o quarto andar.

— Boa noite, seu Luis. Olha, não sou eu que estou atravancando a escada, viu. É a dona Matilde aqui que se recusa a dar passagem.

— Eu quero me segurar com as duas mãos nos corrimãos. Do jeito que foi ensinado na palestra de segurança, a qual você, como sempre, faltou.

— Mas a senhora poderia parar, encostar, deixar as pessoas passarem, e depois voltar a subir.

— Imagina, dona Teodora, não há necessidade, ninguém aqui tem pressa.

— Obrigada, seu Luis. Ah, como é bom ter vizinhos educados.

E então, seguimos, numa fila crescente, com a chegada de mais vizinhos, subindo muito lentamente, atrás da Bruxa.

— É quem lá na frente, hein?

— É o seu Luis.

— Não, é não, tô vendo daqui. É a dona Teodora.

— Ô, dona Teodora, poderia dar uma licencinha, faz favor? Estou carregando um monte de sacolas…

— Não sou eu! É a dona Clotilde, digo, dona Matilde.

— Dona Clotilde? Quem é dona Clotilde?

— Não é dona Clotilde. É a dona Matilde, ela disse.

— Sei, a dona Matilde mora no 71.

—Tá, mas quem é a dona Clotilde?

— Não é a Bruxa do 71, do Chaves?

— Puxa, Chaves! Adoro! Ainda tá passando?

— É, dona Clotilde, só conheço essa mesma, a que gostava do seu Madruga.

— Acho que tá passando sim.

— Mas ela mora no 71?

— Nada, desde que o Silvio Santos morreu, acabou…

— Mora.

— Mora aqui? Mas a atriz já não morreu?

— Não, quem mora aqui é dona Matilde.

— Mas, peraí, é dona Matilde ou Clotilde?

— A dona Matilde era atriz?

— A dona Matilde, do 71 é quem está na frente.

— Ah, dona Matilde, daria…

— Não daria, não. Sou idosa e quero me segurar bem.

— Tá certa, a senhora tem toda razão.

— Desculpa aí, dona Matilde.

Aposto que essa sádica está se divertindo enquanto segura todos os vizinhos na escada. Já eu preciso confessar que estou grata. Minhas pernas tremem e é bom subir assim, nesse ritmo mais lento. Tanto que não insisto em minha indignação e não chamo atenção para o fato ridículo de estar metade do prédio em fila indiana na escada. Mas não posso deixar que ela pense que venceu.

— Daqui a pouco já vai ser hora de descer de novo.

— Então desce, malcriada.

—  Não dá. O prédio inteiro está preso na escada atrás da senhora.

A Bruxa parece subir cada vez mais devagar, chega a dar uma paradinha para recuperar fôlego no quarto andar, ainda se segurando nos dois corrimãos enquanto respira, dona Marta fica em seu andar, aliviada, os murmúrios crescem atrás de mim, todos querem saber quem está na frente. Por fim, ela retoma a subida ainda mais devagar, enquanto a fila atrás de nós só faz aumentar.

Por fim, chegamos ao sétimo, posso sentir o alívio da fila na escada que, por fim, avança, ainda discutindo se dona Matilde havia trabalhado em Chaves, se o nome do personagem era Matilde ou Clotilde, se a dona Clotilde morava do lado do seu Madruga ou no 71 do nosso prédio, se Chaves ainda estava passando na TV e se alguém tinha os DVDs de Chaves para emprestar.

Enquanto isso, dona Matilde segue com andar claudicante até seu apartamento, abre a porta, me dá uma banana e entra.

 

 

5

Este é o nosso restaurante preferido para conversar. Foi Sofia quem descobriu esta pérola no Campo Belo. O serviço é péssimo e a comida é mediana, então o lugar está sempre vazio. E a carta de vinhos é ótima. O que importa é que nunca tem fila e podemos conversar tranquilamente por horas, sem ser incomodadas. Os garçons nem notam a nossa presença.

Chegamos praticamente juntas, brincamos com a ideia de nos sentarmos cada uma em uma mesa e, por fim, escolhemos a mesma de sempre, a um canto, encostada na janela.

— Não gosto de cantinhos. Os garçons sempre esquecem dos cantinhos. — Sofia é uma pessoa prática, nunca prefere algo por preferir. Há sempre uma razão.

— Mas aqui não tem problema. Os garçons esquecem de todos igualmente. — Catarina acenou para o garçom, que nem a viu.

— Amo este lugar.

Olhamos o cardápio por hábito, já sabemos o que vamos pedir. Filé grelhado e salada. É o melhor. Em todos os anos que frequentamos este lugar, descobrimos que este é o prato mais seguro. Nem mesmo Sofia, tão desastrada, nem Catarina, incapaz de cozinhar um ovo, conseguiriam estragar algo tão simples. E uma garrafa do cabernet sauvignon de rotulo lilás com nome engraçadinho.

— Como vão as coisas? — Começo perguntando a Sofia. — Simão está bem? Os meninos?

— Tudo bem. Foram para o clube. E o Marcel? Não tinham planos para hoje?

— Ele está bem. Hoje ele vai passar o dia fora. É o dia do Mister M.

— Ah. — Sofia já conhecia esta história.

— Quem é esse? — Cat ainda não.

— O cliente misterioso, um sujeito excêntrico e riquíssimo que não sai de casa. Duas vezes no mês, Marcel vai treiná-lo e passa o dia todo lá.

— Na casa dele?

— O cara tem uma academia enorme, completa, só para ele.

— Nada mal.

Sofia resolveu cortar direto para o assunto.

— Alguém falou com papai esses dias?

— Você quer saber se Teodora conversou com ele, né? Porque pra mim, Catarina, você pediu pra não o incomodar.

Sofia respira fundo.

— Quero saber se vocês duas falaram com ele.

— Então tá. Eu falei. ­

— Pô, Cat, eu pedi pra você não o incomodar!

— Só liguei pra falar mal de você.

Sofia suspira, resignada.

— E você, Teo?

— Liguei, como sempre. Não notei nada de estranho. Ele estava com um pouco de pressa, disse que tinha um compromisso.

— Isso quando? — Sofia perguntou, alarmada.

— Quarta à noite.

— E o que ele teria a fazer numa quarta à noite?

— Pô, Sofi, sei lá. Passear, encontrar amigos, ir ao cinema. Coisas que as pessoas fazem numa quarta à noite.

— Ah, não sei. Alguma coisa está errada.

Os pratos chegam, em tempo recorde. Demoraram menos de uma hora.

— Meu filé veio com ovo por cima. — Sofia nunca gostou muito de ovo.

— Dá pra mim, preciso mesmo bater a meta de proteína. — Cat troca de prato com Sofia. Pelo jeito, esse negócio de Projeto Cavala 3.3 é mesmo sério.

— Aqui, a gente sempre sabe o que vai pedir, mas nunca sabe o que vai receber. É emocionante.  Amo este lugar. — Não me canso de dizer.

Apesar dos erros, a comida é bem feita, nunca decepciona. Talvez a demora dos pratos seja parte fundamental desta impressão, já que aumenta a fome. Se bem que, a fome também piora o humor. Enfim, retomo o assunto, pois essa insistência de Sofia está me deixando intrigada.

— Sofia, vamos lá. O que está pegando? Por que essa preocupação toda com papai? Ele me pareceu normal.

— Sim. Mas, se não estivesse normal, ele nos contaria? Olha, acontece que há duas semanas eu fui buscar o Zion numa lanchonete e vi papai saindo de uma casa. Fiquei curiosa e fui lá ver o que era.

— Xereta.

— Intrometida.

— Fui mesmo. E era um consultório médico. Oncologista.

— Ele pode ter ido acompanhar alguém. — Cat mastigava, despreocupada.

— Ele saiu sozinho, ô, tônha.

— Tônha é você.

Sofia ignora Cat e prossegue.

— Daí, mais tarde fui ver papai e perguntei, casualmente, o que ele tinha feito no dia tal e ele mentiu na minha cara. Disse que tinha ficado em casa o dia inteirinho.

— Ele não quis ficar dando satisfação. Ele odeia se explicar, você sabe disso. — Às vezes, parece que só eu entendo papai.

— Mas, Teo, ele chegou a dizer que ficou assistindo filmes. Disse que assistiu Os Amantes do Círculo Polar, Lanternas Vermelhas e Dersu Uzala.

— E daí? Papai sempre gostou desses filmes esquisitões. — Nem preciso dizer que Cat só assiste filmes blockbuster.

— Daí que você já viu papai dar tanto detalhe? Eu vivo preocupada com ele, sempre pergunto o que ele fez, por onde andou, quem encontrou. E as respostas dele são sempre “sei lá”, “por aí” e “uns amigos”.

Sofia tem razão. Papai não gosta de se explicar e não se explica mesmo.

— Desta vez, contou que ficou em casa, não saiu para nada, pediu uma quentinha para o almoço, que quem foi entregar foi um rapaz diferente do de sempre, que depois de lavar a louça ele sentou no sofá e assistiu os filmes na sequência porque ele acha que faz sentido e que depois esquentou o resto da quentinha para o jantar e que não saiu em nenhum momento e comeu sozinho e foi dormir.

— Nossa, quanta informação. — Estranhei.

— Não é? Tenho ou não tenho razão de estar com uma pulga atrás da orelha?

Pouso os talheres no prato e digo o que me parece óbvio.

— Ele pode ter ido fazer exames.

Sofia, faz uma pausa, busca palavras. Por fim, repete.

— E é isso que me preocupa.

Cat observa Sofia de canto de olho.

— Mas isso não quer dizer nada. Ele pode ter ficado cismado com algum sintoma genérico, fez exames, deu negativo e não quer cometar nada pra gente não ficar pegando no pé dele, querendo controlar o colesterol, a glicemia e o sal.

— Será? Tomara.

— Aliás, você foi buscar Zion onde mesmo? — Pergunto.

— Como assim?

— Em qual lanchonete ele estava?

— No Hamburgão.

— Na Vila Mariana? Perto do metrô?

— Sim.

— E um rapaz de dezessete anos não consegue voltar sozinho, ainda mais morando a quatro quarteirões de uma estação? — Catarina se esforça para não rir.

— Ele não gostou muito de eu ir busca-lo, mas…

Eu ia voltar a comer, mas paro com o garfo a meio caminho da boca.

— O quê? Você foi buscar o menino sem que ele pedisse?

— Sofia do céu, que mico…

— Já estava por lá, na manicure, não custava nada.

Eu e Catarina nos entreolhamos, segurando o riso. Catarina não se aguenta.

— Que manicure? Você sempre vai no salão perto de sua casa.

— Ah, me deixem! Chamei vocês aqui para falar de papai. Não para vocês julgarem minhas decisões de mãe.

— Não estamos julgando… ­

— Fale por você, Teo. Eu estou julgando sim. Lembra quando Naomi era bebê? Você vivia no pronto socorro com ela. E pelos motivos mais bestas. Nariz escorrendo, febre, vermelhidão na bochecha.

— E eu sou uma idiota. É isso?

Neurótica, talvez. Encanada, com certeza. Idiota? De jeito nenhum.

— Não, Sofia. É só que você gosta de se preocupar.

— Eu gosto de me preocupar? Ah, essa é boa. É ótima, aliás. Eu gosto de me preocupar. Então vamos fazer assim? Eu vou parar de me preocupar com vocês. Vou abrir mão desse gosto. Que tal?

— Você se preocupa conosco? — Fico surpresa, de verdade.

— Claro, eu gosto de me preocupar, não é? Não foi isso que você disse? Como se fosse uma escolha. Eu levei sim a Naomi ao pronto socorro por mil motivos bestas. E graças a Deus não era nada. Mas, e se fosse? Quanto antes soubesse seria melhor. E prefiro levar e buscar Zion para toda parte porque é mais seguro assim. Ninguém sabe o que pode acontecer, só tem doido na rua hoje em dia. Já me basta ele ficar de cara fechada porque, segundo diz, atrapalhei o passeio.

Catarina ri.

— Mas atrapalhou mesmo, né, mana. Eles podiam estar combinando de ir para algum outro lugar depois dali. Ou ele podia estar pensando em chamar alguma garota para o cinema. Mas em lugar disso, pegou carona com a mamãe.

— Ele me diria se tivesse planos para depois.

— Claro. Adolescentes são famosos pelo hábito de contar tudinho para a mãe. — Catarina segue, implacável.

— Vocês não entendem. Quando forem mães, vão me dar razão.

Cat pesca uma azeitona da salada.

— Ih, nem vem. Estou ótima assim.

— Cat, você tem 32 anos. O relógio biológico não tocou, não? — Sofia está incrédula.

— Não. E se tocar, taco na parede.

— Não pensa em ser mãe?

Ela responde rápido, segura, sem a mínima hesitação. Um assunto resolvido.

— Não.

A firmeza da resposta parece exasperar ainda mais Sofia. E me surpreende.

— Mas, e se você mudar de ideia e for tarde demais para engravidar? Não tem medo de se arrepender?

— Que besteira. E se eu tiver um bebê e mudar de ideia sobre ser mãe? Isso sim é assustador. Não tem para onde devolver, não tem como desfazer, não dá pra virar para uma criança e dizer, olha, sinto muito, não é você, sou eu.

As palavras de minha irmã me alcançam de forma estranha. É como pisar em um exoplaneta.

— O risco de arrependimentos está em tudo. Nós passamos a vida fazendo escolhas e o fato é que jamais saberemos como teria sido se tivéssemos tomado outros caminhos.

A mesa fica silenciosa por um tempo. Minhas irmãs observam enquanto torno a encher minha taça e sinalizo para o garçom trazer mais uma garrafa. O garçom não me vê. Está concentrado em seu celular. Percebo os olhares de minhas irmãs sobre mim.

— O que foi?

— O Marcel nunca mudou de ideia?

— Que ideia?

— Sobre ter filhos. Ele nunca quis mesmo?

Minha boca está aberta. Nunca pensei essa tivesse sido a conclusão delas. Eu nunca disse nada e elas nunca perguntaram nada e pensei que tudo tivesse sido magicamente compreendido. Sofia continua, parece meio surpresa com minha reação.

— Quando vocês se casaram, ele sempre dizia que era muito cedo. E era mesmo, vocês tinham acabado de sair da faculdade. Mas, o tempo foi passando e vocês nunca mais tocaram no assunto…

— E vocês concluíram que Marcel não queria filhos? — Eu não sabia o que pensar.

Sofia, com quem partilhei a infância inteira, se lembra de tudo.

— Ora, você sempre quis. Desde pequenininha, falava que ia ter cinco filhos. Depois mudou para seis: três meninos e três meninas.

Catarina também tem suas lembranças.

— Depois, quando se desiludiu com o amor, qual era o nome mesmo daquele bocó com quem você namorou aos dezesseis? Bom, quando você teve aquele livramento, decidiu que nunca mais se apaixonaria.

— Sim! E ainda que estivesse sofrendo pelo Jurandir mirim, prometendo nunca mais amar homem nenhum, resolveu tudo dizendo que faria produções independentes. Seis produções independentes.

— Então, é claro que Marcel é quem não quer. Não é?

Silêncio.

— Não é?

Minhas irmãs estão totalmente estupefatas. Olham de uma para outra e depois para mim, como se me vissem pela primeira vez. Suas expressões vão da confusão para a incompreensão, para a descoberta e a pena e, de repente, é demais para mim.

Estouro em uma gargalhada que consegue a façanha de chamar a atenção do garçom.

 

 

6

A noite tem um cheiro próprio, um cheiro fresco, parecido com o de chuva.

Perdemos a sessão de teatro, presos num trânsito fora do normal para um sábado, embora em São Paulo, sábado seja quase um dia útil e todo dia é dia de trânsito. De segunda a sexta, pessoas em seus carros cruzam a cidade para ir e voltar do trabalho, da escola, dos muitos compromissos. Nos finais de semana, as mesmas pessoas em seus carros voltam a cruzar a cidade para curtir seu abençoado descanso e ir ao clube, ao parque ou à praia do paulistano: o shopping.

Eu me pergunto: que descanso é esse? Descanso evoca, para mim, a imagem de um sofá velho, já meio puído e muito aconchegante e meus pés para o alto, metidas em meias velhas e largas.

Mas, cada um com suas escolhas, não é mesmo?

— Pena que perdemos a hora. Você queria tanto assistir esta peça.

Olho para Marcel, andando a meu lado, mãos nos bolsos, apertando meu braço enroscado no dele. Ele está aqui e, ao mesmo tempo, não está. Suas palavras são sinceras e, ao mesmo tempo, soam protocolares. Não sei o que está acontecendo conosco.

— Podemos assistir outro dia. — Tenho certeza de que não assistiremos, mas respondo no automático, também protocolar.

— Hoje era a última sessão.

É estranho que seja ele a lembrar deste detalhe. Sou sempre eu que olho este tipo de coisa. Acho que estamos mudando.

— Neste caso, vou te culpar por termos perdido a hora.

— Me culpar?

— Claro. A culpa é minha, ponho em quem eu quiser.

Ele ri. Parece mais próximo agora. Realmente, a culpa é minha. Troquei de roupa quando vi que minha primeira escolha estava manchada. Depois, minha segunda escolha estava amarrotada, fui passa-la e descobri que o ferro estava queimado. Troquei de roupa novamente e, por fim, esqueci meus óculos e precisei voltar para o apartamento para busca-los.

Marcel fez o que pode. Largou o carro no que parecia ser uma vaga milagrosa ou bem poderia ter sido o meio da rua. Saberemos quando voltarmos ao local e tiver um cavalete do CET com as instruções para recuperar o veículo. Saímos correndo pela Paulista, cogitamos pegar o metrô, desistimos, fomos correndo mesmo até o teatro, só para dar com a cara na porta.

Estamos agora caminhando muito lentamente em direção ao ponto em que abandonamos o carro, sem pressa para descobrir se ele está lá. A lentidão é uma mistura da necessidade de recuperar o fôlego com um estranho relaxamento.

— Olha, não era aqui que ficava aquele restaurante em que a gente almoçava?

Teve um tempo em que trabalhávamos nas imediações. Ele, dando aulas em uma academia, eu, trabalhando em um banco.

Avenida Paulista. Talvez haja, na cidade, avenidas mais bonitas. Mas todas são vias que fazem sentido por sua utilidade: ligar o ponto A ao ponto B. Suportar muitos carros e ônibus em suas superfícies e metrôs em suas entranhas. A Paulista, além disso tudo, existe por si mesma. Ela é mais que um trajeto. É um percurso. O percurso importa.

Caminhando por ela, sinto que a vida está acontecendo, percebo histórias se desenrolando ao meu redor, nas palavras dos vendedores ambulantes, nas conversas que escapam e entram em meus ouvidos, nas pessoas consultando seus celulares. Todos figurantes na minha história. Ou talvez, uma ideia mais reconfortante para mim, é que seja eu a figurante da vida daquele rapaz que acabou de entrar correndo no ônibus.

— Qual era o nome mesmo? — Tento buscar na memória, enquanto vejo o rapaz se acomodando no ônibus.

— Do quê?

— Do restaurante. — O rapaz se senta, o ônibus parte, minha figuração acabou.

— Michelangelo, não era?

— Era parecido.

— Era Michelangelo, sim.

— Da Vinci?

— Começava com M, certeza.

Pensamos um pouco. E a lembrança nos atinge ao mesmo tempo.

— Monalisa!

Rimos.

— Será que ainda existe?

O restaurante ficava na parte de trás de um prédio comercial, uma área aberta, meio escondidinha, uma espécie de galeria externa. Agora, uma corrente de plástico fecha a área, dizendo ao público “não entre”. Ignoramos, pulamos a corrente e vamos até nosso ex-restaurante. Que tinha virado nada. Estava fechado, com uma placa tristonha de “aluga-se”.

Pulamos a corrente de plástico, de volta à calçada e à legalidade.

— Que pena. Eu gostava tanto da panqueca deles. — Marcel olha para o prédio, nostálgico.

— Não. Daqui você gostava do supremo de frango. A panqueca era das tiazinhas.

— Tiazinhas?

— É! Aquele restaurante no primeiro andar de um prédio do lado do Conjunto Nacional. Que tinha aquelas três tiazinhas: a sorridente, a brava e a avoada. A especialidade delas era panqueca.

— Tem certeza? — Ele pergunta, mas sua expressão é de quem começa a lembrar.

— A gente escolhia duas panquecas entre as opções do dia, e vinham com arroz, feijão, salada.

— Hum.

— A brava gostava de você, sempre trazia um brigadeiro de sobremesa. Só para você.

— Ciúmes?

— Claro! Eu também queria brigadeiro. Lembra agora?

— Lembrei.

É reconfortante partilhar memórias. Às vezes, depois de um tempo, tudo parece meio irreal. Será que existiram mesmo três senhoras que tinham um restaurante de panquecas? Será que tinha mesmo um restaurante na parte de trás de um prédio? Houve mesmo um tempo como aquele?

—  Acho incrível essa sua memória. — Marcel tira a mão do bolso e segura a minha.

— Ela só serve para informações inúteis. E comida.

— Neste caso, fale mais sobre o supremo de frango do Monalisa.

— Era o prato da terça-feira. Você sempre queria almoçar lá às terças.

— Duvido que você se lembre do que vinha no prato.

— É um desafio?

Marcel ri.

— Óbvio.

— Pois bem. O supremo de frango acompanhava arroz e creme de milho, mas você sempre pedia uma mini porção de salada russa.

— Nossa, minha boca encheu de água.

— Lógico, a gente não para de falar de comida.

— Vamos jantar?

Vamos andando e, sem combinar, entramos em um restaurante que parece convidativo. Fazemos os pedidos e esperamos, olhando pela janela um movimento intenso de pessoas que parecem estar indo a uma festa.

— O Conjunto Nacional ainda existe? — Marcel quebra o silêncio.

— Existe, ué. Acabamos de passar na frente.

— Sim, mas continua se chamando Conjunto Nacional?

— Continua. Acho. — Na verdade, não sei.

Fico confusa. As coisas mudam tanto e tão velozmente. Construíram um prédio novo em nossa rua, que subiu rápido, em alguns meses estava pronto e habitado e, de repente, não consegui me lembrar do que havia estado antes naquele lugar, por anos. Certamente, não era um restaurante, ou eu me lembraria.

— Existia o Conjunto Nacional e, na Augusta, o Espaço Nacional de Cinema. Você vivia me arrastando para lá pra ver filmes chatos. — Marcel continua.

O que posso dizer? Meu gosto para filmes foi fortemente influenciado por papai.

— Ei, eram filmes de arte, maravilhosos.

— Aham. Mas então, o Espaço Nacional, que chamava Nacional por causa do banco, virou Espaço Unibanco de Cinema. Outro nome, mesmos filmes.

É verdade.

— Depois, virou Espaço Itaú, por causa do banco. De novo, outro nome, mesmos filmes. — Ele continua.

— Acho que mudou de novo. ­— Tento puxar pela memória, mas não consigo.

— Provavelmente outro banco. Mas, na minha cabeça sempre vai ser Espaço Nacional. Estou virando um velho. E, nesse tempo todo, o Conjunto Nacional continua sendo Conjunto Nacional mesmo?

— Não devia ter nada a ver com o banco.

— É.

Ele parece meio triste, meu coração se aperta. A memória é um terreno pantanoso e solitário. As coisas se perdem, se lascam e se esvaem, formando um museu de coisas perdidas. O outro, nessas horas, é um pedaço de terra firme, a dizer, eu lembro, também estive lá, vi o mesmo que você.

— Odeio esses naming rights — ele continua. — Aliás, como se diz naming rights em português? Direitos de nome mesmo? Soa feio em qualquer língua. É um jeito de fazer as coisas mudarem de nome o tempo todo e nada ser lembrado pelo que é.

— Tem razão, vovô.

— Ando meio ranzinza, né?

Sorrimos um para o outro. Estamos ranzinzas. É o que a passagem do tempo faz com as pessoas. Tende a piorar, imagino. Quanto mais tempo, mais coisa fica para trás, o espaço pantanoso das memórias fica mais vasto e o mundo faz cada vez menos sentido. Talvez seja um mecanismo da vida para deixar a morte mais palatável.

Mas não quero pensar em nada. A conversa com minhas irmãs me deixou pensativa, fermentando sentimentos e imaginando cenários irreais de tantas coisas que me enchem de medo e frio na barriga. A vida atualmente pode não ser perfeita, mas é uma grande bolha confortável.

Marcel olha pela janela. Será que ele tem vontade de se juntar àquelas pessoas desconhecidas e ir a uma festa misteriosa? Se eu levantasse da mesa agora e me juntasse a eles, ele viria junto?

De repente, sinto algo transbordar dentro de mim e vazar na forma de palavras que tenho dificuldade de reconhecer como minhas:

— Quero adotar uma criança.

E Então? O que achou?

Informação

Publicado às 1 de maio de 2026 por em E-Rom G1, Entre Romances e marcado .