EntreContos

Detox Literário.

Variante Amarela (The Yellow Kid)

 

Hoje trouxe um filhote de capivara para mamãe. Capturei-o com uma armadilha, perto do lago pantanoso ao sul da fazendinha onde vivemos. Uma região selvagem, com nuvens de mosquitos, cheia de cobras, jacarés e galhos partidos escondidos sob o lodo, aguardando um pé incauto para inoculá-lo com tétano. Felizmente, não houve incidentes; eu conheço bem a região onde cresci.

Era verão, e às duas da tarde o sol tudo crestava. Minha pele ardia, apesar da loção SPF100 que eu havia passado logo cedo. Loção de prazo há muito vencido, é claro. Só tínhamos mais três frascos no estoque e não haveria mais então. Talvez nunca mais. Não era nenhum passeio ser albino num país tropical abençoado por Deus…

Sentia um pouco de fome; tinha duas espigas de milho e umas batatas doces assadas, dentro da mochila. Saudades do meu curto tempo de fartura, das porcarias da comida industrializada, dos tempos dos salgadinhos de milho e do chocolate. Não deveria mais existir chocolate em lugar algum do mundo: derretia e estragava fácil sem refrigeração, era complicado de produzir. Não era essencial.

Ah, eu daria tudo por um bolo de brigadeiro bem molhadinho!

O filhotão guinchava na gaiola. Estava vivo, naturalmente, pois mamãe só comia carne de animais que ela abatesse. Não foi sempre assim; há quatro meses ela era só uma doce senhora de cabelos meio grisalhos, famosa pelos melhores biscoitos de polvilho de Vila Reinício. Antes do Evento das Variantes fora pesquisadora na Fiocruz e preferiria moussaka vegetariana a um belo churrasco. Fora magra e dura, alta e forte. E agora…

Contudo, a vida era mesmo assim: ela exigia e você se adaptava. Se ficasse diabético, cortaria os doces ou os dedos gangrenados anos mais tarde. Se alguém continuasse a ingerir muito sal, apesar da pressão alta, o sal por certo ajudaria na mumificação do cadáver!

Assim é a vida, assim foi, assim será.

 

***

 

Limpei os pés no capacho e destranquei a porta.

— Filho? Ai, tenho muita fome! Rápido, rápido! – ela gorgolejou de longe.

Abri a porta de seu quarto. A mãe engordara desde semana passada. Ocupava toda a cama kingsize e transbordava molemente pelas laterais. Havia um odor novo de fermentação, de abacaxi apodrecido. Ela já não mudava tão substancialmente, feito nos primeiros meses. Continuava com dois grandes tentáculos no centro do seu corpanzil que, ao invés de ventosas de polvo, eram cobertos de apêndices muito finos e minúsculos, dando-lhes a textura duma toalha macia ou do interior do estômago de um bovino. Cinco garras cônicas em suas extremidades faziam as vezes de dedos. Sua boca, que repousava dentre os tentáculos, era um poço mole e coroado de dentes triangulares serrilhados, em quatro linhas concêntricas, e a língua tripartida saía a todo momento, experimentando o ar. Seus inúmeros olhos afloravam aqui e acolá sobre a pele mostarda manchada, sem um padrão uniforme de distribuição. Eram amarelos e gentis.

— Vou me aproximar, mantenha o controle, ok? Estique os tentáculos que eu vou segurar o filhote perto da senhora. Não tente me tocar, tá? Calma, calma…

Notei lágrimas citrinas gelatinosas se formando em alguns olhos, porém eu sabia que era preciso dizer o que disse. Mês passado ela quase me quebrou o antebraço por causa de um cabrito que eu consegui roubar em Arraial Esperança.

Um tentáculo segurou as patas traseiras do animal enquanto o outro membro agarrou-o pelo pescoço. Ergueu-o acima da bocarra e subia e descia o pobre de encontro a seus dentes, como um gato que brinca com a comida. A capivarinha começou a defecar, porém ela não se importou.

— Ah, não me entenda mal, filho. EU SINTO! – sua voz soava encharcada, se isso era possível. — Eu sinto tantas coisas novas! O azedo do medo, escuto o coraçãozinho saltando, as variações de calor no infravermelho, percebo o campo bioelétrico pulsando loucamente. Isso é como o molho de um assado.

Infravermelho, bioelétrico!? Sempre uma cientista”, pensei. Seu corpo inteiro experimentava espasmos de antecipação. Os dentes finalmente alcançaram a barriga da capivara, e um vibrante ruído de sucção, conforme o sangue e carne eram brutalmente aspirados e separados dos ossos e pele, fez-se ouvir. Não era algo agradável de se testemunhar, tampouco fora uma morte rápida e indolor, mas eu havia feito o que a vida me ensinara: adaptação.

 

***

 

Puxei uma cadeira e sentei-me, à uma distância segura.

— Tem medo de mim, Floquinho? – ela perguntou.

— Sério que eu preciso pedir outra vez pra senhora não me chamar assim?

— Fausto é melhor? – ela provocou.

— Felipe, mãe! Felipe! Ninguém mais sabe do meu nome de registro! Não bastasse a senhora ter inventado esse apelido ridículo, ainda me deu o nome dum personagem dum romance que só você leu!

A conversa era velha, decerto já havíamos falado do mesmo tópico centenas de vezes. Contudo, os entrevados não têm muitas fontes de informação num mundo sem tevê, e não era fácil para ela ser criativa. Estávamos reduzidos, então, a remoer picuinhas requentadas…

— Ora, não há mais cartórios e certidões de nascimento, queridinho. Você pode usar o nome que quiser: Enzo, João Gabriel – não entendi o porquê daqueles nomes em especial. — E eu, eu só queria te preparar pro bullying que ia acontecer de qualquer forma. E daí que você é pálido, ou tem o cabelo loiro tão claro? Se eu já te chamasse de Branquinho, Floquinho de Neve… Você já ia se acostumando!

— Como se isso houvesse adiantado alguma coisa! Me chamavam na escola de Branca de Neve, Maizena… Gasparzinho! Um inferno: Maizena no colégio e Cabelinho de Milho em casa, ou Floquinho, ou…

— Você não respondeu minha pergunta.

— Qual pergunta?

— Se você tem medo de mim.

Houve um silêncio desconfortável.

— Tenho e não tenho – escondi o rosto com as mãos. — Quando a gente conversa, feito agora, vejo que você ainda é você. A doida que batizou o filho com um nome mofado e diferente, que quis me proteger, que salvou nós dois quando o mundo desceu pelo ralo das variantes. Mas quando lembro de você, sedenta de sangue, tentando roubar o cabrito dos meus braços, e eu tendo que literalmente jogar o bicho em cima de você… A porra dum frenesi alimentar, mãe, que nem piranhas e tubarões dos documentários antigos! Havia espinhos aflorando dos tentáculos, os olhos ‘tavam saltados feito limões! E se você perder o controle outra vez?

— Não vai acontecer. Foi no início, e cada dia que passa eu estou mais forte, domino mais essa mente primitiva. Antes eu estava perdida, num tipo de limbo esquisito. Como pesquisadora, eu nunca soube de nada, nada dessa nova variante. A cinza, a verde e a vermelha, todas as outras que afetaram as pessoas, eram só bestas irracionais devoradoras de gente. Talvez essa amarela necessitasse de mais tempo para emergir, dum período de latência, de incubação. Ora, se todo mundo foi exposto aos patógenos depois dos inteligentes bombardeios da força aérea durante a pandemia, então, se estamos vivos e bem depois de quinze anos, deveríamos ser naturalmente imunes à praga.

— E agora parece que não.

— Sim – ela suspirou. — Mudando de assunto, lembrei que eu precisava comentar algo contigo, algo que eu suspeitava e que confirmei ainda há pouco.

— O que é?

— Capivaras são coprófagas, sabia? Comem as próprias fezes, pois não digerem tudo na primeira vez que ingerem celulose. Acho que diferenciam as fezes com uma passagem pelo trato digestivo das outras com duas ou mais passagens pelo odor ou cor.

— Não tô entendendo nada. Mãe, você tem essa mania irritante de sacar assuntos aleatórios da cartola…

— Hoje não senti nojo algum quando a capivara defecou sobre minha boca. Pareceu-me natural, normal como beber água. Foi a segunda capivara que comi, não?

— Sim.

— Eu tenho em mim flashes, memórias e sensações dos bichos que consumi desde a metamorfose. Nada muito complexo: o gosto de capim, a delícia que é rolar na lama, ou pastar no fundo do lago… Cabrito, porco, capivara. Eu não sou só eu, não mais; sou “nós”. Nada morreu de verdade e, de alguma forma, eles vivem em mim agora.

— Mais uma de suas teorias malucas. Feito aquela, da praga das variantes ser arma de guerra biológica, que saiu do controle. Ok, digamos que você está certa. E daí?

— Daí que eu era uma cientista, Felipe. Eu quero entender essa criatura.

— Bacana, mãe, mas há urgências muito maiores pra resolver.

— Eu sei, me desculpe.

— Por exemplo, em muito breve as pessoas da vila suspeitarão da sua ausência, e vamos ter que fugir, sabe? Até fiz uns biscoitos de polvilho anteontem pra vender na vila e disfarçar, porque já estavam me cobrando. Falei que você esteve doente, mas não tem jeito! Um dia vão aparecer de surpresa ou nos espionar à distância. E não tenho a mais pálida ideia sobre como transportar você. Deve ter agora uns trezentos quilos ou mais, não passa pela porta ou janela, não há como colocá-la na carroça.

— Eu já pensei sobre isso. Longamente, na realidade.

— Sei.

— Ora, se cedo ou tarde me descobrirão de qualquer forma, se não podemos fugir juntos e como você não aceita deixar-me pra trás ou me matar, só há uma solução!

— Qual solução?

— Você fará 23 anos em duas semanas. Então, convide a vila à nossa casa pro aniversário, pra que eu possa mostrar que não sou perigosa, que posso até ser útil e, quem sabe, preservar as memórias das pessoas recém-falecidas, para não deixar suas mentes morrerem. Isso! Que posso ser um repositório de mentes se eles quiserem!

Levantei-me, contei até dez, bufei e, enfim, me controlei para não gritar: — Mas, mas… Hahahaha! Isso é uma ideia grotesca, é loucura! Aparecer de sopetão na frente dessa gente? Devorar pessoas falecidas pra preservar memórias?  SÉRIO?! Quer criar um culto maluco com um tipo de canibalismo consensual na mistura? Jamais, mas nunca mesmo vão aceitar uma coisa assim! No momento em que te verem vão atacar com todas as armas à mão, vão atear fogo à nossa casa e vão me enforcar por não te denunciar ou eliminar, feito a Lei Antivariante obriga.

— E farão o mesmo se me descobrirem de outra forma. Amadureça a ideia, Floqui… Desculpa! Fazemos assim: convide a vila, mate um porco e asse. Saia discretamente no meio da festa, suba a colina e observe tudo com binóculos. Ninguém mais faz festas, todos  se interessarão por comida de graça, parecerá que estamos esbanjando. Se não der certo, se reagirem mal quando me virem, você fugirá, salvará sua vida. Eu estou mesmo condenada, meu amor, desde o dia em que adoeci da variante.

— Mas não tem como… Não tem…

— Pense, mas pense com carinho.

 

***

 

Acabei por ceder aos apelos de mamãe. Convidei umas cinquenta pessoas da vila. Matei um porco capado ontem, cortei em pedaços e deixei em salmoura com ervas aromáticas. Degolei cinco galinhas gordas também. Fritei dez quilos de batatas em banha, cozinhei braçadas de espigas de milho. Enfim, haveria comida em fartura.

Mamãe auxiliou-me com receitas e conselhos. Ainda ajudou-me a demolir a janela de seu quarto e parte da parede do mesmo, que era voltado para os fundos da casa.  Improvisei uma cortina costurando alguns lençóis, para cobrir o vão que abrimos.

Por volta do meio-dia, as pessoas começaram a chegar. O Pastor Marcelo e suas filhas gêmeas. “Seu” Rui, o agricultor mais incansável que já conheci; um homem baixo e largo, tostado por trabalhar de sol a sol. Dona Manuela, mancando com dificuldade por só ter uma perna; a única sobrevivente conhecida do ataque das variantes vermelhas ao noroeste fluminense. Amigos de amigos, gente que eu só conhecia “de vista”.

Havia montado mesas longas erguidas sobre cavaletes e bancos compridos, visto não haver cadeiras para tanta gente. Rui trouxera um violão e estava afinando o instrumento.

— Vou buscar minha mãe. Ela tem uma surpresa; volto já! – eu disse.

Saí em direção aos fundos da casa, deixara a carroça preparada, cheia de roupas e de comida não perecível. Quando subi a colina, saquei o binóculo e observei.

Todos comiam avidamente e pareciam muito felizes e conversadores. Vi quando a cortina que improvisamos foi aberta e mamãe esgueirou-se, lentamente, em direção à multidão. Àquela distância era impossível escutá-la ou aos convidados.

A ideia que tudo talvez fosse um ardil, uma armadilha de mamãe, atraindo tolas ovelhas diretamente ao covil do lobo. Isso não deixou de me passar pela cabeça, e me dava calafrios.

Como esperado, ao a avistarem as pessoas correram em todas as direções: formigas durante uma tempestade. Mamãe erguia os tentáculos – talvez fazendo um sinal de não agressão – e falava alguma coisa. Ninguém havia alguma vez sabido duma variante falante e inteligente. Provavelmente reconheceriam suas palavras. Talvez houvesse mesmo uma chance.

E então, lentamente, ainda que a uma distância segura, os convidados retornavam e a escutavam. Não houve violência, nem da parte deles ou dela. Chamavam uns aos outros e voltavam aos poucos.

Mamãe ergueu-se, uns três metros acima do solo – não sabia que ela podia fazer algo assim – e, para minha enorme vergonha, gritou: — Volta, Floquinho!

Rindo e chorando, sem acreditar ainda, eu desci a colina. E a festa continuou, e os convidados me abraçaram, e alguns me censuraram por duvidar de suas atitudes pacíficas, de suas capacidades de lidar com o diverso. E mamãe girava no meio do quintal, os tentáculos e demais vilosidades ondulando feito água-viva a sabor das marés enquanto “Seu” Rui tocava algo alegre.

E Dona Manuela trouxe-me um bolo de brigadeiro! Ora, mas como souberam que era meu favorito? Que maravilha! Como era possível? Não havia mais chocolate no mundo, não?

E acenderam então 23 velas pequenas. Aproximei-me para apagá-las e havia algo escrito em creme branco sobre a cobertura marrom brilhante, com a caligrafia de mamãe: Fausto, ela não comeu só o cabrito naquele dia.

Ficaria lívido, se eu pudesse. Olhei os convidados, à procura de explicação. Ninguém, fora mamãe, sabia do meu nome de registro. Eu era o Felipe, porra. Felipe! Ou Floquinho, merda! Quando observei o bolo de novo, notei que era de milho, e que não havia nada escrito. Que fora talvez uma ilusão, alucinação causada pelo calor, um desejo antigo de chocolate que era, afinal, irrealizável mesmo.

Soprei as velas enquanto as pessoas cantavam e batiam palmas. “E pro Felipe nada? Tudo! Então como é que é?”.

E mamãe enrolou seus tentáculos ao redor de minha cintura – tão gentis, tão mornos e macios! E disse: — Viu, seu bobo?! Agora poderemos viver todos juntos! Pra sempre!

No entanto, algo frio, triste e terrível crescia naquele preciso instante em meu âmago, feito cancro. E essa dúvida escura, que me corroía qualquer alegria real, tomou e controlou meus pensamentos quando percebi que, de alguma forma, eu sabia também da alegria de rolar na lama, ou do pastar no fundo de um lago, ou do sabor adocicado de minha própria carne.

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Informação

Publicado em 1 de maio de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 2, Série A.