EntreContos

Detox Literário.

Herdeiros da Vingança (Keiko)

 

No final da trilha coberta pela neve, surgiu o vulto de um samurai.

Em seus postos no alto da torre de vigia, soldados se alvoroçaram, sentiram as entranhas se contraírem, a respiração fraquejar em baforadas entrecortadas de vapor; contemplaram, sufocados pelo mais primordial de todos os medos, seus pesadelos de infância ganhando contornos e cores cada vez mais definidas, concretizando-se na figura do inimigo solitário avançando pela estrada em sua armadura vermelha – belo, tétrico e inexorável como o magma que, sem pressa, abre caminho entre os gelos das montanhas.

— Honorável Yagyu Yamazaki, suserano da cidade vermelha de Owari, é uma grande honra recebê-lo em Sunagawa. Nosso honorável suserano Katsuo Kojiro o aguarda no castelo dourado – o general de Sunagawa recebeu o visitante.

Yagyu Yamazaki escutou as palavras do general, com a mesma atenção que concederia a um inseto. Sob mira de flechas trêmulas e olhares amedrontados, seguiu sua caminhada cidade inimiga adentro, com a altivez do dragão que voa entre andorinhas. Nos postos de batalha, os soldados observavam o samurai vermelho com admiração quase reverencial. “Sua armadura é mesmo feita com as cascas de Wakunochi-no-kami? Será possível perfurá-la?”, “aquela é mesmo Kusanagi-no-Tsurugi, a espada que colhe as nuvens do céu? Haverá esperança contra ela?” – na privacidade inescrutável de suas mentes, os guardas de Sunagawa perguntavam-se essas e outras coisas, variações da questão derradeira: “aquele é um inimigo que pode ser derrotado?”. Em seus corações, o vento frio do inverno soprava a resposta, tão terrível quanto verdadeira: “não!”.

Dentro do castelo, Katsuo Kojiro aguardava. Seu semblante permanecia sereno, embora, no íntimo, soubesse que o encontro prestes a ocorrer não terminaria sem prejuízos. O que lhe restava era pensar numa solução para reduzir as perdas e derramar o menos sangue possível. Acompanhado por duas vassalas de rostos brancos e pezinhos entamancados de passadas curtas e ligeiras, Yagyu Yamazaki entrou na sala. Sem disposição para cerimônias, sentou-se frente a frente com Katsuo e, ato contínuo, tirou o elmo vermelho e pousou-o no chão. Katsuo Kojiro cumprimentou-o com uma inclinação de cabeça quase imperceptível e, na falta de estratégia melhor, decidiu iniciar a conversa simplesmente relatando a verdade:

— Ele veio há uma semana. Não vestia a armadura vermelha de Owari, não portava brasões, não trazia vassalos… não trazia nada além das roupas do corpo e um enorme tonel de saquê amarrado às costas. Causou muitos problemas, matou fazendeiros, violentou mulheres. Um garoto conseguiu escapar, pulou no rio que era mais gelo do que água e nadou feito um kappa até chegar, já quase sem calor no corpo, ao assentamento militar da região. Ele seguiu o garoto. Havia duzentos soldados ali. Duzentos. Cento e cinquenta e nove foram assassinados antes que ele sucumbisse às nossas flechas e lâminas. Quinze morreram depois, e o garoto também morreu. Uma grande tragédia, Yamazaki. Uma grande tragédia que não foi provocada por nós.

— Eu entendo sua posição, Kojiro – disse Yagyu Yamazaki, após refletir em silêncio por alguns instantes. – E acredito em cada uma de suas palavras. Mas, da mesma forma que compreendo seus argumentos, estou certo de que você compreenderá os meus: ele era meu filho, Kojiro. Meu único filho. E nós dois sabemos que eu não posso abrir mão do meu direito de vingança.

— Sim, Yamazaki… sua perda foi grande e eu lamento muito que tenha ocorrido da forma como ocorreu – afirmou Kojiro, mantendo a diplomacia. – Como prova de minha boa vontade para com a sua busca por justiça, ofereço os soldados que sobreviveram ao episódio, para que os leve como prisioneiros e lhes dê a punição que julgar adequada.

— Soldados, Kojiro? – Yagyu deu um riso anasalado de desprezo. – Meu filho, príncipe e único herdeiro da sagrada cidade vermelha de Owari, foi morto… e você me oferece a vida de soldados como prova de boa vontade e justiça, Katsuo Kojiro?

— O que você tem em mente, Yamazaki? Diga de uma vez! – Kojiro começava a se impacientar e suar frio dentro da vestimenta dourada.

— Você tem uma filha, não tem? – Yagyu Yamazaki proferiu palavras que cortaram como a lâmina da mais afiada katana.

— O que foi que disse? – Katsuo Kojiro exaltou-se com a sugestão: – Seu filho invadiu meu território e promoveu uma matança, Yamazaki. E os soldados que o mataram nem sequer sabiam que era seu filho, eles apenas se defenderam contra um inimigo insano e cruel que lhes arrancaria a cabeça do corpo com as mãos nuas à primeira oportunidade. E agora você vem à minha cidade, entra em meu castelo, desdenha de meus esforços para manter a paz e ainda ameaça minha filha?

— A vida de uma princesa pela vida de um príncipe – disse Yamazaki, com firmeza irredutível na voz. – E depois lhe enviarei duzentos de meus soldados para suprir suas baixas militares.

— Saia da minha cidade… AGORA! – Katsuo Kojiro levantou-se, dedo em riste na direção da porta. De seus olhos e de suas mãos emanava uma luz azulada.

— Meu filho lutou contra seus homens – começou a falar Yamazaki, sem se intimidar. – Sem espada e sem armadura. Em suas veias provavelmente corria mais saquê do que sangue. Mesmo assim, venceu cento e cinquenta soldados. Quantos soldados você acha que eu, sóbrio, vestido com essa armadura e armado com essa espada – Yamazaki puxou levemente a Kusanagi-no-Tsurugi para fora da bainha, deixando à mostra um pequeno pedaço da lâmina –, conseguiria derrotar antes de morrer, Kojiro? Você tentaria me deter com sua magia fraca e destreinada?

— Até mesmo o macaco mais experiente, por descuido ou azar, pode cair da árvore, Yamazaki. Os resultados de uma batalha nunca são totalmente previsíveis. Mas, a menos que algo totalmente inesperado ocorresse, você destruiria todo meu exército – ponderou Katsuo Kojiro, recobrando a calma. – E mesmo que tentasse, eu não teria chance de detê-lo. No entanto… será que devo recordá-lo daquilo que tenho encarcerado em meus calabouços? – o rei de Sunagawa assumiu um tom de ameaça pela primeira vez na negociação.

— Katsuo, não me ofenda com perguntas tolas – respondeu Yamazaki. – Obviamente – continuou –, não me esqueci do motivo que me impediu de tomar seu reino até hoje. O mesmo motivo que impediu meu pai de fazer o mesmo antes de mim e meu avô de fazer o mesmo antes dele. Eu ponderei todas as possibilidades, todos os riscos, e fiz minha escolha. Agora você deve fazer a sua. Aguardarei aqui por uma hora. Se não me trouxer sua filha antes disso, considerarei que sua decisão foi declarar guerra.

Katsuo Kojiro percebeu que palavras seriam inúteis e resignou-se ao ouro do silêncio. Abandonou o salão, dirigindo-se aos aposentos onde a pequena Keiko dormia o sono dos inocentes. Tão frágil, tão bonita. Por baixo das pálpebras, olhos reviravam-se inquietos, reflexo de algum sonho bom onde cruzava os céus em uma nuvem voadora, ou corria ao lado de uma raposa branca que deixava pegadas de flores e esperança pelo caminho, talvez. Seria justo trocar a vida dela para evitar uma guerra? Como seria possível viver depois, com o peso dessa culpa? Como seria possível continuar sendo rei, carregando a desonra do pai que não conseguiu proteger a própria filha?

Desceu ao calabouço.

Há três séculos, as famílias Kojiro e Yamazaki lutavam por poder e território, como sempre fizeram e como sempre haveriam de fazer. Kojiros, mestres da magia. Yamazakis, guerreiros formidáveis. As batalhas tornavam-se cada vez mais sangrentas, os combatentes de ambos os lados cada vez mais cruéis. A aniquilação mútua afigurava-se como o desfecho mais provável das incessantes contendas. Até que um inimigo mais poderoso surgiu. Das mais escuras profundezas do quinto círculo do inferno, onde tengus e kijos guardam as almas amaldiçoadas e a luz da senhora Amaterasu não pode brilhar, veio um demônio atraído pelos gritos de morte e agonia. A esse demônio os soldados dos dois reinos temiam mais do que todas as coisas e a ele se referiam como “Shinigami”. Incansável, o demônio trucidava todos que, segundo o próprio, possuíam “coração impuro”, o que, com exceção às crianças, oferecia-lhe uma vasta quantidade de alvos.

Uma trégua foi declarada, planos desesperados traçados e uma aliança forjada. Após uma batalha que reverberaria por milênios em poemas e canções, o Shinigami foi derrotado e aprisionado. Em consenso, decidiram que ficaria sob custódia da família Kojiro, detentores dos feitiços necessários para mantê-lo preso, até que se descobrisse algum meio de destruí-lo ou expulsá-lo definitivamente.

O tempo passou e a paz amoleceu corações e músculos. Se havia mesmo uma magia capaz de acabar de vez com o Shinigami, nenhum descendente dos Kojiro pesquisou com afinco sobre ela. Pelo contrário, tornaram-se mais fracos e preguiçosos, geração a geração, acomodados com a garantia de terem uma arma de destruição em massa alojada em seus porões. Sabiam que do outro lado das montanhas os Yamazakis treinavam, mas julgaram que jamais ousariam atacar novamente, pois isso significaria a destruição de todos. O raciocínio funcionou com perfeição.

Até aquela noite.

Eram nessas coisas que Katsuo Kojiro pensava ao descer as escadas que conduziam ao calabouço. Em uma jaula de diamantes selada com uma corrente mágica, o Shinigami aguardava. E sorria. Por baixo do kimono real, Katsuo puxou o galho de cerejeira que sempre trazia pendurado ao pescoço. Ele emitia um brilho esverdeado, uma aura de proteção que foi sugada pelos dedos do rei. “Um foco tão frágil para um feitiço tão poderoso…”, Kojiro perdeu-se em devaneios e permitiu-se um sorriso.

— Por que hesitas, Kojiro? – o Shinigami perguntou. De sua voz, estilhaços de cristal partindo-se num universo frio e escuro, escorria uma malícia ancestral.

— Eu posso te libertar agora – disse Katsuo, o frágil graveto formando uma ponte entre as duas mãos –, se me prometer que me ajudará na guerra contra Yamazaki e depois irá embora e não voltará nunca mais.

— HAHuhAUHUahuAHUahUA – a gargalhada do Shinigami estremeceu o castelo. – Por acaso me confundes com um de teus cães de caça, Kojiro? Com um de teus soldados imprestáveis? Ah, Kojiro… eu esperava mais de você.

— Então prefere ficar preso para sempre, miserável?

— Tuas grades e feitiços não vão me segurar para sempre. A despeito de teus esforços, esse galho ainda haverá de apodrecer e se quebrar sozinho, disso tu bem sabes. E teus inimigos não terão pena de ti… disto sabes ainda melhor. Eu odeio tanto a Yamazaki quanto odeio a ti, há séculos nutro o mesmo desejo de vingança por vós.

— Desgraçado… maldito! – As mãos de Katsuo tremiam segurando o galho, enquanto o desespero da impotência escorria por sua face.

— Seus insultos são tão inúteis quanto tu, Kojiro. Aceite: tu não tens como vencer essa batalha. Soldados e reis levantam-se e caem como trigo no campo, por que te preocupas se vão morrer hoje, amanhã ou daqui dez anos? Melhor que os dois reinos sejam destruídos pelas minhas mãos do que apenas o teu pelas mãos de Yamazaki. Além disso – o Shinigami preparou a cartada final –, eu não tenho como tocar nas almas puras… a princesa estará a salvo.

Katsuo Kojiro refletiu sobre o que disse o demônio.

E tomou sua decisão.

***

— Aqui está minha filha, Yamazaki – disse Katsuo, colocando o corpo adormecido da princesa Keiko em frente ao inimigo. – Dei a ela um chá de dormir, estava assustada com a risada do maldito Shinigami.

— Melhor assim. Ela ainda é uma criança e merece morrer sem dor – Yagyu Yamazaki falou, puxando a espada da bainha.

— Yamazaki, como rei seria uma desonra implorar a um inimigo, mas, como pai… – Katsuo contemplou o corpo indefeso da filha. – Como pai eu posso me submeter a essa humilhação e implorar: poupe a vida de Keiko. Por favor.

Yagyu Yamazaki surpreendeu-se com a atitude de Kojiro. E hesitou por um instante. Então respirou fundo e, com um golpe tão rápido quanto um apagar de vela, partiu o corpo da menina em dois.

Ou pensou ter partido.

Yagyu demorou alguns segundos para perceber que não foi carne, ossos e vísceras que a lâmina da Espada Kusanagi encontrou pelo caminho. Diante de seus olhos incrédulos, o corpo da menina desvanecia numa fumaça azul, deixando em seu lugar apenas um graveto cortado ao meio.

— O que você fez, Kojiro?

— Eu fiz uma ilusão, Yamazaki. Ao menos isso ainda consigo fazer. Mas a questão principal aqui é: o que você fez ao partir esse galho de cerejeira.

— Não, você não…

Das profundezas do castelo, o rugido bestial de um demônio sedento por vingança veio como resposta. Galgando degraus com a pressa de um lobo faminto, espalhando medo e sangue pelos aposentos, rindo, matando. O Shinigami não demorou a chegar ao salão onde seus inimigos o aguardavam.

“Se for para morrer, que seja em uma luta digna”, pensou Yamazaki ao investir contra o demônio. Desferiu um golpe transversal, prontamente esquivado pelo Shinigami e, ato contínuo, saltou até quase os caibros do teto e caiu como um meteoro, segurando a Kusanagi-no-Tsurugi com as duas mãos, num golpe que mataria um dragão. Mas dragões são lentos, o Shinigami não – esquivou-se novamente, por muito pouco dessa vez. A espada cravou-se no piso de madeira e o demônio aproveitou a brecha para revidar. Com suas unhas de navalha, golpeou o flanco de Yagyu, despedaçando as cascas de Wakunochi-no-kami que reforçavam aquela parte da armadura.

— Kojiro, ele ainda está fraco… Juntos podemos vencê-lo, como fizeram nossos ancestrais – sugeriu Yagyu, partindo novamente para o ataque.

— HAHuhUAHuHAU – gargalhou o Shinigami, despedaçando mais uma parte da armadura. – Vós sois guerreiros sem honra. Não conseguem resolver nada sozinhos. Matarei a ti, Yamazaki. Depois a esse verme do Kojiro. Então vossos reinos sofrerão dias fogo.

— Faz alguma coisa, papai… – a pequena Keiko, que a tudo observava escondida, suplicou.

As mãos de Katsuo Kojiro brilharam, imbuídas de um poder mágico que ele próprio desconhecia possuir. A coragem avolumou-se no peito, o amor de Keiko o impeliu a dar o primeiro passo, o senso do dever o segundo e a honra de sua linhagem o terceiro.

— Quem vocês pensam que são para invadir meu reino dessa maneira? – disse, concentrando todo o poder e saltando para o lado, de modo a colocar os dois inimigos na mesma linha. – Eu, Katsuo Kojiro, sou o rei da cidade dourada e vou protegê-la, MALDITOS!

A rajada de energia mágica atravessou o peito desprotegido de Yagyu Yamazaki e destruiu toda a lateral do castelo. O Shinigami, no entanto, novamente se esquivou e, num átimo, apareceu na frente de Kojiro.

— O rei da cidade dourada… é mesmo um inútil HUAhuAuhAUHA – disse o demônio, cravando suas garras no peito de Katsuo.

— Papai, nããããooooo…

— Chores por teu pai, tua mãe e tuas amas, menina – debochou o Shinigami. – Tenho assuntos a tratar na cidade, mas, daqui alguns anos, quando fores maior e não tiveres o coração tão inocente, eu haverei de voltar…

O Shinigami desapareceu pelo buraco na parede do castelo e logo gritos de desespero se fizeram ouvir por toda a cidade. A princesa Keiko chorava em silêncio, ninando o corpo do pai em seu colo como se ele só estivesse dormindo. Enquanto os cristais de neve caíam sem pressa em seus cabelos, pensou nas palavras do Shinigami: “haverei de voltar”.

E em suas mãos, cintilou um brilho azulado de vingança.

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Informação

Publicado em 17 de fevereiro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 1, Série A.