EntreContos

Detox Literário.

A Onça do Sertão (Zé Pernambucano)

 

Tacarantu, PE – 1922 

Na pequena cidade, gritaria e correria ouvia-se pelas ruas.

– Vamu embora daqui homi! Isso não é lugar decente pruma família – A mulher protegia uma criança em seu colo, incomodada com as raparigas ao redor.

– Não tem jeito, mulé. O bando de Virgulino Ferreira tá por aí, dizem que eles não atacam bordéis. Vamos ficar aqui até eles irem embora – o homem falava sem muita convicção, olhando preocupado para o filho, aninhado nos braços da mãe.

– E de onde você tirou isso? – retrucou a esposa, indignada.

No lugar da resposta, a porta do bordel se escancarou num baque e três homens entraram. Trajavam chapéus de couro com abas torcidas para cima, moedas ornavam-lhes a fronte e a farda marrom lhes identificavam: cangaceiros.

 Um deles se adiantou. Era jovem, bonito e robusto, possuía um queixo quadrado e uma mandíbula possante, os cabelos loiros brilhavam à luz do sol.

– Era só pagar o resgate e tudo ficava bem… – falou ele – … mas o prefeito daqui num se importa com a vida d’ocês. Parece que uma lição tem que ser ensinada!

– Faz isso não, seu Corisco… – um velho choramingou.

O jovem rapidamente puxou seu rifle e alvejou o velho que falara. Um verdadeiro massacre começou. Pessoas corriam tontas enquanto os cangaceiros abatiam uma a uma, sem distinguir cor, sexo ou idade.

– Corre lá pra cima e se esconde! – Gritou a mãe para o filho, segundos antes de receber um balaço nas costas, que a derrubou. O menino congelou, vendo a mãe morrer. Um berro o despertou: -VAI!!! – o pai o empurrou escada acima antes de também ser abatido a tiros.

O garoto subiu as escadas, correndo junto às mulheres seminuas, mas o assassino tinha suas ordens. Implacável, deixou o resto de seus cabras terminando o trabalho ali e subiu as escadas atrás dos fugitivos. 

O menino entrou por uma porta entreaberta, se deparando com uma mulher com os seios desnudos sentada numa cama.

– Se esconde aqui embaixo, rápido garoto! – ela o puxou para debaixo da cama. No corredor, o facínora se aproximava, deixando uma trilha sinistra de súplicas, xingamentos, gritos e tiros.

Pela porta que o garoto entrou, surgiu o perseguidor, o rifle fumegava nas mãos e seus olhos se cravaram na nova vítima. Mas a mulher, marota, levou as mãos aos seios pesados, acariciando-os, e abriu as pernas para o cangaceiro, convidando-o a conhecer o que tinha no meio.

O assassino, apesar de cruel, não era de ferro. Colocando o fuzil de lado, rapidamente tirou as calças e avançou para a mulher, que o esperava com os braços abertos.

Abrigado, o menino ouvia sons guturais e gemidos, enquanto a cama pulava. Ele teve vontade de sair do esconderijo, mas ouviu a voz da mulher:

– Ah meu menino, bem aí, bem aí, fica aí. Eu vou cuidar bem de você. Isso, isso, não sai daí. Eu vou cuidar de você.

O cangaceiro gorgolejava em resposta, sem pescar que as palavras não eram para ele, mas o menino pescou. E obedeceu.

 

Barra dos Mendes, BA – 1940

Situado na rua principal do pequeno vilarejo, o bar de dona Laurinda era um refúgio certo para quem queria bebericar uma cachacinha ou saborear um sarapatel.

Uma menina magra e de longos cabelos escuros entrou pela porta da frente do bar com uma cumbuca de água na cabeça. Ela ignorou os homens no salão e foi até o balcão, onde dona Laurinda a aguardava. Enquanto passava a cumbuca para as mãos da avó, a luz do sol que penetrava o bar pela porta foi eclipsada por quatro sombras.

Os recém-chegados trajavam o uniforme típico, ornado e adornado. De flores de lis à punhais. Um silêncio sepulcral baixou no estabelecimento. Todos pararam suas atividades no meio, seja o que estivessem fazendo. 

Os cangaceiros entraram fitando cada pessoa visível e se dirigiram para uma mesa vazia. 

Para o povo da cidade a presença dos cangaceiros ali não era novidade, todos sabiam que o bando de Corisco estava pela vizinhança, mas isso não queria dizer que os tratariam com menos deferência.

O grupo prosseguiu até sua mesa, quando o cangaceiro nomeado como Zepilim bateu os olhos na menina, estática no balcão. Ele se aproximou-se dela, avaliando-a de cima a baixo e ergueu uma de suas madeixas para cheirar-lhe o pescoço, ao que a menina virou o rosto, aterrorizada

– Quantos anos tem tua neta, dona Laurinda? 

A dona do bar respondeu gaguejando: – Treze anos, seu Zepelim.

– E ela trabalha bem?

A velha engoliu em seco:

– Que nada, meu sinhô … essa aí é mole demais.

O cangaceiro lhe deu um sorriso maroto e apalpou as nádegas da jovem, a fazendo pular num grito.

Os cangaceiros gargalharam.

– Pois tá decidido! Vou levar essa menina. Qual o nome dela?

– Pelo amor de Deus, meu sinhô… Ela é só uma criança, a única neta que eu tenho. Num faz isso não…

– O nome? – repetiu Zepelim em tom ameaçador.

A velha respondeu.

Zepelim a segurou pelo braço com firmeza: – Pois muito bem, tu vens comigo. Ando precisado de uma esposa.

– Ei! – chamou alguém.

Zepelim se virou e viu o homem que o chamara. Era um rapaz de cerca de 25 anos, a barba por fazer era a única coisa visível por baixo do chapéu de aba larga, sua vestimenta era toda cor de areia. Na mesa, uma garrafa de aguardente.

– Algum problema aí, ô atrevido?

– Tenho sim… – respondeu o homem erguendo o rosto para encarar os cangaceiros – eu acho que vocês estão quebrando as regras deste estabelecimento. Seria de bom tom que pedissem desculpas à dona Laurinda e à neta dela, fossem embora e não voltassem mais.  

O silêncio no bar agora tornou-se envolto a uma atmosfera de terror ante a arrogância e loucura do sujeito. Até os cangaceiros ficaram perplexos diante de tamanha ousadia. Após alguns segundos de espanto, Zepelim colocou o demônio na cara e foi até o sujeito, seguido dos seus:

– Mas que cabra folgado!!  Tá querendo morrer, rapaz? Quem tu pensas que é? Corisco? O diabo do Onça Parda? Ou talvez Lampião em pessoa?

Interpelado, o homem ignorou o cangaceiro e, sem pressa, sorveu mais um gole de sua aguardente, deixando os bandidos ainda mais furiosos.

Zepelim puxou o enorme facão da bainha: – Pois vou cortar tua mão fora, pra tu aprender boas maneiras. 

O cangaceiro desceu o facão velozmente contra o pulso do homem, mas o alvo se moveu alguns centímetros, suficiente apenas para deixar a lâmina cravar-se na madeira crua. Um movimento claramente calculado. 

Naquele momento, despercebida pelos cangaceiros, a mão esquerda do sujeito subiu segurando seu próprio facão e, num golpe veloz como um relâmpago, amputou a mão de Zepelim, que ainda segurava seu facão fincado na mesa.

Foi uma confusão. O cangaceiro berrou agarrando o coto sangrento. Quando seus homens tentaram levar as mãos às armas, o estranho já empunhava seu revólver e com quatro tiros precisos, derrubou os quatro cangaceiros.

As pessoas no bar ainda permaneciam ali, estarrecidas, enquanto o único cangaceiro sobrevivente se arrastava pra fora.

O executor levantou-se e, tranquilamente o seguiu até a porta do bar, onde se agachou ao lado do cangaceiro ferido, um rapaz de no máximo 17 anos.

– Garoto, tu vais me fazer dois favores: vai juntar tuas coisas, abandonar o cangaço e voltar pra casa de tua família.

 O rapaz segurava o ombro, alvejado e chorou:

– Eu não posso! Corisco me mata se eu fugir.

– Isso me leva ao outro favor: antes tu vais até Corisco e vai dizer a ele o que aconteceu aqui.

– Pode deixar! E não vou dar um pio sobre quem fez!

O homem colocou seu revólver no queixo do garoto: – Se tu não disseres quem fez, ainda hoje te mando pro colo do diabo!

 –  Mas eu não sei nem o teu nome, meu sinhô! – suplicou o garoto.

O homem colocou o revólver no coldre e respondeu: – Eu tenho muitos nomes. Tu podes me chamar de Tião Onça Parda.

Ante aquele nome, o garoto arregalou os olhos, aterrorizado.

– O Suçuarana?!

– Esse também serve. Agora vai.

O garoto partiu mancando, enquanto o recém nomeado Tião Onça Parda voltava para dentro do bar.

Os clientes remanescentes, se encolheram quando ele passou e falavam baixo:

– Tu ouviste o nome dele? É o Suçuarana! A Onça do sertão!

–  Tião Onça Parda, o matador de cangaceiros? Mas eu achei que ele estava pelas bandas do Sergipe!

– Eu também, mas olha o facão dele ali. Dizem que o cabo é feito do osso do primeiro cangaceiro que matou…

Dona Laurinda, choramingou:

– O que tu fez, homi? O que tu fez?  Agora o bando de Corisco todo vai vir pra cá!

– Eu tô contando com isso – respondeu o pistoleiro – E acho melhor vocês irem embora, antes que eles cheguem.

Ninguém esperou segundo aviso, e quando Laurinda partia com sua neta, a menina deu-lhe um beijo. Ele acariciou a bochecha, talvez lembrando de amores, amizades ou bons atos perdidos no passado. Mas logo, seguiu para seu cavalo que estava arreado próximo dali. Precisava se preparar.

 

Uma hora depois.

 

O tiroteio diante do bar de dona Laurinda era intenso. O bando de cangaceiros encurralara o Suçuarana e o fogo cruzado era pesado. Dos vinte e oito cangaceiros que atacaram, doze já estavam mortos e o resto sopesava suas chances.

– Sai daí, seu desgraçado! – gritou um dos cabras – Se escondendo feito coruja do mato!

– Covarde! – emendou mais um.

– Num é a gente que tá caçando ele, é ele que tá caçando nós! 

O grupo de cangaceiros atirava balas e bravatas, sem ousar deixar seus abrigos. De dentro do bar, as respostas vinham na forma de tiros certeiros.

 – Ouvi dizer que ele já matou mais de cem cangaceiros, é o diabo em pessoa! – um dos cabras falou.

– A gente devia é escapulir daqui. Os macacos também tão vindo aí – respondeu o colega – Ficar entre os mocas e o Onça Parda é pedir pra morrer.

Súbito, um tropel se ouviu à distância. O fogo cessou e os cangaceiros viram um cavalo se aproximando. O cavaleiro parou na frente do bar, ignorando o perigo. Era um homem alto, o chapéu-meia-lua de couro trazia a estrela de Israel. O olhar, impiedoso. Nas mãos, mais anéis que dedos.

– Capitão Corisco! –seu bando murmurou em uníssono.

O famoso cangaceiro voltou-se para o bar e gritou com voz braba:

 – Onça Parda! Sai daí, seu filho de uma égua! Vem ver os cabra que vão te mandar pro inferno!

De dentro do bar, a voz do Suçuarana respondeu pela primeira vez às bravatas:

– Cabra? Num tô vendo cabra nenhum. Só vejo um monte de corpos! VOCÊS JÁ ESTÃO TODOS MORTOS!

Os corações dos cangaceiros, aquecidos pela chegada do líder, agora mergulharam no mais genuíno pavor. Era o Onça do sertão lá dentro, e daria cabo de cada um ali.

Mas Corisco não chegara sozinho, trazia a neta de dona Laurinda na garupa. Ele apeou e colocou o facão na garganta da menina, que chorava copiosamente.

– Eu ouvi dizer que tu queres a mim. Pois eu vou até aí, e se tu te atreveres a qualquer coisa, eu juro pelo meu Padim Padi Ciço que mato essa menina.

Silêncio. Era a resposta esperada pelo cangaceiro. 

– Vocês – ele se voltou para os remanescentes de seu bando – vão embora daqui que os macaco tão chegando. Eu me acerto com esse desgraçado.

Os mais corajosos protestaram, os menos, se aliviaram, mas todos acabaram debandando, enquanto Corisco adentrava o bar, mantendo a menina refém.

Tião Onça Parda ergueu-se detrás do balcão mantendo o cangaceiro na mira de seu fuzil.

– Agora joga tuas armas fora e vem pra cá – ordenou Corisco.

Suçuarana o manteve na mira por um tempo, talvez cogitando mandá-lo para o inferno junto com a garota, mas acabou obedecendo. Largou o fuzil, abandonou o rifle, a submetralhadora e os revólveres que estavam ao redor, um verdadeiro arsenal, montado com um único objetivo.

O cangaceiro jogou a menina num canto, mantendo o facão na mão esquerda.

 – Agora nós vâmo resolver isso na faca!

Sacando também o seu facão na mão esquerda, Onça Parda se colocou em guarda. O Diabo Louro era perigoso na faca. Os dois se espreitaram e trocaram alguns golpes rápidos e o clangor metálico assustava a menina, encolhida num canto do bar onde trabalhava.

O primeiro sangue verteu do pistoleiro, e ante o sorriso debochado de Corisco, contra-atacou, impingindo sangue ao cangaceiro também. O combate prosseguiu. Cada golpe era dado com precisão e cautela por dois adversários que se odiavam, mas se respeitavam.

Cansados e feridos, os dois homens fizeram uma pausa, esperavam o melhor momento para o bote fatal. Corisco via o ódio nos olhos do adversário, como se matá-lo fosse seu objetivo de vida. Talvez fosse mesmo. Lentamente, ele baixou o facão, sendo imitado por Onça Parda.

– Ouvi dizer que você mata cangaceiro até de graça. Por que nos odeia tanto? Por que você quer tanto me matar? 

Tião Onça Parda sequer piscava, mas respondeu:

– E por acaso saber o motivo vai fazer alguma diferença?

O Diabo Louro pensou alguns instantes e concluiu:

– Não… Não vai não.

E os dois se encararam, prontos para o golpe derradeiro que estavam preparando. Olhos nos olhos, os corpos, estáticos, aquele seria o ato final.

Corisco se moveu primeiro, levando a mão direita às costas. Mas mesmo perdendo na iniciativa, ao puxar seu revólver, preso às costas assim como o de Corisco, Onça Parda foi mais veloz que o cangaceiro e alvejou seu coração. 

O Diabo Louro pareceu não acreditar. Só tinha conseguido atingir a coxa do Suçuarana e em contrapartida, seu peito sangrava. Estava derrotado. 

Foi quando ouviram um brado lá fora:

-Se entrega, Corisco! Venha pra fora devagar, tu tá na nossa mira, seu demônio! – Era Zé Rufino, o capitão da tropa Volante, acompanhado de seus macacos.

Corisco ergueu seu facão, mas deixou o revólver cair: – Eu não sou homem de me entregar não, Rufino! – e em seu último suspiro avançou contra os policiais, mas foi alvejado pelas metralhadoras, caindo morto na entrada do bar.

O Capitão Zé Rufino se aproximou do corpo do cangaceiro, confirmou sua morte e olhou o local destruído à bala. Sangue estava pelo chão. 

Um soldado raso se aproximou vendo o pandemônio dentro do bar: – Finalmente matâmo esse desgraçado, meu capitão.

Zé Rufino apertou os olhos: – Acho que aqui tinha dois diabo em guerra… e parece que um escapou.

 

Algumas horas depois

 

Tião Onça Parda estava no lombo de seu cavalo, cavalgando calmamente pela planície deserta do sertão. Seu olhar, agora manso, divisava o sol poente. Lembrava de muita gente que lhe dissera quando garoto que a vingança não lhe traria bem-estar nenhum. Ele olhou para seu revólver e sorriu; eles estavam errados. E seu cavalo prosseguiu, sem pressa, rumo ao horizonte.

 

FIM

Sobre Fabio Baptista

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Informação

Publicado em 1 de novembro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 4, R4 - Série B.