EntreContos

Detox Literário.

A Jornada de um Pequeno Herói (Beatriz)

Edgar levantou cedo, os três pães amanhecidos em cima da mesa eram para alimentar sua mãe e as duas irmãzinhas gêmeas, Ana e Flávia. As meninas tinham cinco anos, ele quatorze.  

Seu finado pai deixara-lhe uma lembrança de aprendizado sobre o que ele não queria se tornar na vida. O homem ficara muitos meses deitado sobre um colchão velho, sofrendo de cirrose hepática, causada pelo consumo excessivo de bebidas alcoólicas.

Antes de morrer, seu pai destruiu o orçamento familiar, isso significa, que ele quase prejudicou a felicidade das pessoas que o amavam, porém, os traumas emocionais e psicológicos não destruíram a autoestima de Edgar, que superou os problemas com muito esforço, trabalho e alegria de viver.

O que Edgar amava acima de tudo era preservar a natureza, algo que ninguém o ensinara, sendo assim, antes de amanhecer o dia, saiu sem fazer barulho, com o estômago doendo de fome e puxando um carrinho de mão, feito com a sucata de uma antiga geladeira metálica.  

Na rua Da Consolação, cruzou com um grupo de garotos que ia ao colégio:

— Olá! O que é que você leva aí, lixeiro? — foi ridicularizado pelos estudantes, não ficou avariado mentalmente ou com raiva, parou, olhou, encarou os garotos e os deixou seguir sem dizer nada.

Edgar acostumara-se a ver pessoas debochando de seu trabalho, de sua vida trágica e de coisas que deveriam ter compaixão, mesmo assim, seguiu em frente, de cabeça erguida, e parou na casa da primeira colaboradora.

— Oi, dona Maria, tudo bom! Guardou minha sucata?

— Bom dia, Edgar! Fiz do jeito que você explicou, separei os recicláveis do lixo orgânico, aqui estão.

— Obrigado! Ainda bem que a senhora é consciente.

— Menino, seu trabalho é lindo, visa a preservação ambiental, gera capital natural e equidade. Saiba que o mundo precisa de mais jovens como você.

— Ah! Muito obrigado pelo carinho, ganho a vida fazendo o que gosto.

A senhora e o menino tornaram-se amigos, ela lhe dava conselhos relacionados à vida, família e importância dos estudos.

Despediram-se e ele afastou-se da casa, cujas as rachaduras e fissuras do reboco verde-esbranquiçado estavam à mostra e, ao longe, acenou, então a dona Maria entrou, trancando o portão.

Após vinte minutos empurrando o carrinho pelas ruas esburacadas da cidade barulhenta, parou na porta do varejão.  

— Bom dia, senhor José, sobrou sucata de papelão? — falou Edgar, expressando fome na face.

— Bom dia, Edgar! Sim, sobrou, mas, antes de pegar a sucata, entre na loja e coma algumas frutas.

E ele foi direto à banca das bananas, comeu duas, depois perguntou ao senhor José se poderia pegar uma mexerica e, tendo sim como resposta, começou a degustar de olhos fechados a deliciosa fruta, gomo por gomo, sentindo o sumo cítrico fazer salivar sua boca.  

Após a refeição, o viço no rosto de Edgar apareceu junto com um sorriso de agradecimento para o senhor José, a seguir, saiu carregando no ombro um fardo de papelão, jogou dentro do carrinho e partiu em direção aos outros comércios, construções e pequenas fábricas.

Ao terminar as coletas, Edgar foi vender a sucata no depósito de recicláveis São Jorge, e o proprietário o aguardava com alegria.

— Ah! Meu grande jovem!  — exclamou o velho sucateiro. — Como vai a mamãe? O que há de novo?

— Bom dia, senhor Jorge, mamãe está bem. Sabe o que há de novo? Fiz um mapa com o nome de todos os meus clientes, dessa forma, eles poderão juntar mais sucatas para mim, sendo que passarei a intercalar as coletas, aumentando minha clientela.

— Boa ideia, meu jovem, coloque a sucata na balança para pesar.

Obedecendo ao comando do senhor Jorge, Edgar pesou e recebeu uma pequena quantia em dinheiro, voltou ao varejão e comprou uma sacola de legumes, meia dúzia de ovos e uma caixa de morangos fresquinhos para suas irmãs.

Chegou a casa e, como de costume, não tinha almoço, sua mãe estava trabalhando e as gêmeas na creche, tomou banho rapidamente, colocou o uniforme impecável, saiu e passou na casa de Alex, juntos foram almoçar na escola.

Chegaram ao refeitório, cada um pegou um prato, era dia de carne de panela, arroz e feijão.  Comeram tudo, infelizmente não podia repetir, Alex ainda estava com fome, sendo assim, foi lá no pátio e pediu a Bia, que não almoçava na escola, para que pegasse mais um prato para ele. Foi o que Bia fez, pegou e entregou o prato cheio na mão dele, que, depois de saciado, pulou o muro da escola, cabulando a aula, e foi jogar futebol no campinho improvisado na beira do rio.

 

Edgar entrou na sala, e, enquanto a turma fazia bagunça, ele limpou a sua carteira, tirou o livro Don Casmurro da mochila e começou a ler na página marcada, Bia o interrompeu, dizendo que amava Machado de Assis, ele acenou com a cabeça, dizendo que também amava, e continuou lendo.

 

Bia era uma menina encantadora, cuidava da avó e repartia as tarefas domésticas com seus pais. Desde muito pequena, preocupava-se em ajudar a todos. Seus pais, extrovertidos, orgulhavam-se do jeito afetuoso da filha, que para tudo pedia permissão.

Estudavam em um colégio municipal, onde a maioria das crianças não acompanhava as aulas, mas Edgar e Bia eram excelentes alunos e não faziam parte da triste estatística daquela escola.

À tarde, Bia e Edgar saíram do colégio e foram caminhando juntos em direção de suas casas, riam de tudo, tinham uma espécie de distração inocente, inventavam que os hipopótamos voavam, que as cobras falavam e até pulavam corda sem corda.

E mais uma vez encontraram os mesmos garotos que debocharam de Edgar naquela manhã. No entanto, a turma da tarde era maior e alguns garotos aparentavam embriaguez, fumavam e bebiam. Um deles pegou um saco de lixo e rasgou, espalhando os resíduos no chão, mandou Edgar pegar em tom de deboche, em seguida, fez um comentário maldoso direcionado a Bia, Edgar não resistiu ao ouvir a amiga ser destratada na sua frente e retrucou, então, os jovens, atormentados pela vaidade e bebida, chutaram e bateram em Edgar perto de Bia, que gritava desesperada por socorro.  Eles socaram tanto o corpo de Edgar, que ele desmaiou, depois saíram correndo. Edgar foi levado desacordado para o hospital, chegando lá, os médicos não constataram fratura, mas o corpo estava cheio de hematomas.

Após três horas em observação, foi liberado pelo médico. Ao chegar a casa, ficou surpreso com a quantidade de amigos que o esperavam, o dono do varejão mandou frutas, verduras e mantimentos, o dono do depósito de sucata doou uma generosa quantia para a mãe de Edgar manter a casa enquanto o filho se recuperava. Bia não saiu de perto do amigo, juntos continuavam rindo dos hipopótamos voadores, das cobras falantes e dos dinossauros saltitantes.

Já os garotos agressores foram flagrados por uma câmera da polícia que monitorava o bairro, os maiores de dezesseis anos ficaram detidos, os menores foram liberados com a presença dos pais, todos foram impedidos de se aproximar de Edgar pelo delegado.

Edgar não poderia trabalhar na manhã seguinte e, mesmo com todos os desacertos do dia, manteve a alegria.  

Bia perguntou a ele o porquê de algumas pessoas recriminarem gente humilde e trabalhadora.

— Por sentirem-se superiores, intolerância às pessoas diferentes, ignorância, preconceito, prepotência.  Mas, Bia, não se importe com o olhar da indiferença, com as críticas inúteis das pessoas desestruturadas, em vez disso, feche os olhos e sinta o luar e as estrelas, veja as borboletas brilhantes, ouça as rosas cantantes e dê risadas. Seja forte, corajosa, determinada e feliz.  

Edgar estava cansado, pegou no sono enquanto falava com Bia.

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Informação

Publicado em 1 de maio de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 2, Série B.