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Detox Literário.

Elena e Lena no reflexo (Senhora Elena)

Quando se chega aos setenta anos os ponteiros do relógio chamado tempo começam a girar ao contrário. Como se o presente quisesse se encontrar com o passado e a velhice quisesse receber o abraço doce da infância. 

Nessa fase começamos a sentir falta de coisas que há muito não existem mais. Costumes, brincadeiras e roupas que as areias do passado enterraram em uma juventude longínqua. Amizades de infância que a lâmina do tempo cortou.

Mas quando cheguei nessa fase senti falta principalmente do meu balanço e da casa em que passei a infância . Foi uma saudade diferente, como se fosse novamente uma garotinha que passou apenas uns dias longe do lar.

O que era no mínimo inquietante, pois mesmo  morando em Portugal sempre que podia,durante as férias,  viajava ao Brasil e visitava minha sobrinha que morava na casa em que cresci. Todavia algo me dizia que essa minha nova visita seria diferente e eu estava certa, porque foi ao longo dela que reencontrei minha velha amiga Lena.

Lena era um tipo diferente de amizade. Para começo de conversa ela nem era uma menina de verdade digamos assim. Ela era o meu reflexo que eu via no espelho. 

 Era o ano de 1959 quando minha família se mudou para a casa nova que ficava na cidade de Belém do Pará . Eu tinha dez anos e na época ainda era filha única. A nova vizinhança não tinha crianças da minha idade o que aumentava a solidão. Tentava não ficar triste e procurava fazer o meu máximo para me divertir mesmo sem companhia. 

Logo na primeira semana explorei cada canto da casa. Era uma construção muito bonita e com uma arquitetura que remetia ao ciclo da borracha, período que deixou marcas na história e construções da cidade. O senhor que tinha nos vendido a casa era um dos chamados barões da borracha. Ele tinha uma certa idade e  após insistência dos filhos que moravam em São Paulo ele concordou em vender a casa e ir morar com eles no outro estado. 

Imaginava que cada pedaço da construção guardava uma história e me divertia tentando mentalizar essas narrativas. Mas apesar de gostar da casa o que amava realmente era o quintal. Era um quintal amplo e cheio de mangueiras e outras árvores que pareciam centenárias.  Meu pai tinha prometido colocar um balanço em uma das árvores , porém não foi naquela semana que cumpriu. 

Durante os tempos de chuva não poder ir para o quintal era motivo de grande tristeza. Eram dias em que a hora pareciam se arrastar. Foi em um desses dias que comecei minha amizade com Lena. 

Nesse dia de uma chuva particularmente forte estava no quarto dos meus pais procurando algo para me distrair . Foi quando me vi frente a frente com o espelho que minha mãe  tanto gostava. Era um objeto de moldura dourada que tinha sido herança da minha bisavó de Portugal. 

Fiquei um tempo admirando o meu reflexo. O espelho mostrava uma garotinha que nem eu. Por um momento pensei que a amiga que eu tanto procurava estava no espelho, mas perto do que pensava. Eu resolvi a chamar de Lena, pois ela era uma parte de mim mas ao mesmo tempo imaginava que ela tinha a própria identidade. Passamos o resto daquela tarde brincando. 

Contei para ela todas as novidades sobre a mudança, meus segredos e sonhos. Sabia que ela como meu reflexo sabia de tudo, mas contei mesmo assim. Às vezes tudo que queremos é nos iludir que estamos sendo ouvidos. 

Nos dias seguintes me sentia menos só com a presença dela e meu pai finalmente fez o balanço. Uma nova forma de diversão que Lena gostava tanto quanto eu. 

Ela era como uma amiga imaginária que a minha solidão alimentava.  Mesmo quando começaram as aulas Lena continuava presente. 

Quando estava lendo e olhava pela janela via Lena no balanço sorrindo. Um convite para brincar lá fora. Sempre o atendia alegremente. Nessa rotina se passaram dois anos. Talvez nossa amizade tivesse durado mais, porém um evento mudou tudo. Minha irmã Elvira nasceu. 

Quando Elvira nasceu a Lena começou a sumir lentamente. Foi como se minha mente entendesse que não precisava mais de algo imaginário, pois tinha uma irmã, uma companheira, de carne e osso. Sumiu até a última  visita que fiz na casa de minha infância. 

Ao entrar na casa fui direto ao quintal e vi a Lena no balanço. Ela continuou me encarando em um convite mudo para brincar. Diferente de mim ela não tinha envelhecido. Foi como se o tempo tivesse voltado e minha alma correu para atender o convite, porém meu corpo envelhecido não permitiu.  Meus joelhos já frágeis pelo passar dos anos protestaram. Logo me cansei e fiquei a encarando de longe. 

Uma lágrima escorreu enquanto tocava nas rugas do meu rosto e admirava a face jovem de Lena.Ela não era mais uma amiga. Tinha virado o fantasma da juventude que perdi.

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Informação

Publicado em 22 de março de 2020 por em Envelhecer, Envelhecer - Grupo 1.