EntreContos

Detox Literário.

Em verdade vos digo (Quarentena)

O que primeiro chamou a atenção de Emanuel foi o cão. Curvado e decrépito, chocalhava os ossos pela rua de calor e poeira, enxovalhado por com quem se cruzava, com mais sorte ignorado. Passou por Emanuel sem uma atenção, em andar saltitante, até parar frente à parede de cal branca que, em povoação de construção em pedra, se destacava. Aproximou-se da brancura e alçou a perna. O amarelo pesado marcou a leveza do níveo. Emanuel observou-o a cheirar o serviço feito e a retomar caminho, na sua miséria e chocalhar. Mijara a igreja, o desgraçado. E era ainda assim a mais inocente das criaturas.

“Quer um tercinho, menino?”

A velha aproximara-se de Emanuel pelas costas, arrastando os pés, o corpo deformado embrulhado num traje cinzento e o rosto enrugado fixando-o sem pudor. Balançava num braço um saco de plástico esverdeado, enquanto com o outro lhe estendia um terço em croché azul-marinho. Adornara o crucifixo com uma rosa vermelha, tão horrenda quanto macabra.

“É a senhora quem os faz?”

“Todos”, devolveu a mulher. “Quer ver?”

Os dedos grossos apressaram-se a vasculhar o interior do saco.

“Deixe estar, deixa estar”, interrompeu Emanuel, erguendo os braços num esboço de impedimento. “Eu levo o que tem na mão.”

“Não leva também outro, para a mãezinha?”

Matreira da velha. Emanuel reafirmou a recusa, pagou o que ela lhe pedia pelo terço azul, e enfiou-o no bolso com descaso. 

“A senhora”, disse por fim, “está à vontade a vender à porta da igreja?”

“Então se não estou, meu filho, não haveria de estar porquê?”

“Os vendilhões do Templo e a fúria do Pai…”

“Ai, que riquinho, parece o senhor padre na missa, é um desses do seminário?” Perscrutou-lhe as sandálias de tiras, os calções surrados, a t-shirt larga, e os caracóis escuros à altura dos ombros. “Não é, não, que não tem ar. Então queria que fosse aonde, menino? À taberna? A clientela é aqui que a tenho.”

“E ninguém que a ajude?”

“Tenho umas coisitas das freiras lá de cima… Mas pouco dá, menino, para pouco dá”, respondeu, afastando-se já com novo terço – este em roxo – na mão. “Deus o abençoe, menino!”

“Pouco dá…”, repetiu Emanuel, retomando caminho ao acaso. O sino havia começado a tocar, chamando os crentes à Eucaristia. Apercebeu-se que a velha se afastara para se postar à porta da igreja, feita sabida, e a dualidade moral voltou a morder-lhe o espírito, vendo-a tentar vender produtos em solo sagrado, mas sendo incapaz de a censurar pelas necessidades mundanas. 

 

Se alguém possui bens neste mundo e, vendo o irmão em necessidade lhe fechar o coração, como permanecerá nele o amor de Deus? 1 João 3:17

 

Entrou no café do outro lado da rua, o espaço atarefado pela clientela que a manhã de lazer acarretava. Sentou-se sozinho, pedindo uma água com gás quando o funcionário o abordou, e fixou-se no televisor. Sem som – o burburinho das múltiplas conversas a decorrer tê-lo-iam tornado inútil –, a imagem e as legendas bastavam para que se adivinhasse as notícias que corriam. Seguiam sendo as mesmas, dia após dia, semana após semana. 

“Obrigado”, murmurou Emanuel quando a garrafa de vidro e um copo alto lhe foram colocados à frente. O empregado não o chegou a ouvir, tendo-se já virado para outra mesa em que o chamavam de braço no ar e rosto fechado. No televisor ignorado corriam imagens de um campo de refugiados que se quisera temporário e se prolongara: a lona das tendas fragilizava-se pelo uso contínuo, a organização descarrilara pela necessidade de acomodar os muitos que ainda chegavam, e a escassez de espaço tornara em lixo visual os parcos bens materiais. A câmara focou um homem que falava, um discurso mudo perdido entre as conversas de café, e por trás do entrevistado um bando de miúdos jogava com uma bola de panos. Emanuel seguiu o foco da câmara, que se aproximava dos rapazes na sua brincadeira de baixo custo. A imagem fora curta: uns segundos acompanhando-lhes a respiração, os pontapés, os inaudíveis gritos de incentivo que se lhes formavam nos lábios. As expressões envelhecidas, incapazes de eliminar o medo constante que aquietavam com uma bola de trapos.

A água com gás viera com sabor a limão. Emanuel estalou a língua, tomando outro gole. Não era o que pedira, mas deixou-se estar, pouco inclinado a chamar novamente o empregado e ainda menos a pedir por outra quando, distraído, já abrira e consumira daquela.

 

Não esqueçais o dever da hospitalidade. Foi por ela que alguns receberam anjos sem o saber. Hereus 13:2

 

“Isto está livre, amigo?”

O homem que o interpelara aguardava a resposta já com a mão na cadeira que pretendia levar, certo de que receberia uma afirmativa, e cumprindo apenas o civismo social. Emanuel não o desiludiu, confirmando com um aceno. O outro agradeceu, não perdendo tempo a virar a cadeira para a mesa dos amigos e a acomodar-se. Emanuel, distraído do televisor – onde, ademais, já se avançara para as notícias futebolísticas –, ouviu-o continuar a conversa interrompida.

“E juro que era assim, quem não soubesse não dava conta, parecia uma mulher a sério.” Risos na mesa. “Riam-se, riam-se, quero ver quando começarem a usar os balneários das vossas mulheres.”

“Ó Mota, achas lá que deixam isso acontecer?”, interpelou um dos amigos, o riso agora mais incerto.

“Com esta gente… Não viste lá aquele desfile em que meteram um deles a fazer de Cristo na cruz? Primeiro diz que é mulher, depois mete-se na cruz, como se não se soubesse ter sido Cristo homem… Nem sei, nem sei que raio lhes passa naquela cabeça, normais não são.”

“As gajas também ajudam a essa rebaldaria”, aventurou-se outro. “Não sabem o que querem, não se pode comentar nada, mas é cada provocação que vestem!” A mesa anuiu; gargalhou. “Depois surgem esses a substituir.”

Emanuel ergueu-se com brusquidão, deixando o pagamento na mesa e apressando-se a sair. Sentia-se enjoado. Fora para aquilo que fizera tudo? Fora naquilo que o seu exemplo – as suas ações, as suas palavras – envelhecera? 

Um novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros; assim como Eu vos amei, que dessa mesma maneira tenhais amor uns para com os outros. João 13:34 

 

A manhã aquecera, no entretanto, as ruas tendo-se tornado impiedosas. A missa ainda decorria, o coro ouvindo-se no exterior. Da vendedora de terços em croché não havia sinal. Nos cafés, as esplanadas abundavam em turistas e domingueiros, socializando entre bebidas frescas ou uma bola de gelado. Poucos caminhavam, subjugados ao peso veranil. 

O cão voltou a chamar-lhe a atenção. Curvado e decrépito, chiava no interior de uma transportadora cinzenta, carregada por uma mulher que soprava, em vão, para afastar o cabelo que se lhe colava ao rosto suado. 

“Queres ajuda?”, perguntou-lhe Emanuel, quando ela desistiu e pousou a transportadora, limpando a testa com um lenço e apanhando o cabelo com um elástico. A mulher surpreendeu-se, antes de lhe sorrir polidamente.

“Estou bem, obrigada.” Passou o lenço pelas axilas e enfiou-o no bolso. Voltou a pegar na transportadora, ignorando o evidente desagrado do cão, que ganiu mais alto. “Já estou habituada e a carrinha está logo ali.” Apontou com o queixo uma carrinha branca, velha, onde alguém grafitara Arca de Noé

“O cão é teu?”

Ela olhou-o de lado, desconfiada pela insistência.

“Nunca ouviste falar da Arca de Noé?”, perguntou-lhe.

“Já, mas parece-me que não seja a mesma coisa…”

“Somos uma associação de proteção aos animais”, explicou ela. Tinham chegado à carrinha e pousara a transportadora. Abria a porta traseira enquanto lhe falava, reorganizando mantas e sacos de ração. Emanuel ajudou-a a erguer a transportadora e a acomodá-la. O cão, nervoso, arranhava o plástico cinzento. “Focamo-nos em animais de rua”, continuou a mulher. “Este menino aqui vai ser desparasitado, alimentado, lavado e, quando estiver mais saudável, castrado.” Suspirou. “Se tivermos sorte, conseguimos que seja adotado ou pelo menos apadrinhado. Estamos pelas costuras, mas o canil municipal também… Às vezes a única coisa que conseguimos fazer é desparasitar e castrar, e voltar a soltar na rua.”

Emanuel sorriu. 

“Quem dá o que tem a mais não é obrigado”, declarou. Ela voltou a olhá-lo de lado, antes de fechar a carrinha. 

“Pois, talvez”, concordou, vaga. “Obrigada pela ajuda. Se quiseres um patudo, já sabes.”

Emanuel assentiu, afastando-se do caminho enquanto ela subia para trás do volante e colocava o motor a funcionar. A carrinha roncou para a vida e deixou-o sozinho, parado no largo frente à igreja, rodeado de cafés, calor e pó. Talvez ainda não tivesse visto quanto bastasse para chegar a conclusões. Talvez a sua palavra dependesse mais do recetor que do emissor, e o seu envelhecimento não fosse ainda final.

Teria então ainda muito a fazer.

“Em verdade vos digo…”

E Então? O que achou?

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Informação

Publicado em 22 de março de 2020 por em Envelhecer, Envelhecer - Grupo 1.