EntreContos

Detox Literário.

A Hora da Louca (Aninha)

 

A cidade ficou vazia de carros e a louca apareceu, inquieta, desgrenhada. Subia nas árvores, balançava, quebrava os galhos. Jogava pedras nos postes, as luzes tremeluziam, espatifando-se.  As mãos apanhavam varas, correias, não se cansavam de bater na carne dura, seca. O afiador de navalha lhe engrossara os lábios, arrancara-lhe sangue dos dentes. Agora, estava ali, sozinha nas ruas e as vozes se alongando a alcançá-la. 

Eu desviava os olhos, queria me opor às investidas furiosas contra a doida. Eu nunca a vira tão vulnerável, tão desalinhada… Estava boquiaberta e parecia muito confusa.

— Homem-de-saia! — ganhou o apelido porque tinha os cabelos curtinhos e amarrava a saia no meio das pernas. Até que descobriram seu nome: Ana. — Ana-de-saia? Não. Ela promovia uma zureta e Zureta seria… 

As crianças corriam atrás dela, sem preocupação. Foi então, sem saber se explicar, que ela saiu correndo em direção ao cesto de lixo. Apanhou uma garrafa e jogou… A garrafa acertou bem no meio do alarido. Tudo se aquietou para que o barulho do vidro feito em mil pedaços se fizesse sentir pleno e absoluto.

— É louca… Está louca — ficaram com medo: perigosa. A doida descobriu um sentimento novo pulando dentro do peito. Não era mais uma ave ferida, desesperada, saltando contra as varas da arapuca, o gosto de liberdade.  Ela se olhou com trêmulo orgulho: podia causar medo. Gosto de vidro estilhaçado, gosto de sangue. Lembrava, com nitidez, uma vaca empacada que deitada no chão, não queria seguir para o matadouro. Picavam-na com varas de ferrão, os cães lhe dilaceravam as orelhas, os grandes olhos brancos fitavam esgazeados. Tinha passado o limite da dor… 

— Sô uma véia! Não tenho força! Pode ajudá? — de casa em casa, de bar em bar; comida pouca, cachaça muita…  

— Ei! Acorde, você está dormindo no caminho — o passante, tampava o nariz, olhava para os lados e voltava os panos da saia rodada, que com o nó desmanchado, era erguida pelo vento.

— E prá mostrá memo! — a louca se remexia… 

Zureta, não se sabe de onde veio, ficou na cidadezinha. Um ser de nada. De nada ser. Só podia contar consigo mesma, embora tão pouco. Foi ganhando, a cada dia, a cada ano, as coisas amontoadas nela, o que ajuntou e o que ajuntaram. Quanta coisa se formou com cuidado, levou tanto tempo… Muitas coisas foram tiradas, mesmo arrancadas com dor, foram se desprendendo devagarinho, de manso, e foram ficando para trás, para sempre perdidas e a que a doida olhava, de longe, sem mágoa e sem rancor. Mente nublada. Noites sem sono, a vagar pelas ruas.

 

 

As histórias que ouvi sobre ela; ou, que ela mesma contou:

Havia o rumor das pombas, ruído modulado, de raros sobressaltos. Aninha baixava a cabeça para não as ver, reservando o encanto para depois. Sabia que elas estavam ali, num ângulo do telhado, deixava-se embalar pelos sons, perdendo também, por alguns instantes, a manhã estuporada de luz. A menina, de tudo esquecida, embalada pela orquestração conjunta dos pombos. E podia imaginar um pombo vermelho, entre os outros, mas sabia que o pensamento pulando dos pombos para o dia, tinha que necessariamente confundir as coisas.

Ana transformava os livros de estudo, plantando sonhos em sua aridez. O amarelo da capa do livro de Geografia a levava a distâncias incríveis, para muito longe dos oceanos; assim, durante as aulas, vagava por campos dourados, amolecia-se entre árvores perfumadas, no convívio excitante dos duendes, semideuses e guerreiros. Grutas se levantavam do fundo do mar, e os borrifos da água açoitada espirravam na cara do professor e dos colegas. Ana tremia de susto, mas lá continuava sua viagem… era bom vagar pelos mapas. 

Transportava-se com facilidade para as ilustrações dos livros, ia modificando as fábulas, espantando os animais moralistas. Quase sempre as histórias interessavam, mais pelo que tinham de aventureiro e profano. Inverteu a História do Brasil, fundou um império, expulsou jesuítas, brigou com portugueses, andou, andou pelo mundo… mundo da lua.  O é possível, o pode ser, sempre caberiam, sobretudo quando não tinham lá virtudes muito santas. 

Quando fazia exercícios, a mesma divagação. Os livros de Física, Química, Matemática, além de fornecerem algumas poucas explosões e muitos círculos perfeitos nos boletins, serviam para apanhar mosquitos pousados nas páginas ou encantavam pela maciez do papel, pela disposição dos números, pelo mistério das incógnitas. Enfim, eram porta aberta para corridas intermináveis através do tempo e do espaço. Era sedutor ficar à margem de um rio de águas selvagens atravessando, como gente estranha, para a outra margem em procura de um senhor verdadeiramente forte a quem servir.

Pena que a jovem era arrancada em violência de suas fugas, devolvida ao prosaico do dia-a-dia, da realidade presente, chocha e banal. Professores gesticulavam a apontar regrinhas sepultadas em pés de páginas.

— Ah. Não devemos fazê-la pensar — disseram. Alimentava-se então de brioches e brigadeiros, dedilhava o violão. O instinto a convidava a correr mais rápido…

 

Carnaval. Os hotéis mais que cheios… O povo em ânsia. A farmácia. Diazepam. Provigil.

— Uma caixa dá pra quanto tempo? — podiam ser adquiridos sem receita médica, ainda. Sorvia o curto prazer, mas não via aplicação imediata para a mercadoria. A inquietude exigindo cada vez mais o novo, diferente. Queria ser descolada. Buscava liberdade, mas era prisioneira das compulsões.  

—Não sei com que gastei todo o meu dinheiro, só sei que gastei. No fim do mês, estou sem nada e não tenho dinheiro nem para comida — repetia Ana, exausta — estou com fome de bicho, mergulho em meu corpo… corpo bom que me sacia. Dava um pulo no banheiro, escovava os dentes e arrumava os cabelos alisando-os com as mãos umedecidas em lavanda e um pequeno pente negro.

Ana enxergava apenas para um lado. Mesmo uma suave corrente de ar podia embaralhar suas lembranças. Era preciso assestar-lhe a vista em uma direção, num rumo determinado. Apontar-lhe um objetivo, nunca muito distanciado. Não sabia olhar para os lados e, o que era mais importante, nunca, jamais olhava para o fundo. A profundeza era um reino interditado. Também não ouvia muito, sensível apenas a músicas de estrutura linear e ruidosas: Enquanto você/ Se esforça pra ser/ Um sujeito normal/ E fazer tudo igual/ Eu do meu lado/ Aprendendo a ser louco/Um maluco total /Na loucura real…

O mundo oficial e organizado lhe mandou um ofício, dentro das normas exatas, lamentando a sua demissão da faculdade. Agradeceram os serviços; puseram-se à disposição cordialmente; os votos de felicidades são extensivos a toda a família… Foi com uma certa pena que ela desmanchou essa ordem perfeita, a simetria dos parágrafos, a data colocada no lugar certinho, a assinatura caprichada, o automatismo bem disposto das palavras — e jogou tudo no lixo, como coisa vazia, insossa e definitivamente sem préstimo.

Recebeu uma folha de caderno do namorado. Faltava o r da palavra sorvete; derretera. Tudo escrito à mão, caligrafia irregular. Verdade em cada palavra, sentimento em cada traço. Uma onda de afeto, crescente e irregular, impediu a organização dos parágrafos, até as vírgulas eram falsas. E, com avidez, ela ia jogando tudo para dentro de si, fortificando, alimentando-se da grande ternura findada. Estava grávida… Hora de entrar em pânico? Aguardar um sentimento de vergonha?  Uma enorme onda de insegurança a invadia como uma avalanche, enquanto pensava cuidadosamente no próximo passo… 

O filho nunca nasceu. Outro ponto final acontecia. 

— Faz muito tempo que estou descendo? — A mulher vivia em aventuras e aventurava-se para viver. — Não sei o que fazer — declarou, inquieta. — Talvez, se eu puder explicar o que aconteceu. — Merecia ser punida? Ou, talvez, tivesse chegado a hora de começar a aprender de novo…

— Não existe mais tempo para você. Só espaço! — a consciência restante refletia. Ana ofereceu a alma ao diabo em troca de um pedacinho do mundo. Podia dar uma olhada naqueles locais na volta, mas se sentia inquieta por essa tendência recente a se extraviar em estranhas ausências, como se um envelhecimento repentino a estivesse vencendo. Voltava a experimentar a estranha sensação de ter perdido de vista seu propósito. Qual era? Melhor seria se enfiar debaixo de uma pedra.  

Escolheu as ruas mais silenciosas e alternativas, sentindo-se como um rato fugindo pela sarjeta. Tornou-se personagem, encharcada de suor, tremendo, vomitando, chorando. Escrevia em notas e embrulhos varando a noite em convívio de amáveis cachaceiros e brigas e cansaços. No último bar escutou histórias de peixes estranhos, rios longos. Chegou o tocador de cavaquinho. 

— Meia garrafa. Precisa sobrar pro pão. Sola cavaquinho!!!

— Solar cavaquinho é difícil. Olha aqui meus dedos — bolhas sanguíneas nas pontas.

— Mais uma dose — copos semi molhados, o suor no rosto. Quando a embriaguez chegava, o abandono era urgente. Ao ar, os olhos se crucificavam em todos os pontos vagos, fazendo contas, somando disparates. O momento em que não mais se importava. Não havia pânico, nem remorsos. 

Ninguém quis servir-lhe o vigésimo gole. Alegaram o adiantado das horas. Era madrugada. Dormiu na porta do bar, à espera do sol. Acordou tarde, sentindo calor. Levantou-se e buscou sua própria sombra. Onde estava?  

Ana nunca teve coragem de contar o que realmente se passou. Ela se catalogava sem compaixão como aquela mulher que transita pela família, pelas escolas e pelos empregos sem deixar nenhuma marca nos outros. Nunca tivera nada de bom, nem nada de especial, e isso sempre lhe parecera justo. Enormemente. Por isso ela preservou, a partir de vestígios quase ilusórios, fragmentos de ocasiões ou sensações perdidas para sempre.  

Ficou inerte e amortecida pelas ruas, bicho esquisito se procurando, examinando as patas, experimentando os olhos, tocando as mãos… As pernas picadas pelos insetos, engrossaram como tomadas por elefantíase. Os cabelos ficaram grossos, suarentos. Seca, sem lágrimas, tapas estalando na cara; os meninos zombando das roupas muito grandes e disformes. Por companhia, um cachorro magro, com alguns bernes, faminto. Latia longe, modulando. 

Perdeu os mínimos, perdeu a mola, perdeu o sol, perdeu o só, perdeu a contextura. E de tanta ausência, de tanto nada, de tanto vago, de tanto só, fez-se aquela figura, ao seu dessabor e incoerência. Um ser sem nada. Era Ana? não era? era o quê, ou era quem? ninguém ou nada? coisa vivente?  

— Por que não tenho sede, nem fome, nem nada? — ela se indagava.

— Você está se alimentando de sua queda. Ela é tudo para você! — Veio do fundo, sem rumo sem setas, tentando estabelecer o contato entre o que fora e o que era. 

— Fala mais alto, não estou escutando — Zureta pedia. Queria saber, sem angústia, se para ela haveria o amanhã.

— Claro, pois ninguém está falando. Daqui por diante, ninguém fala mais. Uma queda tem que ser em silêncio. Não se compreende uma descida com palavras…

Ana rodava no mundo. Nos quartos, oferecia os seios, oferecia as ancas, oferecia promessas. O ventre se abriu… fecundada. 

— Vou mudar. Não é esse o caminho. Vou fazer uma romaria — tentava recomeçar na corrida, como se o movimento pudesse livrá-la dos estilhaços dessa nova tristeza adicional, acrescida. 

  Mas uma louca também se dilui entre as coisas, porque é pouco; impossível conter a multidão dos normais. O bebê nasceu. Uns dizem que morreu, outros que foi dado. E, ela se incorporou à rotina dos frutos nas árvores, dos homens nas ruas e até se diluiu nas cantigas pendentes de lábios no ar…

Assim ela viveu cada dia, buscando respostas, tentando entender… Perdida numa certeza firme. Uma pequena parte dela ainda se agarrava à racionalidade; sabia que aquilo não condizia com a realidade, que não era certo. Doía-lhe a dor que causava em torno. O coração batia forte, as chinelas rangiam no chão, tinha que dar um passo de cada vez. Sentia-se fraca.

 

 

— Eu me escondia da louca. Fazia e refazia em rápida corrida a longa rua deserta e iluminada. O cansaço me liquidava, mas a louca era, estava, fazia… e me procurava. 

Quando por fim me escondi e me julgava em paz (pais ao lado, uma casa de vários cômodos, grande e vazia) chegaram com a louca. 

— Está morta — disseram — conseguimos apanhá-la. Deixaram no chão uma casca de corpo. Uma vida subterrânea silenciada. Trazia, às escondidas, nos recônditos do crânio oco uma minúscula porção de nexo? Não. Não trazia nada. Havia muito já descrera.  

Mesmo morta, amarelada, aquela louca era terrível. Imaginei, de repente, ela se levantando, num ímpeto fúria. Arrebentar as cabeças dos mais próximos, com duros estalidos, arfante, a baba grossa caindo em fios até o chão. 

Era a louca.

Enquanto eu estava no processo de olhar para os próprios pés e respirar profundamente, a porta se abriu. Pisquei uma, duas, e na terceira vez, sabia que deveria começar a fingir, já que não me faria nenhum bem perceber a verdade. Pensei em algo para dizer, mas as palavras me faltaram. Não havia nada de engraçado, nem de trivial, nenhum assunto em que conseguisse pensar. Meus olhos continuavam se desviando como se fossem atraídos por uma força magnética que os levava a coisas que não remetiam à revelação.

— Acredito que todo mundo merece saber de onde veio — disse a especialista. 

Foi naquele momento que entendi tudo, por inteiro. A resposta abriu caminho lentamente em minha cabeça, como todas as decisões difíceis.  Zureta-Ana deu-me a vida. Ela não queria que eu fosse como ela. Abandonou-me, de fato. E eu corri… 

Descobri a verdade. Desolação. Perifericamente sentia e comecei a descobrir situações. Uma dor no peito, no coração, para ser mais precisa, que começava com o pensamento de ter de ir até o limite, que aumentava diante do fato de realmente estar ali e que piorava ainda mais por saber que aquilo não era um sonho, nem um alarme falso. Era a vida na sua forma mais cruel. Uma vida que desafiava. 

E fui me projetando no rosto de Ana, buscando as perdidas origens. Parecia com ela? Certos gestos e trejeitos? Não. Uma onda de náusea me invadiu. Só isso. 

 

Pela cortina da janela, um brilho pálido anunciava o romper do novo dia. Meus pés doíam, a cabeça pesava uma tonelada e algo como uma armadura invisível mantinha meu corpo aprisionado. Meu quarto surgia da penumbra. Demorava-me em cada item: fotos, quadros, guarda-roupas, espelho, cama, banqueta, livros … Destrinchei as imagens da infância. Entre elas, as mais recorrentes, ligavam-se à solidão. Incapaz de falar ou me mexer. Presa no próprio corpo, com a mente intacta.

Quem eu era? era a louca? não era? era o quê, ou era quem? era eu? Podia chamar-me de eu? Experimentei: eu! mundo! e tudo era inútil, assustadoramente inútil. Não abri um espaço na minha vida. Mesmo sabendo que ocorreria uma soma, como se a família tivesse crescido. Era tarde…

 

E esse caminho / Que eu mesmo escolhi / É tão fácil seguir / Por não ter onde ir / Controlando /A minha maluquez /Misturada / Com minha lucidez…

Sobre Fabio Baptista

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Informação

Publicado em 1 de novembro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 4, R4 - Série B.