EntreContos

Detox Literário.

Juliana de Outrora Alhures (Gary Oldman)

Foi no quase distante ano de 1964 que ela nasceu. Se menino fosse, seria Rômulo Jr., e não se falava mais disso. Se menina, Seu Rômulo Gregório, o pai,  queria homenagear a própria mãe, e sugeriu o nome Eunice. Entretanto, Dona Etelvina Silva Gregório, a futura mamãe, que nunca foi de ceder a ninguém quando tinha opinião formada sobre qualquer assunto, ignorou a homenagem à sogra querida e resolveu chamá-la Juliana, porque era esse o nome que ela mesma queria para si quando pequena, pois, convenhamos, Etelvina não é lá o nome mais bonito do mundo, em especial em sua cidade natal, Curitiba, onde ganhara o apelido de Vina, que ela, certamente, detestava.

Estava decidido: seria Juliana Gregório, como numa indecisão maluca sobre o tipo de calendário a adotar.

O bebê deveria então – segundo cálculos do obstetra – nascer sob o signo de touro, no fim de abril ou início de maio. Mas a agitação daqueles dias, com tanques nas ruas, manifestações, e a ameaça de algo mau no ar, acabou por adiantar a chegada de Juliana para a segunda semana de abril. Uma ariana, no ano do dragão, que deveria ser taurina em condições CNTP. Seria então impaciente e comilona? O tempo então diria, se é que horóscopo serve mesmo para algo além de quebrar o gelo em festas.

***

Dizem que devemos deixar as crianças serem crianças, pois terão quase toda a vida restante como adultos, já que a infância não volta jamais. Juliana teve uma infância bem normal, de família de classe média baixa: uma vez por ano na colônia de férias do sindicato dos comerciários, passeios de Kombi a Juiz de Fora ou à praia de Grumari. Visita aos primos em Niterói ou Bangu. Caro colégio particular, porque conseguira uma bolsa de 50%.

Não era muito magra ou gordinha, nem alta ou baixa. Cabelos castanhos escuros, olhos idem, pele que ficava bem castanha quando ia à praia, levemente míope. Era inteligente nas matérias de exatas e um bocado turrona com história, em especial quando tinha que decorar datas. Estudou inglês no CCAA, teve o primeiro namorado sério com 17 anos, quando passou no vestibular na estadual, mas só transou com 21, porque a família era chata e conservadora, e porque com 21 ela não “dava mesmo mais bola pra isso”.

Formou-se em Química, casou-se com um colega de universidade, o Saulo, com 27. Ele, o Saulo, era muito alto e magrelo, tinha o nariz adunco e a fazia rir o tempo todo, mesmo quando ele não tinha a intenção. Com trinta anos nasceu o Pedrinho, com trinta e dois, a Lorena, a Lôlô.

Com trinta e três, quando ela finalmente cedeu e resolveu ir ao encontro anual da turma de Química, foi quando as coisas começaram a ficar estranhas.

***

— Juliana?! – uma mulher meio gorducha a abordou logo que entraram no restaurante.

— Oi. Martinha? É você? – em verdade, Juliana mal a reconheceu.

— Mas, mas, meu Deus, como é possível? Você não mudou absolutamente nada! NADA! Me ensina o que anda fazendo, sua danada! Que cremes mágicos são esses? Tá com quantos anos agora?

— Trinta e três…

— Porra, eu não daria mais que 18 ou 19! Waltinho, Zeca, venham cá! Vocês precisam ver isso!

E assim aconteceu quando encontrou quase todo mundo. Em verdade, Juliana já estava incomodada há tempos. Lembrava sempre, por exemplo, de ter a identidade na carteira, pois sempre era pedida nos cinemas em filmes com censura para maiores, ou quando pedia algo para beber, ou quando iam a algum motel. Era constrangedor para a mãe de dois filhos, já balzaquiana, ter que ser submetida àquelas pequenas humilhações cotidianas. Isso fora as péssimas cantadas de garotos cheios de acne na cara, convidando-a para um sorvete, um “rolê” ou um cineminha.

“Mocinha, posso falar com seu pai?” – diria o senhor instalador da tevê a cabo, “Oh, meu Deus, tão novinha e já com dois pimpolhos!” – diria uma freira na rua, já com olhar julgador de quem não concordava com a suposta gravidez adolescente.

No trabalho, muitas vezes tinha que elevar a voz ou vestir-se de forma pouco jovial, para conseguir impor algum respeito, o que já era meio que regra para mulheres, mas que ficava pior em seu caso. Ainda assim, funcionários novos e estagiários a confundiam o tempo todo. Resolveu pintar uma mecha do cabelo de cinza, para disfarçar a cabeleira que nunca tomou conhecimento do que era um fio grisalho. A medida surtiu algum efeito por certo tempo.

***

No aniversário de 45 anos do Saulo, quando ela já tinha 44, o Juca, um primo do marido, tipo sem-noção, depois de meras duas cervejas, comentou: “O Sau parece mesmo um sugar daddy, mas sem a grana pra bancar as “novinha”, hahaha. O Pedrinho, deste tamanho todo, tem que tomar cuidado também, pois vão pensar que a Juju é sua namorada”.

Alguns olhares reprovadores fizeram Juca voltar sua atenção a uma terceira cerveja e a ficar quieto em seu canto. “É por isso que tá sozinho até hoje”, cochichou a Tia Carla ao Tio Joaquim.

Naquela noite, Juliana não pôde evitar de conversar quando estavam deitados.

— É óbvio que tem alguma coisa estranha comigo, Sau. É normal alguém aparentar mais nova, uns cinco ou até dez anos, mas olha pra mim: visto 38. Como feito uma loba e não engordo! Tenho metabolismo de adolescente! Não tenho rugas de expressão, manchas, fios brancos. Olha minhas mãos, meu pescoço, meus olhos. Todo mundo da minha idade tem alguma marca deixada pelo tempo. Minha mãe, coitada, já aparenta ser minha avó. E o Juca não tava de todo errado. Se eu sair de mãos dadas com o Pedrinho, vestindo jeans e camiseta e falando gírias, vão pensar mesmo!

— Bem, eu não acho nada mau. Um monte de mulheres da sua idade daria um braço ou uma perna para não envelhecerem.

Diante do olhar preocupado da esposa, ele mudou o tom: — Desculpa. Humm. Tive uma ideia: lembra do Sergio Lopez? Um amigão meu lá da faculdade. Ele se formou em biologia e depois fez pós e mestrado em genética. Soube que trabalha num laboratório estrangeiro. A gente poderia falar com ele. De repente ele conhece alguém, ou pode recomendar alguma coisa, um exame, sei lá.

— O Sergio “Chileno”? Aquele que fala pelos cotovelos? Bem, ok, o que fazer? 

***

Depois de conversarem com o doutor chileno, umas duas semanas após a coleta de material para um exame caro, ele os chamou para conversar. Estava visivelmente nervoso.

— Então, vocês tão vendo esta coisa enrolada na extremidade do cromossomo? – ele apontava com a caneta numa enorme tela para um novelo com formato aproximado de X — São seus telômeros. E eles normalmente vão encurtando conforme envelhecemos, a cada divisão celular – ele fez zoom na imagem. — Mas os seus telômeros, Juliana, são longos demais para sua idade, são resultado de alguma mutação que eu nunca vi, pois parecem terminar num nó cego, com alguma proteína esquisita colando tudo – tá vendo? – e talvez não se encurtaram desde que você nasceu. 

— E isso significa… – Juliana começou a formular a pergunta.

— Significa que – puta madre, no puedo creer que vaya a decir eso – que é possível, veja lá, que você seja biologicamente imortal. Que poderia morrer em algum acidente, é claro, mas não de envelhecimento natural.

Ficaram os dois calados por quase um minuto. Imploraram ambos sigilo ao Sergio, que concordou, em parte para poder investigar sozinho e em segredo, e também por cobiçar algo grande, talvez um Nobel num futuro próximo. Solicitou, contudo, mais material biológico para pesquisa: sangue, amostras de tecido, sempre que necessário.

***

Na noite seguinte, convidaram a família para conversar. Não só o núcleo principal, mas também avós, primos, tios e tias. Precisavam se proteger, precisavam planejar o porvir. Todos tinham caras preocupadas. Imaginavam talvez num problema de saúde, ou algo grave assim. Juliana começou a falar:  — Todo mundo já deve ter notado, há muito tempo, que eu não envelheci. Tenho a mesma cara desde os 18, 19. Tenho espinhas, às vezes, nunca pintei o cabelo para esconder cabelos brancos porque não os possuo. Então, fiz um exame genético e descobri que tenho uma mutação. Alguma coisa no meu DNA. Eu não vou envelhecer, aparentemente. Minhas células vão continuar a se copiar, sem falhas. Não sei quanto tempo eu vou viver, mas talvez seja muito, muito mais que vocês. Talvez eu viva para enterrar todos vocês! – as lágrimas vieram e sua voz ficou embargada.

Saulo interveio: — A gente não quer publicidade, não quer a imprensa ou os jornais. Os curiosos, os religiosos malucos que vão aparecer. A Juliana logo vai parecer mais nova que os filhos, vai parecer minha neta, e temos que escondê-la, temos que nos ajudar.

O Tio Joaquim, que era da Polícia Federal, levantou a mão e pediu para falar: — Ela vai precisar de uma nova identidade, Sau. Vocês precisarão mudar daqui também, para algum lugar onde não sejam conhecidos. A Juju terá que ser apresentada como sua sobrinha, enteada, não sei. Eu posso ajudar com isso! 

***

Em 2020, já estavam vivendo em Montevidéu, com nomes distintos. Juliana então parecia irmã mais nova de Lôlô e Pedrinho. Dois anos depois, Lorena teve um bebê e foi viver com o namorado. Em 2039, Saulo morreu. Em 2042, ela soube que Sergio morrera também, sem ter ganho o tal Nobel.

Em 2050, Pedro, que nunca casou, a apresentava como sua filha, anos depois, como neta. Em 2077, depois de três anos que tinham mudado – somente os dois – para Petrópolis, Pedro morreu. Juliana poderia então até se passar, se conveniente, por filha de seu neto uruguaio, Carlito.

Em 2099, adquiriu uma casa isolada e autossustentável numa remota área de reflorestamento, com autômatos ajudantes para cuidar dos animais e da lavoura. Produzia e vendia laticínios éticos e raros vegetais “originais”, sem alterações genéticas. De tantos em tantos anos, assim como quem troca de carro, abria uma nova conta sob outro nome, transferia os fundos, e “matava” a identidade anterior. 

***

Comemorava-se a chegada do ano 2264. Os céus do mundo eram iluminados à noite pelo anel dos estaleiros espaciais e pelas nuvens de microsatélites. Veículos flutuantes e movidos a hidrogênio passavam alegres pelo ar. Marte e Titã já tinham colônias há quase cem anos, uma sonda não tripulada explorava os sistemas planetários de Alfa Centauro. As pessoas viviam em média por mais de um século, e os planos de aposentadoria e fundos de pensão tiveram todos que ser revistos. Temas como poluição, aquecimento global, superpopulação, guerras, felizmente foram resolvidos há muito, embora não tão suavemente como poderiam ter sido.

Ela então ainda era fértil, mas não pretendia ter mais filhos, ou relacionamentos. Não desejava a experiência de ter que enterrar mais ninguém querido. Em razão disso, não tinha cães ou gatos, que apenas durariam um piscar de olhos.

No dia em que comemoraria seu tricentésimo aniversário, Juliana acordou de um sonho bom. Saulo a fazia rir, como sempre. Pedrinho era um menino tímido, carinhoso e teimoso. Lorena, rebelde e doce. Lembrou-se de todos, dos pais, de suas personalidades, que estavam tão vivas em suas memórias. Pensou também nos descendentes que tinha por aí e que desconheciam sua história invulgar. Refletiu sobre a sorte deles, por poderem envelhecer no tempo correto, por não terem que se despedir e seguir, sozinhos, sempre sozinhos, pela estrada que parecia não ter fim.

Até quando? Era a pergunta que lhe tirava o sono. E esse era um escape da realidade que lhe era tão caro!

Lavou o cabelo. Secou-o com um aparelho de secagem instantânea cuja tecnologia era completamente exótica para si. Então, ao se observar no espelho enquanto os escovava, encontrou uns quatro ou cinco fios grisalhos. Avidamente, observou a seguir o canto dos olhos, e sim, lá estavam elas: duas rugas em cada, ainda que muito discretas. 

Juliana sorriu e chorou de alegria. A estrada, repentinamente, revelou-se finita. Segredou-lhe, enfim, ter uma paragem final: “Até um dia desses.”

E Então? O que achou?

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Informação

Publicado em 22 de março de 2020 por em Envelhecer, Envelhecer - Grupo 1.