EntreContos

Detox Literário.

ER 1 – O Contrato que Edgar assinou, tendo como testemunha o Diabo (André Lima)

Capítulo Um: Dos Fundamentos

 

 I

 Naqueles tempos saudosos onde os revolucionários tentavam derrubar o governo, os habitantes da ilha de São Pierre viviam uma contradição. Ora, embora estivessem em tempos de guerra, com mercenários ocupando o porto, preenchendo a cidade e os jovens à espera de um telefonema para a convocação de um combate, a infância vibrava pelas ruas, com os pés sujos de areia, salpicando os capachos do que poderiam ser grãos de esperança, numa vibração alegre e marrom, que ocuparia a lembrança dos insulanos até o resfriar de seus corpos. Claro, os combates estavam sempre distantes o suficiente para parecerem uma narrativa impessoal, mas ainda próximos quando se tratava dos núcleos familiares desfeitos com as convocações repentinas.

Edgar L. S. tinha, como toda alma que nasce em ilha, a consciência de que os limites do mundo eram desconhecidos, embora alcançáveis com a determinação de um navegador. Jamais conseguiu localizar, com a precisão clínica que alguns homens reivindicam ao narrar as próprias ruínas, o instante inaugural de sua queda. Há aqueles que apontam datas, que gravam na memória o dia em que tudo se partiu, como se a existência obedecesse a uma lógica de fratura única, audível, definitiva. Edgar não teve esse privilégio. São Pierre era desse tipo de lugar que o continente ignora com a altivez dos que nunca precisaram olhar para o mar com seriedade. Os meninos cresciam ali sabendo, mesmo antes de aprenderem a ler, que as coisas sérias da vida vinham e iam pela água, e que o vento que virava de sul era presságio de algo, embora ninguém soubesse precisar de quê. Edgar soube antes dos outros. Tinha em si uma disposição para os presságios que os mais velhos chamavam de mau agouro e os mais jovens, simplesmente, de esquisitice.

Por isso, não por bravura masculinácea, mas por uma vontade de pertencer a uma narrativa maior que a das redes lançadas ao mar, foi ao continente para se alistar. E serviu, a contragosto de seu avô, único tutor que tivera em toda sua vida, ao exército.

“Você não é tão burro quanto seu irmão”, dizia. “Deveria buscar estudo em vez de rifles”

Mas foi-se como combatente, fingindo ser um herói improvável, como se algum bravo guerreiro um dia pudesse vir de São Pierre e frustrou-se nos momentos iniciais, quando percebeu que havia mais silêncio e espera nos combates que tiros disparados.  As batalhas pareciam ocorrer dentro dos crânios dos soldados do pelotão de Edgar, revelando, sem querer, a realidade sobre quem de fato eram aqueles meninos. Embora, de maneira frustrante, Edgar não tenha conseguido captar a própria revelação de si nos momentos de apreensão.

Foi nesse compasso que conheceu Heleno de Farias. Encontraram-se no primeiro dia em que os mercenários franceses fizeram uma emboscada, de modo que o pelotão se dissipou e os dois se isolaram num armazém de palha e cimento mal misturado, a noroeste de uma vila cujo nome ninguém soube guardar e cujo nome, provavelmente, nunca havia importado para ninguém além de seus próprios habitantes. O armazém tinha sido, antes da guerra, um depósito de grãos. Havia ainda sacos empilhados num canto, alguns deles abertos, com o conteúdo apodrecido espalhado pelo chão de terra batida, contribuindo para um cheiro de mofo fermentado que, com o calor da tarde, subia em ondas e se instalava na parte de trás da garganta como algo que não é bem gosto nem cheiro, mas a interseção desagradável dos dois. As paredes eram grossas, o que era a única vantagem daquele lugar. As janelas eram estreitas e altas, do tipo projetado para ventilação e não para visão, de modo que o que entrava por elas era luz em ângulo e fragmentos de céu, não qualquer vista útil do que acontecia lá fora. Ambos permaneceram encurralados.

O que acontecia lá fora era incerto. Isso era o pior. Não o perigo concreto, não os tiros que chegavam de quando em quando com o som seco de quem bate numa madeira oca, mas a impossibilidade de saber com precisão a natureza do perigo. “Não confio nos franceses”, disse Heleno. “Vão nos matar. Não fazem reféns, os desgraçados”

A incerteza tinha uma textura própria, como aquele cheiro de mofo: não era aguda o suficiente para provocar pânico, mas persistente o suficiente para impedir qualquer descanso verdadeiro. Naquele cativeiro, o tempo surpreendeu ao se apressar. Logo a noite caiu e os tiros cessaram, mas o som dos motores um pouco distantes davam a certeza de que deveriam permanecer lá dentro, quietos.

A manhã veio para Edgar antes que para Heleno. O louro dormia confortavelmente, como se estivesse em seu acampamento, o que causou estranheza.

“Quantos carregadores você tem?”, perguntou Edgar.

O homem acordou varrendo os olhos pelo local, voltando pouco-a-pouco à lembrança do contexto em que estavam, que se manifestava nas expressões de seu rosto.

“Dois. E você?”

“Três”

Poderia ser pior, pensaram juntos. Passaram o restante do segundo dia jogando um baralho que não possuía o sete de espadas, retirado de um dos bolsos de Heleno, ouvindo ainda motores e eventuais gritos que julgavam ser em francês, tendo a certeza de que a qualquer momento alguém irromperia pela porta do casebre e eles teriam que descarregar o rifle no peito do sujeito. Naquela noite, Edgar foi quem dormiu e logo despertou, junto com o sol, e bebeu o último gole de seu cantil.

Heleno estava sentado a uns três metros, num canto ligeiramente mais escuro, com um bloco de notas descansando no colo. A caneta corria o papel com velocidade.

“Está escrevendo um diário para registrar nossa morte?”

Heleno ergueu os olhos. Tinha feições suaves, quase femininas na composição, com uma boca larga que parecia feita para expressões generosas. “Estou escrevendo um poema. Sou poeta. Quero dizer, meu sonho é ser poeta”, disse suavemente.

“Poeta”, disse Edgar.

“Poeta”, confirmou sem erguer os olhos novamente.

O silêncio claustrofóbico começou a agitar Edgar. Tinha que se concentrar para tentar ouvir qualquer coisa que não fosse o rabisco da caneta. Minutos depois, um estrondo mais distante. Parecia que o combate estava se afastando.

“Você escreve poemas durante uma guerra”

“Escrevo em qualquer lugar. A guerra não é exceção ao mundo. É uma versão concentrada dele”

“Versão concentrada?”, indagou Edgar. “Eu diria que é uma versão diluída. Tudo demorado, tudo incerto, sem conclusão à vista. Parece menos com guerra e mais com burocracia armada”

Heleno finalmente fechou o caderno, mas o manteve no colo, com a palma da mão pousada sobre ele. “Estamos aqui há três dias e acabo de perceber que não sei seu nome”

“Edgar”

“O meu é Heleno”

“Eu sei”

“De onde você é?”

“Ilha. São Pierre”

“Isso explica muita coisa…”

“O que, exatamente?”

“A forma como você olha para as paredes. Como se fossem provisórias”

Edgar deu meia risada e sacudiu a cabeça.

“Não olho para as paredes de nenhuma forma especial”

“Olha…”, retrucou, com arrogância. “Quem nasce em ilha tem uma relação diferente com o confinamento. Para quem nasce em continente, uma parede é uma parede. Para quem nasce em ilha, uma parede é sempre um pouco a linha do horizonte vista de dentro”

“Mas que caralhos… É. Você realmente faz poesia em qualquer contexto. Mas sabe o contexto em que eu não gosto de poesia? No que estamos agora”

Heleno mal ouviu. Bebeu o último gole de seu cantil também. E aguardou.

Os próximos dias foram do mesmo modo. Bebiam, agora, o resto das águas acumuladas pela chuva e comiam os grãos que pareciam menos apodrecidos. Quando se invadiam de coragem para saírem, ouviam tiros e explosões. Tinham a certeza de que estavam sendo vigiados. Quando a exaustão, a fome e a sede chegaram no ápice, perceberam que em breve os franceses lançariam uma bomba fatal ou ateariam fogo no casebre, de modo que cogitaram mudamente que era melhor morrer com um tiro na testa que definhando de fome e sede, ou, pior, carbonizados pelo inimigo.

Quando Edgar despertou ofegante, em uma madrugada, após ter o pesadelo recorrente que o assombrava desde a infância, decidiu que era o momento de arriscar e sair. Ele encontrou o rosto de Heleno o observando, à meia-luz de um facho estranho, que vinha de fora, de fonte desconhecida, que iluminava as feições do louro com um banho azulado.

Era o mesmo sonho de sempre. Despertava e se via deitado numa mesa dura, completamente nu, sendo banhado por um homem de meia-idade, que passava um pano úmido por toda sua pele. Ao questionar, o homem explicava que era um lavador de defuntos e que o estava preparando para o velório logo mais. Ele protestava, tentava se desvencilhar das mãos do homem, mas sentia no fim de tudo que era mesmo um cadáver. “Não acredita? Vá lá fora e pergunte aos outros se não está morto”, dizia o lavador. E ele saía do quarto em que se encontrava e sacudia as pessoas, gritava, mas era completamente ignorado. Ao passo que, com resiliência, voltava para ser banhado novamente, sentindo um cheiro forte de azeite, ao qual passou inevitavelmente a associar à morte se aproximando.

“Prepare-se, Heleno. Você escreverá um poema épico sobre nós. Dois soldados inexperientes, que nunca haviam pegado num rifle antes, em terreno inimigo, encurralados, conseguiram escapar e voltaram com as glórias da sobrevivência”

“Foda-se a poesia”, respondeu.

Edgar conferia as munições e se equipava. “Como assim? Não era seu sonho?”

“Não é mais”

“Bom. Meu sonho passou a ser ‘voltar vivo a São Pierre’. Entendo que as coisas tenham mudado”

“Não é isso. Estive refletindo. Um dia encontrei uma pessoa, um amigo que fiz, que me disse que quando o Homem finalmente pisou na lua e percebeu que era apenas um pedaço de rocha flutuante, toda poesia morreu”

“É. Aqui percebi que não sou o que pensava que era também. Mas para o caralho com os franceses”

Finalmente saíram do casebre, em progressão de patrulha, com falhas técnicas pelo desconhecimento e pela exaustão, driblando o que poderiam ser postos do inimigo, até que viram o farol brilhante de um automóvel e procuraram abrigo, prontos para disparar, quando perceberam que se tratava do exército aliado, que havia tomado a região na última madrugada. Foram resgatados e voltaram com menos heroísmo do que haviam previsto, mas, após esse evento, Edgar decidiu que jamais teria uma vida normal novamente.

 

II

 São Pierre recebeu Edgar como se ele nunca houvesse partido. O mar estava do mesmo cinza aborrecido, as mesmas redes estendidas entre os postes, os mesmos feirantes enlouquecidos com as novidades do porto, o mesmo cheiro de peixe defumado e maresia vencida que impregnava até os lençóis. Havia uma pertinácia naquele lugar que beirava a insolência: a ilha simplesmente não registrava ausências. Era como se o tempo, ali, operasse numa lógica diferente da do continente, menos linear e mais circular, sempre voltando ao mesmo ponto com a mesma expressão desinteressada. Os mesmos gatos nas janelas. Os mesmos pescadores com os mesmos semblantes de quem está sempre esperando por um peixe ou por um comunicado ruim, e não tem preferência pela ordem em que chegam.

Kaspar o esperava na soleira com uma expressão que não era exatamente alegria, mas era a versão mais próxima que um homem daquela estirpe conseguia produzir. O velho avô tinha os braços tostados até os cotovelos, as mãos cobertas por uma cartografia de calos e veias salientes, e os olhos de uma cor opaca. Tinha envelhecido de um modo que só os homens que passaram a vida de costas para o vento envelhecem: com uma solidez comprimida, como madeira que seca por dentro sem perder a casca. “Emagreceu”, disse, e voltou para dentro de casa. Era, no vocabulário de Kaspar, uma declaração de saudade.

Os primeiros dias foram de silencioso reajuste. Edgar dormia até tarde, acordava desorientado, esperando ouvir os estalos da guerra e se surpreendendo com o barulho morno das ondas que chegavam à praia com a pontualidade indiferente de quem não sabe que existe outra coisa além de si. Havia voltado com menos do que levara: o entusiasmo patriota se dissipara, e em seu lugar restara uma espécie de ressentimento difuso, sem alvo preferível, que se espalhava por igual por tudo que encontrava à frente. Era, também, uma fadiga moral, o cansaço de quem esperava encontrar alguma revelação sobre si mesmo na guerra e encontrou apenas lama, espera e o cheiro insistente do armazém de palha e cimento. O avô não fez perguntas.

Edgar passava as tardes no cais. Às vezes, o avô aparecia ao seu lado e ficavam assim, pareados, contemplando as possibilidades que se afogavam nas ondas. Kaspar nunca perguntou sobre a guerra. Uma vez, e apenas uma, disse: “Heleno de Farias escreveu para cá”. Edgar não respondeu imediatamente, e o velho não esperou, que era o modo de Kaspar deixar as coisas no ar onde podiam ser apanhadas quando o outro estivesse pronto.

Foi na terceira semana que o velho revelou o barco. Conduziu Edgar pelo cais, ao entardecer, pelo trecho onde as embarcações de pesca mais humildes cediam lugar a uma estrutura maior, amarrada com a solenidade de algo que custara mais do que devia. O casco era escuro, quase negro pelo alcatrão fresco, com o nome pintado a branco nas duas bordas da proa. “O Austral”, disse o velho, sinalizando com o queixo, sem olhar para o neto, os olhos fixos no barco como se este fosse a resposta a uma pergunta que nunca fizera em voz alta. Havia no modo como ele pronunciou o nome, com uma brevidade desproporcionalmente orgulhosa, algo que Edgar jamais havia visto no avô: antecipação. Kaspar L. S. era um homem que havia aprendido com o mar que a alegria prematura afoga antes do naufrágio. Por isso mesmo, o orgulho que transbordava daquela brevidade constrangeu Edgar de um jeito que a guerra não havia conseguido. Ele pôs a mão na madeira do casco e sentiu o frio, a história, as cracas e o cheiro de baleia.

O plano era simples: os leões-marinhos se concentravam em abundância nas ilhas sub-antárticas, especialmente no inverno, quando as colônias se avolumam nos recantos de pedra como uma cidade intumescida de desempregados preguiçosos. O óleo extraído era cobiçado pela indústria de lubrificante e pelas curtidoras do continente, e as licenças de caça ainda existiam, embora já sob pressão crescente de quem achava que existiam coisas no mundo que não deveriam ser derretidas. “Ninguém vai querer o óleo para sempre”, dizia Kaspar, enquanto apontava no mapa a rota que havia traçado. “Mas enquanto querem, nós temos. E quando não quiserem, vamos para as lagostas enlatadas ou qualquer outra merda dessas”

Edgar escreveu para Heleno de Farias. Não era uma carta de amizade, embora contivesse os ingredientes superficiais de uma: perguntas sobre a saúde, menção ao tempo passado no casebre, uma ou duas observações sobre a ilha que soavam genuínas, mas cumpriam uma função estratégica. Era, na verdade, uma proposta velada. Heleno respondeu em menos de duas semanas, com uma carta mais curta do que Edgar esperava e mais direta do que o Heleno que ele conhecera no casebre de palha e cimento seria capaz de escrever. Havia abandonado a poesia, conforme anunciara, e estava agora numa obscura função administrativa em Boa Esperança do Sul que o entediava com uma eficiência notavelmente superior à da guerra. Por isso, aceitou o convite de Edgar para ser um dos tripulantes d’O Austral, onde ficaria por seis meses ilhado no cheiro desagradável dos mamíferos aquáticos.

Krikor também iria. O irmão três anos mais velho de Edgar. Era ligeiramente mais baixo, mais largo nos ombros, com um bigode denso que cultivava com muita dedicação. Mas havia algo no semblante do jovem, alguma verdade intrínseca que se manifestava a quem fosse mais sensível. Kaspar sempre desconfiou do neto, mas uma desconfiança até então nada fundamentada, emudecida.

Partiram em junho. O Austral era um barco adequado, nem belo nem feio, com a honestidade estética que seria necessária para motivar os trabalhadores que iam desbravar terreno desconhecido. Poucos possuíam experiência em caça de leões-marinhos, mas todos estavam dispostos a aprender com a mão na massa.

A ilha de destino não tinha nome nos mapas que possuíam. Nos exemplares mais antigos, havia uma notação em português arcaico que Heleno, único dos três com latim suficiente para interpretar o contexto, traduziu como algo próximo de “onde o vento termina”. Era uma descrição geograficamente imprecisa, mas emocionalmente exata. Chegaram no começo do inverno, quando o dia durava poucas horas e o vento gelado da Antártica fazia ranger imenso casco do navio. Os seis meses que se seguiram foram de uma rotina que só os mares do extremo sul conseguem impor: dias de trabalho duro interrompidos por tempestades que faziam O Austral gemir, além de noites enclausuradas em que os quatro jogavam com um baralho que não possuía o sete de espadas, por uma obstinada coincidência que Heleno insistia em chamar de destino e que Krikor dizia ser simples descuido de quem havia vendido o baralho.

Havia na ilha uma comunidade pequena, talvez quarenta almas distribuídas em casas que pareciam ter crescido do solo por conta própria, como cogumelos. Subsistiam de pesca e de uma resignação que só se desenvolve em quem nunca teve a opção de ir embora. Falavam um português que havia dado a volta em si mesmo várias vezes e chegado a um dialeto que só fazia sentido no raio de meia hora de caminhada. Eram desconfiados com a cordialidade contida de quem já recebeu visitantes antes e sabe que eles invariavelmente querem alguma coisa e invariavelmente vão embora deixando algum rastro de complicação. Os quatro foram bem recebidos, assim como os outros vinte e cinco tripulantes que aceitaram a aventura por conta da promessa de um bom salário.

A caça correu bem nos primeiros meses. As colônias eram numerosas e os animais, quando o vento estava contra, aproximavam-se com uma ingenuidade que tornava o trabalho eficiente e desconfortável em igual medida. Heleno cumpria sua função como se fosse experiente, embora nunca houvesse pisado numa embarcação antes. Krikor trabalhava bem, sendo o mais forte de toda a tripulação. Mas as mulheres curiosas do vilarejo que vinham observar o trabalho dos forasteiros, fez com que Kaspar desse uma ordem de observação ao outro neto. “Fique de olho nele. Não o deixe estragar tudo”. À noite, o barco cheirava a gordura aquecida e a sal, e os quatro dormiam surpreendentemente bem. Era, curiosamente, o período mais tranquilo que Edgar havia vivido desde antes de se alistar.

Em uma noite, Krikor entrou no navio com cheiro forte de cachaça. “Estava bebendo com os pescadores da Ilha Verde e eles me contaram o que mudará nossas vidas para sempre”. O avô se sentou e olhou para Edgar, desconfiado.

“Bem que o senhor falou das lagostas, vovô”, continuou Krikor. “Sabe a empresa japonesa que te disse uns dias atrás? Estão completamente irregulares e cinco tripulantes morreram de escorbuto. E o melhor de tudo, estão apenas no terceiro mês de pesca”

A ideia era engenhosa, como era de se esperar de alguém cuja criatividade só se ativava diante de uma oportunidade. A empresa japonesa que detinha licença numa área adjacente estava operando há meses com irregularidades documentais sérias, além do escândalo da morte dos profissionais que a empresa havia deixado na ilha, a fim de fazer a manutenção das máquinas de enlatar e tomar conta das coisas, durante seis meses, sem suporte algum. Isso era fato verificável pelos pescadores da região. A proposta era simples: acionar, por meio de contatos no continente, uma denúncia formal que resultasse no cancelamento da licença deles, apreensão da mercadoria e espaço aberto para que O Austral explorasse o mercado de lagostas que, àquela altura, era deveras mais lucrativo que o óleo de leão-marinho.

“Krikor, não podemos mudar a operação no meio”

“Por que não, vovô? Já armazenamos óleo o suficiente e temos comerciantes à espera de lagostas que nunca chegarão”

“Mas teríamos que denunciar. Isso não seria nos expor?”, perguntou Heleno. “E se houver alguma retaliação?”

“Confio nos meus contatos do continente”

Os contatos existiam, eram homens experientes nesse tipo de manobra burocrática, e Krikor confiou neles de maneira despreocupada. “É o que fazem”, disse, como se isso fosse uma forma de garantia. Edgar ouviu o plano numa noite em que a tempestade tornava qualquer objeção menos audível do que deveria ser, e concordou, guardando para si a sensação velha conhecida de que havia tomado uma decisão errada no único momento em que poderia ter tomado outra. O avô não se opôs, tratou-se como voto vencido.

O que ninguém previu, nem Krikor, nem Edgar, certamente não os contatos que assinavam papéis alheios com indiferença, foi que os documentos produzidos extrapolaram o pedido. Quem os redigiu, com a liberdade criativa, incluiu o nome de Kaspar L. S. como co-sócio das irregularidades da concorrente, talvez para dar peso jurídico à denúncia, talvez por simples desleixo de quem confunde completude com exatidão. Krikor soube disso ao mesmo tempo que Edgar, quando a notícia chegou pelo rádio d’O Austral num tom que não deixava dúvida. Ficaram os dois em silêncio por um tempo que nenhum dos dois soube medir. “Não era pra ser assim”, disse Krikor, e Edgar acreditou nele, e nunca deixou de acreditar, o que de certa forma tornava tudo pior. O erro havia sido seu, afinal, por ter concordado, por ter sugerido ao avô que levasse o irmão, embora não lembrasse mesmo se tivesse sido sugestão sua, por ter saído de São Pierre e trazido Heleno de Farias para uma aventura arriscada com um irresponsável à bordo. Quando a inspeção chegou, real, convocada pelos próprios japoneses que haviam farejado o ardil, era o nome do velho que constava nas primeiras linhas do processo. Kaspar perdeu a licença sem jamais ter feito nada que justificasse perdê-la, mas conseguiu negociar mais um mês de trabalho e que levasse a mercadoria para vender e desse uma porcentagem aos burocratas ainda no porto, minimizando o prejuízo.

Não suficiente, uma criança havia ficado doente quatro dias antes de tudo isso, num momento em que o caos administrativo já consumia toda a atenção disponível e não havia sobra para mais nada. Era filho do pescador que os havia hospedado na primeira semana na ilha, um menino de talvez seis anos com febre alta e uma respiração que chiava como madeira verde queimando. Os pais vieram até O Austral porque Krikor, numa das suas criações úteis, havia comentado, sem pensar, ou talvez pensando demais, que o irmão era médico. O rumor havia viajado pelos quarenta habitantes da ilha. Edgar ouviu o próprio nome sendo dito em alguns contextos. “Não sou médico”, disse, já tarde, quando os pais estavam na beira do barco com o menino enrolado num cobertor. Os dois não acreditaram. Deram a entender com o olhar que Edgar parecia estar fugindo de sua responsabilidade. Vendo a aflição do casal, entrou no barco para pegar a bolsa.

Fez o que podia. Tinha um estoico manual de primeiros socorros do exército e o bom senso de não fingir mais do que sabia. A febre cedeu na primeira noite, o que o fez dormir com leveza. Mas voltou na segunda, mais alta, e a respiração piorou com uma velocidade que o manual não havia previsto. A criança morreu na madrugada seguinte. Edgar acordou com o som do choro, que atravessou a madeira do Austral e veio pousar no seu peito. Heleno sentiu. “Seu irmão… Nunca mais me chame para nada que ele esteja envolvido. Entendeu?”

Edgar só pôde assentir.

“Dizer que você é médico. Onde ele estava com a cabeça?”

Krikor disse que não era culpa de ninguém, que era a ilha, o clima, a distância, que não havia médico real que pudesse ter chegado a tempo, que desejava dar esperança à família. Uma defesa improdutiva que não apaziguou os ânimos, até porque Kaspar adoeceu também.

Trabalharam as semanas que restavam. Trabalharam em silêncio, os três saudáveis, enquanto o velho descansava na embarcação. O pescador não voltou ao Austral. Ninguém na ilha voltou ao Austral, a não ser para trazer mantimentos com a pontualidade mecânica dos que cumprem um acordo e não desejam mais do que isso. Edgar sonhou com o lavador de defuntos duas vezes naquelas semanas, e numa delas o defunto na mesa tinha a respiração chiada de madeira verde queimando.

Kaspar morreu seis semanas depois de receber a notícia da licença. Não de doença, porque os homens da sua estirpe raramente morrem de doença. Morreu do jeito como os velhos de ilha morrem quando o mar lhes tira o último motivo de acordá-los: calado, sentado em uma cadeira no convés, com os olhos na direção do horizonte, como se estivesse esperando por uma embarcação que sabia que não viria mais, mas que lhe parecia descortês não aguardar. Quando Edgar chegou, o avô já tinha a temperatura do entardecer. Não havia surpresa naquela morte.

Tiveram que vender o Austral para cobrir as dívidas que o processo havia gerado. Edgar observou o barco ser levado pelo cais por um homem que não sabia o nome da embarcação e não perguntou, e pensou que Kaspar havia comprado o navio com todo o dinheiro que tinha. Venderam toda a mercadoria, fizeram o pagamento dos tripulantes, repartiram com os burocratas e ainda ficaram devendo uma boa parte.

Há uma classe de credores que não aparece nos contratos. Eram esses os que Edgar precisava evitar agora. Homens que o processo havia envolvido indiretamente, que tinham interesse na licença perdida por razões que nenhum papel registrava, que sabiam o que Krikor havia feito e entendiam que Edgar sabia também, e que portanto o incluíam, por associação de sangue, na conta. Edgar fugiu para o continente. Krikor também, mas na direção oposta, o que era a única decisão sensata que tomara em todo aquele período, pois os credores sem contrato preferem ir ao encontro de quem têm maior chance de render alguma coisa, e Krikor não tinha nada que não tivesse comprado com o dinheiro dos outros.

Foi numa cidade do interior, chamada Madalena, onde a água mais próxima ficava nas nuvens, que Edgar conheceu Úrsula Haidar. Ele foi a trabalho a mando de Heleno de Farias, que o recomendou a um primo que tinha um roçado. Úrsula, por sua vez, estava na primeira fila da missa da única capela que existia na cidade. Era uma mulher de costas retas, com aquele tipo de imobilidade nos ombros que sugere ou muita paz interior ou muito esforço contínuo para aparentá-la, e Edgar, que havia aprendido a distinguir as duas coisas no exército, não soube, naquele primeiro encontro, de qual se tratava. Sentou no último banco, observou a nuca durante toda a homilia e saiu antes do amém, mas voltou na semana seguinte.

O interior o sufocava com um silêncio de qualidade diferente da que conhecia. O silêncio do mar é um silêncio em movimento, que nunca é o mesmo por dois segundos consecutivos e que, por isso, consola. O silêncio da terra é resolvido e definitivo, como uma sentença que não admite recurso, e por isso oprime. Edgar acordava naquele quarto com a sensação de que o ar não circulava, de que os horizontes haviam sido revogados e substituídos por paredes de barro e cercado. Sonhava com O Austral. Sonhava com Kaspar na cadeira da soleira com os olhos vazios. Sonhava com a criança e com o manual de primeiros socorros que não havia ajudado, sonhava até mesmo com seu confinamento no casebre e Heleno iluminado à meia-luz. E uma ou duas vezes por semana, acordava ofegante com o lavador de defuntos passando o pano úmido por toda a sua pele, que cheirava a azeite, mas que agora possuía um olho de vidro que ficava sempre fixo em Edgar.

 

III

O primeiro grande contrato que Edgar L. S. fez, em sua desditosa vida, foi com Úrsula Haidar. Nada se comparava àquilo, nem mesmo o contrato que firmara com o exército, tampouco com os caçadores de leões-marinhos. Ambos, Úrsula e Edgar, se encontravam face a face, diante de um pároco alquebrado, suspensos num altar com certa pompa. Os despojados enfeites prateados decoravam por inteiro o desolado espaço da Chácara dos Diamantes. Era um contraste inquietante, pois o brilhar prateado não ofuscava a soturna penumbra daquela propriedade. Até nos dias ensolarados, o negrume e o pesar de seus proprietários faziam com que aquele local peculiar parecesse enevoado, como se os lamentos e os desgostos estivessem sendo soprados, como num fluido, ao solo em um fluxo contínuo.

Mas nada o fez hesitar naquele dia: nem mesmo os olhares ansiosos das duas famílias, poucas pessoas salpicadas entre cadeiras de madeira; tampouco a rouquidão trovejante de Sua Reverendíssima Excelência. Edgar estava completamente desavisado sobre seu próprio destino.

“Eu aceito”,  disse com convicção.

É bem verdade que Edgar só haveria de entender a seriedade deste aceite anos mais tarde. Havia, naquele dia, uma ansiedade, como um presságio, que o desconectara das relações causais, que tirava-lhe o peso do presente, dando uma urgência a um futuro desconhecido, que alarmava sabe-se lá sobre o quê. Por conta do transe pré-nupcial, ignorou as palavras do sogro que foram ditas mais com assertividade do que com altivez.

“Preste atenção, Edgar. Um projeto de homem precisa apenas de três coisas para se fazer homem de fato: um ofício, um propósito e uma mulher. Eu te dei um ofício, não pretendo saber de seus propósitos, mas imagino que eles existam e, agora, por fim, te entrego minha filha. Você é um homem completo, entende? E não está assumindo uma responsabilidade apenas com ela, mas com toda a família. E, mais importante ainda, comigo”

A família Haidar, de origem libanesa, já havia se convertido ao cristianismo algumas gerações acima de Úrsula e abandonado as tradições árabes. Não haveria festa tradicional, nem celebração secular. O que houve foi apenas um marco.

Edgar mal sabia que, dez anos depois de seu casamento, João Antônio Haidar, seu sogro, se tornaria prefeito de Madalena e um dos políticos mais influentes da região. Mal sabia também que, em meio a tantos contratos formais e informais, notáveis ou corriqueiros, se depararia inevitavelmente com O Contrato, este que era derradeiro. O que mudaria a vida de todos os partícipes.

 

IV

A grande sala de estar da propriedade dos Haidar, cedida a Edgar e Úrsula, parecia pequena naquela reunião. O enclausuramento era percebido por todos, embora fosse uma percepção mais extrassensorial do que um retrato fiel da realidade. Era dia, mas o cômodo se negava aos fatos, dando apenas a concessão de um filete de luz vazante de uma janela ao epicentro da reunião, onde as cinco cadeiras formavam um círculo ao redor de uma mesinha de centro.

Gutierrez tinha cinquenta e sete anos, mas aparentava mais. Havia algo no olhar que lhe emprestava um cansaço, compondo uma expressão natural de desgosto. Era parrudo e esparramava-se por onde quer que fosse repousar, embora graúdo e bem vestido. Pediu permissão, mesmo sabendo que não esperaria a resposta,  para acender um cohiba com uma folha de cedro.

“O Doutor aceita beber um conhaque?”

Ao fim da pergunta, Edgar rabodeolhou Úrsula, como quem fosse confirmar que realmente possuíam a bebida em seus aposentos.

Edgar olhava para uma versão dez anos mais velha da mulher, mais pálida e esquelética, com uma vitalidade pouco resiliente que parecia ter se esvaído pouco a pouco através dos anos, indo se esconder nos cantos, a fim de compor as trevas daquela residência.

“Um copo d’água já me bastaria”

O marido de Úrsula, sujeito baixinho com sardas sarapintadas nas bochechas magricelas, fez um sinal para a mulher, que àquela altura  se sentava ao seu lado. Úrsula se levantou para buscar copos de água não somente para Gutierrez, mas também para seus dois acompanhantes que o ladeavam, sentados nas cadeiras, e também para os dois seguranças que se mantinham em pé na porta de entrada do aposento.

Edgar suspirou, tentando esconder algum resquício de nervosismo.

“Depois de longas semanas de conversas com seu Engenheiro, cá está o doutor. Deu uma chance para os negócios”. O homem permaneceu a observar a ponta em brasa do charuto. Percebendo que não haveria espaços para elucubrações ou informalidades desúteis, Edgar se apressou para ser o mais direto possível. “O doutor deseja ver a mercadoria ou quer ir direto aos termos?”

Enquanto Úrsula baratinava por entre as vistas dos negociantes, segurando uma jarra com água, os homens que guardavam a entrada tentavam, sem muito sucesso, descobrir alguma curva atrativa em seu corpo. Gutierrez permanecia imóvel, somente a fumaça serpenteava à sua frente.

“Já que estamos devidamente acomodados, podemos começar pelos termos”

“Pois bem”. Edgar se ajeitou na cadeira. “Vou ser o mais direto possível, doutor. Não tenho desejo algum de ficar em uma folha de pagamento de sua empresa, tampouco de ficar a par de qualquer logística, lucro, participação ou questão burocrática. Meu desejo maior é dar saúde, educação e bem estar para Úrsula e meus dois filhos. Estou decidido. Por isso mesmo é que, sabendo de sua ansiedade para que tudo comece logo, assim que nosso negócio for feito, pretendo já estar bem longe do Brasil com minha família. Particularmente, em algum país que me dê condição de dar uma criação adequada a eles. Úrsula tem familiares nos Estados Unidos, em Boston. Já estamos ajeitando tudo para que lá seja nosso destino. Só Deus sabe o meu desejo de ir para bem longe de Madalena”

“Certo…”

“Então, para sua alegria, presumo”, Edgar continuou, “não tenho interesse em royalties, nem numa quantia que realmente fosse justa pela riqueza que há nessa terra. Aceito uma quantia menor, vendo o terreno para o doutor e deixo que fique com cem por cento da exploração”

“Isso não me parece muito inteligente de sua parte. Ademais, para que diabos eu iria querer ter a propriedade de uma chácara em Madalena? Que fique contigo a propriedade, meu desejo é apenas a exploração”

“Não vejo sentido em continuar com a propriedade. Após o início da operação, será impensável morar aqui. Além disso, já pretendo estar longe, nos Estados Unidos. Mantendo a propriedade da chácara, terei direito a royalties e, portanto, o valor que você me pagará pela operação será menor. Não é esse o meu interesse. Prefiro perder no longo prazo”

Gutierrez se moveu pela primeira vez desde o início das tratativas. O gorducho se ajeitou e olhou à sua esquerda para o sujeito exageradamente barbado. Os olhos miúdos, apertados atrás de óculos redondos, retribuíram o olhar.

“Há algum imbróglio na compra da chácara?”, perguntou ao advogado.

O velho pigarreou, repousou o copo na mesinha de centro, num raro momento em que saiu da escuridão e se revelou no resistente facho de luz. Limpou a barba exagerada enquanto virava os olhos para cima, numa tentativa de expressar uma reflexão sobre a pergunta.

“Não, senhor”. Disse, por fim. “Claro que teríamos que esperar todo o processo licitatório. Após isso, nada na legislação o impede de comprar o terreno”

Gutierrez, instintivamente, olhou para sua direita. Mas não esperando qualquer resposta do outro homem que o acompanhava. Sem olhar para Edgar, perguntou:

“E como descobriu tamanho tesouro?”

 

V

A estimada descoberta que mudaria os rumos da família Haidar se deu por um simples contrato entre pai e filho. A Chácara dos Diamantes era um local acinzentado mesmo nos dias de sol. Sentia-se o peso da existência em cada gramínea que lá fora plantada. Era uma propriedade modesta, cerca de quatrocentos e cinquenta hectares. Um terço da área útil do plantio era para o cultivo de cana, enquanto o restante se estendia numa plantação de abacaxis.

Dentre os demais sítios da região, era o menor. Uma casa de alvenaria, três andares, pintada de branco e azul desbotado, pousava no centro da chácara. Havia, nos arredores da casa, resquícios do que antes fora um viveiro de peixes. Circundava em toda a propriedade uma cerca de arame farpado, a fim de delimitar e impedir invasores, embora os próprios proprietários soubessem, em seu íntimo, que ali não havia atratividade alguma e que, por si só, a própria aura mística do local já se tratava de repelir quem quer que fosse.

Rubens, o filho mais velho do casal, já tinha idade de quase-homem, embora a mente ainda fosse conservada de menino. Não se sabia o porquê e sequer investigaram o motivo do evidente retardo. Mas o menino, único que demonstrava alguma energia naquela família, vivia explorando o além-chácara, passando com certa habilidade pelos arames e se adentrando mato afora. Voltava, para casa, sempre ferido, com arranhões e picadas de insetos. Nunca sabia explicar a causa de seus ferimentos com exatidão.

“Prometa que não vai mais brincar além dos limites de nossa terra”, pediu o pai. “É perigoso. Olhe bem para como está machucado! E se pisar numa cobra? Meu filho, se aventure na chácara. Pode brincar no viveiro, teu pai o deixa dessa vez! Promete que ficará por aqui?”

“Prome-meto”, gaguejou o rapaz de cabelos bagunçados.

Dias depois, o menino desbravante deu a volta no curral e se aventurou para lá da plantação. Perto do córrego, quase nos limites da propriedade, encontrou a caverninha que, por medo do escuro, nunca havia adentrado mais do que seis passos. Era preciso ter certo contorcionismo e coragem. Assim teve.

Retornou à casa, alguns minutos depois, com os pés, as mãos e as ancas sujas de preto, num líquido viscoso.

 

VI

“A partir daí, meu ajudante e eu fomos averiguar a caverninha e seus arredores. Pegamos a escavadeira, fizemos um buraco e o petróleo simplesmente brotou do solo, como se estivessem espremendo a terra”. Edgar já não mais conseguia esconder o sorriso. “De prontidão, chamei um amigo antigo da família, o senhor Heleno de Farias, lá de Boa Esperança do Sul. Ele é geólogo, bastante letrado, trabalhou com petróleo a vida toda. Primeiro, ele trouxe um aparelho com uma antena, passou por quase todo o terreno, empurrando-o num carrinho e demorando quase o dia todo. Não sendo totalmente suficiente, mas dizendo que eu já poderia me animar, trouxe, uma semana depois, outro aparelho, este mais difícil de descrever”

O homem que estava à direita de Gutierrez pigarreou, quebrando um silêncio que persistia desde o início da conversa.

“Seria este segundo aparelho uma espécie de maleta com fios que se conectam ao solo?”, perguntou, ainda encoberto pelas sombras da sala. Após Edgar assentir com a cabeça, o homem loiro, aparentando ter quarenta anos, de barba cerrada e queixo robusto, se virou para Gutierrez. “Um scanner sísmico portátil. O primeiro aparelho, provavelmente, é o que chamamos de GPR. Uma espécie de radar de alta frequência que consegue penetrar o solo a fim de mapeá-lo”

Gutierrez agora fumava lentamente, aproveitando cada molécula de nicotina que a mucosa de sua boca era capaz de absorver. Era uma espécie de ritual. A nicotina o estiava, tornando-o em maré mansa. De certo modo, sua intuição o injetava uma adrenalina que precisava ser domada. Havia algo de estranho em toda aquela situação. Os longos anos de experiência fizeram com que aprendesse a domar a onda destruidora que era sua personalidade impulsiva.

“Certo, Edgar…” Os quase-tragos eram cada vez mais longos. “Seu filho encontrou petróleo aqui, neste fim de mundo”

“Difícil de acreditar, hã? Marina, traga Rubens aqui!”

O grito de Edgar foi em direção à cozinha. Não tardando, a menina de dezesseis anos trouxe, como quem traz um velho incapaz, o menino apenas um ano mais novo.

A expressão abobalhada do rapaz causou certa repulsa em Gutierrez. Nem mesmo o homem era capaz de justificar o sentimento de aversão que surgiu ao contemplamento daquele casal: Marina, uma menina tão esquelética quanto a mãe, fantasiada num vestido infantilóide recheado de rosídeas, que claramente contrastava com o humor cadavérico que se refletia em suas expressões faciais, ou talvez na inexistência delas; e Rubens, o menino de um metro e noventa, vestido com roupas dois números menores e sinais de uma puberdade precoce que já o preparava para uma juventude que sua mente não correspondia.

“Cumprimente o Doutor Gutierrez e seus dois amigos”, ordenou o pai.

“Praz-z-zer”, o menino acenou com timidez. “Encontrei pretólio

Os dois funcionários do gorducho cumprimentaram, em silêncio, com um movimento de cabeça. Gutierrez o ignorou.

“O que é isso, Edgar?”, perguntou, não conseguindo conter a onda que viria a quebrar à beira-mar. “Seu filho é alguma espécie de idiota?”

Marina se retirou com o irmão para a cozinha, como se já houvesse sido adestrada a evitar qualquer tipo de constrangimento ao garoto.

“Sim, doutor. São as consequências de morar no campo. Não pude nem mesmo dar um tratamento digno ao meu único menino. Nunca nos faltou alimento, mas a distância dos grandes centros nos custou caro em muitos aspectos”

“Não há motivos para espetacularização ou coitadismo, Edgar”. Gutierrez mantinha-se firme, parte encoberto pela fumaça densa de seu cohiba. “Você me parece um homem eloquente, de alguma inteligência. De antemão aviso que não sou de ter o coração amolecido. Vamos evitar as inutilidades e focar no negócio. O seu amigo de Boa Esperança lhe indicou quanto há de petróleo em sua propriedade?”

“Ele me deu uma estimativa, sim, ainda mais precisa com o segundo aparelho. De sete a dez milhões de barris de petróleo”

Gutierrez se ajeitou na cadeira. Repousou, sem se importar com a ausência de um cinzeiro, o charuto na mesinha de centro de madeira.

“Está me dizendo que há, em terra, neste fim de mundo, cerca de dez milhões de barris, numa propriedade que estimo ter…”, o homem pendulou a cabeça enquanto fazia uma expressão de indiferença. “Quatrocentos hectares…”

“Quatrocentos e cinquenta”, Edgar o corrigiu.

“É uma previsão bem otimista…”, o engenheiro loiro inclinou o tronco para frente. “Na costa, não é nada improvável. Em terra, aqui, me parece algo difícil, mas não impossível”

Gutierrez se surpreendeu e desmanchou aos poucos o sorriso irônico que ostentava. O gorducho esperava que seu funcionário fizesse coro a sua indignação e instaurasse a pilhéria com o anêmico fazendeiro que se encontrava a sua frente. Essa quebra de expectativa amansou o coração do petroleiro.

“Certo…”, o homem cerrou os olhos. “E por qual motivo me chamou, Edgar? Por que eu?”

Como se a pergunta finalmente aguardada houvesse sido feita, Edgar estranhamente se animou ao falar discurso pouco condizente com sua mudança de humor:

“Sei da condição de sua petroleira, doutor. Fiz minuciosa pesquisa. Sei que está à beira da recuperação judicial e que aguarda uma oportunidade de ouro para reverter a situação. Sei também que o doutor confiará na qualidade dos meus termos, pelo simples fato de serem amplamente vantajosos para todas as partes. Eu vim para lhe oferecer a propriedade e também a licitação para explorá-la”

Gutierrez levantou as sobrancelhas.

“A licitação?”

“Sim. Meu sogro é amigo de Rodolfo Barbalho, Diretor-Geral da Agência Nacional de Petróleo. São aliados políticos de longa data. Meu sogro certamente nos ajudaria em toda essa transação, sabendo que Úrsula seria muito bem recompensada. Não se preocupe, já tratei disso com ele”

“Perdão”, o advogado pareceu se interessar pelo assunto. Acariciava a própria barba enquanto falava. “Seu sogro lhe disse como conseguiria a licitação?”

“É simples. Na definição de blocos de licitação, vamos priorizar o terreno. Depois, vamos fraudar os dados para afastar as grandes petrolíferas, de modo que se mostre pouco rentável e pouco atrativo. Por fim, vamos estudar o melhor modo de favorecer a PetroQuiRio no edital. E aí está, o doutor poderá, na fase de leilão, ter todos os privilégios possíveis. Caso haja ainda algum outro player interessado, o que acho difícil, posso te vazar a proposta dele e, assim sendo, o doutor vence em qualquer cenário”

Os três homens se entreolharam com certa tensão muda. O silêncio se instaurou por alguns segundos, enquanto as mentes maquinavam em sincronia, só sendo rompido pelo ranger de alguma janela distante. A eloquência de Edgar surpreendia os homens que esperavam negociar com um matuto ignorante.

“Que tipo de dados poderiam ser fraudados?”, o advogado barbudo afrouxou a gravata enquanto perguntou, em um sussurro que, na verdade, foi audível a todos.

“Acho que poderíamos atacar na viabilidade técnica”, respondeu o engenheiro loiro. “Temos que baixar essa estimativa de barris, alterando o gráfico do radar sísmico. Mas não só isso, podemos também aumentar a dificuldade de extração mudando os dados de porosidade e permeabilidade das rochas”

“Conseguimos aumentar o custo do projeto adulterando a profundidade do petróleo?”, Gutierrez perguntou.

“Sim. Dá para adicionar algumas falhas geológicas também”

“Acho que conseguimos fazer alguma coisa com questões ambientais. Podemos sugerir a presença de algumas camadas de aquíferos frágeis…”, o advogado voltou a acariciar a própria barba. “Aqui tem mata fechada bem próxima, podemos forçar um pouco a barra…”

Novamente o silêncio… De repente, Edgar percebeu o quão quente estava aquele dia. O olhar alternava entre os três homens à sua frente, pensativos. Eventualmente, olhava também para Úrsula que, àquela altura, já havia se sentado mais uma vez ao seu lado.

“Certo, Edgar…”, o petroleiro pegou novamente o cohiba que havia se apagado na mesinha de centro. “Vamos supor que existam, realmente, cerca de oito milhões de barris de petróleo aqui. É claro que preciso de garantias e que teremos muitas outras reuniões, inclusive com seu sogro, para adiantarmos a tratativa da licitação”. Ele interrompeu a fala para acender novamente o charuto. “Com as garantias e sentindo confiança que seu sogro conseguirá o que prometeu, eu te faria uma proposta de sete milhões de reais pela propriedade e pela licitação”

Edgar riu, ato contínuo, olhou para sua esposa que não retribuiu o olhar. Manteve-se firme, imóvel. Voltando-se para os três homens, disse:

“Não me subestime, doutor. O doutor havia, quase agora, reconhecido que havia alguma inteligência em mim. Só esta propriedade custa seis milhões de reais, aproximadamente. Como bem sabe seu competente advogado”, Edgar apontou para o barbudo, “eu teria direito a cerca de dois a três milhões somente em royalties. Além disso, tenho que pagar o risco que meu sogro correrá, além de ter que pagar os favores de Rodolfo Barbalho. Sete milhões de reais é uma proposta impensável. Eu estava cogitando algo em torno de quatorze milhões…”

“Hê…”, Gutierrez interrompeu com uma interjeição irônica. “Quatorze milhões de reais…”

“De dólares, doutor”

O peso da proposta trouxe novamente seriedade àquela conversa, naquele cômodo claustrofóbico e ensombreado. Pelo modo como o homem o observava, Edgar sentiu que havia fisgado algo no íntimo do empresário.

“Aceito contrapropostas, doutor. Desde que não me subestimem”

O conflito interno de Gutierrez se dava por conta da dualidade da assertividade da oferta de Edgar. Embora isso lhe desse segurança, por saber que estava tratando de um negócio sólido com um negociador sólido, nunca esteve confortável quando acuado. De certa maneira, a forma como Edgar expunha um conhecimento não-condizente com sua situação o irritava.

“Se abaixo de nós estiverem oito milhões de barris de petróleo, Edgar, eu te faço uma proposta próxima ao que você estipulou. Mas preciso de garantias. Não é uma movimentação financeira simples. Tampouco será fácil conseguir levantar uma quantia assim”

“Não se preocupe com as garantias, doutor. Você me pagará em quatro parcelas, à medida em que o projeto avance de fase. A primeira parcela, o doutor me dará quando mobilizarmos a ANP para fraudar os dados do bloco; a segunda será quando a PetroQuiRio ganhar o processo licitatório;  a terceira, o doutor pagará quando assinar o contrato de venda da propriedade; enquanto a quarta, e última, será paga quando for aprovado o plano de desenvolvimento e todas as licenças forem dadas, ou seja, quando a primeira gota de petróleo for extraída pela sua empresa”

O advogado se recostou novamente nas costas da cadeira, fazendo com que seu rosto fosse novamente encoberto pelas sombras.

Com o silêncio dos três homens, Edgar continuou:

“Nessa região não há nenhum dado no Banco de Dados da ANP, isso já foi confirmado por Rodolfo. O doutor pode ficar tranquilo quanto a isso. Serão feitos dois relatórios, o real e o fraudado. O doutor só me pagará a primeira parcela após ter acesso aos dados reais da ANP…”

“É você quem me subestima agora, Edgar. Em seu delírio, acha mesmo que te darei cerca de três milhões e quinhentos mil dólares, confiando em um relatório de uma empresa fraudulenta, a mando do seu sogro? Acha que sou burro como sua mulher ou idiota como seu filho?”

Gutierrez precisava escalar o tom, precisava colocar aquele maltrapilho em seu devido lugar. Agora, já não havia como conter as ondas.

Ele tentaria sua cartada final, um misto de intimidação com um sentimento crescente legítimo. O advogado e o engenheiro não se manifestaram em reações, pareciam estar acostumados com as abruptas escaladas do chefe. Gutierrez retirou, do coldre escondido em seu colete, um Magnum calibre quarenta e quatro com empunhadura cor de mogno, seis projéteis no tambor, e repousou o poderoso revólver no colo, apontado, despretensiosamente, a Edgar.

Úrsula arregalou os olhos ressecados, mas não se atreveu a se mover. Edgar permaneceu na mesma postura.

“Eu vou te dizer como faremos…”

“Acredito que o doutor não queira apontar um revólver para o genro de João Antônio Haidar…”

“Cale a boca, filho da puta. Faremos da seguinte forma: eu virei com meu engenheiro e com meus técnicos para fazer a análise do seu terreno. Depois, a ANP pode fazer o relatório fraudulento. Entendeu?”

“Certo…”

“E, obviamente, você terá que recusar qualquer outra empresa que queira coletar qualquer tipo de informação geológica deste fim de mundo”

“Certo…”

“E por fim, Edgar, tenho que te dizer como faço meus tratos. Eu sou honrado e farei de tudo para cumprir com minha parte. Já a parte de sua família e da honra manchada de seu sogro… Não sei. Mas o meu trato é contigo e o dinheiro será dado a você. E tenho que te dizer: se faltar com a palavra em um mínimo detalhe, seu frangalho de merda, não hesitarei em enfiar uma bala na sua cabeça e na cabeça do retardado do seu filho. Nada que eu já não tenha feito antes, Edgar. Seu sogro não me intimida. Fui claro?”

Uma injeção de adrenalina subiu pelas vértebras de Edgar. Ele acenou lentamente com a cabeça, enquanto observava a boca trêmula de Gutierrez.

“Nada mais justo”

E Então? O que achou?

Informação

Publicado às 1 de maio de 2026 por em E-Rom G4, Entre Romances e marcado .