EntreContos

Detox Literário.

Zezinho (Sonhador)

Zezinho acordou com um raio de sol banhando seu rosto, empurrou o trapo que usava como coberta e de gatinhas saiu do buraco onde se escondia para dormir. Sorriu, teve sorte em encontrar aquele refúgio, debaixo de uma escada, na entrada de uma casa abandonada. O vão era bem escondido e para um morador de rua isso era muito bom. Podia dormir tranquilo, sem se preocupar. Antes daquele esconderijo, ele dormia com outras crianças e se revezavam em turnos durante a noite. Sempre tinha um que ficava vigiando enquanto os outros dormiam, porém era rara a noite que o grito de alarme não acordava a todos. Assustados corriam sem olhar para trás, fugindo de quem os atacava, geralmente pessoas maldosas que queriam bater neles, ou coisa pior.

O pequeno se esticou todo, o buraco era bom, mas muito apertado e ele precisava dormir bem encolhido lá dentro. “Hora de ver o que eu consigo pra comer hoje” pensou e saiu andando em direção às ruas com maior movimento. “Se eu tiver sorte, hoje consigo um bom sanduíche, ou um prato de arroz com feijão”. Depois de muito pedir, uma alma bondosa lhe pagou um pingado e um pão com margarina.

Agora que a fome havia sido saciada ele foi sentar no seu lugar preferido, na pracinha, em um banco que dava vista a uma escola do outro lado da rua. Ali, admirando o vai e vem das crianças e suas mães, ele sonhava… sonhava em ter uma mãe. Como seria bom ter alguém que cuidasse dele, que o mandasse tomar banho, verificasse se sua roupa estava limpa para a escola, fizesse seu lanche. Ah… o lanche que ele levaria com cuidado na lancheira. Sua mãe o elogiaria quando tirasse notas boas e o repreenderia quando relaxasse nos estudos, ela ficaria muito brava e ele adoraria ter sua atenção até nessas horas.

Os sonhos do Zezinho não ficavam só na escola, não. Ele sonhava alto! Sonhava em morar em um barraco com sua mãe, onde teria uma cama só para ele e um fogão onde ela prepararia as refeições que seriam três. Três refeições por dia, isso seria o máximo!  

Depois que o movimento da entrada dos alunos acalmou, Zezinho levantou-se, era hora de ver como estava Tom.

Tom era um menino enorme que vivia em um beco, onde esparramou várias caixas de papelão pelo lugar que fingia ser os móveis de sua casa. Por causa do seu jeito meio abobalhado, as outras crianças viviam troçando com ele e o provocavam, mesmo de longe, o dia inteiro. Elas gostavam de atiçá-lo até que ficasse bravo, correndo atrás deles na tentativa de pegá-los. Mas Zezinho nunca fazia isso, queria apenas a amizade de Tom e o visitava todos os dias. Isso foi bom para Zezinho, porque assim ninguém mexia com ele por causa do medo que tinham do tamanho do Tom.

— E aí, Tom. Conseguiu comida hoje?

— Sim, sim. Comida boa – respondeu o grandalhão. – O seu Mané lá do boteco pediu pra mim carregar umas sacas para ele e em troca me deu um prato de arroz feijão, e tinha até batata! Ele me deu também dois sacos de biscoitos e alguns pães, se você quiser, estão ali naquela caixa.

— Quero sim – disse Zezinho e já pensando em comer apenas um pãozinho, pois sabia que Tom, por causa do seu tamanho, precisava muito mais dos alimentos do que ele.

Passou a tarde conversando com Tom, quando viu que ia escurecer, despediu-se e se pôs a caminho do seu buraco para passar a noite. Mas ao chegar perto teve uma surpresa. Viu que estavam descarregando um pequeno caminhão de mudanças. E agora? Onde iria dormir? Ficou de longe observando a movimentação. Os móveis eram muito simples, nada de luxo, mas ele notou um fogão e uma geladeira, que mesmo velhos, deveriam funcionar. Prestando mais atenção, percebeu que apenas uma senhora iria morar lá, pois os homens que ali estavam eram os encarregados da mudança. Quem sabe se ele ficasse bem quieto, a mulher não percebesse nada e ele pudesse permanecer no seu refúgio!

Esperou que terminassem a mudança e que a senhora trancasse a porta da casa. Então, em silêncio e com muito cuidado, deslizou para dentro do buraco.

Acordou com um aroma de comida, um cheiro delicioso que fez seu estômago roncar de fome. Saiu rápido do buraco e foi mendigar para conseguir algo para comer. No dia seguinte aconteceu a mesma coisa. O cheiro era uma tortura, e imaginou que aquela senhora devia cozinhar muito bem. Como ele iria aguentar?

No terceiro dia o cheiro estava mais forte, o aroma impregnando todos os cantos do buraco. Desesperado, Zezinho saiu com tudo do esconderijo e esbarrou em algo que estava bem na entrada. Percebeu que era alguma coisa embrulhada em um pano de prato. Olhou para os lados e como não havia ninguém, pegou o embrulho, todo afoito. Logo, sentiu que estava quente, foi abrindo com cuidado, apesar do seu coração disparado. Será que era o que pensava? E era, sorriu, era muito mais do que imaginou: uma tigela com tampa, e dentro dela tinha arroz, feijão, farinha, salada e carne com batata. Carne com batata! Ele não se lembrava mais de quando havia comido isso. O embrulho trazia também uma colher e uma garrafinha com limonada. Zezinho não pensou duas vezes, devorou em poucos minutos toda a comida. Agradeceu em pensamento àquela senhora, já que ela não estava presente. Pegou a tigela vazia, a colher e a garrafinha, embrulhou novamente no pano de prato e colocou no degrau em frente à porta.

Aquilo virou rotina, todos os dias ele acordava com o cheiro do alimento que aquela senhora colocava na frente do seu esconderijo. Ele perdeu o medo de ser mandado embora do seu refúgio. Afinal, ela devia saber que ele dormia ali e parecia não se incomodar com isso.

Uma noite Zezinho acordou com o som de vozes vindo da escada. Com muito cuidado, esgueirou-se para fora do buraco e se escondeu atrás do muro. Viu dois malandros, conhecidos no pedaço, tentando arrombar a porta da casa. Apavorou-se, aqueles caras iam roubar as poucas coisas daquela senhora. O que ele, apenas um menino, podia fazer? Lembrou-se dos gritos de alarme que as crianças davam durante a noite. Encheu-se de coragem e gritou com toda força que seus pulmões podiam aguentar – POLÍCIA – os dois bandidos se assustaram e saíram em disparada. A senhora abriu uma das janelas a tempo de ver os sujeitos correndo rua abaixo.

Ela, a senhora, abriu a porta e o chamou.

— Ei, garoto. Venha aqui dentro.

Ele se aproximou todo cabisbaixo, entrou na casa bastante temeroso, sem saber qual seria a reação da senhora.

— Obrigada – disse ela. – Quer saber de uma coisa, eu já vinha pensando nisso há dias, e você não precisa dormir mais embaixo da escada. Pode dormir aqui dentro e será uma companhia para mim. Tenho um colchonete e a gente estica ele no chão, dará uma boa cama para você.

Zezinho não se aguentava de tanta alegria, até que se lembrou de algo importante.

— Aqueles caras podem voltar, não hoje, mas outro dia. Pelo menos eu estando no buraco posso dar o alarme.

— É, isso é mesmo um problema, uma velha e um menino são vítimas perfeitas para esses ladrõezinhos. Mas está resolvido, lá fora você não dorme mais. Temos que achar outra solução, talvez colocar umas trancas na porta, não sei… O bom seria se tivesse um homem forte aqui, isso atrapalha esses arruaceiros.

Zezinho teve uma brilhante ideia.

— Um homem eu não conheço, mas conheço o Tom e ele é bem forte. Só vai depender de quanta comida a senhora pode dar a ele.

— Comida não é nenhuma dificuldade, tenho o bastante e gosto de cozinhar. Mas me conte mais sobre esse Tom.

Eles ficaram um bom tempo conversando, comendo biscoitos e tomando leite, para a felicidade do menino. A senhora se chamava Vilma e era só no mundo, tinha herdado aquela velha casa e vivia de uma pequena aposentadoria. Zezinho ficou à vontade e contou a ela todos os seus sonhos.

Na manhã seguinte foram os dois falar com Tom, que aceitou a proposta de bom grado, ainda mais que moraria em uma casa com móveis de verdade. Passaram o dia se conhecendo, ajeitaram umas cobertas em um canto para Tom dormir, mas a senhora disse que assim que desse ela iria comprar um colchão para ele. Tom revelou-se um bom ajudante para Dona Vilma, pois tudo que era pesado ele corria para pegar e também ajudava na cozinha, cortando os legumes e lavando a louça. Os dois meninos nunca haviam comido tanto na vida, e a senhora até ficou com medo dos dois passarem mal.

Depois de alguns dias, Dona Vilma saiu sozinha e, quando voltou, trazia um grande pacote nas mãos. Eram roupas e sapatos para os dois garotos, tudo simples, mas tudo novo. Pediu que tomassem banho e se trocassem, avisando que ambos iriam sair com ela. Eles não sabiam quais eram os planos dela, mas obedeceram.

Qual não foi a surpresa de Zezinho quando ela os levou até a escola, entrou na secretaria dizendo que queria matricular os meninos. Foi um transtorno, porque os dois não possuíam documentos. A assistente social foi chamada, mas não conseguia encontrar uma solução. Até que Dona Vilma ficou impaciente com a enrolação e gritou.

— Toda criança tem o direito de estudar. Será que meus filhos não?

Os meninos se olharam assustados e surpresos: ela falou que eles eram filhos dela?

A assistente social olhou para os meninos e perguntou.

— Vocês querem Dona Vilma como mãe?

Os dois apenas balançaram a cabeça afirmando, mas abriram um sorriso tão luminoso que comoveu a mulher.

— Dona Vilma – a assistente falou se virando para a senhora. – Vamos fazer assim, vou deixar a vaga deles reservada e a senhora irá comigo pedir a guarda deles. Não se preocupe, eu vou ajudá-la a conseguir. Sei como agilizar isso.

Tanto Dona Vilma como os meninos comemoraram abraçando a assistente social.

Zezinho acordou com um raio de sol banhando seu rosto. Mas não estava no buraco, e sim deitado no seu colchão. Esticado sobre uma cadeira, encontrava-se o uniforme da escola, e bem ao lado, a mochila com o material escolar novinho. Aquele seria um grande dia: o primeiro dia de aula de José, o filho de mãe Vilma.

Sentiu o delicioso aroma do café da manhã sendo preparado. Ouviu a voz alegre do seu irmão Tomás que ajudava sua mãe. Sentou-se pensativo e muito agradecido. Tinha conseguido tudo o que tanto sonhara. Era hora agora de mudar de sonho.

Decidiu que estudaria muito e seria sempre o primeiro da classe. O orgulho de sua mãe. Sabia que seu irmão teria mais dificuldade com os estudos, mas ele o ajudaria. Venceriam juntos.

José sonhava… sonhava em se formar doutor.

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Informação

Publicado em 1 de maio de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 2, Série C3.