EntreContos

Detox Literário.

A Fábula de Todos os Tempos (Professora Isabel)

 

– Bem, a vovó irá lhes contar uma história, a última história que ouvi de meu pai, de uma lenda que ele ouviu do meu avô, e o bisavô de vocês escutou do pai dele e assim por diante, mas o que importa é que hoje essa história será de vocês, só de vocês.

Os olhinhos miúdos de Felipinho e de Aninha se iluminaram, enquanto sentados ao lado da cama miravam a avó, ansiosos por mais uma de suas historietas.

 

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Gustavo, o pai deles, ouvindo a tudo, sorriu, absorto numa alegria quase sem graça. Saiu, deixando a porta entreaberta, não antes de fotografar com os olhos aquela imagem dos pequeninos com a avó. Permaneceu do lado de fora, o dorso apoiado à superfície lisa da madeira, os ouvidos cautelosos, pois queria ouvir aquela história mais uma vez, só uma última vez.

Num vislumbre recordou-se do pai, o Sr. Salomão, que também iria querer escutar aquela voz, talvez ele estivesse escutando de algum lugar…

 

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Foi quando ela começou…

 

 – ERA UMA VEZ, há muitas eras atrás, bem antes dos dinossauros, aqueles bichos grandes – ela fez pausa para observar a reação dos netinhos – que tenho certeza que já ouviram falar, não é mesmo?…

– Sim… sim… – Eles concordaram.

 … Num tempo em que tudo era controlado por seres poderosos e mágicos – as mãos rugosas de Isabel dançavam no ar quase em câmera lenta, a voz macia e pausada de quem por anos falara a frente de uma classe continuava soando com a mesma parcimônia e intensidade de quem sempre amara o que fazia – Havia três criaturinhas que tinham o poder de manipular o Interminável, elas eram chamadas de “Os três pretéritos”.

 – Vovó, eu já vi um dissonaulo – Interrompeu, Felipinho, invertendo as letras como sempre e tirando um riso bobo da avó.

– Felipinho, se diz di-nos-sau-ro. Entendeu? – o netinho de apenas cinco anos concordou com a cabeça, ajeitou os óculos de lentes espessas, cada lente semelhante a um fundinho de uma garrafa KS transparente de refrigerante, piscou um dos olhinhos e depois continuou:

– Mas eu vi, vozinha – a cabeça, por meio de gestos, para cima e para baixo concordava consigo mesmo – vi na tevelisão.

– Te-le-vi-são, bobinho.

– Deixe a vovó contar, Lipe – Pediu Aninha, que tinha sete anos, mas também olhou ressabiada para a avó e sem poder resistir perguntou – Mas o que é o interminável, Vó Isabel?

– Boa pergunta, espertinha! – Como a adorava. Gostava ainda mais de ver naquela pequena a filha que nunca pôde ter. Como sonhou ter uma menininha, para fazer as tranças, pintar as unhas, costurar um vestido e um laço de fita, para mimar feito uma boneca – Sabe, o interminável é aquele que acaba para nós e continua para os outros, é aquilo que cada vez mais temos e cada vez menos teremos. Quando compreenderem isso saberão do que a vovó está falando – e eles, mesmo sem entender, se faziam de entendidos – Pois bem, se tivesse um gato aqui ele morderia a língua de vocês dois, seus baixinhos curiosos… Será se posso prosseguir?

– Sim, vovó, pode! – ambos concordaram.

– Os três seres eram donos de personalidades diferentes. Havia o Pretérito Perfeito que se dizia incomum, o ser ideal, em perfeito equilíbrio, acreditava que não precisava de ninguém. Também havia o Pretérito Imperfeito, esse já se achava comum demais, era triste, pensava ser aquele que não tinha nada a oferecer, um solitário e até depressivo que acreditava que sozinho não era nada. Ah, mas havia também o mais convencido de todos, aquele que julgava ser o que veio antes de qualquer outro dos dois. Sim, era o mais velho, mas também o mais vaidoso, o Pretérito Mais que Perfeito. Era assim que ele se chamava.

– Que nomes istlanhos, vovó Isa!  

– Sim, eu concordo, Lipinho, nomes estranhíssimos. Juntos eles formavam a Sociedade do Passado, três irmãos com a missão de construir e armazenar memórias. Esses seres, os Pretéritos, estavam aqui antes mesmo de existirem as leis do mundo. Quando a vida ainda se criava, as plantas ainda eram apenas sementes, os animais ainda nem eram vivos. Há muito, muito tempo mesmo, num tempo que as coisas se formavam com estalos, trovões e grandes estouros.

– Mas não foi o papai do céu que fez o mundo? – Questionou, Aninha.

– Sim, querida, dizem que sim. Mas ele fez o mundo que conhecemos, não o que ele conheceu antes desse, pois este foi criação do Interminável.

– Ohh… O inteminável era o papai dele, vó? – perguntou, Lipe. – A avó riu, e também tossiu, uma, duas vezes… Tomou ar, piscou os olhos, os dois ao mesmo tempo, colocou a mão sobre a boca, tossiu novamente – Ahh, vocês me tiram o ar – Coçou a garganta como pôde, engoliu seco e arranhou – Rum… Rum… – Então voltou a falar.

– Não que fosse o pai, era o que havia antes, assim como a terra que engole a sementinha, e devolve a plantinha, assim era o Interminável, e assim se formavam as coisas antes das coisas que temos hoje. Os pretéritos se alimentavam de sonhos. Eles sonhavam, sonhavam e assim viviam.

– Nossa, que legal! Eles precisavam dormir para comer? – Perguntou, Aninha

– Não, eles se alimentavam dos sonhos do amanhã, e quanto mais sonhavam mais fortes ficavam.

– Que legal, vovó – Disse, Lipe.

– Eu também acho, Felipinho. Mas sabe, certo dia, um ser muito poderoso chegou a esse mundo, e com sua chegada os Pretéritos começaram a ficar mais fracos. O nome dessa força implacável e quase invisível aos olhos nus era “Senhor Futuro”, assim era chamado o destruidor de quase tudo o que existia na sociedade do passado. Conhecido por outros por ao mesmo tempo trazer sempre algo novo, como se cada coisa que ele levasse criasse outra nova.

– Nossa, Vó. Como ele era? – Aninha perguntou mostrando os pequenos fios de metal entre os dentes, enquanto os olhos de Lipe permaneciam arregalados, as orelhinhas de pé como um cão de caça, atento para cada detalhe.

– Ele não aparecia na mesma forma, sabe, Aninha. Para cada um ele se fantasiava de algo diferente, sempre sedutor, calmo, tinha uma voz suave, um toque quente, afável, era doce e mortal. Era um ser hipnotizante, para alguns; assustador, para outros; um ser mágico.

– Vozinha, mas e como eles podiam vencer ele?

– Devem que tinha um helói, sua bobinha!

– Tinha, vó? – Aninha também quis saber.

– Calma, chegaremos lá. A verdade é que um a um, eles foram enfraquecidos pelo Senhor Futuro. A simples presença dele os afetava diretamente. Mas numa coisa eles estavam errados, eles se achavam fortes por se alimentar de sonhos, mas na verdade a maior força deles era outra.

– Eles vão vencer, vovó? Não quero que eles morram.

– Eu tamém não, vovó – Disse, Lipinho.

– Vencer… perder… Essa é uma história de aprendizado, meus pequeninos. O Senhor futuro não era um vilão, ele não os venceria até ter certeza de que era hora de conquista-los, pois é isso que ele fazia. Os convencia a desistir de ser eternos. Só o Interminável é eterno. Eles precisavam compreender isso para que assim pudessem descobrir como vencer o Senhor Futuro.

– Então ele não venceu os três, vovó?

– Então quem é o helói, Vovó Isa?

– O Herói? – Tosse – Pegue um copo de água para mim, Aninha, por favor, a vovó está com sede – Isabel lembrou naquele momento de como conheceu aquela história. Recordou-se do clima frio daquele inverno peculiar, do sorriso quase morno de seu pai, da mãe lhe abraçando com ternura incontida, lembrou-se da sensação de paz. Os olhos arderam numa vontade de derramar lágrimas. Segurou-se como pôde.

– Claro, vovó.

– O que aconteceu é que eles estavam tão exaustos, cansados de tanto lutar contra o poderoso Senhor Futuro, que se aproximava cada vez mais. Lutavam sozinhos: O Perfeito achando que poderia vencer sem ajuda. O Mais que Perfeito achava que lutar contra o futuro não era necessário, pois ele já tinha convicção de que era mais forte e perfeito que seu inimigo e a luta não provaria nada. Já o Imperfeito acreditava que nenhum deles iria ajuda-lo e como ele poderia ajudar eles sendo alguém tão comum e fraco?  Assim eles foram caindo um a um, perdendo seus poderes e deixando de ter sonhos, se enfraquecendo. Vivendo apenas de passado foram adoecendo.

– Que triste, vovó – Aninha exclamou.

– Mas, calma, querida. Havia uma forma de vencerem e o imperfeito, por ser aquele que tinha mais medo, também era o único que sabia que seria juntando suas memórias e formando um único ser, tão poderoso quanto o futuro que teriam a chance de vencer.

– Vocês não podem me vencer – o Futuro disse, pronto para acabar com os pretéritos de uma vez por todas.

– Foi então que o os três deram as mãos, e de frente ao Senhor Futuro, quase no fim, uniram o poder do coração dos três. O tempo parou por um mero instante e um raio de luz brilhou com intensidade irreconhecível para todos que ali estavam. Isso ocorreu exatamente às 0hs:00min daquele dia, quando os três ponteiros se alinharam e o Presente nasceu, o único com poder sobre o tempo. Aquele que conhecia o passado, seja ele quem fosse, e o único que tinha o poder de fazer do Senhor Futuro um ser bom o bastante.

– Era o Super Plesente, vovó? Ele é o helói?

– Super? Não sei se ele é super, mas ele é aquele que vocês têm que abraçar quando olharem para trás e se lembrarem do vovô e da vovó. Quando entenderem que lá na frente precisarão estar juntos e viver bem e ser fortes para fazer coisas boas – Ela parecia estar cansada –  me deixem orgulhosa, queridos!

– Vovó, ele pode ser o Incrível Presente? Tipo em Os Incríveis.

– Ele pode ser o que vocês quiserem, Aninha – Ela disse, quando a voz quase não saiu.

 Gustavo entrou no quarto hospitalar, a mãe estava na cama, cansada demais. O Senhor futuro estava ali, bem perto. Ela se unira aos dois pequenos, eram o presente, estavam juntos. Gustavo desejava que o pai estivesse ali também, queria ser mais forte, mais perfeito, muito mais que perfeito.

– Crianças, está na hora de deixarem a vovó descansar.

– Papai, a vovó nos contou uma história tão legal!

– É papai, do Inclível Plesente – Ele confirmava.

Gustavo olhou para Dona Isabel, uma professora que amara seu filho, sua profissão, seus netos e que agora precisava descansar. Caminhou até a mãe, segurou-lhe a mão, beijou-lhe a face e disse:

– Você é tão perfeita, mamãe!

– E você, meu filho, é muito mais que perfeito – Os olhos dela piscaram, uma, duas vezes… E assim ela adormeceu.

Fim.

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Informação

Publicado em 1 de maio de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 2, Série C - Final, Série C1.