EntreContos

Detox Literário.

Erro Humano (Sonny David Hal)

A fábrica do futuro terá apenas dois empregados,

um homem e um cachorro.

O homem estará lá para alimentar o cachorro.

E cachorro estará lá para impedir

que o homem toque nas máquinas.

Warren G. Bennis

 

Eram as primeiras férias em anos. Com a nova Lei da Empregabilidade o funcionário que quisesse tirar férias precisava deixar um clone em seu lugar. Bruno havia economizado parte do salário dos últimos cinco anos até conseguir o suficiente para pagar pela clonagem e finalmente poder tirar férias.

O que ninguém gostava era de ter que destruir o clone em até trinta dias. Seria bom poder guardá-lo e usá-lo nas férias do ano seguinte, mas como no passado muita gente abusou, apesar de a clonagem continuar permitida a existência do clone ficou limitada à no máximo trinta dias.

—Você marcou o doador?

—Não. Eu ia fazer isso depois. Foi eu sair da sala e deu essa confusão.

—Você entende o tamanho do problema que sua incompetência causou?

—Desculpe.

—Pedidos de desculpa não vão desfazer o erro. Agora é entrar lá e ver como vão reagir. Quem vai dar a notícia é você e se o doador decidir nos processar pode ir se preparando porque vou cobrar de você em dobro.

O ano é 2165. A tecnologia da clonagem evoluiu e qualquer um com quinhentos coins, a moeda da época, poderia encomendar uma cópia exata de si mesmo com todas as memórias transplantadas até o momento da extração.

A cópia era tão exata que o protocolo exigia a marcação da cópia imediatamente após a clonagem para que ela não fosse confundida com o doador.

Bianca, uma funcionária recém contratada pelo sistema de sorteio que substituiu o antigo sistema de cotas, negligenciou essa marcação. E era a única coisa que ela precisava fazer.

Se encarregassem as máquinas de todas as tarefas os humanos não teriam trabalho. Na clonagem a marcação era a única tarefa que dava para ser desautomatizada. E como a nova Lei da Empregabilidade obrigava as empresas criarem tarefas nos processos para os humanos fazerem, o fabricante da máquina clônica optou por deixar a cargo dos humanos apenas a marcação da cópia, mas nem isso a funcionária fez. Bastaria tê-la marcado assim que acordasse usando um código holométrico.

O começo da transferência transcorreu bem. Bianca precisou ir ao banheiro e calculou que daria tempo de ir e voltar antes de o processo encerrar. Não deu. Ao voltar o processo já havia encerrado e tanto o doador como a cópia saíram da impressora ao mesmo tempo e se misturaram. De pé contemplavam um ao outro e era impossível saber quem era quem. Ambos acreditavam ser o original.

Na época dos robôs erros como este não aconteciam, mas desde a proibição como substitutos da mão de obra humana e mais a implantação do sistema de sorteio substituindo o sistema de cotas, a empresa tanto podia receber um funcionário gênio quanto um completo idiota, que por sinal era a maioria.

Incidentes envolvendo imprudência, imperícia e negligência ocorriam com frequência alarmante. Ou era isso ou ter que lidar com um mar de desempregados perseguindo e destruindo robôs, como já acontecera.

Cópia e doador aguardavam a liberação em uma sala reservada. Não se falaram desde o procedimento, mas se olhavam tentando descobrir algum detalhe, alguma particularidade que os distinguisse.

Normalmente assim que abrem os olhos a funcionária explica a situação, mas neste caso, como a funcionária não estava, era impossível saber quem era quem.

Interrompendo a auto apreciação entraram na sala, o gerente e a funcionária Bianca.

—Bom dia senhor Bruno. Como se sente?

Os dois responderam ao mesmo tempo:

—Bem.

Se entreolharam e riram, não atentando para a gravidade da situação. O gerente explicou:

—Houve um pequeno imprevisto durante o procedimento. Nossa funcionária vai esclarecer a ocorrência e no final acreditamos que tudo vai dar certo.

A expressão de alegria dos gêmeo-clonados — o nome dos que se submetiam ao procedimento — cedeu lugar a apreensão.

—Senhor Bruno. O protocolo exige que o doador seja marcado imediatamente após o término da clonagem, mas houve um imprevisto. Eu me ausentei por alguns instantes e quando retornei vocês já haviam saído da máquina e se misturado. Não temos como saber quem é a cópia e quem é o doador.

—Como assim? Eu sou o doador., disse um.

—Nada disso. Eu sou o doador., disse o outro.

E o clima ficou tenso. Ambos sabiam que em trinta dias um deles seria descartado e o melhor a fazer seria destruir a cópia, um procedimento perfeitamente legal. Como tiveram a mesma ideia e ao mesmo tempo acabaram se atracando tentando tirar a vida um do outro, para não morrer depois.

A funcionária foi a primeira a deixar a sala e o gerente, que começou tentando apartar, acabou por tomar partido e decidiu manter vivo apenas um, fosse quem fosse, pois assim se livraria do problema. Traiçoeiramente golpeou um dos Brunos pelas costas e o outro Bruno fez o resto. 

Feito o descarte o gerente se comprometeu a providenciar outra cópia sem custo adicional e ainda fornecer alguns coins para que as férias fossem ainda mais prazerosas. O Bruno sobrevivente gostou da ideia e estava certo de ser ele o doador.

A clínica estava sendo investigada fazia algum tempo e um micro drone espião registrou tudo em 3D com 128k de resolução. Em princípio as imagens não poderiam ser divulgadas devido a nova Lei da Privacidade Máxima, porém um hacker curioso teve acesso aos vídeos e os publicou na Meganet. Acompanhando as imagens desde o fim da extração pôde-se ver claramente que quem sobreviveu foi o clone. E ele não poderia permanecer vivo. Para piorar, agora eram dois, outra violação grave da Lei das Cópias que previa pesadas multas e prisão para quem fizesse cópia de clone.

Prestes a embarcar no foguete que o levaria à estação de férias espacial, a cópia do Bruno foi retirada da fila pelas forças de segurança local e em seguida levada para a mesma cela em que se encontrava sua cópia e o gerente, formalmente acusado de assassinato.

Foi uma noite difícil em que se ouviram impropérios de ambas as partes até a chegada da manhã. Mas quando foram buscar as cópias para serem descartadas perceberam o erro que foi colocá-los todos juntos na mesma cela. O gerente não sobreviveu.

Bem que a Inteligência Artificial do depósito de presos tentou alertar, mas o funcionário não era um robô, era um dos sorteados.

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Informação

Publicado em 1 de agosto de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 3, R3 - Série C.