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Detox Literário.

A tempestade inesperada (Daniel Reis)

Estava bem ali. No meio da tarde, deitado de costas, braços cruzados, exatamente no círculo central do campinho de várzea. Sozinho. Olhos para cima, vidrados nas nuvens, acompanhando a virada daquele tempo instável de junho. Tudo em câmera rápida, flocos de algodão-doce convertendo-se em amargos cúmulos-nimbus, cinzas espalhadas com descuido pelo céu de veludo escuro.

Levantou-se, sobressaltado, sem saber direito o que aconteceria.

Ao redor, o espaço vazio entre as quatro linhas imaginárias de jogo. Ao cruzar o que seria a pequena área, parou um instante e fez o gesto habitual de pedir proteção, ou se proteger dos céus, com uma persignação ligeira, quase se ajoelhando para arrancar mais um tufo do gramado já tão castigado pelos pés descalços de tantos outros meninos.

Era estranho. Não deveria estar na marca do pênalti. Não naquele momento.

De alguma forma, emergiam o sentimento e as histórias e as saudades e o barro ainda fresco das memórias – chuvas repentinas de sua infância, que voltavam a escorrer e a ecoar, como as trovoadas cada vez mais próximas. A tempestade inesperada chegaria em breve, com toda a fúria, sobre ele e sobre o mundo inteiro.

Calçou de qualquer jeito as chuteiras surradas e correu, o mais rápido que pôde, em direção à sua árvore predileta. Era onde estava acostumado a se esconder. Lá do alto, como torre inexpugnável, sentia-se protegido, observando os movimentos do capotão que os mais velhos dominavam em embaixadinhas certeiras, e que ele aprenderia a controlar, mais cedo ou mais tarde, praticando com bola de meia. Era também refúgio seguro dos corretivos do pai e das expectativas da mãe, peso que se tornaria cada vez maior em seus joelhos frágeis. Por eles, sabia que era preciso crescer. E, mais do que isso, tornar-se grande. Maior do que todos os outros que já haviam tentado driblar as dificuldades.

Mas não conseguiu se proteger.

Um facho de luz ofuscante atingiu o chão ao seu redor, com estrondo e violência desproporcionais, convertendo a copa exuberante de sua árvore em pedaços indistintos de carvão fumegante, galhos incandescentes e retorcidos, agitando-se em movimentos espasmódicos.

Como ele estava, naquele instante, espalhado pelo chão do quarto.

De maneira súbita e dolorosa, conseguiu sentar-se e sentir-se quase consciente, diante dos olhares preocupados do médico e de alguns dos colegas mais próximos.

Estava de volta: era mil novecentos e noventa e oito.

E, apesar de tudo, acreditou que deveria jogar assim mesmo.

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4 comentários em “A tempestade inesperada (Daniel Reis)

  1. rubemcabral
    19 de junho de 2018

    Olá, Daniel.

    Boa sacada! Muito interessante essa “teoria” sobre o mal estar do Ronaldo na Copa de 98. Muito boas as descrições tbm; do campinho, das nuvens.

    Abraços.

  2. Ricardo Gnecco Falco
    16 de junho de 2018

    Eu curti a viagem! 🙂
    Além de ter servido para aprender o significado de “persignação” (é, eu não sabia o que era…), fez-me voltar no tempo até uma das maiores interrogações (exclamativas!) da história do futebol brasileiro (pelo menos, desde que eu caminho pelas várzeas deste mundo). E olha que, neste período, eu só tinha olhos (e, digamos, ‘atenção’…) voltados para a Suzana Werner!
    Parabéns pela bela (hmmm…) lembrança despertada e por uma resposta, mesmo que pseudo-informativa, para este momento sombrio de minha/nossa História.

    Abrax,

    Paz e Bem!

  3. angst447
    15 de junho de 2018

    A copa do mundo se transformou na copa de uma árvore atingida por um raio. Afinal, que raios aconteceu com o menino? E com o Ronaldinho. Momento em que perdi o já pouco entusiasmo que tinha pelo evento futebolístico. Conto curto com ótimas imagens que fazem viajar sem o peso de uma Bagagem excedente.

  4. Gustavo Araujo
    14 de junho de 2018

    Muito boa a versão para o estranho ,mal estar que acometeu o Ronaldo lá na França. Histórias não contadas às vezes resultam em contos muito interessantes, pois permitem à imaginação viajar longe. Quem sabe não foi isso mesmo que se passou na cabeça do nosso melhor jogador na época? Ótimo conto, rápido, certeiro como um chute na veia.

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Informação

Publicado às 14 de junho de 2018 por em Copa do Mundo e marcado .