EntreContos

Detox Literário.

A-Mar (Mayara Lins)

 

Contou tudo sobre o seu divórcio. Explicou com detalhes o porquê da sua decisão de deixar o marido e morar em outro país. A avó a observava com uma candura sem igual. Tomou as mãos da neta entre as suas e enxergou nos seus olhos o mar espelhar-se na própria alma.

− Marido bom é aquele que logo te promove à viúva. − Disse Vó Leopoldina, enrolando a bainha do seu vestido de chita mal cerzido.

Os olhos, entulhados de saudades, revelavam mais do que o cinza dos seus últimos anos. Era uma dessas senhorinhas que recolhem mais sorrisos do que humores ruins.

− Nossa, Vó, do jeito que a senhora fala até parece que não acredita em casamento. – Havia um tom de desapontamento na voz da jovem.

As mãos soltaram-se, os olhos não.

− Acreditar, a gente acredita até em Papai Noel, minha menina. – Rebateu Leopoldina com a segurança de quem possui uma sabedoria curtida em sal e muitos anos vividos.

− Até parece que nem foi casada por tantos anos… – Deu uma breve pausa para tomar ar e arriscou um passo mais ousado. – Depois, não pode reclamar da língua desse povo…

Dona Leopoldina sacudiu os ombros franzinos com atitude de desdém. Grande novidade falava aquela menina!

− As pessoas falam demais, muito sobre o que sabem e mais ainda sobre o que desconhecem.

Ela era uma velha conhecida de todos por ali. Conhecida sim, mas não amiga. Tornara-se uma espécie de referência local, personagem da cultura praiana, quase uma lenda. Os poucos que a conheciam desde moça, apenas lhe dirigiam cumprimentos respeitosos, afastando-se para que ela passasse.

Cláudia mal conhecera o avô. Lembrava-se de seus braços escurecidos pelo sol e a barba que raspava na pele de menina a cada beijo de chegada ou partida. Era jovem demais para gostar ou desgostar daquele personagem caricato.

Pescador com a pele cerzida em rede, com nós e pouca frouxidão, Juvenal nunca causara real simpatia. Na verdade, nem mesmo se esforçara para ganhar a amizade de alguém. Os companheiros de lida respeitavam suas ideias e sua habilidade na arte da pescaria.

− Por que não me conta, Vó?

Uma andorinha não faz verão. Quantos verões escondem um segredo?

A senhora abriu as mãos sobre o vestido, espalmando o espanto de ver chegada a hora de se entregar. Podia pressentir as correntes arrastando-a para o calabouço do próprio julgamento

− Contar o quê, menina? – Tentava ganhar tempo enquanto empilhava os blocos dos acontecimentos na mente.

Uni dunidunitê, que segredo te desvendarei?

A neta suspirou, na verdade, quase bufou de irritação. Conhecia as inúmeras artimanhas da velha senhora e sabia que ela jamais se esquecia de uma promessa ou de um erro que fosse. Era detalhista com a história da família, guardava fotos, cartas e todos os documentos que conseguira juntar com o tempo. Como se esqueceria da razão do seu isolamento na pequena vila de pescadores?

A verdade vos libertará.

De repente, sem aviso ou qualquer sobressalto, Dona Leopoldina, endireitou-se e olhou firme para a sua neta, a sua preferida, aquela que sempre conseguia lhe roubar os beijos mais doces e os segredos mais preciosos.

− Tudo que eu te contar, menina, terá de morrer em teus ouvidos. − Decretou como se fosse uma lei sobre a vida e a morte. − Nem sei mais o que é verdade ou puro engenho do diabo em minha mente. – Olhou para a neta buscando o acatamento de sua vontade. − Não te fie muito nas minhas palavras.

Cláudia descruzou as pernas, pondo os dois pés no chão. Parecia querer todo o apoio possível para manter o equilíbrio. Vó Leopoldina estava falando sério, ela sabia disso.  

− Esquecerei essa história assim que for embora daqui, Vó. – disse balançando a cabeça em contradição com o que dizia.

− Que seja assim, então, minha Cláudia. Que seja assim…

Então, D. Leo fechou os olhos, cruzou os braços, embrulhando-se em um abraço, embalando-se como um bebê. Deixou que as memórias tocassem seus lábios e as palavras deslizassem em sua língua.

− Juvenal não era um homem mau. Verdade que também não era um homem lá muito bom. Era um desses aí que circulam no mundo, arranjando antipatia a cada esquina e reagindo mal à própria falta de sentido.

Cláudia abriu ainda mais os olhos cor de folhagem orvalhada, acomodou-se na velha cadeira de vime e aguardou. Precisava de muita paciência e tato para conseguir que Dona Leopoldina abrisse de vez o seu coração. Sabia que a avó exigiria o tempo necessário para retirar do sótão da memória todos os detalhes daquela história.

− Lembro bem do dia em que nos casamos. Era uma manhã de verão, rachando de calor.

Apesar de tudo, aquele tinha sido um dia muito feliz. O começo de uma vida, com seus altos e baixos, marés generosas e ressacas ingratas. Leopoldina, ainda muito mocinha, mal saída da companhia das bonecas, viu-se completamente encantada por aquele caiçara de olhar molhado e mãos afoitas.

Os pais de Leo, tão simples como a morte, ruminaram alguma contrariedade. Se ainda fosse um moço bonito, questionou a mãe. Se ainda fosse um homem de posses, disse o pai.

O tempo não precisou se esforçar para passar e os dias se foram mais rápido do que o revoar das gaivotas no final da tarde. Logo, Juvenal cansou-se da vida nova. Não era mesmo homem de se agradar por estar casado, amarrado em qualquer rede. Preferia se dedicar mais à pesca e à bebida. Uma amante sustentava a outra. Um vício equilibrava o outro. Quando bêbado, pescava melhor, era o que diziam os companheiros de lida. E quando pescava, precisava de mais pinga para aguentar o tranco da rede e do anzol.

Leopoldina contentava-se com os peixes que recebia, limpava-os com esmero e sempre surpreendia a todos com o seu talento culinário.  Os beijos tornaram-se escassos e ainda mais desejados em sua raridade furtiva. Juvenal não era mesmo um sujeito ruim, era antes disso um homem equivocado com o seu destino.

Homens não são todos iguais. Nem mesmo diferentes. São apenas o que são.

E assim foram se passando os anos, uns mais lentos, outros muito velozes. Os primeiros foram quase tranquilos e felizes, com os filhos nascendo a cada primavera. Cada qual com um nome de santo e um destino sem trégua. Depois, vieram os anos de destrato, de pouca fala e muito tapa.  

− Acho que ele não fazia por mal, sabe? Era o jeito dele, mas doía mesmo assim.

Cláudia sentiu vontade de abraçar a avó, mas pressentiu que se o fizesse, a narrativa terminaria ali mesmo. Portanto, permitiu que o transbordamento continuasse, derrubando as barreiras erguidas com tanto esforço, durante todos aqueles anos.

− Juvenal não era homem de parar. Nem de se conformar, muito menos de mudar. Se bebesse, teria de ser pra sempre, até afundar na cachaça. Mas não era de todo mal… − repetia Leopoldina, a voz tão baixa quanto a cabeça que pendia sobre o colo.  

Uma noite, no final de mais um verão longo e arrastado, Juvenal decidiu que Leopoldina deveria seguir com ele para uma pescaria noturna. Alterado pela bebida, via na companheira uma promissora parceira de lida.

− Vamos, mulher, que o mar não espera ninguém.

Dona Leopoldina estranhou o chamado do marido. Temeu pela própria vida escapando-lhe no fundo do mar. Que diferença faria isso? Morta ou viva, nada mais sentia além daquela solidão disfarçada em miséria.

− Mas as águas não querem a gente hoje, Juvenal.

O homem tomou os ombros da pequena figura a sua frente e quase a dobrou ao meio.  

− Vamos logo, mulher! Deixa de enrolação.

Puxada pelo braço pelo marido, Leopoldina não se atreveu mais a resistir. Talvez aquela fosse mesmo a noite do resgate da sua paz. Olhou para as nuvens cada vez mais densas e pesadas, borrando o céu com o seu grafite.

Entraram os dois no velho barco, já quase sem tinta a decorar suas madeiras. Ela tremia, esquecida de que o verão ainda reinava. A embarcação rangeu em lamentos, enquanto Juvenal apressava-se em desenrolar rede e aprontar o material da pescaria.

Já afastados da costa, o casal começou a sentir os primeiros pingos de chuva. Eram poucos a princípio e apenas refrescavam a pele como beijos. Depois, avolumaram-se e formaram uma grossa cortina d’água. O moço da meteorologia estava certo, pensou Leopoldina.

A bebida e o peso da chuva arquearam o corpo de Juvenal. Ele tombou uma, duas, três vezes, até desistir de se levantar. Ficaria ali, prostrado, se não fosse a ajuda da sua doce companheira.

− Só Deus sabe a força que brota de uma mulher nessas horas, menina.

Foi o que aconteceu. Leopoldina ergueu o corpo do seu Juvenal, com todas as forças que lhe restavam no corpo desgastado pelos partos e partidas. Ele balançava-se como um boneco de pano, os ossos fazendo quinas onde nem carne mais parecia haver. Os músculos pareciam escorrer pelas dobras das roupas, o suor misturado à chuva que castigava a pequena embarcação.

Ficaram assim os dois, grudados, misturados por minutos sem fim. Até que o momento chegou. Puxou da cinta do marido a peixeira que se alargava no brilho fosco da noite. Balbuciou algumas palavras, talvez uma oração, talvez uma declaração de amor, uma fala rasgada em remorsos antecipados. Cortou, fincou até o punhal ser o único aparente sinal.  

Juvenal nem mesmo gritou, soltou um gemido e se silenciou nos braços rígidos da mulher. Seu olhar ainda penetrou nas íris esverdeadas daquela que sempre soubera ser sua.

Leopoldina não teve como suportar aquela dança e cedeu ao peso do amado carrasco. Encostou-se ao casco do barco, abraçando o marido pela última vez. Fez o sinal da cruz e esperou o fôlego voltar.

Com um só impulso, vindo de dentro, da alma, dos infernos que alimentara junto com os velhos sonhos, libertou-se e apenas assistiu o destino desgrudar suas vidas. O corpo mergulhou no mar, em solitário descompasso com a noite.

A chuva continuou a açoitar o barco, impedindo que a visão de Leopoldina alcançasse o seu passado naufragar. Quase sem se dar conta, tomou os remos e dirigiu seu destino para mais próximo da costa. Calculou sem qualquer precisão a distância que seria capaz de vencer a nado e abandonou o barco.

Leopoldina chegou encharcada e exausta à praia. Já não era sã e nem mesmo queria ser. Precisava de toda a loucura que lhe corria nas veias, em desenfreada fuga pelas sombras molhadas da noite.

Em casa, Leopoldina arrancou a roupa molhada como quem tenta se livrar de toda culpa. Tomou um banho longo, acabando por cair de joelhos ao se lembrar da chuva que cobria o mar e o corpo de Juvenal. Chorou todas as lágrimas que reservara para aquele momento e, por fim, encerrou aquela história.

Seu Juvenal partira.

Conseguiu dormir um pouco nas primeiras horas do dia, espalhando-se na cama de ripas desiguais. Ao acordar, tomou um café reforçado, abriu as janelas e apreciou o céu azul que em nada denunciava a noite de tormenta.

Gritou o nome do marido três vezes e esperou que algum vizinho lhe socorresse. Três mulheres apareceram, seguidas de dois pescadores que passavam por ali. Um pequeno grupo reuniu-se, decidido a organizar as buscas pelo velho Juvenal.

O bom tempo facilitou tudo. O mar devolveu o corpo de Juvenal à praia como uma amante cansada de seus desmandos.

Cláudia escutou as palavras daquela dolorosa confissão chorando baixinho, sem perceber que os soluços reprimidos sacudiam seu corpo esguio. Olhou para sua avó com os olhos turvos pelas lágrimas e, pela primeira vez, enxergou a verdade.

Leopoldina era uma mulher. Como ela. Como todas.

− Quando trouxeram o corpo do teu avô e o puseram ali em cima da mesa, eu entendi. Juvenal não estava morto, só dormitava suas culpas.

Outra pessoa morrera no mar.

Cláudia esperou a velha senhora mastigar suas próprias conclusões. Seus olhos fecharam-se como que entregues à maresia.

− Quem morreu ali, fui eu.

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Informação

Publicado em 20 de novembro de 2018 por em Copa Entrecontos.