EntreContos

Detox Literário.

A Gota que Desafiou a Lua (Bárbara)

Apoiando os cotovelos no batente, Raissa observava a chuva através da janela, suspirando. O bafo quente da respiração embaçava o vidro. Segurava firmemente as lágrimas, enquanto vislumbrava a luz da lua, iluminando gotículas que seguiam seu trajeto tranquilo pelo vidro.

Em seu reflexo, observava finalmente irromper o pranto represado. As gotas quentes tocavam suas mãos, que sustentavam as bochechas. 

Permaneceu assim pelo que parecia uma eternidade. O passar do tempo realmente é insondável na mente das crianças de 7 anos. Quando a lua já subia alta e os olhos de seu reflexo estavam inchados, sentiu alguém se aproximar pelas costas.

Aconchegando-se ao seu lado na poltrona, sua irmã mais velha envolveu-a num apertado abraço. 

– Sempre gostei de sentar aqui para observar a chuva – Catarina, que parecia tão inchada quanto o reflexo de Raissa, suspirou com a voz rouca. – Adoro a forma como as gotas escorrem pelo vidro, deixando atrás de si esse pequeno rastro…

Um silêncio carregado de significados seguiu essa sentença. O calor do pranto de Raissa agora acariciava os ombros desnudos da irmã. 

-Tata… – a garotinha rompeu, timidamente, o silêncio – tem gotas que chegam rapidinho até lá embaixo, mas tem outras que demoram um tempão…

Catarina sorriu gentilmente para a irmã. Entendia perfeitamente os pensamentos da criança.

– Você conhece a história da gota e da lua? 

– A gota e a lua? – a menina, curiosa por natureza, levantou rapidamente a cabeça, parecendo esquecer por instantes a tristeza. – Me conta!

– Hmmm… não sei, acho que não tô a fim – Catarina virou o rosto, escondendo a risada.

– Ah, vai contar sim! – a garotinha fez biquinho, tentando disfarçar o sorriso e puxando o braço da outra. – Você sempre faz isso, e sempre acaba contando.

– Já sei. Vamos fazer uma corrida de gotinhas. Você escolhe uma, eu escolho outra. Se você ganhar, eu conto a história. Se eu ganhar… – coçou dramaticamente o queixo, revirando os olhos como se resolvesse uma difícil questão. 

– Fala. Fala looooogo…

– Se eu ganhar, você grita bem alto que eu sou a rainha do mundo, e que você me ama – concluiu a garota, em tom de sentença. Cruzando os braços, olhou desafiadora para a outra.

Levantando-se de um pulo, Raissa lançou um olhar atrevido, colocando as mãos nas cinturas.

– Há, há. Muito engraçado. Até parece que você é a rainha – uma expressão decidida atravessou o rosto da garotinha, e a irmã sentiu uma emoção preencher seu peito. A irmã mais nova era uma cópia viva da mãe.

Com os olhos ameaçando encher d’água, apontou para a janela e disfarçou:

– Então escolhe logo sua competidora, espertinha. A minha é aquela ali.

– Vou pegar aquela gordona lá em cima, e você não tem chance nenhuma – apontou, mantendo o tom divertidamente atrevido.

Entre protestos de Catarina pela injustiça da escolha e provocações de Raissa, as irmãs observaram a trajetória das corredoras, entre gargalhadas.

– Que fique claro que essa corrida foi injusta – começou a garota, enquanto a outra fazia uma espécie de dança da vitória. – Mas como eu sou alguém que sempre cumpre as promessas, senta aí. Você vai conhecer a grande história – abriu os braços, como mágico que anuncia o início de um espetáculo – da gota que desafiou a lua!

Em meio a aplausos entusiásticos de Raissa, começou.

 

Certo dia, uma gota muito corajosa, chamada Bárbara…

 

– Pera aí, as gotas têm nomes?

– Nessa história, têm! Vai me deixar contar?

– Vou, é que…

– Hum-hum – pigarreou Catarina, lançando um olhar superior, e continuou como se não tivesse sido interrompida.

 

… chamada Bárbara, olhou para a lua e decidiu desafiá-la. 

 

– Uau, que corajosa! – exclamou a garota, sua boca formando um perfeito O.

– Xiiiu – a irmã repreendeu. Escondendo o riso, levou o dedo indicador aos lábios, e prosseguiu.

 

As gotas viviam em nuvens, sempre temendo o momento em que seriam jogadas para fora de casa, em direção ao desconhecido. Por isso, todas evitavam se mover demais, para que a mãe nuvem não se irritasse e as expulsasse. 

Quando alguma delas tentava falar algo, todas as outras apenas soltavam um “fica quieta”, em uníssono…

 

– O que é isso, Tata? Unínosso… 

– U-nís-so-no, bobinha. Quer dizer que elas falavam juntas, ao mesmo tempo.

– Aaah…

 

.. em uníssono, e lançavam um olhar repreendedor. Assim, com medo da reação das demais, todas elas se limitavam a trocar olhares e torcer para que o pior não acontecesse.

Havia uma lenda antiga. Uma lenda que era compartilhada aos sussurros entre amigos, quando as gotas mais velhas estavam dormindo. As crianças são sempre mais ousadas, sabe? A lenda contava sobre uma gotícula muito corajosa, que havia pulado sozinha para fora da nuvem, e havia conseguido pousar num lugar mágico.

Nesse lugar, a gota encontrou milhões de outras gotas, que viviam livres, brincando, se locomovendo e conversando sem medo.

 

A irmã mais nova parecia pendurar-se em cada palavra, absorvendo boquiaberta a história.

 

Essa gota lendária ficou conhecida como Magda, a garota que desafiou a morte. Todas as crianças sonhavam com Magda, a corajosa cavalheira que rompera o triste destino das gotas. 

Porém, resignadas – “resignado é alguém que não reclama, que aceita tudo, Rá…”; “aahhh…” – as gotinhas morriam de medo de dar uma de Magda e acabar se espatifando lá embaixo. 

Um dia, a Bárbara perguntou pra um adulto sobre a Magda, e tomou uma baita bronca. “Você é uma irresponsável, menina” – ralhou a velha gota. “Vai acabar matando todas nós! Fica quieta e vive sua vida”.

“Vida?”, pensou Bárbara, amargurada. “Isso não é vida. A gente só fica aqui, parada, e lá fora um mundo imenso e desconhecido.

A menina guardou aquela insatisfação em seu coração, e começou a pensar constantemente no mundo lá fora. Por um vão na parede da nuvem, conseguia olhar e ver o mundo. Às vezes, iluminado pelo deus Sol, o mundo brilhava em cores, e ela podia ver centenas de criaturas que voavam ao redor, divertindo-se entre giros e risadas. Outras, iluminadas pelo prateado da deusa Lua, algumas criaturas esgueiravam-se pela escuridão do mundo, gracejando e enamorando-se, enquanto tantas outras dormiam silenciosamente.

Era um mundo realmente fantástico e amplo. Muito maior e mais bonito que o interior daquela nuvem. 

Em uma dessas noites, enquanto deliciava-se em observar a beleza de amplos campos pelos quais passavam, ouviu um riso ecoar por todo o espaço.

– Quem está aí? – sussurrou, temendo ser repreendida. – Do que você está rindo?

– Aqui em cima, mocinha. Sou eu, a Lua. Estou rindo de sua covardia. Fica aí, todos os dias, sentada sonhando com um mundo que nunca vai conquistar. Logo, logo, os Dragões vão mover suas longas asas, e as nuvens vão expulsá-la impiedosamente – a deusa, com sua voz sonhadora que parecia colocar quem a ouvia num profundo transe, tentava intimidar a menina. Bárbara já havia ouvido sobre o senso de humor dos deuses, que gostavam de caçoar e menosprezar os mortais, mas não se assustou. Era uma garota de fibra e coragem.

 

Vacilante, Raissa ergueu a mão.

– Que foi, Ra?

– O que são esses tais de Dragões, Tata?

-Que bom que perguntou…

 

Os Dragões eram criaturas impressionantes. Contavam as lendas que eles eram animais enormes, do tamanho de pequenos planetas, que tinham seus corpos protegidos por impenetráveis escamas, focinhos longos de ponta fina e enormes dentes, e asas de tamanho incalculável. Eram responsáveis pelas chuvas, controlando-as pelo simples mover de suas asas. Quando as moviam, todas as nuvens, obedientes, lançavam milhões de gotas em direção ao solo. Quando um dragão estava particularmente bravo, causava tempestades terríveis. Dizem que os raios vinham de seus olhos, tão profundos quanto os oceanos.

Enquanto pensava naquelas criaturas magníficas, Bárbara respondeu, insolente: 

– Senhora Lua, não tenho medo de suas palavras. Sou herdeira de Magda, a garota que desafiou a morte. Um dia, também voarei livremente pelos céus, e encontrarei a terra mágica, onde todas as gotas vivem felizes. Levarei também todas as outras gotas.

– Sua tola! – a deusa Lua exaltou-se, e uma escuridão ainda mais densa condensou-se sobre o mundo. – Como ousa me desafiar? Com meu poder, posso destruir planetas inteiros. Apenas com minha vontade, posso acabar com esse mundo insignificante. 

O retumbar daquela imponente voz causou furacões e maremotos. A nuvem toda balançou, e milhares de gotas iniciaram rezas baixinho, temendo por suas vidas.

Uma única gota manteve-se em pé, olhando nos olhos da Lua. 

– Você é uma criatura estranha, garotinha… – a Lua, num tom intrigado, olhava nos olhos daquela pequenina gota d’água. – O que me propõe?

– Você deve conhecer todos os Dragões do mundo, senhora Lua. Se eu conseguir chegar ao mundo mágico, você conversa com seus amigos Dragões, e pede para que eles batam suas asas de forma gentil, cuidando para que todas minhas amigas gotas sejam lançadas no momento certo, e desçam tranquilamente em direção ao mundo. 

– E se você perder? – rebateu a Lua, lançando um olhar penetrante em direção àquela curiosa adversária.

Bárbara apenas sorriu, e, sem responder à Lua, lançou-se pelo buraquinho na parede da nuvem, deixando para trás uma multidão de gotinhas boquiabertas e uma Lua com um inesperado olhar de satisfação e admiração.

 

Satisfeita com o olhar admirado da irmã, Catarina fez uma pausa estratégica. A garota era realmente boa em causar um efeito dramático.

– E aí, acabou? – perguntou a irmã, confusa.

– Não! Foi aí que começou a grande aventura da Bárbara!

Impressionada, Raissa abriu um grande sorriso e se acomodou melhor na poltrona. A chuva caía ainda mais forte lá fora, milhões de gotas desafiando os desígnios da Lua.

 

Logo que abandonou o conforto da nuvem, Bárbara se viu num mundo totalmente novo. Sentiu o frio do vento atravessá-la, e seguiu em queda livre em direção ao solo. Olhou a toda volta, congelada de pavor. Naquele momento, não passava de uma pequena pedrinha de gelo, como um granizo.

Por um tempo, sentiu que tinha cometido um grande erro ao entrar naquele desafio com a Lua. Fechou os olhos com força, evitando olhar para o mundo que se aproximava rapidamente. Até que ouviu uma voz aguda.

– Abre esses olhos, menina. Não tenha medo.

A voz calorosa preencheu-a por completo, e arriscou uma olhada para o lado. Voando junto dela, uma daquelas incríveis criaturas com asas que ela adorava observar de sua nuvem. 

– Senhor Pássaro. Cometi um grande erro. Estava segura dentro da nuvem, e agora estou caindo em direção ao chão, sem conseguir controlar meus caminhos – lamentou a pobre gota.

– Muito pelo contrário, senhorita! – um novo pássaro apareceu, cantando naquela voz doce e suave. – Você finalmente controla seus caminhos. Passou a controlá-los quando se lançou de forma tão corajosa.

Enquanto falava, entrelaçou-se num voo tranquilo com seu companheiro. Seus olhos brilhavam, e olhava confiante para a escuridão. 

– Muitas vezes… – dessa vez, a voz vinha de alguém acima. Bárbara ergueu os olhos e avistou um terceiro elemento, com uma reluzente penugem vermelha… – é necessário se jogar no desconhecido, para descobrir que não se conhecia nada sobre si mesmo. 

– O senhor fala engraçado, senhor Pássaro. Para onde vocês estão indo?

– Para onde você for, minha garota – respondeu a ave pomposa. – Vamos te acompanhar, assim como acompanhamos sua antepassada Magda, e tantas outras. Ela também tinha medo. Todas sempre começam congeladas de medo, mas acabam libertando-se como brilhantes e molhadas gotas.

E os quatro amigos seguiram viagem, desafiando o vento e a velocidade da queda. Quando se aproximou o suficiente do solo, a garota perguntou: 

– Senhores pássaros… o que eu faço quando atingir o chão?

– Todas as gotas atingem o chão. Seu voo sempre termina. Nem por isso, deixam de voar, minha garota – o Pássaro vermelho soltou a nota enigmática, mudou a direção do voo e partiu em direção ao desconhecido, acompanhado de seus dois amigos.

– Nos vemos lá em cima, menina – sorriu o primeiro Pássaro, e disparou ao céu.

A gotinha atingiu em cheio o solo, e tudo ficou escuro.

 

Raissa debruçou-se em direção à irmão, ávida pelo fim da história. Após uma pausa dramática, Catarina prosseguiu.

 

Após um momento em que parecia que tudo tinha acabado, a gotinha sentiu que deslizava pela terra, em meio à escuridão. Como se soubesse o caminho, esgueirava-se por aqueles labirintos. Lembrando-se do olhar desafiador da Lua, reuniu toda sua coragem e forçou passagem, esforçando-se e apertando-se por cada minúsculo corredor.

Após um tempo que pareceu uma eternidade, e manifestando uma força que jamais imaginou que tivesse, finalmente chegou ao fim daquele caminho. Ali, finalmente começou a ouvir alguns sons. Eram vozes!

Centenas, milhares de vozes que riam, brincavam e falavam livremente. 

– Olhem – algumas delas diziam – temos uma nova amiga. Ela acabou de chegar. 

– Seja bem-vinda! 

Percebeu estar cercada por milhões de outras gotas. Todas elas formavam um grande grupo, um aglomerado de gotas que formavam um fluxo incessante. Percorriam o interior da terra, como uma única vida. Eram livres e podiam se expressar sem medo. Juntas, seguiam em direção ao desconhecido. 

Após muito e muito tempo de viagem, e tendo feito milhões de novas amigas, Bárbara se viu caindo num grande rio, e percebeu que, agora, não era apenas uma gota, mas um imponente rio. Sorrindo, olhou para o alto, e recebeu em retorno o sorriso da deusa Lua. 

Até hoje, milhares de pequenas gotas contam a história de Bárbara, a corajosa, e reúnem coragem para seguir seu caminho em direção ao desconhecido.

 

Quando finalizou a história, viu que Raissa chorava. Seus olhos marejavam, lançando gotas quentes pela face. Mas agora sorria. Sem dizer nada, a garotinha abraçou Catarina com força, pensando sobre como algumas gotas chegam antes ao solo, talvez cedo demais, mas como todas elas caminham juntas e acabam se reencontrando no rio.

Após um tempo, olhou novamente pela janela. A chuva cessara, e agora um agradável luar iluminava as inúmeras poças que penetravam pela terra.

E a vida se renovava a cada instante, sob o olhar penetrante da deusa Lua.

Sobre Fabio Baptista

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Informação

Publicado em 1 de novembro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 4, R4 - Série A.