EntreContos

Detox Literário.

Dente de leite (Heleno de Freitas)

São velhos como os campos da várzea. Antigos como os cromos com as figuras de Ademir da Guia e de um certo “Diamante negro” – Leônidas. São pesados como a antiga bola de couro, preservada como fosse a mais valiosa peça da coleção desse museu em que eles se confundem com o próprio acervo. Ainda jogam com a bola pesada – eles não admitem essas modernas, tecnológicas e leves como balões de festas. Amam se misturar ao barro vermelho do campo, trabalhado em patchwork costurado aqui e alí por pequenas ilhas de uma vegetação que eles chamam de “grama”, mas é só um capim toscamente aparado. Só usam os uniformes de algodão, sem nenhuma frescura têxtil e chuteiras, pretas como devem ser e com travas afiadas o suficiente para marcar um território de tamanho amazônico. Poderiam se chamar dinossauros, mas adotaram o nome de “Enferrujados” e se encontram todos os sábados de manhã – porque velho acorda cedo!

Já foram mais numerosos, mas no jogo contra a vida, perderam alguns jogadores – a vida pratica um jogo desleal. Com sua sanha e apetite insaciável, tem ocasionado muitos desfalques aos “Enferrujados” e a reposição é difícil. O candidato tem que passar por uma enorme lista de exigências, desde pertencer ao bairro, nunca ter tido atrito nenhum com os titulares e fundadores – coisa bastante improvável se considerarmos que eles já se arrebentaram contra mais da metade da cidade. Foram brigas à beira do campo ou pós-partida, nos bares onde, fanfarrões exibem sua “marra” e pintam as estórias com soberba, exagerado brilho e sempre destinando aos adversários uma grande dose de humilhação, fundamentadas em portentosas mentiras, dessas que ninguém engole calado e daí, para uma confusão, empurra-empurra, nariz quebrado, dedos no olho, mordidas canibais e outras baixarias, é um peido. Claro, que essas confusões são de um tempo em que eram mais jovens e “cabeçudos”, quando tinham cabelos e topetes engomados no alto da testa e não, esses cabelos nas orelhas e na venta, quando o jogo era a “vera”, hoje só jogam amistosamente, mas ainda assim, não admitem que qualquer um entre no time.

Dos vinte e dois iniciais só restavam dezesseis, até esse sábado, quando o Nestor Bigode, 68, foi fazer o jogo do meio de semana nos campos celestiais.

— Como vamos fazer para formar os times? Perguntou o Natã “Magrelo”, 71 anos. Sim, todos tinham um apelido quase sempre vinculados a alguma característica física estranha, por exemplo: Fernando “Verruga”, 72, um dos goleiros, tinha, óbvio, uma verrugona preta ao lado do nariz, enquanto o Jair “Dedo de bode”, 66, exibia uma estranha abertura entre o dedão e o dedo vizinho.

— Os mais velhos ficam com oito e os guris jogam com sete… Propôs Vicente “Olho de peixe”, 61, um dos mais jovens do grupo, recém-integrado e disposto a se assumir como líder, cartola e capitão do time.

— Teu cu! – Desafiou Nelson “Formiga”, 78, este, um legítimo fundador. 

— Vamos fazer como sempre fizemo; dois capitães, tiram no par ou ímpar e escolhem os jogadores até não sobrar nenhum. Qual time vai ficar com sete, vai depender da sorte tirada.

Os capitães há uma década já, eram o Felipe “Trombeta”, 69, trombeta porque possuía uma voz poderosa e o Miro, 72 – que era só Miro, mesmo e foi ele quem ganhou a melhor de três no par ou ímpar. Começaram as escolhas.

— Fernando “Verruga, meu goleiro!

— Olívio “Moça”! Chamou “Trombeta”

— Nelson “Formiga”, meu centroavante matador!

E seguiram as escalações com o João Carlos “Boneco”, Expedito “Dito cujo”, Marinho “Belas pernas”, Jair “Dedo de bode”, Natã “Magrelo”, Toninho “Tesoura”, “Bicudo”, Edu “Sombra”, Heleno “Garrincha” e Vicente “Olho de peixe” que foi o último a ser escolhido.

Não havia juiz ou bandeirinhas, as faltas eram de quem gritasse primeiro. Antigamente, coisa de quarenta nos atrás, as coisas pegavam fogo. O jogo era uma batalha sangrenta; do pescoço para baixo tudo era canela e valia cada pernada. Aliás, valia de tudo, desde intimidação verbal até enfiar um dedo no fiofó do outro. Isso tudo num andamento presto, prestissímo, hoje, a cadência andante dá ritmo ao jogo, não se vê mais grandes explosões de músculo contra músculo, os dribles ficaram raros e as arrancadas velozes só permanecem na memória de quem viu. Terminado o jogo, o foco girava para a cerveja, a água ardente embebida no limão e a carne de gato, assando na churrasqueira de blocos, atrás do gol dos fundos que dava para a jaqueira.

Naquele sábado, os “meninos” se aqueceram, se alongaram e estavam preste a iniciar a peleja quando surgiu o italiano, braço estendido na lateral do campo, pedindo para jogar. Chamou atenção que usava uma chuteira, amoldada aos pés, parecendo uma sapatilha de balé, o shorts compridos chegando quase aos joelhos, estava sem camisa, revelando o que pareceu ser um top preto, desses que as moças usam ou, receararm pensar – um sutiã. Apesar dessa bizarrice, e frescuras de última hora, o italiano preenchia a maiorias dos requisitos esperados, tinha certamente, mais de sessenta anos, era do bairro desde sempre, tinha as duas pernas, não era um pederasta confirmado, não sofrera um infarto – essa era uma regra nova, adotada desde que o Mané “Bujão, bateu com as chuteiras em pleno jogo, depois de um ataque fulminante do coração, e também ou principlamente, entre as outras questões, o italiano nunca se bateu contra nenhum deles. O Italiano, por todos esses anos, era o sujeito que permaneceu afastado das brincadeiras do campo e das celebrações dos bares. Desde muito cedo, com a morte do pai, viu-se obrigado a cuidar da mercearia que pertencia a sua família, depois conheceu a Dona Ruth, casou-se, e sem demora, começou a encher as prateleira da casa com a Anna, a Silvana, a Sophia, a Cláudia, a Gina, a Mônica, seis bambinas, nenhum varão, só belas flores em sua calorosa torcida familiar. Guido, o “italianinho” como o chamavam, ainda cuidava dos negócios da paróquia, fiel escudeiro que sempre foi do Padre Jú. Todos o conheciam e a maioria gostava dele, era um sujeito bom, prestativo, respeitador e nas adversidades fazia fiado. O Time do “Trombeta” restara com sete então, o Italiano podia formar com eles. Tudo certo? Tudo certo.

Arrumaram uma camisa, a de número 14 e o “Trombeta” pediu que o italiano, talvez pelo porte franzino, ocupasse a lateral esquerda.

Chovera na noite anterior e o campo estava um lamaçal de respeito com direito a faixa presidencial, fator que determinava um jogo feio e truncado. Foi quando o Italiano, saiu da lateral e foi para o meio, “roubou” a bola do Expedito “Dito cujo” e saiu enfileirando o time adversário, com habilidade, velocidade e uma ginga, que há muito não se via. Da entrada da grande área, junto ao bico esquerdo, chutou com o lado de dentro do pé, levando a bola a fazer uma curvatura mágica, encobrir, o Fernando “verruga” e cair no canto alto direito. Golaço! Depois disso só se ouvia a voz do Trombeta, xingando seus jogadores a cada jogada do italiano, que jogava, parecia, uma partida de Copa do Mundo. Dribles desmoralizantes, chapéus, canetas… Vicente “Olho de Peixe” tentava o Diabo para derrubar, quebrar, partir o italiano ao meio, mas tropeçava na própria língua estirada. O cansaço tomava conta do time do “Trombeta”, do outro lado, os outros jogadores praticamente, só assistiam ao italianinho jogar, apenas completavam um passe, faziam um lançamento, uma cobertura e de resto, era correr… caminhar para o abraço.

Acabou o primeiro tempo. Vinte minutos que pareceram eternos, para a esquadra que perdia de 4 X 0, três gols do estreante e um do Heleno “Garrincha”, que acabou com uma “seca” de nove anos sem marcar.

Imediatamente ao término da primera etapa, enquanto alguns cairam ao gramado com o peito ardendo e sem ar nos pulmões, outros, uns três, declaravam que não voltariam para etapa final, o italiano ficou dando voltas nas laterais do campo.

— É para me manter aquecido! – Declarou para a cara paspalha do Miro, somente o reflexo, da maioria que se revolvia incrédula.

— Que idade tem esse sujeito? Sessenta? Sessenta e cinco? – Perguntou Nelson “Formiga”, no justo momento em que o italiano novamente passava pela turma reunida, exausta, acabada em paralelo ao seu trote rápido. 

— Tenho noventa e três, dente de leite!

Não podia ser, todos concordavam que isso parecia impossível, ao mesmo tempo, sem saber que era improvável ser ele mesmo, o italianinho se distanciava do grupo de descrentes em direção a um esplêndido horizonte, gozava uma forte crença: não eram suas pernas que carregavam a idade que possuía, era a idade da sua cabeça que dava força e vigor àquele corpo antigo. 

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Informação

Publicado em 22 de março de 2020 por em Envelhecer, Envelhecer - Grupo 1.