EntreContos

Detox Literário.

A Donzela, o Jegue Encantado e um Príncipe Inglês (Manduca)

Era uma vez… A história de uma menina. Uma menina quase moça que já pensava em namorar. Porque lá pelas bandas do agreste/sertão nordestino é assim:

“Mandacaru quando fulora na seca é sinal de que a chuva chegou ao sertão, e menina moça quando enjoa da boneca é sinal de que o amor chegou ao coração. Então ela só quer, só pensa em namorar. Não usa mais meia comprida, não quer mais usar sapato baixo, só quer vestido bem cintado, não quer mais vestir timão”.¹

Quer logo entrar na moda. Só vestidinho de chita cheio de florzinha e para o pescoço, trancelim e perfume de água de cheiro.

O pai desconfiado levou a menina ao doutor. O doutor mexeu, cutucou, depois de examiná-la todinha chamou o pai de lado e disse: não se apoquente, mas o caso é sério… Essa menina precisa se casar, mas tem um jeito: arrume um jegue pra ela se distrair, pra ela passear, que ela tira essa peitica de pensar em namorar.

— Mas eu num posso… Sou um homem pobre não tenho como sustentar tal luxo.

— Pois então arrume outro jeito dessa menina se curar, se não o único remédio é se casar.

O pai saiu todo macambúzio, ressabiado das idéias e, puxando a menina, arrastando-a para os lados deu-lhe um repelão:

— Trate de arrumar um jegue pra você se distrair dessas ideias malignas de namorar, está me ouvindo Solange! Jegue é bicho que não falta nesse lugar… E eu não posso comprar.          

— Deixe está meu pai, não se avexe. Eu só tô precisando desarná² essa coisa de namorar, pois não sei que coisa é essa que vive a me incomodar. É tanto comichão que faz arrepiar…

— Vá, vá pra casa… Eu não posso te acompanhar, preciso trabalhar.

Então se foram; o pai por um lado e a menina por outro. A caminho de casa ao passar pela beira do rio, entre as moitas de mato, ouviu de repente um:

— Ei, psiu!…

Solange parou, olhou em volta e nada viu. – assustada perguntou:

— Quem é?…

— Sou eu…

Mais assustada ainda, voltou a caminhar. Parou, escutou, escutou… E de novo perguntou:

— Eu quem?…

— Eu, o jegue encantado!…

— Jegue encantado!… Que bicho é esse?… Eu já ouvi falar de serpente e sapo encantado, mas jegue nunca ouvi.

— Pois é, comigo deu errado. A bruxa era míope me confundiu com um sapo.

Então o jegue deu um pulo de detrás da moita, bem na frente da menina, que tomou um susto danado. Mas o olhar do jegue era tão triste, tão meigo, tão pidão… E a menina tão boa, tão alesada, se curvou para ouvi-lo.

Então o jegue contou que era na verdade um príncipe encantado, mas amaldiçoado. Fora transformado em jegue por uma bruxa malvada e vingativa com poderes mágicos, e que fazia qualquer coisa virar qualquer coisa. E só se transformaria de novo em príncipe se uma donzela boa e bonita o beijasse. A menina acreditou e logo beijou o jegue, mas em vez de príncipe o jegue virou sapo. – indignada, Solange gritou:

— Você me enganou! Você não é príncipe coisa nenhuma!…

— É que você não beijou de verdade, você deu só um cheiro! Devia ser um… Sabe como que é né…

— Ah!… Vá se catar… Vá lamber sabão!… – e foi embora, deixando o sapo pulando feito besta pela beira do rio.

Tempos depois andando pelo mesmo caminho, pela beira do mesmo rio, Solange escuta outro:

— Psiu!… Olá, como vai a senhorita!… Como vai a formosa donzela?… Que bons ventos a trás a beira desse belo rio?…

Solange temendo e esquecida do caso do jegue julgou ser um dos salteadores da região, que viviam a assaltar a população do sertão, mas logo descobriu ser a mesma voz do “psiu” do jegue, então se aproximou bem devagarzinho tentando ouvi-lo de novo.

E contou a mesma história: que era um príncipe transformado em jegue por uma bruxa malvada e vingativa com poderes mágicos, que fazia qualquer coisa virar  qualquer coisa e que só se transformaria de novo em príncipe se fosse beijado com um beijo caprichado por uma donzela e etc. e tal. A Solange concordou, mas com uma condição:

— Não me enrole com essa história de príncipe se quer me conquistar cative-me. Assim como disse a raposa para o Pequeno Príncipe: “A gente só dar valor as coisas que se cativa.” – disse Solange, soberba, esbanjando sabedoria para provar que entendia de príncipe. Pois acabara de ouvir, pela televisão, uma miss contar a história de um príncipe pequeno. – e acrescentou: As pessoas hoje em dia não querem mais perder tempo em conquistar as pessoas. Querem fazer amigo da mesma forma como se estivesse comprando uma mercadoria na feira. Mas amigo de verdade não se compra, se conquista com afeto. É por isso que a gente hoje em dia vivemos tão só. Por isso meu caro príncipe jegue se queres uma amiga de verdade me seduza!

— Que é preciso fazer? – perguntou o jegue principezinho.

É preciso se aproximar com calma, suave. Primeiro sentas um pouco afastado de mim. Então eu te olharei com um olhar de afeto e tu não dirás nada. Depois você senta mais pertinho, e eu continuo sem dizer nada… E assim vais se achegando. Os corpos se falam por si, sabia?… No outro dia sentas mais pertinho. E a cada dia te sentirás mais perto… Este é o meu segredo… – e finalizou empolada – É muito simples, as pessoas só se veem bem com o coração. O essencial não é visível pelos os olhos.

— Está bem, vou fazer como me pedes! Mas me beija logo, que já tô ficando aperreado.

— Tudo bem, mais com uma condição, beijo de língua não!…

— Tá bom, vá lá!… Nos beiços.  Vamos ver o que acontece.

Tac, stac! A Solange tacou-lhe o beijo nos beiços.

Vruuu!… Vupt!… – O jegue virou um calango de sete cores. E sem dá satisfação, de tão indignado que ficou, saiu pulando por entre as moitas de amoreiras, gritando:

— Bom dia sol! Bom dia flores! Bom dia todas às cores!… Diabo de moça mais besta, sô! Vai morrer e não sabe o que é um beijo de verdade

A nova aparição do jegue aconteceu três anos depois, A Solange caminhava tranquilamente pela beira do mesmo rio, pensando feliz da vida em seu primeiro emprego como pau-de-virar-tripa de porco no mercado municipal da cidade quando ouviu outro:

— Ei, Psiu!…       

— Quem é?…

— Sou eu sua idiota!… Não reconhece minha voz não!

— O que é que você quer?… Não me venha de novo com aquela conversa de miolo de pote!

— Beijo, beijo!… Eu quero beijo… Enquanto eu não virar príncipe de novo eu não sossego. – e contou a mesma história: bruxa malvada, vingativa, com poderes mágicos, donzela. Que fazia qualquer coisa virar qualquer coisa, e tal.

Solange comovida, mais uma vez beijou-o, dessa vez na testa. Que o fez transformar-se num príncipe, mas um príncipe tão feio, tão horrendo que mais parecia Quasímodo, o Corcunda de Notre Dame. Solange protestou, pois esperava um príncipe mais bonito. O príncipe fez pouco do seu desdém, dizendo:

— Ué, pra quem vive beijando jegue!

— Deixe de falação e me diga uma coisa que nunca tive a curiosidade de perguntar…  Tu tens nome de príncipe ou de jegue?

— Meu nome é meio de príncipe e meio de jegue…

— Como assim?…

— Meu nome é Flor de Pêssego. Porque, segundo minha mãe, a Rainha Magalina, quando eu nasci parecia a flor de um pêssego. Mas quando a bruxa me transformou em jegue, aproveitou o gancho, e me botou o nome do Cavalo Alado Pégasso, da Mitologia Grego-Romana, que também tinha alguma coisa de bruxo, pois é sabido que Pégasso deu um violento coice numa montanha, e onde bateu seus cascos nasceu uma fonte de águas cristalinas. Em seguida transformou-se numa constelação que vive lá no céu infinito, no espaço sideral.

— Que lindo!… Que coisa mais comovente, mas vê se da próxima vez fica mais bonitinho. – e saiu correndo desembestada pela pradaria de lajedos.

Anos depois, a história é a mesma, mas a Solange agora é uma jovem mulher que passeia as margens do Rio Tietê, já em São Paulo, e empregada como gondoleira do Supermercado Barateiro, quando escuta outro “Psiu”, vindo de detrás da pilastra da ponte da Freguesia do Ó. Dessa vez ficou entusiasmada, mas sem demonstrar exaltação, apenas surpresa:

— Você de novo!

— Pois é não tenho achado coisa melhor. – e contou a mesma história:

Jegue, bruxa com poderes mágicos, etc. e tal. Antes que ele continuasse com a lenga-lenga, Solange foi logo dizendo:

— Mas precisa ser donzela?

Não. Não precisava. – disse o jegue com firmeza. – Os tempos são outros…  Sabe como é hoje vivemos tempos modernos.

Entretanto, o beijo não serviu pra nada. O jegue ficou como estava não mudou em nada. Solange ficou amargurada. E disse melancólica:

— Sabe Flor de Pêssego, queria muito que você me conquistasse de verdade, mas você só trapaceia com essa mania de beijo!

— Ora, não fique assim, venha cá, sente-se aqui perto de mim, depois mais pertinho do jeito que você me disse, lembra?… Venha que eu vou tentar te cativar, mas você vai ter que me beijar pra valer, sem pudor!…

— Não, agora não, eu vou pensar. Da próxima vez que você aparecer, quem sabe! – e se foi embora.

Anos depois, Solange, agora passeando num Shopping. De trás de um carrinho de pipoca, escuta o mesmo ‘Psiu’, a mesma história: bruxa vingativa, poderes mágicos, que fazia qualquer coisa virar qualquer coisa, com a diferença que não precisava mais ser donzela.

— Olhe aqui você está me cansando com essa história, alguma coisa você aprontou. – disse Solange já abufelada (4) da vida.

E deu um chute no jegue. E procurou esquecer aquele relacionamento que a perseguia desde a adolescência, e que nada de concreto se realizava. Ela que tanto esperava um príncipe na vida, já estava dando por perdido todo aquele tempo de embromação daquele jegue mentiroso.

Tempos depois, já com uma consciência feminista; casamento já não tinha tanta importância. Enquanto tomava umas cervejas na calçada de um boteco com umas amigas, indo ao banheiro ouviu outro “Psiu” por trás do espelho. Era Flor de Pêssego. Que conta a mesma lenga-lenga. A história da bruxa vingativa, e acrescenta:

— Um beijo, só mais um beijo e farei de ti a mulher mais feliz do mundo. Serás a mulher de um príncipe!

— Ah, meu amigo, príncipe hoje em dia já não vale muita coisa mais não. Mas pensando melhor… Eu acho que dá pra ganhar um dinheiro com você, nem sei por que não pensei nisso antes… Olha só, um jegue que fala! Você faz ideia do quanto eu posso ganhar com um jegue falante, te apresentando em programas como “Se Vira nos Trinta”, em circo, em eventos empresarias, em festas de aniversário de criança, hem!…

— Não. Não faça isso pelo amor de deus!… No Faustão não! Mande-me para as profundezas do Inferno. Eu juro! Eu sou um príncipe, acredite! Você só tem que perder esse pudor de roça e me beijar na boca. Eu te imploro, pela última vez. Eu te namoro, eu caso com você, faço qualquer coisa, mas para o Faustão não!  

Mais uma vez comovida com aquela ladainha, aquela súplica do jegue. E vai que ele seja um príncipe mesmo. Solange não pensou duas vezes, fechou os olhos e tacou um beijo do tipo saca-rolha na bocarra do jegue. Chupou tanto a manga que engoliu o caroço. Em seguida, o que se viu foi uma explosão e uma luz brilhante, assim como um trovão e um relâmpago rasgando os céus em dia de tempestade. E num estalo, numa fumaça mágica salta a sua frente aquele principizão lindo, maravilhoso! Coberto de areia prateada e lantejoulas, montado num belo cavalo branco e espada na mão. Solange de tanta emoção e extasiada caiu fulminada, parecia que não ia acordar nunca mais.

O príncipe por sua vez, logo que se viu gente saiu à galope em grande disparada .

Hoje o que se sabe do príncipe é que virou cantor sertanejo. Da Solange: Que vai a todos os Shows de artistas country na esperança de encontrá-lo. Ver se ele não quer discutir a relação. Mas como os artistas já conheciam a fama da dita maluca, deixam avisados à segurança de que era para barrar qualquer branquinha contando uma história de que desencantou um jegue que virou príncipe e faz qualquer coisa virar qualquer coisa, era para chamar o pessoal do manicômio.

Mas aquela menina é uma destemida, mesmo depois de todos os despropósitos por que passou, continua obstinada. Viveu um tempo pendurada no celular, telefonando para todos os telefones da lista na tentativa de encontrar aquele príncipe/jegue cabra safado, que a usou despudoradamente… Desgraçado.

Desgostosa da vida, e agora acreditando que, de fato, príncipe existe sim senhor! E aproveitando de sua experiência como viradoura de tripas, fez das suas próprias tripas coração. Comprou uma passagem de avião, – só ida – para Londres, em 48 suaves prestações.

Lá chegado foi passear as margens do Tâmisa e logo avistou um príncipe. – desta vez foi ela quem tomou a iniciativa – Escondeu-se atrás de um quiosque e mandou ver um forte: “Ei, psiu!…”

— Who, me?

— Sim você mesmo, o senhor não é um príncipe?

— Yes I am!

— Então, quer casar comigo?  

Casaram-se.

Têm três filhos londrinozinho: Charles, Willians e Phillip. Três principezinhos. Para não perder a mania de passear a beira de rios, e manter as boas lembranças, (ela) vivem a passear as margens do Tâmisa. Principalmente quando o verão inglês cai num domingo.

           …E foram felizes para sempre!

 

Moral da história: não tem.

 

Apenas que cada um tire as suas próprias conclusões: é verdade ou mentira que príncipes existem?                                                                                                          

 

1) Trecho da música, Xote das Meninas, de Zé Dantas e Luiz Gonzaga

2) No nordeste significa: aprender, praticar, treinar; exercitar.

3) No nordeste significa: irritado; fora de si; perdendo a paciência.

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Informação

Publicado em 1 de maio de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 2, Série B.