EntreContos

Detox Literário.

Ervas Daninhas (Senhorita)

Não era a primeira vez que eu estava naquela posição, caída, as mãos ferindo-se no chão áspero e as poucas peças de roupa espalhadas ao redor. Mas aquilo não era o pior. Os olhares sim. Não deles. Delas. Das damas que passeavam orgulhosas, braços dados aos maridos. Da jovem que recebia um aprendizado valioso de sua preceptora, sobre o que acontece com mulheres que ignoram os desígnios da sociedade. Era o quinto trabalho que eu perdia em dois meses. Devagar, comecei a catar meus poucos pertences e os cacos de minha dignidade. Como se não fosse o bastante, a natureza pareceu zombar de mim quando uma forte brisa levou para longe uma de minhas peças. Corri atrás, ouvindo as risadas. A peça parou aos pés de um homem sentado num banco. Meu sangue ferveu de raiva quando ele pisou nela. Usava óculos escuros e parecia apreciar minha penúria.

— Pode me devolver isso, senhor? 

— Perdão? 

Com brusquidão, puxei a peça que rasgou sob seus pés. Fitei o estrago por um momento, em perplexidade.

— Senhorita?

— Quão prazeroso é ter o poder de ferir a dignidade de uma mulher? — perguntei mais para mim que para ele. — Qual a sensação de deter o poder?  Não esperei por uma resposta. Encarei friamente todas que me assistiam. — Tolas, acham mesmo que estão livres do mesmo destino que eu? 

Corri para longe, novamente sem destino. 

***

Já estava escuro quando cheguei à hospedaria. Os cheiros de fumo, cerveja e suor denunciavam que aquele era um lugar que eu poderia pagar uma noite e uma refeição. Depois de instalar-me, desci e me servi de uma sopa rala, fria e amarga. O burburinho e risadas cessaram quando uma figura reluzente entrou naquele antro. Uma mulher de meia idade com um vestido deslumbrante e coberta por joias. Ela olhou para cada rosto ali até parar no meu, um meio sorriso formou-se em seus lábios vermelhos. Segundos depois, sentava diante de mim, avaliando-me. 

— Revigorante, assustador, excitante — foi o que disse. Notando minha confusão, explicou-se: — São só algumas das sensações de ter poder. 

Senti um arrepio ao me lembrar dos acontecimentos de mais cedo. Fiz menção de dizer algo, mas, ela pousou um dedo delicadamente sobre meus lábios. 

— A pergunta, minha querida, é: você quer provar?

***

Já fazia um mês que eu estava naquela casa, habituando-me a sua estranha rotina. Todos os dias, nós nos reuníamos no salão para estudar línguas, culturas e danças. Oito mulheres ao todo, além de Madame Laura que nos rodeava como uma serpente prestes a dar o bote. Cada uma de nós possuía uma peculiaridade, um segredo íntimo e uma curiosidade latente. Éramos como espelhos umas das outras. Não amigas, mas – cúmplices.  Madame Laura nos perguntava a cada dia se queríamos desistir, a resposta era sempre a mesma: “Não”. Duvidava que o que nos motivava em seguir um plano que incluía assassinatos era algum instinto maléfico. Todas nós tínhamos cicatrizes no corpo e na alma e, sim, queríamos vingança ou justiça, o nome não importava. Mas, acima de tudo, queríamos equilibrar a balança.

— Elisa?

Madame Laura me chamou. Todas me olharam em expectativa, como se soubessem o que ia acontecer. Levantei da mesa de estudos e a segui. A verdade é que não éramos só nós. Havia ele. O patrocinador, o maestro de toda aquela orquestra. Não sabíamos os seus motivos, mas ele estava lá.

Quando entrei no recinto, fui tomada pelo cheiro de essências. Victor vestia-se de branco, os cabelos desgrenhados. O olhar era distante, típico de quem vivia na escuridão. Dalila, uma menina com seus doze anos, era sua guia. Ainda não havia me acostumado à sua figura miúda, silenciosa e desfigurada. Doía-me imaginar o que aquela pobre criança sofrera. Era bonito ver os dois juntos, havia muita ternura. 

Quando elas saíram, ele se aproximou. 

— Posso?

Não sabia exatamente o que estava permitindo, mas assenti. 

Ele tocou num cacho escuro do meu cabelo, acariciou. Quando se aproximou para cheirar, prendi a respiração. Colocou-o de lado, dando acesso ao meu pescoço. Tremi quando o senti cheirar sem me tocar um centímetro. Estava concentrado, como se precisasse captar alguma coisa do meu ser. A sensação deliciosamente doce, acompanhava lembranças amargas. 

— Não precisa temer— falou.

Só então percebi a tensão do meu corpo 

— É apenas reconhecimento. — Beijou delicadamente minha mão, dispensando-me.

Não demorou até eu entender o que ele estava fazendo, nos momentos em que nos fazia companhia era fascinante notar como distinguia cada uma de nós sem nos enxergar. O perfume, todas usavam uma essência única.

Ele buscava a minha.

O tempo foi passando e aparentemente não encontrou. A frustração afetou meu comportamento. Tudo me irritava, principalmente as aulas de danças onde eu tinha o pior desempenho.

— Se é sobre nós, porque somos lideradas por um homem? — questionei durante a aula, no momento em que ele chegava ao salão.

Todas ficaram em silêncio. 

— Me vê de forma errada, Srta. Elisa.

— Como devo enxergá-lo?

Ele caminhou até o centro, procurando-me.

— Se eu tivesse uma essência não teria dificuldades em me encontrar — provoquei.

Suas sobrancelhas ergueram-se em surpresa. Vendo-se vencido, estendeu a mão como um convite.

— Tens razão. 

Hesitei antes de me aproximar. Ele largou a bengala e pôs a mão na minha cintura. Lentamente começamos a nos mover. 

— O que procura?

— Me prometeram poder. 

— E o que encontrou? 

— Vestidos bonitos! 

Ele riu. 

— Instrumentos. 

— Como?

— Tudo que foi colocado à sua disposição, inclusive eu, são instrumentos para que chegue ao seu objetivo.

— Não compreendo.

— Conhecimento é poder. Aproveite o que lhe é oferecido, senhorita. Não abdique dos seus anseios e desejos.

Nossos movimentos ficaram mais rápidos, como ele conseguia se mover de forma tão perfeita? 

Tropecei. 

— Feche os olhos.

Olhei-o, incrédula. Seus olhos espelhavam a singela e triste beleza de um lustre apagado. Obedeci e me deixei levar.

Naquela noite não consegui dormir pensando em suas palavras, na valsa, na segurança que senti em seus braços. Eu já provara aquilo antes e fora essa a minha ruína. Condenada pelos desejos, jogada na rua. Dentro de mim cresceu o fruto da minha desgraça e, pelas mazelas, escapou do meu ventre sem que eu tivesse tempo de amá-lo. 

Levantei, percorri os corredores da casa escura e silenciosa com o coração acelerado. Cheguei diante de sua porta e entrei. A parca luz vinda da janela recortava a silhueta solitária.

— Senhorita Elisa…

— Como sabe que sou eu?

Ele não respondeu.

— O que está faltando, Victor?

— Inspiração.

Caminhei até ele, despindo-me lentamente. Sua vulnerabilidade me excitava.

— Sinta de novo – pedi. 

— Não está aqui pra isso…

— Estou aqui para agarrar as oportunidades e não abdicar dos meus desejos. 

— Aprende rápido. 

— Quero apenas sentir isso sem culpa ou julgamentos.

Em silêncio, ele travava uma batalha consigo. Busquei sua mão na escuridão e coloquei-a em meu rosto, deixando-a delinear meus traços. Depois repousou no meu coração que batia descompassado.

— Não tenha medo. É só reconhecimento — falei. 

Foi o bastante, sua mão percorreu o caminho até meu seio e apertou sem delicadeza, como eu queria. No segundo seguinte estávamos entrelaçados. Em enlevo, joguei o pescoço para trás, ele sentiu e o explorou com seus lábios. Suas mãos percorreram minhas costas, lentamente descendo até encontrar minhas coxas. Gemi enquanto suas mãos percorriam o caminho de volta e se enroscavam nos meus cabelos. Ele sentiu meu cheiro como se fosse o melhor dos perfumes. Meu corpo tornou-se um mapa que ele percorreu com os dedos e a língua lenta e intensamente, passeando por lugares desejosos até então secretos pra mim. Ele demorou-se nas partes que me proporcionavam maior prazer, provando-me, saboreando-me, levando-me ao êxtase.  Aprendi rápido e fiz o mesmo com ele, arrancando-lhe suspiros e sons inebriantes. Fiquei por cima, movimentando-me a bel prazer. Não queria perder a ação do desejo, o poder do meu corpo. A sensação de estar dominando aquele homem.

***

Fomos reunidas numa sala fria e silenciosa como um túmulo. Lençóis brancos cobriam o que pareciam ser quadros. Madame Laura tinha um semblante cansado. Um a um, revelou os quadros que estampavam rostos femininos. Reconheci Dalila, não muito mais nova do que era, o rosto de menina belo e intacto.

— Apenas uma coisa separa vocês delas — Madame falou. — Uma Segunda chance. Com exceção de nossa amada Dalila, todas estão mortas. Não houve clamor ou justiça. Pelas nossas leis, nunca haverá. Seus algozes caminham entre nós, impunes. 

Ela nos contou a história de cada uma de forma poética e teatral. Ouvimos com atenção, emocionadas. Carregando a certeza de que não haveria mais volta. Uma em particular deixou Madame em silêncio por alguns minutos.

 — Esta é Marcela. — disse enquanto acariciava o belo rosto da jovem no quadro. — Sempre foi uma menina sonhadora e romântica. Dizia que, sem amor, não havia sentido na vida. Aos dezessete anos foi vendida ao filho de um nobre pela própria mãe. Teria uma vida de princesa. Casou-se apaixonada por outro homem. Amor de infância, quem pode com ele? Decidiram fugir, mas era tarde. Numa noite de tempestade onde os gritos de fúria e desespero foram silenciados, Marcela foi estrangulada até a morte pelo marido que dizia amá-la. Ela era… minha filha e esse — disse tocando as joias que jamais tirava — foi o preço de sua vida.

Um frio intenso percorreu meu corpo.

  — Não quero que pensem neles. Pensem apenas nessas mulheres, memorizem seus rostos e suas histórias. Esqueçam seus próprios demônios, suas dores e vaidades. Não saberão quem são eles, o que fazem, se têm família, se são bons pais. Não haverá vínculo ou sentimentos… Apenas uma sentença.

Eu sabia do plano, estudava todos os dias pra isso. A dança, os perfumes, ele. Ainda assim, havia o medo de falhar. 

— Quero que cada uma se posicione ao lado de um quadro — disse Madame. — Escolham uma para… vingar? Não! Para amar.

Nos entreolhamos, assustadas. Como escolher? Os minutos passaram até que a primeira deu um passo, escolheu Dalila, depois outra, e então outra. Olhei para cada quadro, para minhas cúmplices. Para Madame que aguardava paciente. 

Caminhei até ela — Marcela.

Naquela mesma noite foi deixado um pequeno frasco em minha penteadeira. Um líquido leitoso com um aroma inebriante. Victor estava recluso, passava horas trancado, alinhando cada detalhe do grande dia. Criando o toque final. Odiava a forma como sua ausência me afetava, odiava perceber que me via apaixonada, refém dos meus sentimentos novamente. Nossos encontros cessaram. Ocupei meus pensamentos com Marcela e a vingança.

***

O vestido era deslumbrante, o tecido branco era coberto por minúsculas pérolas e cristais que reluziam a cada movimento meu. A saia era como pétalas, as camadas sobrepostas dando maior contraste à cintura fina. Uma cor para cada uma de nós. Chegara o grande dia. Enquanto nos arrumávamos, em algum lugar eles nos aguardavam, ansiosos com a promessa de uma noite excitante e inesquecível. Reunimo-nos no salão uma última vez. Enfim Victor apareceu, buscando no ar por nossa essência. Desejei tanto que pudesse me ver. Dalila nos entregou um pequeno frasco, que guardamos em nossos decotes. 

— Vamos – ordenou Madame Laura, sem nos dar tempo de maiores despedidas. Quando tudo tivesse acabado, nos levariam para longe. Uma nova vida nos aguardava. 

Entrei na carruagem que me conduziria ao baile secreto, o peito em angústia. E se algo desse errado? e se eu não o visse novamente? Antes do cocheiro dar a ordem de partida, desci. Ele ainda estava no meio do salão como se me aguardasse, saltei em seus braços e o beijei intensamente.

— Qual a cor do seu vestido? – perguntou sem fôlego. 

— Branco.

Ele sorriu. 

— Você está perfeita. 

— Eu…

— Shss… vá, elas precisam de você.

***

Paramos em frente a um casarão, Madame desceu primeiro. Sem hesitar, passei a delicada e mortal pasta rubra nos lábios. Perfilamo-nos antes de entrar, contemplei o céu que anunciava tempestade.

O salão era ricamente decorado e iluminado. Afrescos angelicais revestiam o teto e invadiam paredes. Espelhos com molduras douradas refletiam nosso esplendor. E lá estavam eles, agrupados, curiosos. Busquei alguns olhares e não encontrei nada além de luxúria e perversão. Com exceção deles, todos os outros presentes eram mulheres, desde as que lhes serviam bebidas às que se organizavam em um canto estratégico com seus instrumentos. Cada um deles usava um lenço da cor dos nossos vestidos, designando assim os pares. Para nós, as vítimas.

— Parece que os senhores chegaram aos portões do paraíso – disse Madame. Risadas animadas ecoaram. – Mas, não se entra no céu antes do juízo final… – Ela sorriu e caminhou até o belo piano. — Esta será minha última canção.

Quando os primeiros acordes soaram e eles se colocaram em posição, meu mundo desmoronou. Aguardando-me para a reverência estava ele, o lenço branco e imaculado no terno, os cabelos alinhados – os olhos apagados. Ouvi os suspiros de descrença das minhas companheiras, um soluço também. Seria o meu? Minha vista escureceu, dei um passo para trás.

“Elas precisam de você”.

Busquei respostas nos rostos delas e encontrei mais perguntas. A canção, na sublime voz de Madame Laura, preencheu o salão. Virei-me para ela, uma solitária lágrima escapou de seus olhos que pediam perdão ao tempo que me lembravam o meu dever. Não era sobre nós, sobre mim. Era por elas, por Dalila…

Por Marcela.

Caminhei até ele, fiz a reverência. Todas me acompanharam. A dança começou.

No começo, não se permitia o toque, era um cortejo, reconhecimento. As mãos a centímetros de se tocarem. Nossos corpos circulando, os vestidos rodopiando pelo salão — hipnotizando-os. Estavam inebriados, as essências afrodisíacas deixavam-lhes alheios ao que acontecia. Não perceberam que não éramos belas e delicadas flores perfumadas e sim ervas daninhas? Serpenteando pelo chão, buscando seus corpos, prontas para lhes sufocarem? Não notaram nossos olhares de repulsa, nosso anseio para ver seus sorrisos apegarem-se para sempre? Não, eram tolos e fracos. 

Observei Madame. Ela se entregava ao canto como jamais se entregara, enquanto lágrimas chegavam a cântaros banhando seu rosto na iminência do último ato. Então, mãos trêmulas foram ao pescoço, rompendo grilhões e colares. Pérolas caíram aos seus pés. Estava livre.

Respirei fundo quando me vi nos braços de Victor novamente. Agora a dança pedia urgência, toque, calor e desespero. Veio o choro, meu coração se partia a cada lembrança nossa, desde o primeiro momento que o vi, até nossa despedida. E então congelei quando me lembrei de Marcela, do que ele fizera, não havia perdão. Nunca saberia seus motivos, ou como surgiu sua aliança improvável e insólita com Madame Laura. Compreendi, porém, que ela buscava vingança e ele — redenção. Fechei os olhos e dançamos, os dois na escuridão como naquela vez.

Os últimos acordes soaram. Selaríamos o final com um beijo. O beijo de justiça, de dor e amor — o beijo de morte. O silêncio reinou e então toquei meus lábios, que traziam a sentença, nos seus. Nossas lágrimas misturaram-se, salgando o doce veneno. 

“Obrigado’’

Aquela palavra ecoaria em meus ouvidos enquanto eu vivesse. Afastamo-nos deles, buscando nos decotes o frasco que Dalila nos entregara. Segurei com força o antídoto, um último pensamento de loucura cruzou minha mente. Olhei para minhas cúmplices, todas com lágrimas nos olhos. Bebemos.

Estava feito.

Apoio Sonoro:  (Canção de “Madame Laura”)  >> https://www.youtube.com/watch?v=Dt1jMWVvcqg

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Informação

Publicado em 1 de agosto de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 3, R3 - Série B.